Terça-feira, Fevereiro 08, 2005
164 - NOVO ENDEREÇO EM: TEXTOS DE CONTRACAPA, 2
Por dificuldades de configuração deste template (dificuldades minhas, é evidente - quem me mandou a mim tentar mudar de template, agora, depois de velho...), estes TEXTOS DE CONTRACAPA extinguem-se com este post.
Perdi a paciência para tentar encontrar as razões pelas quais os Links, os Arquivos, etc., tudo o que deveria estar colocado na coluna da esquerda, foi parar irremediavelmente no final do blogue.
Aqueles que quiserem manter o link (e o eventual interesse na leitura) apenas terão de lhe acrescentar um "2" (www.textosdecontracapa2.blogspot.com).
Obrigado
Domingo, Dezembro 05, 2004
163 - E FICOU TUDO DITO...
"Acreditei neste homem anos a fio mas tenho de concluir que me enganei. Não tem preparação para Primeiro Ministro e não tem lealdade para os amigos. A minha vida política acaba aqui. Vou sair de todos os lugares..."
Henrique Chaves, advogado, citado pelo Expresso de 04.12., pag. 6, texto intitulado "Enganei-me com ele..."
Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
162 - ENTREVISTA SEMANÁRIO EXPRESSO
Nelson de Matos:
«Os jovens matam e comem os velhos»
Versão integral (reproduzida do Expresso Online) da entrevista concedida a José Pedro Castanheira e publicada na revista Actual de 27.11.2004.
Nelson de Matos rompe o silêncio e dá conta de uma profunda desilusão com a gerência da «sua» editora, a Dom Quixote/Grupo Planeta.
Ao fim de 23 anos como editor, Nelson de Matos saiu das Publicações Dom Quixote após um agitado contencioso que passou pelos tribunais. Com 59 anos, principal editor de literatura portuguesa, deu ao EXPRESSO a sua primeira grande entrevista depois de assumir o cargo de director da editora Âmbar - Ideias no Papel.
Nelson de Matos rompe o silêncio e dá conta de uma profunda desilusão com a gerência da «sua» editora, a Dom Quixote/Grupo Planeta.
Ao fim de 23 anos como editor, Nelson de Matos saiu das Publicações Dom Quixote após um agitado contencioso que passou pelos tribunais. Com 59 anos, principal editor de literatura portuguesa, deu ao EXPRESSO a sua primeira grande entrevista depois de assumir o cargo de director da editora Âmbar - Ideias no Papel.
Alguma vez imaginou sair assim da Dom Quixote - uma editora que foi sua e que dirigiu durante 23 anos?
O que aconteceu entre mim e a gerência da Dom Quixote acontece por aí, hoje, infelizmente, em muitas empresas. «Os jovens matam e comem os velhos», costumava dizer-me Vergilio Ferreira citando Léon Chèstov.
As empresas já não valorizam a experiência?
Tem sido um facto natural, a substituição de pessoas experientes por outras mais jovens e atrevidas. A experiência, hoje, tem pouco valor. O problema está quando isso se mistura com uma ambição irresponsável, com um oportunismo traiçoeiro, com a total inabilidade nos procedimentos, tudo debaixo da capa de um sorriso hipócrita a tentar repetir-nos em voz baixa, «vejam lá como eu sou tão boa pessoa...».
Como foi a sua relação com os gestores espanhóis?
Após a venda da totalidade do capital da Dom Quixote (minha propriedade) ao Grupo Planeta, em 1999, continuei a exercer as minhas funções com os gestores espanhóis que foram sendo nomeados. Demo-nos sempre bem. São hoje amigos com quem me correspondo regularmente. Actuávamos com a exigência dos profissionais, mas sobrou-nos sempre a delicadeza, a simpatia, a boa educação.
Até que foi nomeado um gerente português...
Ao contrário dos anteriores, este decidiu afrontar-me, desrespeitar o meu trabalho, fazer a ponte com o oportunismo e a ambição de uns quantos trabalhadores da empresa, levar-me a uma situação insustentável, chegando ao ponto de mandar colocar-me um atabalhoado processo disciplinar para me despedir com justa causa... Pelo meio, decidiu também promover o afastamento da minha mulher, que era a directora de produção da Dom Quixote desde há mais de vinte anos. Aqui, a situação cheirou-me a «outros tempos» - quando eles iam para Peniche, elas eram despedidas nas fábricas... Achei então que não havia lugar para mais diálogos nem para a mínima cordialidade.
Deixa a Dom Quixote depois de 23 anos...
Isso é hoje um passado como outro qualquer. Desceu-se baixo de mais. Não há outra coisa a fazer senão deixar de pensar nisso. Repare, nem sequer me enviam os livros que os autores lá deixam assinados para mim...
Depois de tudo isto, está arrependido de ter vendido a Dom Quixote?
Nelson de Matos (à direita) com alguns dos seus autores: Fernando Dacosta, António Lobo Antunes, João de Melo, Lídia Jorge e José Cardoso Pires (da esq. para a dir.)
Não, não estou. Ao fim de trinta anos de profissão, aprendi muito nestes cinco anos. De facto, a experiência de um grande grupo internacional é uma coisa valiosa para nós, que estamos aqui um pouco afastados de tudo o que de importante acontece na Europa.
Tudo isto começou em 1980, quando comprou a Dom Quixote. Era uma editora média, que transformou numa das maiores editoras portuguesas.
Isso é verdade. Quando tomei contacto com a Dom Quixote, após o falecimento da Snu Abcassis (que eu tive o privilégio de conhecer, que muito estimava e que sempre considerei a fundadora da empresa), era uma pequena empresa, embora muito prestigiada, com uma marca e uma imagem de trabalho de qualidade.
Quantos livros editava por ano?
Editava, sei lá!, uns 30 livros por ano.
E quando saiu?
Editei isso, ou mais do que isso, por mês.
Curiosamente, o seu primeiro livro havia sido publicado pela Dom Quixote, em 1966.
Nessa altura, era um jovem de 21 anos, com ideias de ser escritor.
Apresentei esse livro, que se chamava «Noite Recuperada», a sete ou oito editoras, que me disseram que não e recusaram o livro. Até que o apresentei à Dom Quixote e tive uma resposta positiva.
À própria Snu Abecassis?
Sim. Fui, provavelmente, o primeiro autor de ficção da Dom Quixote.
Seguiram-se mais três livros de ficção e um ensaio de crítica literária. Curiosamente, creio que todos eles estão esgotados.
Sim, não há exemplares e eu próprio não consigo comprá-los.
O editor da Dom Quixote considerou que o Nelson de Matos autor não valia a pena ser reeditado?
Sim, achou isso. Conscientemente. À excepção do livro de crítica.
Não me diga que se envergonha do que escreveu?
Não me envergonho, mas são obras nitidamente juvenis, obras de quem começa...
Há quase trinta anos que não escreve!
É verdade. É completamente impossível regressar. Ou se é escritor uma vida inteira, ou não se é escritor. Todos os verdadeiros escritores lhe dirão isto.
Está-me a dizer que o ser escritor é uma profissão?
Ser escritor é um trabalho muito meticuloso, muito difícil, que exige um exercício permanente, uma constância, uma regularidade, e eu não me dei a esse trabalho. Para se ser escritor, para se fazer literatura, é preciso um trabalho de persistência, de rigor...
Oito horas por dia?
Se não são oito, são seis; se não são seis, são quatro... Mas é preciso escrever todos os dias e de uma forma muito consciente.
Começou a sua actividade de editor em 1974, na Arcádia, que estava encostada a um grupo financeiro onde trabalhava - você era funcionário da companhia de seguros Império.
Tive, aliás, a sorte de ter um administrador nessa companhia de seguros que gostava de música e literatura, chamado Luís Barbosa, que mais tarde apareceu na política através do CDS. Um dia disse-me: «Olhe, você que tem a mania das literaturas, tome lá uma editora e vá tomar conta dela.» Despejou-me dos seguros para uma empresa acessória, que era a Arcádia. Aí começou a minha actividade futura de editor.
Qual foi o seu maior sucesso na Arcádia?
Quando eu cheguei, a Arcádia acabava de ter o seu maior sucesso. Chamava-se «Portugal e o Futuro», do general Spínola.
Foi um «best-seller»!
Fui ainda gerir os efeitos desse sucesso. Aliás, convivi ainda com o general Spínola nesse sentido, cheguei a ir a casa dele, em Massamá. Porque ele emendava e revia as provas das reedições, introduzia emendas, etc.
Nessa aventura do «Portugal e o Futuro», você foi o braço direito do editor da Arcádia...
... Paradela de Abreu, hoje já falecido. Mas convivi na Arcádia com uma pessoa muito interessante, que foi a Natália Correia, que era a directora literária. Eu estava acima dela, porque representava o accionista, mas não se pode estar acima da Natália Correia, no dia a dia. Só se podia olhar para ela com admiração.
Editaram quantos exemplares? Duzentos mil?
Já não me lembro bem, mas foi qualquer coisa parecida.
Há algum livro, desde então, em Portugal e de autor português, que tenha vendido tanto?
Creio que o Saramago pode atingir hoje esses números. Estamos a falar de anos muito distintos e de taxas de leitura felizmente bastante diferentes.
Lê-se mais agora...
Sem dúvida, sem dúvida.
Ao contrário do que por vezes se ouve dizer.
Isso porque os editores gostam de se lamentar. Logo a seguir ao general Spínola, a Arcádia editou - e aí, já sim, por meu intermédio -, pela primeira vez em Portugal, um livro de um jovem político chamado Mário Soares, e que se chamava...
... «Portugal Amordaçado».
Acompanhei desde o princípio a feitura do livro com o Dr. Mário Soares, indo a sua casa, vendo as provas, etc. Recordo-me de que ia a sua casa, no Campo Grande, ao fim da tarde. O Dr. Soares estava sentado numa poltrona, descontraidamente, e apontava-me, à sua frente, aquele pufo onde, quando estaria sozinho, ele estenderia os pés e descansava as pernas ao fim do dia... Eu sentava-me quase no meio das suas pernas, no pufo, e ficávamos ali, frente a frente... Ele hoje provavelmente nem se lembra disso, mas eu nunca mais esqueci a primeira vez que lá fui e fiquei sentado aos seus pés.
Na altura, ele era ministro dos Negócios Estrangeiros, suponho.
Talvez.
Editou Spínola, Mário Soares... Mais algumas figuras cimeiras da política?
Não. Conheci pessoalmente Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, mas nunca publiquei livros seus.
Seguiu-se a Moraes, a convite...
... do Pedro Tamen, que entretanto tinha sido convidado para a administração da Fundação Gulbenkian e que quase me passou a editora como herança.
Como é que se conheciam?
Conhecíamo-nos das letras. Eu andava próximo das pessoas dos jornais, dos poetas, dos escritores, dos editores. Era o meu mundo desse tempo.
Frequentava o Monte Carlo...
Sim, sentava-me à mesa onde se sentavam o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, para os ouvir. Assim como faziam outros jovens da minha idade - recordo-me do Nuno Júdice, do Gastão Cruz... Sentávamo-nos ali para os ouvir. Eles discutiam política, literatura, falavam de livros - livros que a gente depois ia procurar ler. Admirávamos aqueles homens e respeitávamo-los de uma maneira muito vincada.
Você iria buscar muita gente dessa tertúlia para as suas editoras.
Claro, quando cheguei à idade e à situação de poder ser eu a convidá-los e desafiá-los, foi isso que fiz. Naquela altura, havia alguns editores respeitáveis, mas havia outros que o não eram. Eu quis dar aos autores que amava e respeitava um trabalho, do lado da edição dos seus livros, que correspondesse à admiração e ao respeito que lhes tinha.
Houve algum editor que tivesse funcionado como uma espécie de modelo? Que o inspirasse?
Houve muitos homens que trabalharam na edição e que...
Quer mencionar alguns?
O Rogério de Moura, o Francisco Lyon de Castro de então, o Manuel Rodrigues de Oliveira, o Manuel Dias de Carvalho, entre outros, que tinham da sua profissão o lado da seriedade, da entrega ao trabalho do autor - porque o editor está ali para servir e dar a voz ao trabalho do autor.
Quando chegou à Moraes, em 1976, já estava em decadência.
Já, mas era uma editora extremamente simpática e que correspondia, na perfeição, àquilo que era o meu objectivo desde sempre: era uma editora de autores portugueses. Tinha uma colecção de poesia portuguesa que era assinalável: Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, o próprio Pedro Támen, António Ramos Rosa, Ruy Belo, tantos poetas importantes e que eu tive a felicidade de acompanhar. E depois teve, chamados por mim, um conjunto de outros escritores, como o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, o José Saramago e muitos outros. A Moraes foi o meu primeiro grande ensaio, valioso ensaio. É uma pena ter interrompido o seu percurso.
Tinha uma livraria simpatiquíssima...
... com um livreiro excepcional, o Edmundo, e que foi um excelente companheiro de trabalho. Era uma editora que, de facto, correspondia inteiramente àquilo que eu pensava da edição e àquilo que eu queria fazer. Foi o meu primeiro ensaio para trabalhar com autores portugueses. Desde essa altura que há uma frase que eu repito em todo o meu percurso: não faz sentido ser editor em Portugal de costas voltadas para a produção cultural nacional. Foi aí que começou a minha relação com o José Cardoso Pires, o José Gomes Ferreira, o Nuno Bragança, a Maria Velho da Costa, o Saramago, com quem tive um acidente...
Na Moraes, tinha reuniões com um administrador que andava armado...
Essa é uma história engraçada, ocorrida durante o Verão Quente. A Moraes pertencia a O Século e foi apanhada pela agitação que se verificou dentro do jornal «O Século». Como accionista da Moraes, O Século tinha direito a nomear um administrador: o sr. Pinto. Não me lembro do seu nome, era o sr. Pinto, que chegava às quintas-feiras para a reunião de administração. Trazia uma pasta de mão e, dentro, uma arma. Chegava, punha a pistola em cima da mesa e dizia: «Ora vamos lá ver o que é que você tem aí para publicar!»
A reunião era a dois?
Éramos os dois da administração - talvez ele fosse o presidente, já não sei. Discutíamos então a programação e os problemas da editora com uma pistola em cima da mesa. Estas histórias existiram por todo o lado.
O que é feito do sr. Pinto?
Não faço ideia. Sei que o sr. Pinto pertencia ao MRPP, que era um partido que muito influenciava a vida de «O Século» nessa altura.
Estamos, portanto, perante um quadro «proletário» que achava que você era um «social-fascista»...
Exactamente. Para o sr. Pinto, eu era um social-fascista e confrontávamo-nos nessa situação. Não sei quem é hoje o sr. Pinto. Era um senhor de barbas, forte...
Você também tem barbas...
Mas a barba dele era maior... Apesar da pistola e da consideração de que eu era um social-fascista, não me lembro de termos tido nenhum grande desacordo. Fomos sempre educados.
Não foi devido à pistola que você não editou o Saramago?
Não, não. A história do Saramago é posterior. Mas houve outra história na Moraes muito engraçada, quando me apareceu alguém dizendo que era um operacional do ELP.
O Exército de Libertação de Portugal, de extrema-direita...
... pura e dura, envolvido no bombismo, etc. Apareceu-me com um pacote de cartas do Eça de Queirós. Isto, após eu ter publicado o romance inédito do Eça, «A Tragédia da Rua das Flores», que foi um acontecimento editorial naquela altura. Era o primeiro livro do Eça inédito que se publicava ao fim de tantos anos.
O que queria esse fulano do ELP?
Aproveitando essa situação sobre o Eça, queria-me vender aquelas cartas.
Alegadamente inéditas.
Inéditas e verdadeiras. Tive o cuidado de chamar um especialista em Eça de Queirós, o arquitecto Campos Matos, que me explicou que as cartas eram verdadeiras, dirigidas ao conde de Arnoso e pertencentes, portanto, à família e sucessores do conde de Arnoso - ou seja, hoje, à família Espírito Santo. A posse das cartas, portanto, era indevida.
Eram roubadas?
Posse indevida - não vou acrescentar mais. Contactei a família Espírito Santo e consegui estabelecer um acordo, em que pus o senhor do ELP numa sala ao lado do meu gabinete e o representante da família Espírito Santo noutra sala. O meu gabinete tinha duas portas e eu servi de pombo-correio. Consegui que a família Espírito Santo reavesse este conjunto valiosíssimo de correspondência inédita do Eça de Queirós.
A troco de?
Seria indelicado ir até esses pormenores. Digo apenas que, como prémio deste esforço negocial (em que eu me senti como ministro dos Negócios Estrangeiros...), obtive uma carta do patriarca da família, o Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, dizendo que, se alguma vez pensassem publicar aquele material inédito do Eça, o fariam comigo. Essa promessa ainda hoje subsiste.
Onde estão essas cartas?
Estão em poder da família Espírito Santo. É um espólio volumoso e valioso. O arquitecto Campos Matos explicou que houve uma grande troca de correspondência entre o Eça e o Conde de Arnoso.
Quem era esse fulano do ELP?
Não lhe sei dizer o nome. Sei apenas que me ofereceu uma pequena estatueta, também em retribuição, esculpida em pedra, que eu suponho roubada de uma sepultura - tem todo o ar disso. Ainda hoje a conservo.
Como é que, ao fim de trinta anos, um espólio desses ainda não foi publicado?
Não faço ideia. Não foi por falta de interesse do editor. Mas também foi, no sentido em que eu nunca mais insisti, porque entretanto a Moraes acabou e eu fui fazer outras coisas para a Dom Quixote.
Esse compromisso permanece válido?
Conservo essa carta, assinada pelo Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, escrita de Londres. De resto, ele era familiar da actual ministra da Cultura, que conhece esta história, uma vez que chegámos a conviver de perto quando ela era esposa do António Lobo Antunes.
Vai ser um dos seus primeiros projectos na Âmbar?
Certamente que não.
Quando tomou conta da Dom Quixote, levou consigo grande parte do catálogo da Moraes...
Sim. Quando a Moraes acabou, muitos escritores ficaram desprotegidos e vieram comigo para a Dom Quixote.
Li algures que, quando pegou na Dom Quixote, os seus únicos autores portugueses de nomeada eram a Natália e o David Mourão-Ferreira.
É verdade.
Hoje em dia, alguém disse que os únicos grandes autores portugueses que não estão na Dom Quixote são o Saramago e a Agustina. Concorda?
Concordo, mas se calhar estamos a esquecer alguns autores.
Saramago era impossível, depois do que acontecera na Moraes. E Agustina? Tentou alguma vez trazê-la?
Tentei por várias vezes, chegámos a ter conversas a esse respeito. Mas a Agustina tem também uma relação muito próxima com o seu editor e eu não forço essas situações para além de certos limites. Não sou um editor que diga que em concorrência vale tudo.
Que autores foi conquistando para a sua editora?
O João de Melo (da Assírio & Alvim), a Lídia Jorge (Europa-América), o Cardoso Pires (O Jornal), o Lobo Antunes (Vega), o Pepetela (Edições 70)... E depois os novos que foram aparecendo, como a Inês Pedrosa, a Mafalda Ivo Cruz, o Pedro Rosa Mendes, a Ana Zanatti - e esquecerei muitos outros, que se calhar se vão zangar comigo...
Há quem explique grande parte do seu sucesso como editor pela relação de fidelidade que estabelece com os seus autores. Essa fidelidade manifestou-se ao longo deste contencioso?
O apoio dos autores foi praticamente unânime. Todos manifestaram as suas preocupações perante os acontecimentos, a sua amizade, evidenciando devidamente o peso do trabalho realizado ao longo de tantos anos. Não tinham que tomar partido, mas alguns fizeram-no publicamente, outros preferiram não o fazer de um modo muito evidente. Havia que ter algum cuidado, compreende-se perfeitamente. Mas todos quiseram, cada um à sua maneira, directamente, manifestar-me o seu apoio pessoal, a sua simpatia, o seu apreço pelo meu trabalho, agradecendo o que alguns consideravam «que me deviam» e não desejavam nunca esquecer... Mas um escritor nunca «deve» nada a um editor... o editor apenas faz o trabalho que deve fazer. É este que deve ao autor a felicidade de confiar nesse trabalho.
Entre os «seus» autores, a única excepção foi...
... o António Lobo Antunes, que imediatamente apoiou a nova gerência, sem sequer me ouvir, sem sequer falar comigo.
Uma autora que você recusou foi a Margarida Rebelo Pinto.
Isso é conhecido. Ela gaba-se de ter sido recusada tal e qual como o Saramago. Costuma dizer isso por graça (eu também acho graça) e corresponde a uma meia verdade. À Margarida Rebelo Pinto não recusei nos mesmos termos do Saramago - embora, como disse, no caso do Saramago não tenha sido uma recusa, mas um pedido de escusa. Eu li o seu primeiro livro, «Sei Lá», achei que tinha algumas qualidades mas uma escrita descuidada e dei-lhe alguns conselhos sobre correcções a fazer; pedi-lhe que fosse para casa, que trabalhasse e reescrevesse o livro. Ela, com a sua força de juventude, achou que os meus comentários não tinham grande importância e publicou o livro tal e qual estava.
Já a Mafalda Ivo Cruz aceitou as suas sugestões.
Sim, com a Mafalda foi muito interessante. E isso é uma das coisas muito compensadoras da vida de um editor, esse trabalho que se faz com os autores.
Os seus conselhos e sugestões são tidos habitualmente em conta pelos seus autores, mesmo pelos mais consagrados?
Nunca contabilizei muito essa situação. Para mim, é um facto natural atrever-me a discutir com um autor. Desde o José Cardoso Pires, com quem discuti um título ou algo semelhante. Muitas vezes, o autor não aceita - tem todo o direito de não aceitar, a última palavra é dele.
Cardoso Pires aceitava?
Aceitava falar e discutir. Às vezes explicava porque é que insistia em manter aquela solução; outras vezes dizia, com naturalidade, «bom, vou tomar nota e vou ver». O que importa é esse trabalho de repartição, de o escritor sentir-se apoiado no seu editor, enquanto um leitor treinado, experiente e até com certa autoridade.
Lobo Antunes aceitava?
Sim, também. Fiz-lhe alguns comentários relativamente a alguns livros. Aceitava muito pouco esses comentários, mas isso por razões que têm a ver com uma grande precisão que ele põe nas palavras que utiliza e ser-lhe-ia difícil a alteração.
Quase todos os grandes nomes da poesia portuguesa estão também na Dom Quixote.
Nós somos um país de poetas! Eu já tinha convivido de muito perto com os poetas. Fui grande amigo do Ruy Belo, cheguei a conhecer o Jorge de Sena, na Moraes conheci de perto muitos dos poetas portugueses que publiquei. Foi aí que publiquei, pela primeira vez, o Manuel Alegre, depois do 25 de Abril. Sou um leitor regular de poesia e um poeta frustrado, ou seja, gostava muito de saber escrever poesia.
Tem alguma coisa na gaveta?
Não, não. Escrevi poesia nos tempos do «Diário de Lisboa Juvenil», quando era dirigido pelo Mário Castrim.
O prestígio e a qualidade da Dom Quixote avaliam-se também pelos prémios ganhos pelos seus autores.
Sim. Quase todos os grandes prémios literários importantes em Portugal têm sido atribuídos, nos últimos anos, aos autores da Dom Quixote.
O Prémio da APE...
... o da APE, o do Pen Club, o Prémio Vida Literária, o Prémio Camões, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Fernando Namora, eu sei lá!
Para além dos prémios, há também as traduções no estrangeiro.
Isso é outro trabalho importante que os editores fazem, que é o de promover os seus autores junto de agentes literários, aliciar e seduzir esses agentes e as editoras estrangeiras a pegarem nos nossos autores e a publicá-los.
Tem tido muito sucesso?
Neste momento, pode dizer-se que não há autor da Dom Quixote que não esteja publicado em vários países. Na maior parte dos casos, isso deve-se a um trabalho meu.
O crédito é mais do editor do que do autor?
O crédito é comum, porque, se estivéssemos a falar de maus livros ou de maus escritores, nada disto se conseguiria.
Sim, mas o trabalho de campo...
... é do editor: é apresentar o seu escritor, defendê-lo, explicá-lo nos outros países.
Nos últimos anos, a Dom Quixote passou a publicar também livros da chamada literatura «light». Foi uma opção de carácter empresarial e financeira?
Deveu-se ao que é hoje inevitável no mundo editorial. Surgiram novas faixas de leitores, que também há que abastecer.
Não foi uma cedência da sua parte?
É claro que é uma cedência, não escondo isso. Que, em teoria, eu justifico dizendo que é muito importante que as pessoas leiam seja o que for que leiam. E que, através da leitura, vão conquistando a capacidade de seleccionar. Recordemos o que se passou connosco quando começámos a ler na juventude, que líamos o que nos punham à frente: quer histórias de amor, quer livros policiais. Progressivamente, foram essas leituras que nos foram ensinando a seleccionar as futuras leituras que fomos tendo.
O que é importante é ler?
Exacto, mesmo coisas de menor qualidade.
Mesmo lixo?
Mesmo lixo. Você se calhar também lê lixo, quando pega em tantos livros e depois põe de lado. O que importa é que o convívio com os livros seja cada vez mais livre e mais informado da parte do leitores. Não lhe escondo, evidentemente, que, tendo aparecido novas faixas de leitores nessa área mais ligeira, esses livros também são uma forma que as editoras, que são empresas comerciais, encontram de diversificar a sua actividade e de ir buscar compensações para os livros que se lêem menos.
Publicou alguma coisa verdadeiramente lixo de que se tenha arrependido?
(Silêncio) A minha memória não me acusa de nada de que eu tenha assim uma grande vergonha.
E agora pergunto-lhe o contrário: quais os trabalhos de que mais orgulho tem, como editor?
Se eu lhe disser que foram tantos, estou a ser vaidoso.
Mas diga-me alguns.
A decisão de, no início da Dom Quixote, ter feito uma aposta numa tiragem de 30 mil exemplares num romance de José Cardoso Pires, chamado «Alexandra Alpha», contra a vontade do próprio autor, que me chamou louco por dezenas de vezes, mas que depois se surpreendeu quando, um ou dois meses depois, estávamos a reeditar esse livro.
Era uma altura em que Cardoso Pires atravessava uma crise de autoconfiança.
Exactamente. Ou de ter dito ao Manuel Alegre, quando ele me entregou o original da «Senhora das Tempestades», que ia fazer quinze mil exemplares. Também ele se surpreendeu - e reeditámos a obra. Quinze mil exemplares como tiragem inicial de um livro de poesia era qualquer coisa impensável em Portugal.
Qual foi o livro de poesia que vendeu mais?
Talvez a «Senhora das Tempestades», talvez a obra completa de Manuel Alegre, que já teve várias edições. Ou talvez, lá para trás, o «Poeta Militante», do José Gomes Ferreira, no tempo em que ele estava vivo e os seus livros eram um sucesso. Mas nem são os projectos que vendem muito ou têm grandes tiragens que são importantes na vida de um editor. Fico contente se um livro for discutido pela sociedade, mesmo que essa discussão seja negativa relativamente ao livro.
Qual foi o livro que editou que provocou maior polémica?
(Silêncio)
O do Rui Mateus, «Contos Proibidos»?
Ah, sim, certamente. Foi o mais atrevido. Vendeu trinta mil exemplares no dia do seu lançamento. Teve todas as coberturas - não houve nem jornal, nem rádio, nem canal de televisão que não ocupasse uma grande parte do seu tempo com este livro. Foi um livro que me causou bastantes dificuldades pessoais.
Pressões? Ameaças?
Não digo pressões nem ameaças, mas mal-estares, comentários negativos. Algumas pessoas manifestaram o seu desgosto por eu ter tomado a decisão de o publicar. A todos expliquei que o livro existia, tratava uma questão importante, tinha revelações importantes e procurava ser sério ao ponto de as provar. Desse ponto de vista, achei que o livro merecia ser discutido na sociedade - e a sociedade que o recuse, o queime ou faça o que entender. Ou seja: eu não sou um censor!
Aos 59 anos (acabados de fazer) e depois de ter passado por três editoras, qual é o seu projecto na Âmbar?
É um desafio. Eu tive a felicidade de, no meio destas tristezas e desaires que constituíram o encerramento da minha relação com a Dom Quixote, me ter surgido o desafio que a Âmbar me fez. É um desafio corajoso da parte deles. Trataram-me com uma grande gentileza e simpatia, como que a querer compensar e limpar as minhas feridas. Desse ponto de vista, foram verdadeiramente excepcionais - vieram limpar as minhas chagas e dar-me vida de novo, sem me deixar amachucar. E eu enchi-me de coragem. Talvez eu consiga voltar atrás, talvez eu consiga fazer de novo um projecto editorial similar, visto que não sei fazer outra coisa. Ou seja: reunir autores nacionais e alguns autores estrangeiros de qualidade, tentar pesquisar áreas do conhecimento e do saber, provocar a sociedade com alguns livros mais polémicos. Confesso que não sei se conseguirei, se tenho forças...
Tem condições, do ponto de vista empresarial?
Dão-me condições para isso e dão-me total liberdade e independência. Criaram-me condições para que eu ficasse em Lisboa, onde vou ficar instalado e bem instalado.
Qual é o seu primeiro projecto?
Não tenho nenhuma revelação para fazer neste momento. A única coisa que estou a fazer é definir o projecto editorial, globalmente, com a equipa da Âmbar.
Vai levar muitos autores da Dom Quixote?
Não digo que isso não possa acontecer. Não vou procurá-lo. O que a Âmbar deseja é autores portugueses, apresentados por autores portugueses, livros portugueses nos seus diversos domínios.
O que é, afinal, a sua aposta de sempre!
Vai ser uma aposta forte e muito entusiasmada. Sinto que tenho uma alma nova e tenho todo o gosto em retribuir, com a minha eventual experiência adquirida, aquilo que a Âmbar me tentou dar num momento menos bom do ponto de vista pessoal.
ENTREVISTA DE JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA - FOTOGRAFIAS DE JOÃO CARLOS SANTOS
António Lobo Antunes e Nelson de Matos.
À própria Snu Abecassis?
Sim. Fui, provavelmente, o primeiro autor de ficção da Dom Quixote.
Seguiram-se mais três livros de ficção e um ensaio de crítica literária. Curiosamente, creio que todos eles estão esgotados.
Sim, não há exemplares e eu próprio não consigo comprá-los.
O editor da Dom Quixote considerou que o Nelson de Matos autor não valia a pena ser reeditado?
Sim, achou isso. Conscientemente. À excepção do livro de crítica.
Não me diga que se envergonha do que escreveu?
Não me envergonho, mas são obras nitidamente juvenis, obras de quem começa...
Há quase trinta anos que não escreve!
É verdade. É completamente impossível regressar. Ou se é escritor uma vida inteira, ou não se é escritor. Todos os verdadeiros escritores lhe dirão isto.
Está-me a dizer que o ser escritor é uma profissão?
Ser escritor é um trabalho muito meticuloso, muito difícil, que exige um exercício permanente, uma constância, uma regularidade, e eu não me dei a esse trabalho. Para se ser escritor, para se fazer literatura, é preciso um trabalho de persistência, de rigor...
Oito horas por dia?
Se não são oito, são seis; se não são seis, são quatro... Mas é preciso escrever todos os dias e de uma forma muito consciente.
Começou a sua actividade de editor em 1974, na Arcádia, que estava encostada a um grupo financeiro onde trabalhava - você era funcionário da companhia de seguros Império.
Tive, aliás, a sorte de ter um administrador nessa companhia de seguros que gostava de música e literatura, chamado Luís Barbosa, que mais tarde apareceu na política através do CDS. Um dia disse-me: «Olhe, você que tem a mania das literaturas, tome lá uma editora e vá tomar conta dela.» Despejou-me dos seguros para uma empresa acessória, que era a Arcádia. Aí começou a minha actividade futura de editor.
Qual foi o seu maior sucesso na Arcádia?
Quando eu cheguei, a Arcádia acabava de ter o seu maior sucesso. Chamava-se «Portugal e o Futuro», do general Spínola.
Foi um «best-seller»!
Fui ainda gerir os efeitos desse sucesso. Aliás, convivi ainda com o general Spínola nesse sentido, cheguei a ir a casa dele, em Massamá. Porque ele emendava e revia as provas das reedições, introduzia emendas, etc.
Nessa aventura do «Portugal e o Futuro», você foi o braço direito do editor da Arcádia...
... Paradela de Abreu, hoje já falecido. Mas convivi na Arcádia com uma pessoa muito interessante, que foi a Natália Correia, que era a directora literária. Eu estava acima dela, porque representava o accionista, mas não se pode estar acima da Natália Correia, no dia a dia. Só se podia olhar para ela com admiração.
Editaram quantos exemplares? Duzentos mil?
Já não me lembro bem, mas foi qualquer coisa parecida.
Há algum livro, desde então, em Portugal e de autor português, que tenha vendido tanto?
Creio que o Saramago pode atingir hoje esses números. Estamos a falar de anos muito distintos e de taxas de leitura felizmente bastante diferentes.
Lê-se mais agora...
Sem dúvida, sem dúvida.
Ao contrário do que por vezes se ouve dizer.
Isso porque os editores gostam de se lamentar. Logo a seguir ao general Spínola, a Arcádia editou - e aí, já sim, por meu intermédio -, pela primeira vez em Portugal, um livro de um jovem político chamado Mário Soares, e que se chamava...
... «Portugal Amordaçado».
Acompanhei desde o princípio a feitura do livro com o Dr. Mário Soares, indo a sua casa, vendo as provas, etc. Recordo-me de que ia a sua casa, no Campo Grande, ao fim da tarde. O Dr. Soares estava sentado numa poltrona, descontraidamente, e apontava-me, à sua frente, aquele pufo onde, quando estaria sozinho, ele estenderia os pés e descansava as pernas ao fim do dia... Eu sentava-me quase no meio das suas pernas, no pufo, e ficávamos ali, frente a frente... Ele hoje provavelmente nem se lembra disso, mas eu nunca mais esqueci a primeira vez que lá fui e fiquei sentado aos seus pés.
Na altura, ele era ministro dos Negócios Estrangeiros, suponho.
Talvez.
Editou Spínola, Mário Soares... Mais algumas figuras cimeiras da política?
Não. Conheci pessoalmente Sá Carneiro e Álvaro Cunhal, mas nunca publiquei livros seus.
Seguiu-se a Moraes, a convite...
... do Pedro Tamen, que entretanto tinha sido convidado para a administração da Fundação Gulbenkian e que quase me passou a editora como herança.
Como é que se conheciam?
Conhecíamo-nos das letras. Eu andava próximo das pessoas dos jornais, dos poetas, dos escritores, dos editores. Era o meu mundo desse tempo.
Frequentava o Monte Carlo...
Sim, sentava-me à mesa onde se sentavam o Carlos de Oliveira, o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, para os ouvir. Assim como faziam outros jovens da minha idade - recordo-me do Nuno Júdice, do Gastão Cruz... Sentávamo-nos ali para os ouvir. Eles discutiam política, literatura, falavam de livros - livros que a gente depois ia procurar ler. Admirávamos aqueles homens e respeitávamo-los de uma maneira muito vincada.
Você iria buscar muita gente dessa tertúlia para as suas editoras.
Claro, quando cheguei à idade e à situação de poder ser eu a convidá-los e desafiá-los, foi isso que fiz. Naquela altura, havia alguns editores respeitáveis, mas havia outros que o não eram. Eu quis dar aos autores que amava e respeitava um trabalho, do lado da edição dos seus livros, que correspondesse à admiração e ao respeito que lhes tinha.
Houve algum editor que tivesse funcionado como uma espécie de modelo? Que o inspirasse?
Houve muitos homens que trabalharam na edição e que...
Quer mencionar alguns?
O Rogério de Moura, o Francisco Lyon de Castro de então, o Manuel Rodrigues de Oliveira, o Manuel Dias de Carvalho, entre outros, que tinham da sua profissão o lado da seriedade, da entrega ao trabalho do autor - porque o editor está ali para servir e dar a voz ao trabalho do autor.
Quando chegou à Moraes, em 1976, já estava em decadência.
Já, mas era uma editora extremamente simpática e que correspondia, na perfeição, àquilo que era o meu objectivo desde sempre: era uma editora de autores portugueses. Tinha uma colecção de poesia portuguesa que era assinalável: Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, o próprio Pedro Támen, António Ramos Rosa, Ruy Belo, tantos poetas importantes e que eu tive a felicidade de acompanhar. E depois teve, chamados por mim, um conjunto de outros escritores, como o José Gomes Ferreira, o José Cardoso Pires, o José Saramago e muitos outros. A Moraes foi o meu primeiro grande ensaio, valioso ensaio. É uma pena ter interrompido o seu percurso.
Tinha uma livraria simpatiquíssima...
... com um livreiro excepcional, o Edmundo, e que foi um excelente companheiro de trabalho. Era uma editora que, de facto, correspondia inteiramente àquilo que eu pensava da edição e àquilo que eu queria fazer. Foi o meu primeiro ensaio para trabalhar com autores portugueses. Desde essa altura que há uma frase que eu repito em todo o meu percurso: não faz sentido ser editor em Portugal de costas voltadas para a produção cultural nacional. Foi aí que começou a minha relação com o José Cardoso Pires, o José Gomes Ferreira, o Nuno Bragança, a Maria Velho da Costa, o Saramago, com quem tive um acidente...
Na Moraes, tinha reuniões com um administrador que andava armado...
Essa é uma história engraçada, ocorrida durante o Verão Quente. A Moraes pertencia a O Século e foi apanhada pela agitação que se verificou dentro do jornal «O Século». Como accionista da Moraes, O Século tinha direito a nomear um administrador: o sr. Pinto. Não me lembro do seu nome, era o sr. Pinto, que chegava às quintas-feiras para a reunião de administração. Trazia uma pasta de mão e, dentro, uma arma. Chegava, punha a pistola em cima da mesa e dizia: «Ora vamos lá ver o que é que você tem aí para publicar!»
A reunião era a dois?
Éramos os dois da administração - talvez ele fosse o presidente, já não sei. Discutíamos então a programação e os problemas da editora com uma pistola em cima da mesa. Estas histórias existiram por todo o lado.
O que é feito do sr. Pinto?
Não faço ideia. Sei que o sr. Pinto pertencia ao MRPP, que era um partido que muito influenciava a vida de «O Século» nessa altura.
Estamos, portanto, perante um quadro «proletário» que achava que você era um «social-fascista»...
Exactamente. Para o sr. Pinto, eu era um social-fascista e confrontávamo-nos nessa situação. Não sei quem é hoje o sr. Pinto. Era um senhor de barbas, forte...
Você também tem barbas...
Mas a barba dele era maior... Apesar da pistola e da consideração de que eu era um social-fascista, não me lembro de termos tido nenhum grande desacordo. Fomos sempre educados.
Não foi devido à pistola que você não editou o Saramago?
Não, não. A história do Saramago é posterior. Mas houve outra história na Moraes muito engraçada, quando me apareceu alguém dizendo que era um operacional do ELP.
O Exército de Libertação de Portugal, de extrema-direita...
... pura e dura, envolvido no bombismo, etc. Apareceu-me com um pacote de cartas do Eça de Queirós. Isto, após eu ter publicado o romance inédito do Eça, «A Tragédia da Rua das Flores», que foi um acontecimento editorial naquela altura. Era o primeiro livro do Eça inédito que se publicava ao fim de tantos anos.
O que queria esse fulano do ELP?
Aproveitando essa situação sobre o Eça, queria-me vender aquelas cartas.
Alegadamente inéditas.
Inéditas e verdadeiras. Tive o cuidado de chamar um especialista em Eça de Queirós, o arquitecto Campos Matos, que me explicou que as cartas eram verdadeiras, dirigidas ao conde de Arnoso e pertencentes, portanto, à família e sucessores do conde de Arnoso - ou seja, hoje, à família Espírito Santo. A posse das cartas, portanto, era indevida.
Eram roubadas?
Posse indevida - não vou acrescentar mais. Contactei a família Espírito Santo e consegui estabelecer um acordo, em que pus o senhor do ELP numa sala ao lado do meu gabinete e o representante da família Espírito Santo noutra sala. O meu gabinete tinha duas portas e eu servi de pombo-correio. Consegui que a família Espírito Santo reavesse este conjunto valiosíssimo de correspondência inédita do Eça de Queirós.
A troco de?
Seria indelicado ir até esses pormenores. Digo apenas que, como prémio deste esforço negocial (em que eu me senti como ministro dos Negócios Estrangeiros...), obtive uma carta do patriarca da família, o Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, dizendo que, se alguma vez pensassem publicar aquele material inédito do Eça, o fariam comigo. Essa promessa ainda hoje subsiste.
Onde estão essas cartas?
Estão em poder da família Espírito Santo. É um espólio volumoso e valioso. O arquitecto Campos Matos explicou que houve uma grande troca de correspondência entre o Eça e o Conde de Arnoso.
Quem era esse fulano do ELP?
Não lhe sei dizer o nome. Sei apenas que me ofereceu uma pequena estatueta, também em retribuição, esculpida em pedra, que eu suponho roubada de uma sepultura - tem todo o ar disso. Ainda hoje a conservo.
Como é que, ao fim de trinta anos, um espólio desses ainda não foi publicado?
Não faço ideia. Não foi por falta de interesse do editor. Mas também foi, no sentido em que eu nunca mais insisti, porque entretanto a Moraes acabou e eu fui fazer outras coisas para a Dom Quixote.
Esse compromisso permanece válido?
Conservo essa carta, assinada pelo Sr. Ricardo Espírito Santo Silva, escrita de Londres. De resto, ele era familiar da actual ministra da Cultura, que conhece esta história, uma vez que chegámos a conviver de perto quando ela era esposa do António Lobo Antunes.
Vai ser um dos seus primeiros projectos na Âmbar?
Certamente que não.
Quando tomou conta da Dom Quixote, levou consigo grande parte do catálogo da Moraes...
Sim. Quando a Moraes acabou, muitos escritores ficaram desprotegidos e vieram comigo para a Dom Quixote.
Li algures que, quando pegou na Dom Quixote, os seus únicos autores portugueses de nomeada eram a Natália e o David Mourão-Ferreira.
É verdade.
Hoje em dia, alguém disse que os únicos grandes autores portugueses que não estão na Dom Quixote são o Saramago e a Agustina. Concorda?
Concordo, mas se calhar estamos a esquecer alguns autores.
Saramago era impossível, depois do que acontecera na Moraes. E Agustina? Tentou alguma vez trazê-la?
Tentei por várias vezes, chegámos a ter conversas a esse respeito. Mas a Agustina tem também uma relação muito próxima com o seu editor e eu não forço essas situações para além de certos limites. Não sou um editor que diga que em concorrência vale tudo.
Que autores foi conquistando para a sua editora?
O João de Melo (da Assírio & Alvim), a Lídia Jorge (Europa-América), o Cardoso Pires (O Jornal), o Lobo Antunes (Vega), o Pepetela (Edições 70)... E depois os novos que foram aparecendo, como a Inês Pedrosa, a Mafalda Ivo Cruz, o Pedro Rosa Mendes, a Ana Zanatti - e esquecerei muitos outros, que se calhar se vão zangar comigo...
Há quem explique grande parte do seu sucesso como editor pela relação de fidelidade que estabelece com os seus autores. Essa fidelidade manifestou-se ao longo deste contencioso?
O apoio dos autores foi praticamente unânime. Todos manifestaram as suas preocupações perante os acontecimentos, a sua amizade, evidenciando devidamente o peso do trabalho realizado ao longo de tantos anos. Não tinham que tomar partido, mas alguns fizeram-no publicamente, outros preferiram não o fazer de um modo muito evidente. Havia que ter algum cuidado, compreende-se perfeitamente. Mas todos quiseram, cada um à sua maneira, directamente, manifestar-me o seu apoio pessoal, a sua simpatia, o seu apreço pelo meu trabalho, agradecendo o que alguns consideravam «que me deviam» e não desejavam nunca esquecer... Mas um escritor nunca «deve» nada a um editor... o editor apenas faz o trabalho que deve fazer. É este que deve ao autor a felicidade de confiar nesse trabalho.
Entre os «seus» autores, a única excepção foi...
... o António Lobo Antunes, que imediatamente apoiou a nova gerência, sem sequer me ouvir, sem sequer falar comigo.
Uma autora que você recusou foi a Margarida Rebelo Pinto.
Isso é conhecido. Ela gaba-se de ter sido recusada tal e qual como o Saramago. Costuma dizer isso por graça (eu também acho graça) e corresponde a uma meia verdade. À Margarida Rebelo Pinto não recusei nos mesmos termos do Saramago - embora, como disse, no caso do Saramago não tenha sido uma recusa, mas um pedido de escusa. Eu li o seu primeiro livro, «Sei Lá», achei que tinha algumas qualidades mas uma escrita descuidada e dei-lhe alguns conselhos sobre correcções a fazer; pedi-lhe que fosse para casa, que trabalhasse e reescrevesse o livro. Ela, com a sua força de juventude, achou que os meus comentários não tinham grande importância e publicou o livro tal e qual estava.
Já a Mafalda Ivo Cruz aceitou as suas sugestões.
Sim, com a Mafalda foi muito interessante. E isso é uma das coisas muito compensadoras da vida de um editor, esse trabalho que se faz com os autores.
Os seus conselhos e sugestões são tidos habitualmente em conta pelos seus autores, mesmo pelos mais consagrados?
Nunca contabilizei muito essa situação. Para mim, é um facto natural atrever-me a discutir com um autor. Desde o José Cardoso Pires, com quem discuti um título ou algo semelhante. Muitas vezes, o autor não aceita - tem todo o direito de não aceitar, a última palavra é dele.
Cardoso Pires aceitava?
Aceitava falar e discutir. Às vezes explicava porque é que insistia em manter aquela solução; outras vezes dizia, com naturalidade, «bom, vou tomar nota e vou ver». O que importa é esse trabalho de repartição, de o escritor sentir-se apoiado no seu editor, enquanto um leitor treinado, experiente e até com certa autoridade.
Lobo Antunes aceitava?
Sim, também. Fiz-lhe alguns comentários relativamente a alguns livros. Aceitava muito pouco esses comentários, mas isso por razões que têm a ver com uma grande precisão que ele põe nas palavras que utiliza e ser-lhe-ia difícil a alteração.
Quase todos os grandes nomes da poesia portuguesa estão também na Dom Quixote.
Nós somos um país de poetas! Eu já tinha convivido de muito perto com os poetas. Fui grande amigo do Ruy Belo, cheguei a conhecer o Jorge de Sena, na Moraes conheci de perto muitos dos poetas portugueses que publiquei. Foi aí que publiquei, pela primeira vez, o Manuel Alegre, depois do 25 de Abril. Sou um leitor regular de poesia e um poeta frustrado, ou seja, gostava muito de saber escrever poesia.
Tem alguma coisa na gaveta?
Não, não. Escrevi poesia nos tempos do «Diário de Lisboa Juvenil», quando era dirigido pelo Mário Castrim.
O prestígio e a qualidade da Dom Quixote avaliam-se também pelos prémios ganhos pelos seus autores.
Sim. Quase todos os grandes prémios literários importantes em Portugal têm sido atribuídos, nos últimos anos, aos autores da Dom Quixote.
O Prémio da APE...
... o da APE, o do Pen Club, o Prémio Vida Literária, o Prémio Camões, o Prémio Máxima de Literatura, o Prémio Fernando Namora, eu sei lá!
Para além dos prémios, há também as traduções no estrangeiro.
Isso é outro trabalho importante que os editores fazem, que é o de promover os seus autores junto de agentes literários, aliciar e seduzir esses agentes e as editoras estrangeiras a pegarem nos nossos autores e a publicá-los.
Tem tido muito sucesso?
Neste momento, pode dizer-se que não há autor da Dom Quixote que não esteja publicado em vários países. Na maior parte dos casos, isso deve-se a um trabalho meu.
O crédito é mais do editor do que do autor?
O crédito é comum, porque, se estivéssemos a falar de maus livros ou de maus escritores, nada disto se conseguiria.
Sim, mas o trabalho de campo...
... é do editor: é apresentar o seu escritor, defendê-lo, explicá-lo nos outros países.
Nos últimos anos, a Dom Quixote passou a publicar também livros da chamada literatura «light». Foi uma opção de carácter empresarial e financeira?
Deveu-se ao que é hoje inevitável no mundo editorial. Surgiram novas faixas de leitores, que também há que abastecer.
Não foi uma cedência da sua parte?
É claro que é uma cedência, não escondo isso. Que, em teoria, eu justifico dizendo que é muito importante que as pessoas leiam seja o que for que leiam. E que, através da leitura, vão conquistando a capacidade de seleccionar. Recordemos o que se passou connosco quando começámos a ler na juventude, que líamos o que nos punham à frente: quer histórias de amor, quer livros policiais. Progressivamente, foram essas leituras que nos foram ensinando a seleccionar as futuras leituras que fomos tendo.
O que é importante é ler?
Exacto, mesmo coisas de menor qualidade.
Mesmo lixo?
Mesmo lixo. Você se calhar também lê lixo, quando pega em tantos livros e depois põe de lado. O que importa é que o convívio com os livros seja cada vez mais livre e mais informado da parte do leitores. Não lhe escondo, evidentemente, que, tendo aparecido novas faixas de leitores nessa área mais ligeira, esses livros também são uma forma que as editoras, que são empresas comerciais, encontram de diversificar a sua actividade e de ir buscar compensações para os livros que se lêem menos.
Publicou alguma coisa verdadeiramente lixo de que se tenha arrependido?
(Silêncio) A minha memória não me acusa de nada de que eu tenha assim uma grande vergonha.
E agora pergunto-lhe o contrário: quais os trabalhos de que mais orgulho tem, como editor?
Se eu lhe disser que foram tantos, estou a ser vaidoso.
Mas diga-me alguns.
A decisão de, no início da Dom Quixote, ter feito uma aposta numa tiragem de 30 mil exemplares num romance de José Cardoso Pires, chamado «Alexandra Alpha», contra a vontade do próprio autor, que me chamou louco por dezenas de vezes, mas que depois se surpreendeu quando, um ou dois meses depois, estávamos a reeditar esse livro.
Era uma altura em que Cardoso Pires atravessava uma crise de autoconfiança.
Exactamente. Ou de ter dito ao Manuel Alegre, quando ele me entregou o original da «Senhora das Tempestades», que ia fazer quinze mil exemplares. Também ele se surpreendeu - e reeditámos a obra. Quinze mil exemplares como tiragem inicial de um livro de poesia era qualquer coisa impensável em Portugal.
Qual foi o livro de poesia que vendeu mais?
Talvez a «Senhora das Tempestades», talvez a obra completa de Manuel Alegre, que já teve várias edições. Ou talvez, lá para trás, o «Poeta Militante», do José Gomes Ferreira, no tempo em que ele estava vivo e os seus livros eram um sucesso. Mas nem são os projectos que vendem muito ou têm grandes tiragens que são importantes na vida de um editor. Fico contente se um livro for discutido pela sociedade, mesmo que essa discussão seja negativa relativamente ao livro.
Qual foi o livro que editou que provocou maior polémica?
(Silêncio)
O do Rui Mateus, «Contos Proibidos»?
Ah, sim, certamente. Foi o mais atrevido. Vendeu trinta mil exemplares no dia do seu lançamento. Teve todas as coberturas - não houve nem jornal, nem rádio, nem canal de televisão que não ocupasse uma grande parte do seu tempo com este livro. Foi um livro que me causou bastantes dificuldades pessoais.
Pressões? Ameaças?
Não digo pressões nem ameaças, mas mal-estares, comentários negativos. Algumas pessoas manifestaram o seu desgosto por eu ter tomado a decisão de o publicar. A todos expliquei que o livro existia, tratava uma questão importante, tinha revelações importantes e procurava ser sério ao ponto de as provar. Desse ponto de vista, achei que o livro merecia ser discutido na sociedade - e a sociedade que o recuse, o queime ou faça o que entender. Ou seja: eu não sou um censor!
Aos 59 anos (acabados de fazer) e depois de ter passado por três editoras, qual é o seu projecto na Âmbar?
É um desafio. Eu tive a felicidade de, no meio destas tristezas e desaires que constituíram o encerramento da minha relação com a Dom Quixote, me ter surgido o desafio que a Âmbar me fez. É um desafio corajoso da parte deles. Trataram-me com uma grande gentileza e simpatia, como que a querer compensar e limpar as minhas feridas. Desse ponto de vista, foram verdadeiramente excepcionais - vieram limpar as minhas chagas e dar-me vida de novo, sem me deixar amachucar. E eu enchi-me de coragem. Talvez eu consiga voltar atrás, talvez eu consiga fazer de novo um projecto editorial similar, visto que não sei fazer outra coisa. Ou seja: reunir autores nacionais e alguns autores estrangeiros de qualidade, tentar pesquisar áreas do conhecimento e do saber, provocar a sociedade com alguns livros mais polémicos. Confesso que não sei se conseguirei, se tenho forças...
Tem condições, do ponto de vista empresarial?
Dão-me condições para isso e dão-me total liberdade e independência. Criaram-me condições para que eu ficasse em Lisboa, onde vou ficar instalado e bem instalado.
Qual é o seu primeiro projecto?
Não tenho nenhuma revelação para fazer neste momento. A única coisa que estou a fazer é definir o projecto editorial, globalmente, com a equipa da Âmbar.
Vai levar muitos autores da Dom Quixote?
Não digo que isso não possa acontecer. Não vou procurá-lo. O que a Âmbar deseja é autores portugueses, apresentados por autores portugueses, livros portugueses nos seus diversos domínios.
O que é, afinal, a sua aposta de sempre!
Vai ser uma aposta forte e muito entusiasmada. Sinto que tenho uma alma nova e tenho todo o gosto em retribuir, com a minha eventual experiência adquirida, aquilo que a Âmbar me tentou dar num momento menos bom do ponto de vista pessoal.
ENTREVISTA DE JOSÉ PEDRO CASTANHEIRA - FOTOGRAFIAS DE JOÃO CARLOS SANTOS
António Lobo Antunes e Nelson de Matos.
O fim de 23 anos de amizade e trabalho em comum
Consta que António Lobo Antunes ainda não teve uma palavra para o seu (ex-) editor.
É verdade. Lobo Antunes apoiou desde o início, sem procurar conhecer qualquer «contraditório» (como agora se diz), a actual gerência da editora. Fez o que achou que devia ter feito. Não lhe sobrou para mim, durante todo este processo, uma única palavra de amizade. Já não falo, evidentemente, de qualquer eventual solidariedade.
Foram amigos durante muitos anos, conhece-o bem. Como explica o seu comportamento?
António Lobo Antunes é um dos nossos grandes escritores, ninguém terá dúvidas a esse respeito - eu não tenho. Mas, como todos os grandes escritores, é uma personalidade complexa. «Um livro escreve-se com a mão, não com a cabeça» - disse ele em entrevistas recentes. O que implica evidentemente um treino apurado para a mão. Distinto do da cabeça - e certamente também do coração... Dos seus 25 anos de escritor, recentemente comemorados, 23 foram passados comigo, lado a lado, estreitamente, cruzando muitos aspectos decisivos das nossas vidas - pessoais e profissionais. Um longo casamento - como ele próprio dizia e escreveu. Recordo todos esses anos com saudade e muita amizade. Foram 23 anos de trabalho duro, para atingir o que hoje se atingiu. Muitas coisas importantes ficaram a ligar-nos. Vinte e três anos são vinte e três anos, não se apagam facilmente. Leia-se o livro de Maria Luísa Blanco, «Conversas com António Lobo Antunes», e o que lá está escrito em muitas das suas páginas. Pelo menos até que, em próximas edições, seja branqueado o que lá está - como acontece na «Fotobiografia» recentemente publicada...
Onde o seu editor é simplesmente ignorado.
Nem o editor, nem o amigo de 23 anos... António nem sequer me enviou este seu novo romance, apesar de eu ainda o ter lido em original e ter acompanhado todo o período do seu trabalho de escrita. E de lhe ter até enviado um breve comentário escrito a meio dessa primeira leitura.
Magoado com Lobo Antunes?
A vida de um editor também é feita destas coisas... Passemos adiante, voltemos a página... fico dispensado de ir a Estocolmo.
O editor que recusou publicar Saramago
Quando estava na editora Moraes, você censurou, entre aspas (no sentido em que não publicou), o terceiro original de José Saramago.
Nós não temos a mesma leitura dos acontecimentos, porque o Saramago conta isso de uma maneira e eu conto de outra. Peço desculpa ao Saramago por considerar que ele conta mal, porque ele acha que existiram influências sinistras por trás da minha decisão. E a verdade é que não existiram influências sinistras nenhumas, foi uma coisa bastante mais prosaica. Ou seja: eu publiquei dois livros do José Saramago...
A saber?
Um livro de contos, que se chamava «Objecto Quase», e um romance, chamado «Manual de Pintura e Caligrafia».
O terceiro é que não. Qual era esse terceiro?
Era o «Levantado do Chão», que o Saramago me apresentou, que eu li, e de que gostei - nada a dizer sobre o livro...
E que eu, pessoalmente, acho que é um dos melhores livros do Saramago...
Exactamente, é verdade, é um excelente romance. Mas nessa altura a Moraes estava no fim.
Falida?
Exactamente. Os livros anteriores do Saramago não tinham vendido. Ele tinha estado no «Diário de Notícias» e estava a atravessar aquele período negativo posterior, muito marcado politicamente. Tive que lhe dizer: «José, fiz duas experiências, não resultaram, lamento não ter condições para poder fazer a terceira.» E não publiquei. Esse livro, por coincidência e por felicidade - e digo-o sem nenhum um rancor...
... foi a explosão...
... foi o início da explosão de Saramago e do seu sucesso futuro. Portanto, passei a ter no meu «curriculum» de editor o ter recusado publicar um futuro Prémio Nobel.
Foi o único editor que se recusou a publicar Saramago em Portugal?
Sim, porque ele mudou-se imediatamente para a Caminho, que tem sido a sua editora. Não sei se teve outras recusas antes de mim, provavelmente teve.
Essa é uma nódoa inapagável!
E não é a única! Na vida dos editores, essas coisas acontecem com relativa frequência: o não se apostar num autor e ter uma grande surpresa.
Ficou surpreendido quando Saramago ganhou o Nobel?
Fiquei surpreendido, claro, porque um Nobel nunca se espera. Quando me disseram, eu estava em Frankfurt, no meio de uma reunião. Claro que fiquei contente. Mas foi mais um contentamento do que uma surpresa.
Voltou a dizer a si próprio «que grande estúpido que eu fui!»?
Sim... Lembro-me que, depois, estive com o Saramago, sentado, no «stand» da Dom Quixote, num momento de descanso, já depois de ser Nobel. Estivemos a falar e divertimo-nos um pouco com essa situação.
Não ficaram sequelas entre os dois?
Da minha parte, nunca. Da parte do José Saramago, creio que ele teve desgosto com essa situação e suponho que nunca me perdoou ou entendeu esse gesto. Sempre relatou isso como se eu tivesse tido pressões para não o editar. E isso não é verdade.
Que tipo de pressões?
Políticas, empresariais, eu sei lá.
Mas vocês pertenceram ao mesmo partido, ainda por cima.
Sim, sim, sim.
Nessa altura, você ainda estava no PCP?
Ainda estava, o que mostra o absurdo da situação.
Mais uma razão para ele ficar magoado!
Exactamente. Saramago vivia um momento muito difícil, em que estava acossado, perseguido. Ele esqueceu-se que eu o apoiei nesses momentos difíceis, até do ponto de vista financeiro, com trabalho de tradução que nunca lhe faltou e que sempre lhe dei através da Moraes, onde há imensos livros traduzidos por Saramago. Ele estava muito magoado e tudo o que lhe acontecia de mau, para ele, vinha de pressões, de ajustes de contas - mas nesse caso nada disso se passou.
Aderiu ao PCP quando?
A seguir ao 25 de Abril. Cheguei a ser responsável por uma coisa chamada «célula dos editores», imagine. Existia uma grande actividade cultural em torno do PCP.
Quem era o seu controleiro?
Não, eu é que era o controleiro da célula; em cima, prestava contas, digamos assim, a um jovem que não era escritor mas que veio a ser, chamado Mário de Carvalho. Nessa altura, o PCP tinha os intelectuais todos do seu lado. Depois, todos nós começámos a confrontar-nos com dificuldades. E cada um, por razões diversas, foi-se afastando.
Quando é que se afastou?
Nem eu lhe sei dizer, mas não muitos anos depois. Não foi um convívio muito largo. Mas é uma parte da minha vida que eu continuo a respeitar.
Não houve, portanto, uma ruptura.
Foi o deixar de ir, o deixar de aparecer, o deixar diluir, sem nenhum conflito, espectáculo ou cena.
Ainda se sente situado na esquerda?
Evidentemente. Continuo a ser um homem de esquerda, mas já numa outra área da esquerda.
Mas o que é que distingue um editor de esquerda de um editor de direita?
Não sei, não sei. Eu procuro dar voz a valores culturais que têm a ver com o pensamento e a reflexão, sem os classificar como de direita ou de esquerda. Não pergunto a ninguém se é de direita ou de esquerda para publicar um livro - publico-lhe o livro se ele tem importância enquanto tal, independentemente de o autor ser de direita ou de esquerda..
Quem o levou para o PCP?
Já não me lembro bem.
Ou não quer dizer?
Foram certamente escritores e gente da área da cultura.
Consta que António Lobo Antunes ainda não teve uma palavra para o seu (ex-) editor.
É verdade. Lobo Antunes apoiou desde o início, sem procurar conhecer qualquer «contraditório» (como agora se diz), a actual gerência da editora. Fez o que achou que devia ter feito. Não lhe sobrou para mim, durante todo este processo, uma única palavra de amizade. Já não falo, evidentemente, de qualquer eventual solidariedade.
Foram amigos durante muitos anos, conhece-o bem. Como explica o seu comportamento?
António Lobo Antunes é um dos nossos grandes escritores, ninguém terá dúvidas a esse respeito - eu não tenho. Mas, como todos os grandes escritores, é uma personalidade complexa. «Um livro escreve-se com a mão, não com a cabeça» - disse ele em entrevistas recentes. O que implica evidentemente um treino apurado para a mão. Distinto do da cabeça - e certamente também do coração... Dos seus 25 anos de escritor, recentemente comemorados, 23 foram passados comigo, lado a lado, estreitamente, cruzando muitos aspectos decisivos das nossas vidas - pessoais e profissionais. Um longo casamento - como ele próprio dizia e escreveu. Recordo todos esses anos com saudade e muita amizade. Foram 23 anos de trabalho duro, para atingir o que hoje se atingiu. Muitas coisas importantes ficaram a ligar-nos. Vinte e três anos são vinte e três anos, não se apagam facilmente. Leia-se o livro de Maria Luísa Blanco, «Conversas com António Lobo Antunes», e o que lá está escrito em muitas das suas páginas. Pelo menos até que, em próximas edições, seja branqueado o que lá está - como acontece na «Fotobiografia» recentemente publicada...
Onde o seu editor é simplesmente ignorado.
Nem o editor, nem o amigo de 23 anos... António nem sequer me enviou este seu novo romance, apesar de eu ainda o ter lido em original e ter acompanhado todo o período do seu trabalho de escrita. E de lhe ter até enviado um breve comentário escrito a meio dessa primeira leitura.
Magoado com Lobo Antunes?
A vida de um editor também é feita destas coisas... Passemos adiante, voltemos a página... fico dispensado de ir a Estocolmo.
O editor que recusou publicar Saramago
Quando estava na editora Moraes, você censurou, entre aspas (no sentido em que não publicou), o terceiro original de José Saramago.
Nós não temos a mesma leitura dos acontecimentos, porque o Saramago conta isso de uma maneira e eu conto de outra. Peço desculpa ao Saramago por considerar que ele conta mal, porque ele acha que existiram influências sinistras por trás da minha decisão. E a verdade é que não existiram influências sinistras nenhumas, foi uma coisa bastante mais prosaica. Ou seja: eu publiquei dois livros do José Saramago...
A saber?
Um livro de contos, que se chamava «Objecto Quase», e um romance, chamado «Manual de Pintura e Caligrafia».
O terceiro é que não. Qual era esse terceiro?
Era o «Levantado do Chão», que o Saramago me apresentou, que eu li, e de que gostei - nada a dizer sobre o livro...
E que eu, pessoalmente, acho que é um dos melhores livros do Saramago...
Exactamente, é verdade, é um excelente romance. Mas nessa altura a Moraes estava no fim.
Falida?
Exactamente. Os livros anteriores do Saramago não tinham vendido. Ele tinha estado no «Diário de Notícias» e estava a atravessar aquele período negativo posterior, muito marcado politicamente. Tive que lhe dizer: «José, fiz duas experiências, não resultaram, lamento não ter condições para poder fazer a terceira.» E não publiquei. Esse livro, por coincidência e por felicidade - e digo-o sem nenhum um rancor...
... foi a explosão...
... foi o início da explosão de Saramago e do seu sucesso futuro. Portanto, passei a ter no meu «curriculum» de editor o ter recusado publicar um futuro Prémio Nobel.
Foi o único editor que se recusou a publicar Saramago em Portugal?
Sim, porque ele mudou-se imediatamente para a Caminho, que tem sido a sua editora. Não sei se teve outras recusas antes de mim, provavelmente teve.
Essa é uma nódoa inapagável!
E não é a única! Na vida dos editores, essas coisas acontecem com relativa frequência: o não se apostar num autor e ter uma grande surpresa.
Ficou surpreendido quando Saramago ganhou o Nobel?
Fiquei surpreendido, claro, porque um Nobel nunca se espera. Quando me disseram, eu estava em Frankfurt, no meio de uma reunião. Claro que fiquei contente. Mas foi mais um contentamento do que uma surpresa.
Voltou a dizer a si próprio «que grande estúpido que eu fui!»?
Sim... Lembro-me que, depois, estive com o Saramago, sentado, no «stand» da Dom Quixote, num momento de descanso, já depois de ser Nobel. Estivemos a falar e divertimo-nos um pouco com essa situação.
Não ficaram sequelas entre os dois?
Da minha parte, nunca. Da parte do José Saramago, creio que ele teve desgosto com essa situação e suponho que nunca me perdoou ou entendeu esse gesto. Sempre relatou isso como se eu tivesse tido pressões para não o editar. E isso não é verdade.
Que tipo de pressões?
Políticas, empresariais, eu sei lá.
Mas vocês pertenceram ao mesmo partido, ainda por cima.
Sim, sim, sim.
Nessa altura, você ainda estava no PCP?
Ainda estava, o que mostra o absurdo da situação.
Mais uma razão para ele ficar magoado!
Exactamente. Saramago vivia um momento muito difícil, em que estava acossado, perseguido. Ele esqueceu-se que eu o apoiei nesses momentos difíceis, até do ponto de vista financeiro, com trabalho de tradução que nunca lhe faltou e que sempre lhe dei através da Moraes, onde há imensos livros traduzidos por Saramago. Ele estava muito magoado e tudo o que lhe acontecia de mau, para ele, vinha de pressões, de ajustes de contas - mas nesse caso nada disso se passou.
Aderiu ao PCP quando?
A seguir ao 25 de Abril. Cheguei a ser responsável por uma coisa chamada «célula dos editores», imagine. Existia uma grande actividade cultural em torno do PCP.
Quem era o seu controleiro?
Não, eu é que era o controleiro da célula; em cima, prestava contas, digamos assim, a um jovem que não era escritor mas que veio a ser, chamado Mário de Carvalho. Nessa altura, o PCP tinha os intelectuais todos do seu lado. Depois, todos nós começámos a confrontar-nos com dificuldades. E cada um, por razões diversas, foi-se afastando.
Quando é que se afastou?
Nem eu lhe sei dizer, mas não muitos anos depois. Não foi um convívio muito largo. Mas é uma parte da minha vida que eu continuo a respeitar.
Não houve, portanto, uma ruptura.
Foi o deixar de ir, o deixar de aparecer, o deixar diluir, sem nenhum conflito, espectáculo ou cena.
Ainda se sente situado na esquerda?
Evidentemente. Continuo a ser um homem de esquerda, mas já numa outra área da esquerda.
Mas o que é que distingue um editor de esquerda de um editor de direita?
Não sei, não sei. Eu procuro dar voz a valores culturais que têm a ver com o pensamento e a reflexão, sem os classificar como de direita ou de esquerda. Não pergunto a ninguém se é de direita ou de esquerda para publicar um livro - publico-lhe o livro se ele tem importância enquanto tal, independentemente de o autor ser de direita ou de esquerda..
Quem o levou para o PCP?
Já não me lembro bem.
Ou não quer dizer?
Foram certamente escritores e gente da área da cultura.
Terça-feira, Outubro 12, 2004
161 - A Costa dos Murmúrios
Fui hoje ver, em sessão privada, o filme de Margarida Cardoso (produção Filmes do Tejo), extraído do romance A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge.
Excelente interpretação de Beatriz Batarda. Total respeito pelo "clima" do livro.
Recomendo que não percam.
Excelente interpretação de Beatriz Batarda. Total respeito pelo "clima" do livro.
Recomendo que não percam.
Segunda-feira, Outubro 11, 2004
160 - Eça de Queirós
"Este governo não cairá porque não é um edifício;
sairá com benzina porque é uma nódoa."
sairá com benzina porque é uma nódoa."
Eça de Queirós
Sexta-feira, Outubro 08, 2004
159 - Entrevista à revista "Magazine Artes"
Transcrevo o texto de uma entrevista concedida à revista "Magazine Artes", nº 22, Outubro de 2004.
As perguntas foram do Carlos Pinto Coelho.
1. A edição do livro faz-se, actualmente, com uma abundância de produção que excede a procura. Vale a pena continuar a afrontar essa evidência com a quantidade de títulos que saem por ano em Portugal ?
R. Não sei como responder... Sou de uma geração que ama os livros, que aprendeu tudo, ou quase tudo, com os livros. Às vezes até a vida, nós aprendíamos nos livros - impossibilitados que estávamos, por esses tempos, de a viver na realidade.
Falar em abundância, quando se fala de livros, num país que não lê muito, choca-me um pouco, confesso.
Mas sou obrigado a reconhecer que é verdade, que se produzem muitos livros, que se produzem muitos livros que ninguém lê, em quantidades que são excessivas relativamente à sua procura, que os elevados stocks imobilizados são hoje o grande sufoco das editoras, com os elevados custos da sua armazenagem, do seu manuseamento, da sua movimentação sob a forma de escassas unidades, do seu ir e voltar das Livrarias, etc., etc.
Por outro lado faltam-nos muitos livros... livros que fazem parte do nosso património cultural, que não existem, que deveriam estar disponíveis, que deveriam estar a ser recomendados para leitura, que deveriam ser permanentemente re-lidos.
E há ainda o lixo... que de há uns anos para cá invadiu também o nosso mercado, como em todos os outros mercados. Os livros que se fazem em grandes quantidades, que se vendem em grandes quantidades, promovidos largamente por uma certa comunicação social, a maior parte das vezes autênticas agressões aos padrões mínimos da qualidade, estropiando a língua, o pensamento, o nosso bom-gosto (não estou a referir-me, evidentemente, à chamada literatura light ou pop ou outra coisa qualquer, refiro-me ao lixo, verdadeiramente ao lixo...).
Depois, claro, há então os bons livros, os bons autores, as obras de referência fundamentais, aquelas que para circularem e viverem necessitam de todo o restante enquadramento que referi. Mesmo o do lixo...
Estamos a falar de uma indústria, queremos cada vez mais falar do livro como de uma indústria, tal como os homens de cinema desejariam poder fazer relativamente à sua actividade. Quanto mais filmes, melhores filmes; quanto mais livros, maior capacidade de selecção das leituras. Uma indústria, na era moderna, produz sempre lixos. É inevitável. Há sempre no ar uma poeira... havemos de aprender a seleccioná-la, cada vez com mais destreza.
2. A leitura de livros impressos sempre foi uma prática de minorias. A globalização das tecnologias de distribuição da leitura vai fazer emagrecer ainda mais essas minorias?
R. Não creio, pelo que disse antes.
Não devemos ter medo que o livro se torne uma industria.
Não gosto da globalização, mas não vejo outro remédio senão ter de aprender a viver com ela. Ela tornou o livro um produto menos sagrado, mais acessível, mais fácil de tocar onde quer que esteja, na livraria, no hipermercado, nos grandes espaços, nos quiosques ao lado dos jornais e das revistas, nas bibliotecas de leitura pública, quem dera que nas escolas um pouco mais do que actualmente.
Sou dos que pensam, repito, que quanto mais se ler (mesmo o lixo) mais se aprende, maior é a nossa capacidade de seleccionar as novas leituras. Suponho que foi isso o que aconteceu connosco, aqueles que hoje tanto amam e defendem os livros e a leitura. Quando jovem, eu lia tudo o que me punham à frente, ou até o que me escondiam... foi isso que apurou o meu gosto actual, aquilo que eu posso chamar o meu gosto actual.
3. As cópias clandestinas nas escolas devem ser encaradas como um prejuízo comercial e um atentado legal, mas também como um investimento em hábitos de leitura?
R. Nisso sou um pouco radical. Não vejo nas cópias clandestinas qualquer espécie de investimento. Vejo nelas um roubo. Um roubo aos direitos do trabalho dos autores, dos tradutores, dos revisores, dos designers, dos editores, da industria gráfica, etc.
Aprender a conviver com os livros tem de ser também aprender a defender esta realidade. Embora produto de trabalho intelectual, incorporando factores como a criatividade, a imaginação, o pensamento, etc., o livro não é feito de fumo, não é um objecto sem valor que se possa colocar em circulação através de cópias clandestinas.
Só uma industria forte é capaz de produzir e colocar em circulação cada vez mais livros, em cada vez mais locais, cada vez mais baratos. Há que defender essa industria, há que defender e respeitar o trabalho dos criadores intelectuais.
Como é que José Cardoso Pires, por exemplo, foi capaz de ser, desde muito cedo, um escritor profissional ? Através dos direitos de autor recebidos das cópias clandestinas de O Delfim, que se faziam para circulação escolar ?
4. O que deve ser, hoje, em seu entender, um editor livreiro consciente: audaz guardador do rebanho ? prudente vendilhão do templo ?
R. Apetece-me dizer apenas: um gestor, um bom gestor, um gestor preparado ao longo dos anos, um homem feito de experiências diversas, um bom compatibilizador de realidades muito distintas, como julgo se pode entrever do que disse antes. Mas também, como diria o meu amigo e colega Carlos Araujo, um técnico altamente especializado em... ideias gerais. Um amigo leal dos seus autores, o seu primeiro leitor, um leitor treinado e exigente.
Um homem de cultura ? - já agora...
5. Confie-nos alguma memória grata da sua relação com escritores que editou. Sabemos de si e de José Cardoso Pires, de si e do primeiro "élan" literário de Inês Pedrosa. Mas há mais, certamente...
R. Cultivei desde muito cedo (falo dos finais dos sessentas, princípios dos setentas) essa estreita e exigente relação com os meus autores, desde quando não era uso cultivar-se tal coisa na edição portuguesa. Editar autores portugueses era pagar direitos em percentagens elevadas, fazer tiragens de 3 mil exemplares, demorar vários anos para os vender. Os editores não estavam para isso. Tendo ainda por cima que aturar os autores, ao final da tarde, todos os dias, a bater-lhes à porta, reclamando: o meu livro não está nas livrarias...
Eu fui dos poucos a conseguir isso: aturá-los...
A achar graça às suas histórias, a ir com eles para os copos, a ler com atenção e cuidado os seus textos, a saber ouvi-los e a respeitá-los, a levantar-me cedo se eles me queriam para o pequeno-almoço, a deitar-me tarde se eles precisavam de um passeio nocturno, a pé, para contar as dificuldades de um próximo livro, a tentar que os seus livros estivessem sempre nas livrarias, que os jornais falassem deles, que os prémios os não esquecessem, que os agentes internacionais os incluissem nas suas agendas...
Sempre acreditei que um país que se preze tem de saber olhar para o seu umbigo, tem de aprender a ler os seus autores.
Hoje, fico feliz quando eles atingem 50 mil exemplares de vendas em poucos meses, quando os prémios literários lhes são atribuídos, quando os agentes internacionais os disputam, quando os jornais os assediam.
Acho que valeu a pena.
Pois valeu...
158 - ELFRIEDE JELINEK: "Siento más desesperación que alegría"
La escritora austriaca desea que el premio "no signifique nada" para Austria
Perdoem a transcrição directa do jornal espanhol La Vanguardia:
La cultura germana celebró ayer la concesión del Nobel de Literatura a la austriaca Elfriede Jelinek. La noticia abrió los noticiarios de la televisión alemana y el Gobierno de Berlín se apresuró a felicitar a la premiada. Pero, en entrevistas a medios de su país, la escritora rebajó la euforia y advirtió que Austria, con cuyos estamentos se ha enfrentado de forma repetida, no podía colgarse ninguna medalla. Jelinek, de 57 años, hizo honor a su carácter incómodo. "Por supuesto que me alegro, no tiene sentido negarlo, pero siento en realidad más desesperación que alegría. No me siento preparada como persona para hacer frente a la opinión pública", dijo a la agencia austriaca de noticias (APA). De entrada, la escritora ha anunciado que no irá a Estocolmo a recoger el galardón. Por motivos psíquicos, dijo.
(...)
En la tradición de autores malditos en su tierra, como Thomas Bernhard, Jelinek es muy crítica con su país, al que acusa de no enfrentarse abiertamente con su pasado nazi. "No me gustaría que esto (el Nobel) tuviese un significado para el país. Estoy totalmente distanciada de este Gobierno. Y no estoy segura de que todos los que ahora se alegran se alegren de verdad", dijo en la citada entrevista.
(...)
La autora, enemiga feroz de Haider, admitió a APA: "Cuando a una se le otorga el premio como mujer, también lo recibe como mujer, y una no puede alegrarse de forma ilimitada. Si Peter Handke, que merece el premio mucho más que yo, recibiese el premio, sólo lo recibiría como Peter Handke".
Quarta-feira, Setembro 29, 2004
157 - LIBER - BARCELONA
"Es fundamental que logremos pasar del saber leer al querer leer"
"afirmado ayer por la ministra de Cultura, Carmen Calvo, en el acto inaugural Liber 2004, celebrado en el Palau de Congressos de Montjuïc."
Terça-feira, Setembro 28, 2004
156 - O RUÍDO, OS LIVROS
Una idea es válida en tanto se difunde en el lugar y en el momento adecuados, amigo mío.
(Luther Blisset, Q)
La industria editorial (...) anda sobrada de producto.
La industria editorial (...) anda sobrada de producto.
Hay tanto que, en cierto modo, los libros superficiales censuran parcialmente - a causa del ruido que generan - lo mejor que se edita, que, por cierto, es mucho.
Jordi Nadal
Libros o Velocidad
Segunda-feira, Setembro 27, 2004
155 - PHILIP ROTH, ainda
Excerto do comentário de Eduardo Prado Coelho, publicado no suplemento "Mil Folhas", Público de 25.09.2004
Todos nós temos escritores que admiramos sem reservas, mesmo quando eles produzem obras menores. Ninguém escreve sempre obras-primas e todos sabemos que um percurso é feito de intermitências. Amar um escritor é ser capaz de aceitar essa cadência e considerar que estamos do lado dele nos bons e nos maus momentos. A obra de Philip Roth é desde há muito uma das minhas obsessões. Cada um dos seus livros dá-me uma alegria incondicional. Alguns são verdadeiras criações de primeiro plano: "O Teatro de Sabbath", "A Culpa Humana" e sobretudo essa obra-prima entre as obras-primas que é "A Contravida" estão neste caso. Outras são momentos de confidencialidade, desabafos existenciais, fragmentos de uma autobiografia sempre entrevista e sempre iludida. São as pedras com que se constroem os primeiros.
Quarta-feira, Março 17, 2004
154 - O NATAL DO SINALEIRO
Na próxima sexta-feira, dia 19 de Março, às 19.00h, as Publicações Dom
Quixote irão apresentar publicamente "O Natal do Sinaleiro e outras Crónicas",
de José Luís Saldanha Sanches.
Na Biblioteca Municipal Central - Palácio Galveias (ao
Campo Pequeno) sendo a obra será apresentada por Fernando Araújo (professor da
Faculdade de Direito de Lisboa).
“ De que falam estas crónicas?
Falam-nos – as crónicas e os contos de Natal (o do sinaleiro ante-25 de Abril incluído) – de um Portugal das pequeninas corrupções transformado com o correr dos decénios num Portugal em que o aparelho de Estado se encontra autenticamente ocupado por bandos organizados. De um Portugal em que a corrupção se “democratizou”, alargando-se a camadas cada vez maiores. De um Portugal em que os pagamentos por fora, as luvas, as comissões, deixaram de ser regidas pelo direito consuetudinário e passaram a ter a “dignidade” de direito constitucional. “Talvez um direito constitucional atípico, mas certamente constitucional”, satiriza José Luís Saldanha Sanches ao formular, as preocupantes acusações que acabo de ecoar e com cuja pertinência inteiramente concordo.”
do Prefácio de Adelino Gomes
O AUTOR
José Luís Saldanha Sanches nasceu em Lisboa, em 1944. Em 1964, entra para a Faculdade de Direito de Lisboa. Adere cedo ao movimento estudantil, foi militante do PCP e mais tarde do MRPP. Foi preso por várias vezes tendo passado na prisão de Peniche e de Caxias um total de seis anos. É actualmente professor na Faculdade de Direito de Lisboa, considerado um dos nossos maiores especialistas em Direito Fiscal.
Quixote irão apresentar publicamente "O Natal do Sinaleiro e outras Crónicas",
de José Luís Saldanha Sanches.
Na Biblioteca Municipal Central - Palácio Galveias (ao
Campo Pequeno) sendo a obra será apresentada por Fernando Araújo (professor da
Faculdade de Direito de Lisboa).
“ De que falam estas crónicas?
Falam-nos – as crónicas e os contos de Natal (o do sinaleiro ante-25 de Abril incluído) – de um Portugal das pequeninas corrupções transformado com o correr dos decénios num Portugal em que o aparelho de Estado se encontra autenticamente ocupado por bandos organizados. De um Portugal em que a corrupção se “democratizou”, alargando-se a camadas cada vez maiores. De um Portugal em que os pagamentos por fora, as luvas, as comissões, deixaram de ser regidas pelo direito consuetudinário e passaram a ter a “dignidade” de direito constitucional. “Talvez um direito constitucional atípico, mas certamente constitucional”, satiriza José Luís Saldanha Sanches ao formular, as preocupantes acusações que acabo de ecoar e com cuja pertinência inteiramente concordo.”
do Prefácio de Adelino Gomes
O AUTOR
José Luís Saldanha Sanches nasceu em Lisboa, em 1944. Em 1964, entra para a Faculdade de Direito de Lisboa. Adere cedo ao movimento estudantil, foi militante do PCP e mais tarde do MRPP. Foi preso por várias vezes tendo passado na prisão de Peniche e de Caxias um total de seis anos. É actualmente professor na Faculdade de Direito de Lisboa, considerado um dos nossos maiores especialistas em Direito Fiscal.
Domingo, Fevereiro 15, 2004
153 - APENAS UM PEDANTE...
Não há dúvida.
Ultimamente, ao fim de semana, o Expresso tem-nos surpreendido com algumas notícias importantes nas suas primeiras páginas.
Desta vez, não pode deixar de se destacar, ficámos a saber das candidaturas de Bush e de Blair ao Prémio Nobel da Paz e, claro, da finalmente assumida (embora com subtis correcções de estratégia) candidatura presidencial de Pedro Santana Lopes.
Agora sim, podemos dizer: o homem é um pedante e isso dificulta-lhe o olhar sobre si próprio.
Ultimamente, ao fim de semana, o Expresso tem-nos surpreendido com algumas notícias importantes nas suas primeiras páginas.
Desta vez, não pode deixar de se destacar, ficámos a saber das candidaturas de Bush e de Blair ao Prémio Nobel da Paz e, claro, da finalmente assumida (embora com subtis correcções de estratégia) candidatura presidencial de Pedro Santana Lopes.
Agora sim, podemos dizer: o homem é um pedante e isso dificulta-lhe o olhar sobre si próprio.
Sábado, Fevereiro 14, 2004
152 - MAIS LIVROS... em breve.
O CASO "UNIVERSIDADE MODERNA"
O CASO "UNIVERSIDADE MODERNA"
“É claro que a opinião pública não é isenta, está dominada por preconceitos, pode ser também objecto de manipulação. Talvez. O processo penal não é perfeito e o mundo também o não é. Mas o processo penal cumpriu ao menos parcialmente a sua função: os tais factos vieram para a praça pública. Estão num processo que todos podem consultar.
O resultado não é perfeito: mas mesmo assim talvez tenha alguma eficácia dissuasória.
E não é essa a função mais importante do Direito penal?
Todos estes dilemas, que atravessam sempre uma investigação criminal e o seu julgamento, são refinadamente tratados pelo Rui Costa Pinto nas crónicas que agora edita.”
Do Prefácio de Maria José Morgado
Esta obra conta ainda com testemunhos de Manuel Dores: Procurador adjunto do Ministério Público; Manuel Vaz: Revisor Oficial de Contas da Dinensino; José Maria Bello Dias: Advogado; Jorge Raposo: Juiz; Paula Lourenço: Advogada; Raúl Soares da Veiga: Advogado
O Autor
Rui Costa Pinto, 43 anos, Grande Repórter da revista Visão, desempenhou diversas funções em órgãos de comunicação social escrita e falada. Após ter frequentado o Instituto de Ciências Políticas de Paris, regressou ao Porto, onde nasceu, a 7 de Dezembro de 1960, para abraçar o jornalismo, “a profissão mais bonita do mundo”, como gosta de lhe chamar. Após a sua passagem pelas delegações do Diário de Notícias e do Diário e Semanário Económico, no Porto, rumou ao Oriente para descobrir a arte do jornalismo radiofónico, na TDM, em Macau, onde assinou diversos artigos como correspondente do Diário de Notícias. De volta a Portugal, integrou a redacção do semanário O Independente e, posteriormente, a equipa de jornalistas da Visão, a partir de Março de 2001.
RAFAEL - o novo romance de Manuel Alegre
Andará de casa em casa, de hotel em hotel, mudará o nome, mudará o rosto, deixará crescer o bigode, usará óculos sem lentes, um passaporte para os hotéis, outro para viajar, em cada novo documento um nome e uma profissão diferente, está clandestino dentro de si mesmo, perdeu os locais, as referências, a identidade. É ele e já não é, não usa o nome próprio, tem quatro ou cinco pseudónimos que são um outro ou outros, heterónimos do desaparecido que traz dentro de si, ora é francês, ora espanhol, ora argelino, ele é sozinho, não propriamente, como queria o outro, uma literatura, mas uma nova brigada internacional.
O Autor
Manuel Alegre nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936. Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e actor do Teatro Universitário da Universidade de Coimbra (TEUC). Em 1961, é mobilizado para Angola onde participa num movimento de resistência no interior das Forças Armadas e numa tentativa de revolta militar. Preso pela PIDE, passará seis meses na fortaleza de S. Paulo em Luanda, onde encontra Luandino Vieira. Ali escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro A Praça da Canção (1965). No início de 1964 volta a Coimbra, mas a perseguição policial obriga-o à clandestinidade e, posteriormente, à emigração. Em Outubro de 1964 é eleito membro do comité nacional da Frente Patriótica de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel na emissora Voz da Liberdade. Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974. É actualmente deputado pelo Partido Socialista à Assembleia da República .
É autor, entre outras obras de 30 Anos de Poesia (prefácio de Eduardo Lourenço, 1995, em 2ª edição), que assinala os 30 anos da publicação de A Praça da Canção, do volume de contos O Homem do País Azul (1989) e dos romances Jornada de África (1989, 2ª edição), Alma (1995, 7ª edição) e A Terceira Rosa (1998, 2ª edição), da colectânea de textos políticos Contra a Corrente (1997) e dos livros de poesia Senhora das Tempestades (1998, 2ª edição) e Rouxinol do Mundo – Dezanove Poemas Franceses e um provençal subvertidos para Português (1998). Ao seu livro Senhora das Tempestades foram atribuídos o Grande Prémio de Poesia APE-CTT 1998 e o Prémio da Crítica 1998 da Associação Internacional dos Críticos Literários.
A sua poesia encontra-se reunida em Obra Poética (1999), volume no qual estão incluídos os seus livros Pico, Alentejo e Ninguém e Che bem como inúmeros inéditos. Obra Poética teve a sua 6ª edição em 2000. Em 2002 publica o ensaio A Arte de Marear e a novela Cão Como Nós. Rafael é o seu mais recente romance.
PARA ALÉM DA CRENÇA - V. S. NAIPAUL, Prémio Nobel de Literatura em 2001
Este é um livro sobre um dos temas mais importantes e mais perturbadores do nosso tempo. Porém, não é uma obra de opinião. É – à maneira de Naipaul – um trabalho muito rico e muito humano, cheio de pessoas e de histórias. O islamismo é uma religião árabe que faz imperiosas exigências de arabização aos seus convertidos. Nesta óptica, é mais do que uma fé privada, pode tornar-se uma neurose. O que fez este Islão árabe à História da Indonésia, do Irão, do Paquistão e da Malásia? Como é que estes novos muçulmanos vêem o seu passado – e o seu futuro?
Numa continuação de Among the Believers, o relato clássico das suas viagens por estes países, V. S. Naipaul está de volta, após um intervalo de dezassete anos, para descobrir como e o que pregam os convertidos.
O Autor
V. S. Naipaul nasceu em Trinidade, no ano de 1932. Frequentou o University College, em Oxford, e estabeleceu-se em Londres, onde iniciou a sua actividade de escritor. As suas obras de ficção incluem: The Mystic Masseur (1957, Prémio John Llewellyn Rhys), The Suffrage of Elvira (1958), Miguel Street (1959; Prémio Somerset Maugham), Uma Casa Para Mr. Biswas (1961), Mr. Stone and the Knights Companion (1963; Prémio Hawthornden), The Mimic Man (1967; Prémio W. H. Smith), A Flag on the Island (1967), In a Free State (1971; Booker Prize), Guerrillas (1975), A Curva do Rio (1979), The Enigma of Arrival (1987) e A Way in the World (1994). V. S. Naipaul é ainda autor de uma vasta bibliografia de viagens e testemunhos sobre a Ásia, a América do Sul, a África e o Médio Oriente: The Middle Passage (1962), An Area of Darkness (1964), India: A Wounded Civilization (1977) e India: A Million Mutinies Now (1990). Publicou ainda The Loss of El Dorado (1969), The Overcrowded Barracoon (1972), The Return of Eva Perón juntamente com The Killings in Trinidad (1980), Among the Believers (1981), Finding the Centre (1984) e Letters Between a Father and Son (1999). Em 1995, regressou à Indonésia, ao Irão, ao Paquistão e à Malásia. Para Além da Crença é o relato destas viagens. V. S. Naipaul recebeu o grau de Cavaleiro, na lista de honra do Ano Novo de 1990, por serviços à Literatura e em 1993, foi o primeiro a merecer o Prémio David Cohen de literatura britânica e em 2001 foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura.
O resultado não é perfeito: mas mesmo assim talvez tenha alguma eficácia dissuasória.
E não é essa a função mais importante do Direito penal?
Todos estes dilemas, que atravessam sempre uma investigação criminal e o seu julgamento, são refinadamente tratados pelo Rui Costa Pinto nas crónicas que agora edita.”
Do Prefácio de Maria José Morgado
Esta obra conta ainda com testemunhos de Manuel Dores: Procurador adjunto do Ministério Público; Manuel Vaz: Revisor Oficial de Contas da Dinensino; José Maria Bello Dias: Advogado; Jorge Raposo: Juiz; Paula Lourenço: Advogada; Raúl Soares da Veiga: Advogado
O Autor
Rui Costa Pinto, 43 anos, Grande Repórter da revista Visão, desempenhou diversas funções em órgãos de comunicação social escrita e falada. Após ter frequentado o Instituto de Ciências Políticas de Paris, regressou ao Porto, onde nasceu, a 7 de Dezembro de 1960, para abraçar o jornalismo, “a profissão mais bonita do mundo”, como gosta de lhe chamar. Após a sua passagem pelas delegações do Diário de Notícias e do Diário e Semanário Económico, no Porto, rumou ao Oriente para descobrir a arte do jornalismo radiofónico, na TDM, em Macau, onde assinou diversos artigos como correspondente do Diário de Notícias. De volta a Portugal, integrou a redacção do semanário O Independente e, posteriormente, a equipa de jornalistas da Visão, a partir de Março de 2001.
RAFAEL - o novo romance de Manuel Alegre
Andará de casa em casa, de hotel em hotel, mudará o nome, mudará o rosto, deixará crescer o bigode, usará óculos sem lentes, um passaporte para os hotéis, outro para viajar, em cada novo documento um nome e uma profissão diferente, está clandestino dentro de si mesmo, perdeu os locais, as referências, a identidade. É ele e já não é, não usa o nome próprio, tem quatro ou cinco pseudónimos que são um outro ou outros, heterónimos do desaparecido que traz dentro de si, ora é francês, ora espanhol, ora argelino, ele é sozinho, não propriamente, como queria o outro, uma literatura, mas uma nova brigada internacional.
O Autor
Manuel Alegre nasceu em Águeda a 12 de Maio de 1936. Estudou em Lisboa, no Porto e na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Foi campeão de natação e actor do Teatro Universitário da Universidade de Coimbra (TEUC). Em 1961, é mobilizado para Angola onde participa num movimento de resistência no interior das Forças Armadas e numa tentativa de revolta militar. Preso pela PIDE, passará seis meses na fortaleza de S. Paulo em Luanda, onde encontra Luandino Vieira. Ali escreve grande parte dos poemas do seu primeiro livro A Praça da Canção (1965). No início de 1964 volta a Coimbra, mas a perseguição policial obriga-o à clandestinidade e, posteriormente, à emigração. Em Outubro de 1964 é eleito membro do comité nacional da Frente Patriótica de Libertação Nacional e passa a trabalhar em Argel na emissora Voz da Liberdade. Regressa a Portugal após o 25 de Abril de 1974. É actualmente deputado pelo Partido Socialista à Assembleia da República .
É autor, entre outras obras de 30 Anos de Poesia (prefácio de Eduardo Lourenço, 1995, em 2ª edição), que assinala os 30 anos da publicação de A Praça da Canção, do volume de contos O Homem do País Azul (1989) e dos romances Jornada de África (1989, 2ª edição), Alma (1995, 7ª edição) e A Terceira Rosa (1998, 2ª edição), da colectânea de textos políticos Contra a Corrente (1997) e dos livros de poesia Senhora das Tempestades (1998, 2ª edição) e Rouxinol do Mundo – Dezanove Poemas Franceses e um provençal subvertidos para Português (1998). Ao seu livro Senhora das Tempestades foram atribuídos o Grande Prémio de Poesia APE-CTT 1998 e o Prémio da Crítica 1998 da Associação Internacional dos Críticos Literários.
A sua poesia encontra-se reunida em Obra Poética (1999), volume no qual estão incluídos os seus livros Pico, Alentejo e Ninguém e Che bem como inúmeros inéditos. Obra Poética teve a sua 6ª edição em 2000. Em 2002 publica o ensaio A Arte de Marear e a novela Cão Como Nós. Rafael é o seu mais recente romance.
PARA ALÉM DA CRENÇA - V. S. NAIPAUL, Prémio Nobel de Literatura em 2001
Este é um livro sobre um dos temas mais importantes e mais perturbadores do nosso tempo. Porém, não é uma obra de opinião. É – à maneira de Naipaul – um trabalho muito rico e muito humano, cheio de pessoas e de histórias. O islamismo é uma religião árabe que faz imperiosas exigências de arabização aos seus convertidos. Nesta óptica, é mais do que uma fé privada, pode tornar-se uma neurose. O que fez este Islão árabe à História da Indonésia, do Irão, do Paquistão e da Malásia? Como é que estes novos muçulmanos vêem o seu passado – e o seu futuro?
Numa continuação de Among the Believers, o relato clássico das suas viagens por estes países, V. S. Naipaul está de volta, após um intervalo de dezassete anos, para descobrir como e o que pregam os convertidos.
O Autor
V. S. Naipaul nasceu em Trinidade, no ano de 1932. Frequentou o University College, em Oxford, e estabeleceu-se em Londres, onde iniciou a sua actividade de escritor. As suas obras de ficção incluem: The Mystic Masseur (1957, Prémio John Llewellyn Rhys), The Suffrage of Elvira (1958), Miguel Street (1959; Prémio Somerset Maugham), Uma Casa Para Mr. Biswas (1961), Mr. Stone and the Knights Companion (1963; Prémio Hawthornden), The Mimic Man (1967; Prémio W. H. Smith), A Flag on the Island (1967), In a Free State (1971; Booker Prize), Guerrillas (1975), A Curva do Rio (1979), The Enigma of Arrival (1987) e A Way in the World (1994). V. S. Naipaul é ainda autor de uma vasta bibliografia de viagens e testemunhos sobre a Ásia, a América do Sul, a África e o Médio Oriente: The Middle Passage (1962), An Area of Darkness (1964), India: A Wounded Civilization (1977) e India: A Million Mutinies Now (1990). Publicou ainda The Loss of El Dorado (1969), The Overcrowded Barracoon (1972), The Return of Eva Perón juntamente com The Killings in Trinidad (1980), Among the Believers (1981), Finding the Centre (1984) e Letters Between a Father and Son (1999). Em 1995, regressou à Indonésia, ao Irão, ao Paquistão e à Malásia. Para Além da Crença é o relato destas viagens. V. S. Naipaul recebeu o grau de Cavaleiro, na lista de honra do Ano Novo de 1990, por serviços à Literatura e em 1993, foi o primeiro a merecer o Prémio David Cohen de literatura britânica e em 2001 foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2004
151 - A AUTO-ESTIMA
Até os vírus, em Portugal, necessitam de aumentar a sua auto-estima:
Hi
I'm a Portuguese virus, but because of poor technology in my country I am not able to do anything with your computer
So, please be kind and delete an important file on your system and then forward me to other users.
Thank you.
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Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004
150 - APRESENTAÇÃO DOS CADERNOS DE REPORTAGEM
Estamos aqui esta noite, neste espaço da Sociedade de Geografia de Lisboa, para vos apresentar uma nova colecção da Dom Quixote - Cadernos DQ de Reportagem - cujos 3 primeiros títulos foram sendo colocados no mercado ao longo dos últimos meses.
Trata-se de um projecto que desejamos inovador no espaço editorial português: um espaço dedicado aos grandes temas nacionais, para ser usado pelos melhores repórteres portugueses.
Convidámos para a direcção deste projecto o jornalista José Vegar, a quem eu começo por agradecer a colaboração que nos tem dado e a disponibilidade que tem manifestado neste trabalho em conjunto.
Começar uma coisa nova e pelo princípio, nem sempre é a posição mais fácil. Há que vencer as arestas iniciais, as dificuldades, as inércias, a descrença de alguns. O José Vegar tem sabido fazer isso connosco. Estamos-lhe muito gratos pela parceria.
Este é um espaço dedicado aos jornalistas portugueses. Um espaço onde os seus textos, as suas ideias, as suas reflexões, os seus trabalhos de investigação, poderão ir mais longe e mais fundo, do que lhes permite o espaço dos seus órgãos de comunicação habituais. Mas é um espaço (também) onde os seus textos irão conviver com os textos dos autores literários com quem habitualmente trabalhamos, mostrando com toda a clareza que o jornalismo de reportagem não é uma forma de escrita menor, como muitos acham que é.
Isso fica desde já provado com os três primeiros títulos colocados no mercado: “O Estrago da Nação”, onde Pedro Almeida Vieira aborda o estado de inqualificável degradação a que chegaram a maior parte dos recursos naturais do nosso país; “Olhem para Mim”, onde Fernanda Câncio denuncia os aspectos mais sombrios de uma geração que quer à força ser “modelo”, cultivando a aparência, as imagens e a ilusão - livro que inclui também dois brilhantes textos interpretativos de Alexandre Melo e Inês Pedrosa; e “O Processo Casa Pia na Imprensa”, onde Nuno Ivo e Óscar Mascarenhas nos falam dos reflexos na imprensa dessa nuvem de chumbo e de desconforto que se abateu sobre todos nós, e que não sabemos ainda muito bem como é que vai terminar.
Esperamos com estes 3 primeiros títulos ter mostrado o que desejamos venha a ser esta nova colecção: um espaço de reflexão e de exigência que é proposto ao nossos leitores, feito de verdade, rigor e actualidade, construído pelo melhor do jornalismo de investigação que se cultiva no nosso país.
Felicito portanto com o maior entusiasmo os nossos primeiros 4 autores, e agradeço-lhes toda a colaboração que nos deram, a paciência que tiveram para esta fase de arranque.
Esperamos que, com eles, com a direcção do José Vegar, se consiga ver claramente o que desejamos ter criado: um espaço novo e diferente para o exercício pleno da liberdade de informação, agora que essa liberdade, 30 anos após a instauração da nossa democracia, voltou, surpreendentemente, a ser contestada.
Agradeço também ao nosso autor e jornalista José Pedro Castanheira, a simpatia que teve em aceitar vir aqui, com o seu prestígio, o seu exemplo, e o respeito que a todos inspira, apadrinhar e apresentar este projecto.
Mais livros aparecerão ainda este ano, a começar já no próximo mês de Abril:
“Doping”, de Afonso de Melo e Rogério de Azevedo
“Crimes sem Castigo”, de Manuel Catarino
ou em Setembro
“Espécies em Extinção”, de David Travassos
ou em Outubro
"Mutilação Genital Feminina", de Sofia Branco
Estão pois todos convidados, os jornalistas aqui presentes. O espaço é vosso. É apenas mais um espaço. Mas desejamos que seja um espaço sem fronteiras, o que no momento actual, convenhamos, já não é mau…
Acho que não me esqueci de nada nem de ninguém, vou passar a palavra ao José Vegar, director da Colecção; em seguida ao José Pedro Castanheira; depois aos autores que entenderem também usar-se dela.
Trata-se de um projecto que desejamos inovador no espaço editorial português: um espaço dedicado aos grandes temas nacionais, para ser usado pelos melhores repórteres portugueses.
Convidámos para a direcção deste projecto o jornalista José Vegar, a quem eu começo por agradecer a colaboração que nos tem dado e a disponibilidade que tem manifestado neste trabalho em conjunto.
Começar uma coisa nova e pelo princípio, nem sempre é a posição mais fácil. Há que vencer as arestas iniciais, as dificuldades, as inércias, a descrença de alguns. O José Vegar tem sabido fazer isso connosco. Estamos-lhe muito gratos pela parceria.
Este é um espaço dedicado aos jornalistas portugueses. Um espaço onde os seus textos, as suas ideias, as suas reflexões, os seus trabalhos de investigação, poderão ir mais longe e mais fundo, do que lhes permite o espaço dos seus órgãos de comunicação habituais. Mas é um espaço (também) onde os seus textos irão conviver com os textos dos autores literários com quem habitualmente trabalhamos, mostrando com toda a clareza que o jornalismo de reportagem não é uma forma de escrita menor, como muitos acham que é.
Isso fica desde já provado com os três primeiros títulos colocados no mercado: “O Estrago da Nação”, onde Pedro Almeida Vieira aborda o estado de inqualificável degradação a que chegaram a maior parte dos recursos naturais do nosso país; “Olhem para Mim”, onde Fernanda Câncio denuncia os aspectos mais sombrios de uma geração que quer à força ser “modelo”, cultivando a aparência, as imagens e a ilusão - livro que inclui também dois brilhantes textos interpretativos de Alexandre Melo e Inês Pedrosa; e “O Processo Casa Pia na Imprensa”, onde Nuno Ivo e Óscar Mascarenhas nos falam dos reflexos na imprensa dessa nuvem de chumbo e de desconforto que se abateu sobre todos nós, e que não sabemos ainda muito bem como é que vai terminar.
Esperamos com estes 3 primeiros títulos ter mostrado o que desejamos venha a ser esta nova colecção: um espaço de reflexão e de exigência que é proposto ao nossos leitores, feito de verdade, rigor e actualidade, construído pelo melhor do jornalismo de investigação que se cultiva no nosso país.
Felicito portanto com o maior entusiasmo os nossos primeiros 4 autores, e agradeço-lhes toda a colaboração que nos deram, a paciência que tiveram para esta fase de arranque.
Esperamos que, com eles, com a direcção do José Vegar, se consiga ver claramente o que desejamos ter criado: um espaço novo e diferente para o exercício pleno da liberdade de informação, agora que essa liberdade, 30 anos após a instauração da nossa democracia, voltou, surpreendentemente, a ser contestada.
Agradeço também ao nosso autor e jornalista José Pedro Castanheira, a simpatia que teve em aceitar vir aqui, com o seu prestígio, o seu exemplo, e o respeito que a todos inspira, apadrinhar e apresentar este projecto.
Mais livros aparecerão ainda este ano, a começar já no próximo mês de Abril:
“Doping”, de Afonso de Melo e Rogério de Azevedo
“Crimes sem Castigo”, de Manuel Catarino
ou em Setembro
“Espécies em Extinção”, de David Travassos
ou em Outubro
"Mutilação Genital Feminina", de Sofia Branco
Estão pois todos convidados, os jornalistas aqui presentes. O espaço é vosso. É apenas mais um espaço. Mas desejamos que seja um espaço sem fronteiras, o que no momento actual, convenhamos, já não é mau…
Acho que não me esqueci de nada nem de ninguém, vou passar a palavra ao José Vegar, director da Colecção; em seguida ao José Pedro Castanheira; depois aos autores que entenderem também usar-se dela.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
149 - SABER ESCREVER, SABER FALAR, um livro importante
As línguas não são instrumentos neutros, nem somente um código de transmissão de informações sobre objectos, conceitos, sentimentos. A língua materna influencia, modela e reflecte a nossa concepção do mundo e da vida.
Também por isso, a nossa língua deve ser usada com o espírito de quem se serve de um bem. É um serviço público que, simultaneamente, prestamos e usufruímos.
Este livro põe ao alcance dos leitores os meios para que isto se faça de modo correcto.
Disponibiliza extensa, criteriosa e pormenorizada informação e exemplificação, nos vários domínios que o uso da língua implica.
Trata-se de um contributo minucioso e reflectido, com os olhos num ideal de correcção e adequação, os pés bem assentes nesta terra (um tanto poluída), em que a língua portuguesa tem, hoje, alguma dificuldade em viver de um modo saudável.
De facto, assistimos diariamente a inúmeros atentados ao “corpo da língua”. Não há penalizações legais para este tipo de infracções (este tipo de descuidos) mas, como escreveu Vergílio Ferreira, “há casos em que o erro é evidente e assim, quem nele persiste, deve ser excluído do convívio geral.”
As Autoras
Edite Estrela é licenciada em Filologia Clássica e Mestre em Comunicação Social, Professora de Língua e Literatura Portuguesa durante 15 anos. Orientadora de estágios pedagógicos de Português. Monitora de Cursos de Formação na RTP, TSF, Lusa e Caixa Geral de Depósitos. Conferencista em várias Universidades e outras instituições nacionais e estrangeiras:Academia de Letras de São Paulo, Sociedade de Geografia, Instituto Superior Naval de Guerra, Sociedade de Língua Portuguesa, etc. Foi vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Autora de vários programas sobre Língua Portuguesa para rádio e televisão, designadamente, «Bem Dizer. Bem Escrever», «Crónicas de Bem Dizer» e «Falar Português». Este último, em parceria com o Prof. João David Pinto-Correia, com quem publicou também Guia Essencial da Língua Portuguesa para a Comunicação Social.
Tem vasta obra publicada, de que se destaca: Dúvidas do Falar Português (5 volumes), Bem Dizer. Bem Escrever, A Questão Ortográfica. Colaborou nas obras: Moderno Dicionário da Língua Portugues e Falar Melhor, Escrever Melhor. Tem mantido colaborações regulares em vários jornais (A Capital, Expresso, Jornal de Notícias…) revistas, rádios e televisões.
Maria Almira Soares é licenciada em Filologia Clássica, tendo leccionado, ao longo dos últimos trinta anos, as disciplinas de Literatura Portuguesa e Latim. No domínio do ensino da língua e literatura portuguesas, publicou duas séries de manuais escolares: Vamos ler e Palavras Certas e vários outros livros auxiliares de aprendizagens nesta área de que aqui se destacam Como Fazer um Resumo e Para uma leitura de Mensagem de Fernando Pessoa. Publicou, ainda, no âmbito do ensaio literário, Memorial do Convento, Um Modo de Narrar e Frei Luís de Sousa, Um Drama Psicológico e, no da reflexão pedagógica, Ensinar— Reflexões sobre a Prática Docente.
Maria José Leitão é licenciada em Filologia Românica, tendo leccionado, ao longo dos últimos trinta anos, as disciplinas de Literatura Portuguesa e de Francês. Tem dado variado contributo institucional nas áreas da avaliação, programação e formação, dentro do Ensino Secundário. Exerceu as funções de Orientadora de Estágio do ramo educacional da Faculdade de Letras de Lisboa. Foi co-autora de manuais de Francês e, por solicitação do Instituto do Emprego e Formação Profissional, do Programa de Língua e Cultura Portuguesas, para o 10º, 11º e 12º anos, e do Manual do Formando para o mesmo nível de estudos. Participou no concurso televisivo Falar Português, integrado no programa «Lugar de Encontro».
Também por isso, a nossa língua deve ser usada com o espírito de quem se serve de um bem. É um serviço público que, simultaneamente, prestamos e usufruímos.
Este livro põe ao alcance dos leitores os meios para que isto se faça de modo correcto.
Disponibiliza extensa, criteriosa e pormenorizada informação e exemplificação, nos vários domínios que o uso da língua implica.
Trata-se de um contributo minucioso e reflectido, com os olhos num ideal de correcção e adequação, os pés bem assentes nesta terra (um tanto poluída), em que a língua portuguesa tem, hoje, alguma dificuldade em viver de um modo saudável.
De facto, assistimos diariamente a inúmeros atentados ao “corpo da língua”. Não há penalizações legais para este tipo de infracções (este tipo de descuidos) mas, como escreveu Vergílio Ferreira, “há casos em que o erro é evidente e assim, quem nele persiste, deve ser excluído do convívio geral.”
As Autoras
Edite Estrela é licenciada em Filologia Clássica e Mestre em Comunicação Social, Professora de Língua e Literatura Portuguesa durante 15 anos. Orientadora de estágios pedagógicos de Português. Monitora de Cursos de Formação na RTP, TSF, Lusa e Caixa Geral de Depósitos. Conferencista em várias Universidades e outras instituições nacionais e estrangeiras:Academia de Letras de São Paulo, Sociedade de Geografia, Instituto Superior Naval de Guerra, Sociedade de Língua Portuguesa, etc. Foi vice-presidente da Associação Portuguesa de Escritores. Autora de vários programas sobre Língua Portuguesa para rádio e televisão, designadamente, «Bem Dizer. Bem Escrever», «Crónicas de Bem Dizer» e «Falar Português». Este último, em parceria com o Prof. João David Pinto-Correia, com quem publicou também Guia Essencial da Língua Portuguesa para a Comunicação Social.
Tem vasta obra publicada, de que se destaca: Dúvidas do Falar Português (5 volumes), Bem Dizer. Bem Escrever, A Questão Ortográfica. Colaborou nas obras: Moderno Dicionário da Língua Portugues e Falar Melhor, Escrever Melhor. Tem mantido colaborações regulares em vários jornais (A Capital, Expresso, Jornal de Notícias…) revistas, rádios e televisões.
Maria Almira Soares é licenciada em Filologia Clássica, tendo leccionado, ao longo dos últimos trinta anos, as disciplinas de Literatura Portuguesa e Latim. No domínio do ensino da língua e literatura portuguesas, publicou duas séries de manuais escolares: Vamos ler e Palavras Certas e vários outros livros auxiliares de aprendizagens nesta área de que aqui se destacam Como Fazer um Resumo e Para uma leitura de Mensagem de Fernando Pessoa. Publicou, ainda, no âmbito do ensaio literário, Memorial do Convento, Um Modo de Narrar e Frei Luís de Sousa, Um Drama Psicológico e, no da reflexão pedagógica, Ensinar— Reflexões sobre a Prática Docente.
Maria José Leitão é licenciada em Filologia Românica, tendo leccionado, ao longo dos últimos trinta anos, as disciplinas de Literatura Portuguesa e de Francês. Tem dado variado contributo institucional nas áreas da avaliação, programação e formação, dentro do Ensino Secundário. Exerceu as funções de Orientadora de Estágio do ramo educacional da Faculdade de Letras de Lisboa. Foi co-autora de manuais de Francês e, por solicitação do Instituto do Emprego e Formação Profissional, do Programa de Língua e Cultura Portuguesas, para o 10º, 11º e 12º anos, e do Manual do Formando para o mesmo nível de estudos. Participou no concurso televisivo Falar Português, integrado no programa «Lugar de Encontro».
Sexta-feira, Janeiro 23, 2004
148 - ZADIE SMITH, O Homem dos Autógrafos
Alex-Li Tandem vende autógrafos. O seu negócio, que é uma gota de água numa gigantesca rede mundial de desejos, consiste em procurar nomes escritos sobre papel, coleccioná-los, vendê-los e uma vez por outra falsificá-los – tudo isto para dar às pessoas o que elas desejam: um pedaço de Fama. Mas o que deseja Alex? Afinal apenas o regresso do seu pai, o restabelecimento de um certo tipo de imagem divinizada toda-poderosa e benévola, o fim da religião, qualquer coisa para tirar a dor de cabeça, três raparigas diferentes, virtudes infinitas e o autógrafo raro da actriz de cinema dos anos quarenta Kitty Alexander.
O Homem dos Autógrafos faz uma ronda existencial extremamente divertida pelas coisas gratuitas da modernidade: a celebridade e o lamentável triunfo do símbolo sobre a experiência.
A Autora
Zadie Smith nasceu em Londres em 1975. Estudou na Universidade de Cambridge. Dentes Brancos, o seu primeiro romance, assinalou uma brilhante entrada na literatura e foi galardoado com o Guardian First Book Award, o Whitbread First Novel Award e o The Betty Trask Award.
O Homem dos Autógrafos , o seu mais recente romance, estará em breve nas livrarias.
O Homem dos Autógrafos faz uma ronda existencial extremamente divertida pelas coisas gratuitas da modernidade: a celebridade e o lamentável triunfo do símbolo sobre a experiência.
A Autora
Zadie Smith nasceu em Londres em 1975. Estudou na Universidade de Cambridge. Dentes Brancos, o seu primeiro romance, assinalou uma brilhante entrada na literatura e foi galardoado com o Guardian First Book Award, o Whitbread First Novel Award e o The Betty Trask Award.
O Homem dos Autógrafos , o seu mais recente romance, estará em breve nas livrarias.
147 - TEXTOS DE CONTRACAPA
A falta de tempo, a preguiça, alguma ausência de inspiração, bastante desencanto (com a blogosfera, mas sobretudo com o que lhe é exterior), têm estado a encaminhar este blogue para a literalidade: textos de contracapa são apenas os breves textos informativos com que os editores tentam chamar a atenção dos leitores para os livros que publicam.
Aqui vão ficando alguns, dispersos, anunciando livros que brevemente irão aparecer nas livrarias.
Tomem-nos pelo que são: informações que os meios de comunicação dão com alguma dificuldade...
Aqui vão ficando alguns, dispersos, anunciando livros que brevemente irão aparecer nas livrarias.
Tomem-nos pelo que são: informações que os meios de comunicação dão com alguma dificuldade...
146 - A MANCHA HUMANA, de PHILIP ROTH
Coleman Silk tem um segredo. Mas não se trata do segredo do caso que mantém, aos setenta e um anos, com uma mulher com metade da sua idade e um passado brutalmente devastado. Também não é o segredo do alegado racismo de Coleman, pretexto para a caça às bruxas desencadeada pela universidade e que lhe custou o emprego e, na sua opinião, lhe matou a mulher.
O segredo de Coleman foi guardado durante cinquenta anos: oculto da sua mulher, dos seus quatro filhos, dos seus colegas e dos seus amigos, incluindo o escritor Nathan Zuckerman que - após a morte suspeita de Coleman, com a amante, num desastre de automóvel - resolve compreender como é que aquele homem eminente e íntegro, apreciado como educador durante quase toda a sua vida, forjou a sua identidade e como essa vida tão cuidadosamente controlada acabou por ser deslindada.
Situado na América dos anos 90, onde princípios morais contraditórios e divergências ideológicas são trazidos à luz do dia através da denúncia pública e de rituais de purificação, A Mancha Humana completa a eloquente trilogia de Philip Roth sobre vidas americanas do pós-guerra tão tragicamente determinadas pelo destino da nação como pela «mácula humana» que marca de modo tão indelével a natureza do homem.
Este livro deu origem ao filme A Culpa Humana que teve como protagonistas Nicole Kidman e Anthony Hopkins.
O Autor
Nos anos 90, Philip Roth ganhou os quatro mais importantes prémios literários da América: o National Book Critics Circle Award com Patrimony (1991), o PEN/Faulkner Award com Operation Shylock (1993), o National Book Award com O Teatro de Sabbath (1995), e o Pulitzer Prize com Pastoral Americana (1997). Ganhou o Ambassador Book Award da União de Língua Inglesa com Casei com um Comunista (1998); no mesmo ano foi galardoado com a National Medal of Arts, na Casa Branca. Anteriormente obteve o National Book Critics Circle Award com The Counterlife (1986) e o National Book Award com o seu primeiro livro Goodbye, Columbus (1959). Em 2000 publicou A Mancha Humana, concluindo a trilogia sobre o espírito da América do pós-guerra. Com A Mancha Humana, Roth obteve o seu segundo PEN/Faulkner Award bem como o Britain’s W. H. Smith Award para o Melhor Livro do Ano. Em 2001 recebeu o mais alto galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Gold Medal para ficção, atribuída de seis em seis anos «para o conjunto da obra». O seu mais recente romance, The Dying Animal, foi publicado em 2001.
O segredo de Coleman foi guardado durante cinquenta anos: oculto da sua mulher, dos seus quatro filhos, dos seus colegas e dos seus amigos, incluindo o escritor Nathan Zuckerman que - após a morte suspeita de Coleman, com a amante, num desastre de automóvel - resolve compreender como é que aquele homem eminente e íntegro, apreciado como educador durante quase toda a sua vida, forjou a sua identidade e como essa vida tão cuidadosamente controlada acabou por ser deslindada.
Situado na América dos anos 90, onde princípios morais contraditórios e divergências ideológicas são trazidos à luz do dia através da denúncia pública e de rituais de purificação, A Mancha Humana completa a eloquente trilogia de Philip Roth sobre vidas americanas do pós-guerra tão tragicamente determinadas pelo destino da nação como pela «mácula humana» que marca de modo tão indelével a natureza do homem.
Este livro deu origem ao filme A Culpa Humana que teve como protagonistas Nicole Kidman e Anthony Hopkins.
O Autor
Nos anos 90, Philip Roth ganhou os quatro mais importantes prémios literários da América: o National Book Critics Circle Award com Patrimony (1991), o PEN/Faulkner Award com Operation Shylock (1993), o National Book Award com O Teatro de Sabbath (1995), e o Pulitzer Prize com Pastoral Americana (1997). Ganhou o Ambassador Book Award da União de Língua Inglesa com Casei com um Comunista (1998); no mesmo ano foi galardoado com a National Medal of Arts, na Casa Branca. Anteriormente obteve o National Book Critics Circle Award com The Counterlife (1986) e o National Book Award com o seu primeiro livro Goodbye, Columbus (1959). Em 2000 publicou A Mancha Humana, concluindo a trilogia sobre o espírito da América do pós-guerra. Com A Mancha Humana, Roth obteve o seu segundo PEN/Faulkner Award bem como o Britain’s W. H. Smith Award para o Melhor Livro do Ano. Em 2001 recebeu o mais alto galardão da Academia Americana de Artes e Letras, a Gold Medal para ficção, atribuída de seis em seis anos «para o conjunto da obra». O seu mais recente romance, The Dying Animal, foi publicado em 2001.
145 - O caso MODERNA, em livro
“É claro que a opinião pública não é isenta, está dominada por preconceitos, pode ser também objecto de manipulação. Talvez. O processo penal não é perfeito e o mundo também o não é. Mas o proceso penal cumpriu ao menos parcialmente a sua função: os tais factos vieram para a praça pública. Estão num processo que todos podem consultar.
O resultado não é perfeito: mas mesmo assim talvez tenha alguma eficácia dissuasória.
E não é essa a função mais importante do Direito penal?
Todos estes dilemas, que atravessam sempre uma investigação criminal e o seu julgamento, são refinadamente tratados pelo Rui Costa Pinto nas crónicas que agora edita.”
Maria José Morgado (do Prefácio)
Esta obra contém testemunhos de Manuel Dores: Procurador adjunto do Ministério Público; Manuel Vaz: Ex-Revisor Oficial de Contas da Dinensino; José Maria Bello Dias: Advogado; Jorge Raposo: Juiz; Paula Lourenço: Advogada; Raúl Soares da Veiga: Advogado
O Autor
Rui Costa Pinto, 43 anos, Grande Repórter da revista Visão, desempenhou diversas funções em órgãos de comunicação social escrita e falada. Após ter frequentado o Instituto de Ciências Políticas de Paris, regressou ao Porto, onde nasceu, a 7 de Dezembro de 1960, para abraçar o jornalismo, “a profissão mais bonita do mundo”, como gosta de lhe chamar. Após a sua passagem pelas delegações do Diário de Notícias e do Diário e Semanário Económico, no Porto, rumou ao Oriente para descobrir a arte do jornalismo radiofónico, na TDM, em Macau, onde assinou diversos artigos como correspondente do Diário de Notícias. De volta a Portugal, integrou a redação do semanário O Independente e, posteriormente, a equipa de jornalistas da Visão, a partir de Março de 2001.
O resultado não é perfeito: mas mesmo assim talvez tenha alguma eficácia dissuasória.
E não é essa a função mais importante do Direito penal?
Todos estes dilemas, que atravessam sempre uma investigação criminal e o seu julgamento, são refinadamente tratados pelo Rui Costa Pinto nas crónicas que agora edita.”
Maria José Morgado (do Prefácio)
Esta obra contém testemunhos de Manuel Dores: Procurador adjunto do Ministério Público; Manuel Vaz: Ex-Revisor Oficial de Contas da Dinensino; José Maria Bello Dias: Advogado; Jorge Raposo: Juiz; Paula Lourenço: Advogada; Raúl Soares da Veiga: Advogado
O Autor
Rui Costa Pinto, 43 anos, Grande Repórter da revista Visão, desempenhou diversas funções em órgãos de comunicação social escrita e falada. Após ter frequentado o Instituto de Ciências Políticas de Paris, regressou ao Porto, onde nasceu, a 7 de Dezembro de 1960, para abraçar o jornalismo, “a profissão mais bonita do mundo”, como gosta de lhe chamar. Após a sua passagem pelas delegações do Diário de Notícias e do Diário e Semanário Económico, no Porto, rumou ao Oriente para descobrir a arte do jornalismo radiofónico, na TDM, em Macau, onde assinou diversos artigos como correspondente do Diário de Notícias. De volta a Portugal, integrou a redação do semanário O Independente e, posteriormente, a equipa de jornalistas da Visão, a partir de Março de 2001.
Quinta-feira, Janeiro 15, 2004
144 - INFORMAÇÃO EDITORIAL
Le Seuil et La Martinière annoncent leur fusion
LE MONDE | 12.01.04 |
Le Seuil et La Martinière annoncent leur fusion
LE MONDE | 12.01.04 |
Le nouvel ensemble représentera le troisième éditeur français, derrière Hachette Livre et Editis.
La restructuration de l'édition française se fait à grande vitesse. C'est d'ailleurs dans le Thalys Paris-Bruxelles que les contacts entre Claude Cherki, PDG du Seuil, et Hervé de La Martinière, patron du groupe qui porte son nom, se sont renforcés dans leur combat commun (avec Gallimard) contre le rachat de VUP-Editis par le groupe Lagardère.
Le projet de rapprochement des deux maisons indépendantes devait être annoncé lundi 12 janvier. Il va donner naissance au numéro trois de l'édition française : le groupe La Martinière-Le Seuil. Hervé de La Martinière en sera le président et Claude Cherki, le vice-président, tout en restant patron du Seuil. L'ensemble devrait représenter un chiffre d'affaires de plus de 280 millions d'euros, ce qui le place nettement devant Flammarion et Gallimard (avec respectivement 227,5 et 225,6 millions d'euros de chiffre d'affaires en 2002), mais largement derrière Hachette Livre (1,2 milliard d'euros) et Editis (600 millions).
"C'est d'abord la rencontre de deux hommes, explique Hervé de La Martinière (...)
La restructuration de l'édition française se fait à grande vitesse. C'est d'ailleurs dans le Thalys Paris-Bruxelles que les contacts entre Claude Cherki, PDG du Seuil, et Hervé de La Martinière, patron du groupe qui porte son nom, se sont renforcés dans leur combat commun (avec Gallimard) contre le rachat de VUP-Editis par le groupe Lagardère.
Le projet de rapprochement des deux maisons indépendantes devait être annoncé lundi 12 janvier. Il va donner naissance au numéro trois de l'édition française : le groupe La Martinière-Le Seuil. Hervé de La Martinière en sera le président et Claude Cherki, le vice-président, tout en restant patron du Seuil. L'ensemble devrait représenter un chiffre d'affaires de plus de 280 millions d'euros, ce qui le place nettement devant Flammarion et Gallimard (avec respectivement 227,5 et 225,6 millions d'euros de chiffre d'affaires en 2002), mais largement derrière Hachette Livre (1,2 milliard d'euros) et Editis (600 millions).
"C'est d'abord la rencontre de deux hommes, explique Hervé de La Martinière (...)
Quarta-feira, Janeiro 14, 2004
143 - OS BLOGUES...
Tenho tantas coisas interessantes para ler que não me sobra tempo para escrever - frase adaptada de uma piada que dantes se contava do crítico literário João Gaspar Simões: "tenho tanto que fazer que não me sobra tempo para ler..."
Gaspar Simões referia-se aos livros que era suposto ter de criticar; eu refiro-me aos blogues, evidentemente - cuja qualidade e interesse não páram de crescer. Veja-se, por exemplo, o Causa Nossa.
Gaspar Simões referia-se aos livros que era suposto ter de criticar; eu refiro-me aos blogues, evidentemente - cuja qualidade e interesse não páram de crescer. Veja-se, por exemplo, o Causa Nossa.
Segunda-feira, Janeiro 05, 2004
142 - O frio... este frio.
Algumas palavras são mais que o som.
(…)
Assim me apoio às palavras,
Procuro a tudo dar um nome,
E em noites destas – salientes, defumadas,
Com vozes que nos chamam – sou um corpo
novo. Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
Rasgo o papel. Irado, desejoso
De saber até onde, quando, como,
O corpo vai. Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
Sempre à espera. Nas palavras vivo,
Denuncio ou ataco. Há um grande sol
À nossa espera. Quantos somos?
in “Algumas palavras” (1969)
Homenagem também a Vitor de Sá, falecido com 82 anos. Marcou a minha geração, foi depois Deputado e um exemplo de seriedade na nossa democracia.
E chega de perdas. Voltemos ao ano novo.
Quando chegaram as noites frias do Inverno e a proximidade do Natal, lembrei-me das mortes que normalmente ocorrem por esta altura do ano.
Como se os mais fracos não aguentassem, desistindo por fim, num estremecimento de frio.
Assim aconteceu.
Paradela de Abreu, uma figura contestável, um editor cheio de sentido da oportunidade, foi ele o verdadeiro editor desse livro decisivo que foi o “Portugal e o Futuro”, de Spínola; também um negociante de armas (diziam) colaborando com o ELP e outras organizações similares, um homem que acabou sozinho, depois de se ter envolvido em negócios que nunca foram muito claros.
Encontrámo-nos uma última vez, há já muitos meses, num desses “descansos” da auto-estrada Lisboa/Porto. Ele vinha de uma delegação do Instituto Piaget, em Trás-os-Montes, com quem então colaborava fazendo não entendi bem o quê. Havíamos coincidido na editora Arcádia, logo após a publicação do livro de Spínola, frequentávamos o bife do Snob, altas horas da noite. Apesar desta proximidade, nunca deixou que se soubesse muito da sua vida estranha, nem mesmo quando o álcool parecia descontrolá-lo um pouco mais.
Era um editor com imaginação e criatividade, sabia do seu ofício, aprendi com ele (em breves conversas) algumas coisas da profissão. Procurei, com cuidado, nunca me envolver no resto da sua vida. Morreu aos 70 anos, a meio dos frios de Dezembro, dia 17, suponho.
Teve a sorte de, entre outros, ser o editor de um livro que ficará como símbolo da nossa História mais recente.
Herlânder Rolo, proprietário da tipografia Rolo & Filhos, em Mafra. Foi lá, e com a sua ajuda (discreta, mas cheia de profissionalismo), que foi impresso quase clandestinamente o livro de Rui Mateus, “Memórias de um PS Desconhecido”.
Clandestinamente, sim, não é exagero, apesar de estarmos já numa fase adiantada da nossa democracia. Muita gente pretendia ler este livro antes da sua divulgação pública...
Tivemos sorte, eu e Herlânder Rolo, de saber pertencer a esse tempo em que o editor e o impressor estabeleciam entre si laços de cumplicidade, imprescindíveis ao arrojo de certas iniciativas editoriais.
Numa das noites em que decorreu a impressão deste livro, a sua Gráfica sofreu uma tentativa de assalto por parte de alguns jornalistas do semanário O Independente, alguns deles (têm-me dito) trabalhando agora no Gabinete do Ministro Paulo Portas. Assalto esse que depois se prolongou, no caminho entre Mafra e Lisboa, numa alucinante perseguição às viaturas que transportavam para a Distribuidora a 1ª edição deste livro. Trinta mil exemplares, vendidos logo no primeiro dia do seu lançamento - para fazer ruborizar alguns best-sellers de agora…
Morreu no último dia do ano quando, infelizmente, todos pensávamos noutras coisas.
Espero que os seus filhos Célia e João Paulo prossigam o seu trabalho e o seu exemplo.
Eduardo Guerra Carneiro, o poeta de “Isto Anda Tudo Ligado” (1970), o jornalista, o companheiro de tantas aventuras antigas, dos suplementos juvenis, do suplemento literário do Diário de Lisboa (agora já não se usa dizer “suplemento literário”), da revista “& etc.”, das noitadas do Monte Carlo e do Snob, dos almoços quase diários no “13”, do café, antes do almoço, na Brasileira, dos copos e conversas, noite dentro, no Bolero, ou em casas dos amigos.
Estremeci, quando a noticia me caiu em cima, ao tomar consciência da proximidade entre as nossas idades, eu que sempre o tratava como mais velho. Ele com 61, eu afinal já com estes 58.
Não tenho nada para dizer. Nem me apetece. O Eduardo decidiu terminar. Não era a primeira vez que falava disso, como quando aconteceu com o pintor Fausto Boavida. Apetece-me apenas lembrá-lo, sei que terei de lembrá-lo sempre, tantas foram as coisas que vivemos juntos. Lembras-te também, Victor? Claro, tu não podes responder. Não escreves certamente nenhum blogue… Imagino que nem uses um computador…
Fica aqui este poema. Datado? Não o são todas as palavras?
Como se os mais fracos não aguentassem, desistindo por fim, num estremecimento de frio.
Assim aconteceu.
Paradela de Abreu, uma figura contestável, um editor cheio de sentido da oportunidade, foi ele o verdadeiro editor desse livro decisivo que foi o “Portugal e o Futuro”, de Spínola; também um negociante de armas (diziam) colaborando com o ELP e outras organizações similares, um homem que acabou sozinho, depois de se ter envolvido em negócios que nunca foram muito claros.
Encontrámo-nos uma última vez, há já muitos meses, num desses “descansos” da auto-estrada Lisboa/Porto. Ele vinha de uma delegação do Instituto Piaget, em Trás-os-Montes, com quem então colaborava fazendo não entendi bem o quê. Havíamos coincidido na editora Arcádia, logo após a publicação do livro de Spínola, frequentávamos o bife do Snob, altas horas da noite. Apesar desta proximidade, nunca deixou que se soubesse muito da sua vida estranha, nem mesmo quando o álcool parecia descontrolá-lo um pouco mais.
Era um editor com imaginação e criatividade, sabia do seu ofício, aprendi com ele (em breves conversas) algumas coisas da profissão. Procurei, com cuidado, nunca me envolver no resto da sua vida. Morreu aos 70 anos, a meio dos frios de Dezembro, dia 17, suponho.
Teve a sorte de, entre outros, ser o editor de um livro que ficará como símbolo da nossa História mais recente.
Herlânder Rolo, proprietário da tipografia Rolo & Filhos, em Mafra. Foi lá, e com a sua ajuda (discreta, mas cheia de profissionalismo), que foi impresso quase clandestinamente o livro de Rui Mateus, “Memórias de um PS Desconhecido”.
Clandestinamente, sim, não é exagero, apesar de estarmos já numa fase adiantada da nossa democracia. Muita gente pretendia ler este livro antes da sua divulgação pública...
Tivemos sorte, eu e Herlânder Rolo, de saber pertencer a esse tempo em que o editor e o impressor estabeleciam entre si laços de cumplicidade, imprescindíveis ao arrojo de certas iniciativas editoriais.
Numa das noites em que decorreu a impressão deste livro, a sua Gráfica sofreu uma tentativa de assalto por parte de alguns jornalistas do semanário O Independente, alguns deles (têm-me dito) trabalhando agora no Gabinete do Ministro Paulo Portas. Assalto esse que depois se prolongou, no caminho entre Mafra e Lisboa, numa alucinante perseguição às viaturas que transportavam para a Distribuidora a 1ª edição deste livro. Trinta mil exemplares, vendidos logo no primeiro dia do seu lançamento - para fazer ruborizar alguns best-sellers de agora…
Morreu no último dia do ano quando, infelizmente, todos pensávamos noutras coisas.
Espero que os seus filhos Célia e João Paulo prossigam o seu trabalho e o seu exemplo.
Eduardo Guerra Carneiro, o poeta de “Isto Anda Tudo Ligado” (1970), o jornalista, o companheiro de tantas aventuras antigas, dos suplementos juvenis, do suplemento literário do Diário de Lisboa (agora já não se usa dizer “suplemento literário”), da revista “& etc.”, das noitadas do Monte Carlo e do Snob, dos almoços quase diários no “13”, do café, antes do almoço, na Brasileira, dos copos e conversas, noite dentro, no Bolero, ou em casas dos amigos.
Estremeci, quando a noticia me caiu em cima, ao tomar consciência da proximidade entre as nossas idades, eu que sempre o tratava como mais velho. Ele com 61, eu afinal já com estes 58.
Não tenho nada para dizer. Nem me apetece. O Eduardo decidiu terminar. Não era a primeira vez que falava disso, como quando aconteceu com o pintor Fausto Boavida. Apetece-me apenas lembrá-lo, sei que terei de lembrá-lo sempre, tantas foram as coisas que vivemos juntos. Lembras-te também, Victor? Claro, tu não podes responder. Não escreves certamente nenhum blogue… Imagino que nem uses um computador…
Fica aqui este poema. Datado? Não o são todas as palavras?
Algumas palavras são mais que o som.
(…)
Assim me apoio às palavras,
Procuro a tudo dar um nome,
E em noites destas – salientes, defumadas,
Com vozes que nos chamam – sou um corpo
novo. Quebrando o meu silêncio,
povoo alguns espaços de alegria.
Rasgo o papel. Irado, desejoso
De saber até onde, quando, como,
O corpo vai. Nas palavras me encontro.
Cansado, quase morto, à espera,
Sempre à espera. Nas palavras vivo,
Denuncio ou ataco. Há um grande sol
À nossa espera. Quantos somos?
in “Algumas palavras” (1969)
Homenagem também a Vitor de Sá, falecido com 82 anos. Marcou a minha geração, foi depois Deputado e um exemplo de seriedade na nossa democracia.
E chega de perdas. Voltemos ao ano novo.
Sexta-feira, Dezembro 26, 2003
141 - BORGES: estou destinado a perder-me…
Obrigado a todos os que entenderam saudar o que chamaram “o meu regresso”.
O pior é eu próprio não saber se regressei… ou se apenas (brevemente) passei por aqui de novo...
Transcrevo do Aviz e do Francisco José Viegas, para que se entenda melhor o que quero dizer:
“Há semanas, dias, alturas em que o silêncio é a única resposta a um mundo que anda muito tagarela — mas a culpa não é do mundo, não. Não dou voz a tamanha arrogância; o mundo é como é, e como já há muito se sabia. De resto, o Aviz tem esta característica lamentável e não-periódica: de vez em quando, cala-se. Não é por mal. Só que não há muito a dizer (…)”
O mesmo acontece por aqui.
De vez em quando, face à tagalerice que nos rodeia, um pouco de silêncio e de recolhimento.
Quem é que dizia que um pouco de silêncio é necessário, de vez em quando? Demonstra a consciência do que se diz, do que se quer dizer.
Retribuo as saudações (sempre boas de receber), deixando-vos um texto de JL Borges, numa tradução de Ruy Belo.
Deste mesmo texto existe outra tradução, também de outro poeta (Fernando Pinto do Amaral), incluída no vol. II das Obras Completas de Jorge Luís Borges, editadas pela Teorema (1998).
Borges está bem em qualquer das versões.
BORGES Y YO
É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto dos relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver no outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.
(in Jorge Luís Borges, Poemas Escolhidos, Pub. Dom Quixote, 1971 e 2003, ed. bilingue)
O pior é eu próprio não saber se regressei… ou se apenas (brevemente) passei por aqui de novo...
Transcrevo do Aviz e do Francisco José Viegas, para que se entenda melhor o que quero dizer:
“Há semanas, dias, alturas em que o silêncio é a única resposta a um mundo que anda muito tagarela — mas a culpa não é do mundo, não. Não dou voz a tamanha arrogância; o mundo é como é, e como já há muito se sabia. De resto, o Aviz tem esta característica lamentável e não-periódica: de vez em quando, cala-se. Não é por mal. Só que não há muito a dizer (…)”
O mesmo acontece por aqui.
De vez em quando, face à tagalerice que nos rodeia, um pouco de silêncio e de recolhimento.
Quem é que dizia que um pouco de silêncio é necessário, de vez em quando? Demonstra a consciência do que se diz, do que se quer dizer.
Retribuo as saudações (sempre boas de receber), deixando-vos um texto de JL Borges, numa tradução de Ruy Belo.
Deste mesmo texto existe outra tradução, também de outro poeta (Fernando Pinto do Amaral), incluída no vol. II das Obras Completas de Jorge Luís Borges, editadas pela Teorema (1998).
Borges está bem em qualquer das versões.
BORGES Y YO
É ao outro, a Borges, que acontecem as coisas. Eu caminho por Buenos Aires e demoro-me, talvez já mecanicamente, a olhar o arco de um alpendre e o guarda-vento; de Borges tenho notícias pelo correio e vejo o seu nome num grupo de professores ou num dicionário biográfico. Gosto dos relógios de areia, dos mapas, da tipografia do século XVIII, do sabor do café e da prosa de Stevenson; o outro compartilha dessas preferências, mas de um modo vaidoso, que as converte em atributos de um actor. Seria exagerado afirmar que as nossas relações são hostis; eu vivo, eu deixo-me viver, para que Borges possa tecer a sua literatura e essa literatura justifica-me. Nada me custa confessar que conseguiu certas páginas válidas, mas essas páginas não me podem salvar, talvez porque o que é bom já não é de ninguém, nem sequer do outro, mas sim da linguagem ou da tradição. Além do mais, eu estou destinado a perder-me, definitivamente, e apenas algum instante meu poderá sobreviver no outro. A pouco e pouco vou cedendo-lhe tudo, embora não desconheça o seu perverso costume de falsear e de magnificar. Spinoza entendeu que todas as coisas querem perseverar no seu ser; a pedra quer eternamente ser pedra e o tigre um tigre. Eu hei-de ficar em Borges, não em mim (se é que sou alguém), mas reconheço-me menos nos seus livros que em muitos outros ou que no laborioso zangarreio de uma viola. Há anos procurei libertar-me dele e passei das mitologias do arrabalde aos jogos com o tempo e com o infinito, mas esses jogos são agora de Borges e terei de idealizar outras coisas. Assim, a minha vida é uma fuga e perco tudo e tudo é do esquecimento ou do outro.
Não sei qual dos dois escreve esta página.
(in Jorge Luís Borges, Poemas Escolhidos, Pub. Dom Quixote, 1971 e 2003, ed. bilingue)
140 - Giulio Einaudi
Giulio Einaudi
Editar um livro é uma tarefa tão louca como escrevê-lo.
Ernst Rowohlt
Os editores têm todos as suas manias e deles se contam inúmeras histórias. De Giulio Einaudi, provavelmente um dos editores italianos mais influentes na segunda metade do século XX, costuma referir-se a sua aversão a que se falasse do público (dos leitores) nos seus famosos conselhos de leitura. Famosos porque deles chegaram a fazer parte escritores como Cesare Pavese, Elio Vittorini, Ítalo Calvino, Primo Levi, etc.
Os conselhos de leitura estão para os editores como os conselhos de ministros estarão para os primeiros-ministros: são as reuniões periódicas dos seus muitos consultores especializados, dos seus “leitores” de confiança, dos seus directores de colecções, às vezes também de alguns autores e dos inevitáveis técnicos de marketing e comerciais. Tal como os primeiros-ministros os editores têm por missão ouvir atentamente os seus conselhos fazendo em seguida o que lhes sugere a sua intuição e experiência.
Entre os editores e as suas equipas comerciais há um desacerto histórico e constante, originando várias histórias e anedotas: quando um livro não tem sucesso os editores consideram que os comerciais são normalmente os responsáveis, porque não souberam apoiá-lo junto do mercado conforme o livro certamente merecia; para os comerciais a razão do insucesso de um livro deve-se normalmente a uma má escolha do editor que, deste modo, lhes estraga os resultados e as comissões de vendas.
Os editores reclamam o seu conhecimento dos leitores e dos seus gostos de leitura; os comerciais afirmam que apenas eles conhecem a vontade dos compradores.
Os editores afirmam que só eles sabem justificar as suas apostas, o conhecimento dos autores, o seu significado cultural, a qualidade dos seus textos; os comerciais costumam sublinhar que tudo isso é irrelevante face ao que procura o mercado num determinado momento.
Eu próprio já me confrontei, há uns anos atrás, com um director comercial que entrando agitado no meu gabinete de trabalho, disparou:
- Depressa, preciso que me prepare aí um livro sobre micro-ondas...
E a verdade, acreditem, é que lhe preparei um livro de receitas para micro-ondas, criadas especialmente pelo Manuel Luís Goucha, tão grande era a sua expectativa e entusiasmo. Foi evidentemente um insucesso; quando o livro saiu já os compradores estavam a pensar noutra coisa, já as livrarias estavam cheias de outros livros similares. Assim acontece, quase sempre, com os livros chamados “de ocasião”... Julgamos sempre ser os primeiros; há que reconhecer, modestamente, que somos normalmente apenas “mais uns”. Para repararmos o desastre tivemos de vender o stock a um fabricante de micro-ondas que o ofereceu depois com a compra do seu equipamento.
Por isso, certamente, Giulio Einaudi proibia firmemente este tipo de discussões nos seus conselhos de leitura. “Um livro publica-se se é bom; não se publica se é mau” – costumava dizer. E toda a estratégia de marketing e comercial há-de construir-se depois, para servir adequadamente as características do livro e a sua especificidade. Para isso devem servir os especialistas nestas matérias, sempre que tenham, no mínimo, a curiosidade de ler aquilo que depois irão promover.
O que normalmente não acontece.
Einaudi foi um editor que marcou o seu tempo, provocando constantemente, com as suas decisões e escolhas atrevidas, o gosto imediato dos seus leitores.
Em todos os aspectos, desde as suas capas brancas, com um grafismo moderno, inconfundível e uniforme (desenhado para a eternidade por Bruno Munari), ao cuidado que punha no interior dos seus livros, muito bem paginados, sempre compostos no mesmo e inconfundível tipo de letra. Conta-se que outros editores, desejando imità-lo, percorriam a Itália à procura desses tipos maravilhosos e elegantes, sem jamais os conseguirem descobrir. Conta-se até que alguns editores de outros países (parece que também de Portugal, que nisto de copiar o alheio não fica atrás de ninguém) se deslocavam propositadamente a Itália na tentativa de trazer consigo cópias desses tipos. Nunca ninguém o conseguiu. Só ele dispunha deles e, para surpresa de todos, veio depois a descobrir-se, após a sua morte em 1999, que os havia patenteado.
Pertencendo a uma raça de editores hoje em vias de extinção, submersa pelos imperialismos do mercado, pelos fundamentalismos da nova economia, pela lógica de funcionamento dos grandes Grupos, Einaudi foi capaz de inspirar a geração seguinte, aqueles que souberam interpretar e dar atenção ao trabalho exemplar que realizava com os seus autores.
Os livros não são coisas pontuais – já o disse em crónica anterior.
Tal como Feltrinelli, seu amigo, colega, camarada e concorrente, soube construir um catálogo e juntar um conjunto de autores que ainda hoje faz do seu nome um sinal de qualidade, apesar de a editora que fundou, em 1933, ter acabado nas mãos do Grupo de empresas de Sílvio Berlusconi.
Mas não foi ele o único a marcar deste modo as gerações posteriores. Antes, na primeira metade do século, o mesmo aconteceu em França com Gaston Gallimard, sobretudo pelas relações peculiares que soube cultivar com o conjunto dos seus autores, representando uma das mais ricas gerações da literatura francesa: Proust, Gide, Valery, Aragon, Malraux, André Breton que, quando jovem, Gaston começou por acolher como simples revisor de provas da editora.
Conta-se que, no inicio da manhã, quando chegava ao escritório, Gaston se isolava e a primeira coisa que fazia era responder demorada e detalhadamente à correspondência dos seus autores. Em longas cartas manuscritas.
Com Malraux, Gallimard obrigou-o a desviar-se das suas longas e loucas aventuras asiáticas e a escrever um livro a tempo inteiro, pagando-lhe para isso uma espécie de salário. Quando terminou, o ainda jovem Malraux (32 anos) trazia consigo o manuscrito de “A Condição Humana”, obtendo com ele o Prémio Gongourt desse ano.
Em 1977, imitando-o de um modo nada modesto, eu próprio faria o mesmo com Maria Velho da Costa, convidando-a a fechar-se em casa durante alguns meses, assumindo os encargos de uma licença sem vencimento no seu emprego habitual, criando as condições para que pudesse concluir o romance “Casas Pardas”, que haveria de ganhar depois o Prémio Cidade de Lisboa desse ano.
Um editor, costumava repetir Siegfried Unseld, o prestigiado editor de Surhkamp falecido em Outubro do ano passado, é aquele que é capaz de desbloquear energias, de animar, promover e fazer viver a literatura da sua época.
Publicado no DNA de 08.03.2003
Editar um livro é uma tarefa tão louca como escrevê-lo.
Ernst Rowohlt
Os editores têm todos as suas manias e deles se contam inúmeras histórias. De Giulio Einaudi, provavelmente um dos editores italianos mais influentes na segunda metade do século XX, costuma referir-se a sua aversão a que se falasse do público (dos leitores) nos seus famosos conselhos de leitura. Famosos porque deles chegaram a fazer parte escritores como Cesare Pavese, Elio Vittorini, Ítalo Calvino, Primo Levi, etc.
Os conselhos de leitura estão para os editores como os conselhos de ministros estarão para os primeiros-ministros: são as reuniões periódicas dos seus muitos consultores especializados, dos seus “leitores” de confiança, dos seus directores de colecções, às vezes também de alguns autores e dos inevitáveis técnicos de marketing e comerciais. Tal como os primeiros-ministros os editores têm por missão ouvir atentamente os seus conselhos fazendo em seguida o que lhes sugere a sua intuição e experiência.
Entre os editores e as suas equipas comerciais há um desacerto histórico e constante, originando várias histórias e anedotas: quando um livro não tem sucesso os editores consideram que os comerciais são normalmente os responsáveis, porque não souberam apoiá-lo junto do mercado conforme o livro certamente merecia; para os comerciais a razão do insucesso de um livro deve-se normalmente a uma má escolha do editor que, deste modo, lhes estraga os resultados e as comissões de vendas.
Os editores reclamam o seu conhecimento dos leitores e dos seus gostos de leitura; os comerciais afirmam que apenas eles conhecem a vontade dos compradores.
Os editores afirmam que só eles sabem justificar as suas apostas, o conhecimento dos autores, o seu significado cultural, a qualidade dos seus textos; os comerciais costumam sublinhar que tudo isso é irrelevante face ao que procura o mercado num determinado momento.
Eu próprio já me confrontei, há uns anos atrás, com um director comercial que entrando agitado no meu gabinete de trabalho, disparou:
- Depressa, preciso que me prepare aí um livro sobre micro-ondas...
E a verdade, acreditem, é que lhe preparei um livro de receitas para micro-ondas, criadas especialmente pelo Manuel Luís Goucha, tão grande era a sua expectativa e entusiasmo. Foi evidentemente um insucesso; quando o livro saiu já os compradores estavam a pensar noutra coisa, já as livrarias estavam cheias de outros livros similares. Assim acontece, quase sempre, com os livros chamados “de ocasião”... Julgamos sempre ser os primeiros; há que reconhecer, modestamente, que somos normalmente apenas “mais uns”. Para repararmos o desastre tivemos de vender o stock a um fabricante de micro-ondas que o ofereceu depois com a compra do seu equipamento.
Por isso, certamente, Giulio Einaudi proibia firmemente este tipo de discussões nos seus conselhos de leitura. “Um livro publica-se se é bom; não se publica se é mau” – costumava dizer. E toda a estratégia de marketing e comercial há-de construir-se depois, para servir adequadamente as características do livro e a sua especificidade. Para isso devem servir os especialistas nestas matérias, sempre que tenham, no mínimo, a curiosidade de ler aquilo que depois irão promover.
O que normalmente não acontece.
Einaudi foi um editor que marcou o seu tempo, provocando constantemente, com as suas decisões e escolhas atrevidas, o gosto imediato dos seus leitores.
Em todos os aspectos, desde as suas capas brancas, com um grafismo moderno, inconfundível e uniforme (desenhado para a eternidade por Bruno Munari), ao cuidado que punha no interior dos seus livros, muito bem paginados, sempre compostos no mesmo e inconfundível tipo de letra. Conta-se que outros editores, desejando imità-lo, percorriam a Itália à procura desses tipos maravilhosos e elegantes, sem jamais os conseguirem descobrir. Conta-se até que alguns editores de outros países (parece que também de Portugal, que nisto de copiar o alheio não fica atrás de ninguém) se deslocavam propositadamente a Itália na tentativa de trazer consigo cópias desses tipos. Nunca ninguém o conseguiu. Só ele dispunha deles e, para surpresa de todos, veio depois a descobrir-se, após a sua morte em 1999, que os havia patenteado.
Pertencendo a uma raça de editores hoje em vias de extinção, submersa pelos imperialismos do mercado, pelos fundamentalismos da nova economia, pela lógica de funcionamento dos grandes Grupos, Einaudi foi capaz de inspirar a geração seguinte, aqueles que souberam interpretar e dar atenção ao trabalho exemplar que realizava com os seus autores.
Os livros não são coisas pontuais – já o disse em crónica anterior.
Tal como Feltrinelli, seu amigo, colega, camarada e concorrente, soube construir um catálogo e juntar um conjunto de autores que ainda hoje faz do seu nome um sinal de qualidade, apesar de a editora que fundou, em 1933, ter acabado nas mãos do Grupo de empresas de Sílvio Berlusconi.
Mas não foi ele o único a marcar deste modo as gerações posteriores. Antes, na primeira metade do século, o mesmo aconteceu em França com Gaston Gallimard, sobretudo pelas relações peculiares que soube cultivar com o conjunto dos seus autores, representando uma das mais ricas gerações da literatura francesa: Proust, Gide, Valery, Aragon, Malraux, André Breton que, quando jovem, Gaston começou por acolher como simples revisor de provas da editora.
Conta-se que, no inicio da manhã, quando chegava ao escritório, Gaston se isolava e a primeira coisa que fazia era responder demorada e detalhadamente à correspondência dos seus autores. Em longas cartas manuscritas.
Com Malraux, Gallimard obrigou-o a desviar-se das suas longas e loucas aventuras asiáticas e a escrever um livro a tempo inteiro, pagando-lhe para isso uma espécie de salário. Quando terminou, o ainda jovem Malraux (32 anos) trazia consigo o manuscrito de “A Condição Humana”, obtendo com ele o Prémio Gongourt desse ano.
Em 1977, imitando-o de um modo nada modesto, eu próprio faria o mesmo com Maria Velho da Costa, convidando-a a fechar-se em casa durante alguns meses, assumindo os encargos de uma licença sem vencimento no seu emprego habitual, criando as condições para que pudesse concluir o romance “Casas Pardas”, que haveria de ganhar depois o Prémio Cidade de Lisboa desse ano.
Um editor, costumava repetir Siegfried Unseld, o prestigiado editor de Surhkamp falecido em Outubro do ano passado, é aquele que é capaz de desbloquear energias, de animar, promover e fazer viver a literatura da sua época.
Publicado no DNA de 08.03.2003
Quarta-feira, Dezembro 24, 2003
139 - NATAL DE 2003, 2
No Natal, ao menos, convoquem-se os poetas.
David Mourão-Ferreira,
"LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS",
in Cancioneiro de Natal
incluído em "Obra Poética 1948-1988"
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
(poema redigido em 1979, segundo informação de
Teresa Martins Marques)
David Mourão-Ferreira,
"LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS",
in Cancioneiro de Natal
incluído em "Obra Poética 1948-1988"
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito
(poema redigido em 1979, segundo informação de
Teresa Martins Marques)
Terça-feira, Dezembro 23, 2003
138 - LOBO ANTUNES / EL PERIÓDICO
Depoimento de Nelson de Matos, publicado no jornal El Periódico, de Barcelona, durante a estadia de António Lobo Antunes - 14.11.2001
Tengo el gusto de trabajar y de ser el editor portugués de Antonio Lobo Antunes desde hace más de 20 años.
Durante estos 20 años, han ocurrido muchas cosas.
Sin lugar a dudas, lo más importante ha sido la transformación progresiva de esta relación profesional en una insustituible relación de amistad.
Antonio es exigente y riguroso. Hombre de pocos amigos, desgraciadamente, con el tiempo y las amarguras de la vida, algunos de ellos han ido desapareciendo: el escritor José Cardoso Pires, el coronel Ernesto Melo Antunes, su comandante durante la época de la guerra colonial, que tanto marcó a los hombres de nuestra generación.
Lo mismo me ha sucedido a mí. Los amigos son cada vez más escasos, la vida va seleccionando a unos pocos y esta selección no siempre es la más justa.
Por eso afirmo que, en la actualidad, nuestra amistad es insustituible, por lo menos para mí, y como tal la vivo.
Una amistad cimentada en el trabajo diario, la confianza mutua, los intereses comunes, pero también en otras pequeñas cosas con las que hemos ido forjando nuestro camino. Esa amistad es lo que nos ha mantenido unidos y trabajando juntos a lo largo de más de una decena de libros, de millones de ejemplares impresos, de muchos proyectos y muchas conversaciones. Desde el día en que Antonio entró por primera vez en mi despacho, acompañado por un amigo común, y me dijo, sin cumplidos, sin presentaciones formales, sin que nos hubiéramos visto antes: “Me llamo Antonio y quiero publicar aquí”. “Aquí” se refería a publicaciones Dom Quixote, por aquel entonces una pequeña y prestigiosa editorial portuguesa que, en la actualidad, forma parte del universo editorial del Grupo Planeta.
Hoy en día, António es, en el mundo literario, uno de los pocos grandes escritores contemporáneos. Lo digo sin vacilar. Conozco muy bien la producción novelística actual de todos los países, y no son muchos los escritores a los que podamos considerar “grandes” sin riesgo de equivocarnos. Probablemente él sea uno de ellos.
Trabaja sin descanso, escribe todos los días, muchas horas al día, su trabajo está por encima de todos sus demás intereses y preocupaciones. Vive la literatura como si la necesitara para respirar. El mundo de la creación literaria es como el acuario en el que se mueve. Es imposible sacarlo del agua. António no podría vivir sin su trabajo.
Por eso, cuando a veces declara a los periodistas que sólo escribirá un par o tres de novelas más, o que algún día dejará de escribir para no repetirse, no hace otra cosa que crear una nueva ficción. Es imposible imaginarlo sin su escritura, sin sus angustias ante la página en blanco, sin sus dudas (porque todavía tiene dudas) sobre la calidad de su trabajo.
Como ya he dicho antes, Antonio es un hombre exigente. Por eso no es tarea fácil ser su editor en su lengua materna, el primero, el que, antes que nadie, se enfrenta a sus reacciones, a su permanente insatisfacción. Por todo ello he dedicado a este trabajo una parte de mi vida personal y profesional. Con satisfacción, orgullo y amistad.
Nelson de Matos
Tengo el gusto de trabajar y de ser el editor portugués de Antonio Lobo Antunes desde hace más de 20 años.
Durante estos 20 años, han ocurrido muchas cosas.
Sin lugar a dudas, lo más importante ha sido la transformación progresiva de esta relación profesional en una insustituible relación de amistad.
Antonio es exigente y riguroso. Hombre de pocos amigos, desgraciadamente, con el tiempo y las amarguras de la vida, algunos de ellos han ido desapareciendo: el escritor José Cardoso Pires, el coronel Ernesto Melo Antunes, su comandante durante la época de la guerra colonial, que tanto marcó a los hombres de nuestra generación.
Lo mismo me ha sucedido a mí. Los amigos son cada vez más escasos, la vida va seleccionando a unos pocos y esta selección no siempre es la más justa.
Por eso afirmo que, en la actualidad, nuestra amistad es insustituible, por lo menos para mí, y como tal la vivo.
Una amistad cimentada en el trabajo diario, la confianza mutua, los intereses comunes, pero también en otras pequeñas cosas con las que hemos ido forjando nuestro camino. Esa amistad es lo que nos ha mantenido unidos y trabajando juntos a lo largo de más de una decena de libros, de millones de ejemplares impresos, de muchos proyectos y muchas conversaciones. Desde el día en que Antonio entró por primera vez en mi despacho, acompañado por un amigo común, y me dijo, sin cumplidos, sin presentaciones formales, sin que nos hubiéramos visto antes: “Me llamo Antonio y quiero publicar aquí”. “Aquí” se refería a publicaciones Dom Quixote, por aquel entonces una pequeña y prestigiosa editorial portuguesa que, en la actualidad, forma parte del universo editorial del Grupo Planeta.
Hoy en día, António es, en el mundo literario, uno de los pocos grandes escritores contemporáneos. Lo digo sin vacilar. Conozco muy bien la producción novelística actual de todos los países, y no son muchos los escritores a los que podamos considerar “grandes” sin riesgo de equivocarnos. Probablemente él sea uno de ellos.
Trabaja sin descanso, escribe todos los días, muchas horas al día, su trabajo está por encima de todos sus demás intereses y preocupaciones. Vive la literatura como si la necesitara para respirar. El mundo de la creación literaria es como el acuario en el que se mueve. Es imposible sacarlo del agua. António no podría vivir sin su trabajo.
Por eso, cuando a veces declara a los periodistas que sólo escribirá un par o tres de novelas más, o que algún día dejará de escribir para no repetirse, no hace otra cosa que crear una nueva ficción. Es imposible imaginarlo sin su escritura, sin sus angustias ante la página en blanco, sin sus dudas (porque todavía tiene dudas) sobre la calidad de su trabajo.
Como ya he dicho antes, Antonio es un hombre exigente. Por eso no es tarea fácil ser su editor en su lengua materna, el primero, el que, antes que nadie, se enfrenta a sus reacciones, a su permanente insatisfacción. Por todo ello he dedicado a este trabajo una parte de mi vida personal y profesional. Con satisfacción, orgullo y amistad.
Nelson de Matos
Domingo, Dezembro 21, 2003
137 - NATAL DE 2003...
Após algum silêncio (cansaço? rejeição?), volto para vos dar a ler um breve texto de José Cardoso Pires.
Foi Inês Pedrosa quem me chamou a atenção para ele, enviando-mo junto com as suas felicitações natalícias deste ano.
Não é um texto escrito a propósito do Natal, embora se lhe cole bem – e essa é certamente uma das suas maiores curiosidades. Teria o Zé tido consciência dessa colagem?
A outra coincidência é o peso que envolve esta frase extraordinária: “ (…) Pai da Vida, de quantas mães é feita uma criatura.” - que também pode ser uma frase de Natal.
É um trecho de “Alexandra Alpha”, de 1987, o primeiro dos romances do Zé que publiquei na Dom Quixote, depois do fim prematuro da Moraes Editores. O romance de que ele mais gostava… com algum desgosto pelo facto de os leitores, a critica e os amigos não pensarem o mesmo.
Aqui fica, neste Natal de 2003, para que continuemos a recordar a sua escrita - aqueles que infelizmente não puderem continuar a recordar também a sua amizade.
*
“Não era noite nem era dia quando a preta entrou nas avenidas do comércio e
dos carros uivantes. Ipanema, bairro dos ricos, dos bares e das noites
festivas, Rua Barão da Torre. A certa porta deteve-se de nariz levantado,
farejando a brisa que vinha do mar por entre os prédios. Farejou, farejou.
Depois, apertando a mão que conduzia o menino, ela e ele subiram de elevador
até às alturas, levados por um traço de som.
Anunciou-se ao abrir da porta, solene e muito hirta. Apesar dos colares
garridos, do branco-algodão do vestido, das pulseiras e das missangas, tinha
a imprecisão dum crepúsculo maligno; a abundância das ancas e dos seios
dava-lhe uma imponência de carnaval. Assim apareceu a Alexandra e assim se
pronunciou: "Chamo-me Natividade", disse, "e este é Roberto, filho de
Roberto que Deus levou. Passe bem."
Alexandra, ao olhar para a criança, foi como se um clarão a tivesse
emudecido: aquele era o rosto vivo do bem-amado.
Mais: aquele era o rosto de Neusa, a mãe.
Porque Alexandra tinha conhecido Neusa Paloma nesse ano pelo Natal durante
os poucos dias que o Reformatório lhe concedera para visitar o filho. Ela
também viera ali, ao apartamento da Barão da Torre. Aparecera-lhe trazida
por Waldir, e fora a mesma assombração ao vê-los juntos: era tão igual ao
marido na beleza e nos gestos que pareciam gémeos de carne, não esposos. Tão
igual à criança que acabavam de lhe entregar que eram os dois agora
repetidos numa terceira criatura.
Assim foi que, estando Alexandra na solidão dos proscritos e sob o peso duma
traição que lhe fora revelada pela morte, viu surgir a enviada negra com o
menino que o destino lhe legava. Menino que ela recebeu pousando-lhe a mão
na cabeça, sem mais nada. Como um sinal de confirmação, como um selo. E
quando levantou os olhos a figura da mulher tinha-se sumido pelo poço do
ascensor abaixo e era apenas um som sibilino a rasgar-se no vazio, um
zumbido e uma luzinha a descerem suavemente e a deixarem para trás um
incenso, um rasto quente, as ervas da purificação, pensou Alexandra fechando
a porta do apartamento.
Ali ficou a criança, entre paredes de luz, reproduções de Portinari, música
hi-fi, arte amazónica. Um lugar espaçoso comandado pelo estranho desenho de
um homem-pássaro segurando uma mulher nua pelos cabelos ( The Birdman, Max
Ernst ), livros, whisky, um lugar limpo e ordenado, na verdade muito
diferente do antro de fumos, de altares e de responsos onde o menino
estivera ocultado desde a nascença. Ali ia ele retomar a infância pela mão
duma outra mulher: Alexandra, chamava-se ela, e era a que sucedia à mãe
negra, a qual, por sua vez, já tinha sucedido à mãe loura, a primitiva e
natural, Pai da Vida, de quantas mães é feita uma criatura. Esta seria
mãe-irmã, diversa de todas as mais, e só muito depois a criança saberia que
ela viera de cidades longe, no outro lado do mar. Que tinha vários nomes,
isso também lhe seria revelado. Que o primeiro era Alexandra e o último
Maninha, este só para uso dela e dele e derivado de Mana, Mana Alexandra ou
Mana Xana, que era como os amigos a conheciam no país donde provinha.
Eis então Roberto, filho de Roberto, na sua nova morada; permaneceu nela
pelo espaço de trezentos dias e trezentas noites. Passado que foi esse prazo
de iniciação, Alexandra voou com ele por cima do oceano no sentido contrário
ao do sol e através das pradarias do céu, que são feitas de nuvens
infinitas; quando pisaram terra firme era outra vez Natal e estavam noutra
cidade.
JOSÉ CARDOSO PIRES
( in Alexandra Alpha, 1987, Dom Quixote)
Foi Inês Pedrosa quem me chamou a atenção para ele, enviando-mo junto com as suas felicitações natalícias deste ano.
Não é um texto escrito a propósito do Natal, embora se lhe cole bem – e essa é certamente uma das suas maiores curiosidades. Teria o Zé tido consciência dessa colagem?
A outra coincidência é o peso que envolve esta frase extraordinária: “ (…) Pai da Vida, de quantas mães é feita uma criatura.” - que também pode ser uma frase de Natal.
É um trecho de “Alexandra Alpha”, de 1987, o primeiro dos romances do Zé que publiquei na Dom Quixote, depois do fim prematuro da Moraes Editores. O romance de que ele mais gostava… com algum desgosto pelo facto de os leitores, a critica e os amigos não pensarem o mesmo.
Aqui fica, neste Natal de 2003, para que continuemos a recordar a sua escrita - aqueles que infelizmente não puderem continuar a recordar também a sua amizade.
*
“Não era noite nem era dia quando a preta entrou nas avenidas do comércio e
dos carros uivantes. Ipanema, bairro dos ricos, dos bares e das noites
festivas, Rua Barão da Torre. A certa porta deteve-se de nariz levantado,
farejando a brisa que vinha do mar por entre os prédios. Farejou, farejou.
Depois, apertando a mão que conduzia o menino, ela e ele subiram de elevador
até às alturas, levados por um traço de som.
Anunciou-se ao abrir da porta, solene e muito hirta. Apesar dos colares
garridos, do branco-algodão do vestido, das pulseiras e das missangas, tinha
a imprecisão dum crepúsculo maligno; a abundância das ancas e dos seios
dava-lhe uma imponência de carnaval. Assim apareceu a Alexandra e assim se
pronunciou: "Chamo-me Natividade", disse, "e este é Roberto, filho de
Roberto que Deus levou. Passe bem."
Alexandra, ao olhar para a criança, foi como se um clarão a tivesse
emudecido: aquele era o rosto vivo do bem-amado.
Mais: aquele era o rosto de Neusa, a mãe.
Porque Alexandra tinha conhecido Neusa Paloma nesse ano pelo Natal durante
os poucos dias que o Reformatório lhe concedera para visitar o filho. Ela
também viera ali, ao apartamento da Barão da Torre. Aparecera-lhe trazida
por Waldir, e fora a mesma assombração ao vê-los juntos: era tão igual ao
marido na beleza e nos gestos que pareciam gémeos de carne, não esposos. Tão
igual à criança que acabavam de lhe entregar que eram os dois agora
repetidos numa terceira criatura.
Assim foi que, estando Alexandra na solidão dos proscritos e sob o peso duma
traição que lhe fora revelada pela morte, viu surgir a enviada negra com o
menino que o destino lhe legava. Menino que ela recebeu pousando-lhe a mão
na cabeça, sem mais nada. Como um sinal de confirmação, como um selo. E
quando levantou os olhos a figura da mulher tinha-se sumido pelo poço do
ascensor abaixo e era apenas um som sibilino a rasgar-se no vazio, um
zumbido e uma luzinha a descerem suavemente e a deixarem para trás um
incenso, um rasto quente, as ervas da purificação, pensou Alexandra fechando
a porta do apartamento.
Ali ficou a criança, entre paredes de luz, reproduções de Portinari, música
hi-fi, arte amazónica. Um lugar espaçoso comandado pelo estranho desenho de
um homem-pássaro segurando uma mulher nua pelos cabelos ( The Birdman, Max
Ernst ), livros, whisky, um lugar limpo e ordenado, na verdade muito
diferente do antro de fumos, de altares e de responsos onde o menino
estivera ocultado desde a nascença. Ali ia ele retomar a infância pela mão
duma outra mulher: Alexandra, chamava-se ela, e era a que sucedia à mãe
negra, a qual, por sua vez, já tinha sucedido à mãe loura, a primitiva e
natural, Pai da Vida, de quantas mães é feita uma criatura. Esta seria
mãe-irmã, diversa de todas as mais, e só muito depois a criança saberia que
ela viera de cidades longe, no outro lado do mar. Que tinha vários nomes,
isso também lhe seria revelado. Que o primeiro era Alexandra e o último
Maninha, este só para uso dela e dele e derivado de Mana, Mana Alexandra ou
Mana Xana, que era como os amigos a conheciam no país donde provinha.
Eis então Roberto, filho de Roberto, na sua nova morada; permaneceu nela
pelo espaço de trezentos dias e trezentas noites. Passado que foi esse prazo
de iniciação, Alexandra voou com ele por cima do oceano no sentido contrário
ao do sol e através das pradarias do céu, que são feitas de nuvens
infinitas; quando pisaram terra firme era outra vez Natal e estavam noutra
cidade.
JOSÉ CARDOSO PIRES
( in Alexandra Alpha, 1987, Dom Quixote)
Terça-feira, Novembro 25, 2003
136 - 25 de Novembro de 1975
De um dia para o outro fica-se mais velho.
Recordo o mesmo dia de aniversário, 28 anos antes, em casa da Maria Velho da Costa, com o João Cravinho, o João César Monteiro, não sei quem mais. As dúvidas, a falta de informação, os boatos chegando minuto a minuto, a desorientação. Ainda nem sequer havia telemóveis, nem Internet, nem canais de rádio e televisão com notícias em directo, os telefones fixos não funcionavam. Havia que ir para a rua, a pé, para viver as notícias em directo.
Leio alguns dos blogues que, poeticamente, decidiram referir-se a essa data.
Lembrei-me que, na altura, as coisas foram bastante mais prosaicas.
E que, por longuíssimos momentos, não soubemos de facto o que poderia vir a acontecer.
Recordo o mesmo dia de aniversário, 28 anos antes, em casa da Maria Velho da Costa, com o João Cravinho, o João César Monteiro, não sei quem mais. As dúvidas, a falta de informação, os boatos chegando minuto a minuto, a desorientação. Ainda nem sequer havia telemóveis, nem Internet, nem canais de rádio e televisão com notícias em directo, os telefones fixos não funcionavam. Havia que ir para a rua, a pé, para viver as notícias em directo.
Leio alguns dos blogues que, poeticamente, decidiram referir-se a essa data.
Lembrei-me que, na altura, as coisas foram bastante mais prosaicas.
E que, por longuíssimos momentos, não soubemos de facto o que poderia vir a acontecer.
Domingo, Novembro 23, 2003
135 - RUY BELO
Encontrei a transcrição deste poema de Ruy Belo (um dos meus poetas de cabeceira e amigo saudoso), no blogue Ford Mustang (um blogue excelente, feito por um preguiçoso, como eu. Os que gostam de ler poesia experimentem percorrer As Tormentas).
Aqui deixo então este belo poema do Ruy, para tentar ampliar a leitura proposta por Hugo do Ford Mustang.
Não conferi o texto mas confio na transcrição de Hugo.
O poema Vat 69 está incluído no livro Homem de Palavra(s), publicado pela primeira vez em 1970, pela Dom Quixote, e agora disponível na edição da obra poética completa do autor, Todos os Poemas (2000, pag. 217), da editora Assírio & Alvim.
Aproveito para referir a quem transcreve textos nos seus blogues (ou refere quadros, cds, vídeos, dvds, etc.), que não custa nada fazer isto: indicar as fontes correctas e completas. Poucos o fazem, mesmo os mais responsáveis, aqueles que têm livros ou artigos publicados, que exercem crítica, trabalho universitário, jornalismo, etc.
É uma questão de rigor e educação.
RUY BELO:
VAT 69
Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder
Aqui deixo então este belo poema do Ruy, para tentar ampliar a leitura proposta por Hugo do Ford Mustang.
Não conferi o texto mas confio na transcrição de Hugo.
O poema Vat 69 está incluído no livro Homem de Palavra(s), publicado pela primeira vez em 1970, pela Dom Quixote, e agora disponível na edição da obra poética completa do autor, Todos os Poemas (2000, pag. 217), da editora Assírio & Alvim.
Aproveito para referir a quem transcreve textos nos seus blogues (ou refere quadros, cds, vídeos, dvds, etc.), que não custa nada fazer isto: indicar as fontes correctas e completas. Poucos o fazem, mesmo os mais responsáveis, aqueles que têm livros ou artigos publicados, que exercem crítica, trabalho universitário, jornalismo, etc.
É uma questão de rigor e educação.
RUY BELO:
VAT 69
Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morrêramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro — gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos — nós outra vez crianças —
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte — nunca mais — pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maças no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
—orate frates — ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casa em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte herberto helder
Sábado, Novembro 22, 2003
134 - UM POUCO DE SILÊNCIO...
Correm rumores de algumas alterações nos programas culturais de alguns orgãos de comunicação social: rádios, jornais, principalmente televisões. Fala-se de novos programas, de novos responsáveis, de novos críticos literários.
Alguns nomes são interessantes; outros deixam-nos perplexos.
Relativamente a estes últimos, os tais "novos críticos literários que nos deixam perplexos", apetece perguntar como se fez há alguns anos atrás: como é possível ser-se critico literário sem gostar de livros? Como é possível comentar obras alheias quando apenas se sabe olhar para o próprio umbigo, ou melhor, nem sequer se sabe "olhar bem" para o próprio umbigo?
Vejo nestes rumores, além do mais, alguma promiscuidade, uma espécie de pequena máfia das letras, nascida de recalcamentos visíveis, de bastante ignorância, de vontade de dar nas vistas a todo o custo.
Porque foram escolhidos, então? Porque foram convidados para este papel?
Provavelmente por isso mesmo, para dar nas vistas, para nos matraquear com polémicas inúteis, para provocar ruído, para tentar suscitar boas audiências entre os companheiros da mesma rua.
Pobres dos livros que, afinal, talvez ambicionassem apenas (depois do que têm passado...) um pouco de silêncio e de recato.
Alguns nomes são interessantes; outros deixam-nos perplexos.
Relativamente a estes últimos, os tais "novos críticos literários que nos deixam perplexos", apetece perguntar como se fez há alguns anos atrás: como é possível ser-se critico literário sem gostar de livros? Como é possível comentar obras alheias quando apenas se sabe olhar para o próprio umbigo, ou melhor, nem sequer se sabe "olhar bem" para o próprio umbigo?
Vejo nestes rumores, além do mais, alguma promiscuidade, uma espécie de pequena máfia das letras, nascida de recalcamentos visíveis, de bastante ignorância, de vontade de dar nas vistas a todo o custo.
Porque foram escolhidos, então? Porque foram convidados para este papel?
Provavelmente por isso mesmo, para dar nas vistas, para nos matraquear com polémicas inúteis, para provocar ruído, para tentar suscitar boas audiências entre os companheiros da mesma rua.
Pobres dos livros que, afinal, talvez ambicionassem apenas (depois do que têm passado...) um pouco de silêncio e de recato.
Quinta-feira, Novembro 13, 2003
133 - JOHN LE CARRÉ
John le Carre's most recent book, "The Constant Gardener," (O Fiel Jardineiro, na tradução portuguesa da DQ) is being made into a movie starring Ralph Fiennes by Focus Features, who have tapped Fernando Meirelles to direct. The story is of an English diplomat in Kenya who investigates the dark doings behind the murder of his idealistic wife. It's currently a Pocket Books paperback; le Carre's next "Absolute Friends", (que a Dom Quixote publicará na rentreé de 2004) is appearing from Little, Brown in the new year.
PW Rights Alert, November 11, 2003
PW Rights Alert, November 11, 2003
Sábado, Novembro 08, 2003
132 - DIZ O MINISTRO...
Diz o Ministro Morais Sarmento que "a concentração de empresas de media não é, por definição, nem boa nem má".
Pois.
Deve ser assim, assim...
Pois.
Deve ser assim, assim...
131 - EUROPOL
Após a publicação do seu livro, o convite dirigido pelo Governo e pela Procuradoria-Geral da Répública a Maria José Morgado (Expresso e Público de hoje), para que assuma em Bruxelas um dos lugares de direcção da EUROPOL (a polícia europeia), que significado tem?
Um castigo? Uma forma de afastamento? Uma reprimenda velada? Um doce envenenado?
Mais um sinal do país em que vivemos?
Fez bem em recusar, Maria José Morgado.
Continuaremos assim a tê-la atenta às questões nacionais, que muito trabalho têm ainda por fazer.
Um castigo? Uma forma de afastamento? Uma reprimenda velada? Um doce envenenado?
Mais um sinal do país em que vivemos?
Fez bem em recusar, Maria José Morgado.
Continuaremos assim a tê-la atenta às questões nacionais, que muito trabalho têm ainda por fazer.
Quinta-feira, Novembro 06, 2003
130 - O IMPOSTOR...
Nelson Rodrigues sobre o escritor António Callado, autor de, por exemplo, o romance Quarup:
Não estou falando do Callado político, do Callado ideológico. Esse é o anti-Callado, a negação do Callado. Usa os ternos, as gravatas, sapatos e sorrisos do Callado. Mas é um impostor. O puro, o legítimo, o escocês, é o Callado amigo, o Callado escritor, o Callado estilista, o da boa metáfora, o da frase perfeita. E, sempre que o vejo fazer um julgamento político, tenho vontade de dizer-lhe:
- "O Senhor não é Callado coisa nenhuma! O senhor se finge de Callado! Retire-se!".
Que bem se poderiam adaptar estas frases em Portugal...
Não estou falando do Callado político, do Callado ideológico. Esse é o anti-Callado, a negação do Callado. Usa os ternos, as gravatas, sapatos e sorrisos do Callado. Mas é um impostor. O puro, o legítimo, o escocês, é o Callado amigo, o Callado escritor, o Callado estilista, o da boa metáfora, o da frase perfeita. E, sempre que o vejo fazer um julgamento político, tenho vontade de dizer-lhe:
- "O Senhor não é Callado coisa nenhuma! O senhor se finge de Callado! Retire-se!".
Que bem se poderiam adaptar estas frases em Portugal...
129 - DOIS COMENTÁRIOS...
O primeiro para A Montanha Mágica, que põe à discussão a questão da adaptação cinematográfica de obras literárias, a propósito do meu post que incluía a informação de que Philip Roth pretende que o seu romance “The Human Stain” não seja associado ao filme de Robert Benton, que proximamente estreará entre nós.
Por mim tenho a questão resolvida há muito tempo, provavelmente de um modo simplista: o livro e o filme são obras distintas, usam suportes diferentes, linguagens autónomas, implicam dos seus autores um trabalho não comparável.
Digamos que o livro pode inspirar o filme, o que às vezes nem acontece - os especialistas poderão dar-nos exemplos.
Eu não me preocupo com a questão: não me incomodo quando o filme se desvia do livro, assim como não me entusiasmo por seguir de perto a narração.
Tenho pouco para dar a esta conversa. Infelizmente.
O segundo comentário é para o Francisco. Eu não disse que “sonho com”; disse que “ambiciono que”. Parece a mesma coisa, mas não é. A segunda expressão tem uma determinação que não gostaria de pôr de lado. Ou seja: precisamos de insistir, precisamos de continuar a chamar a atenção para o logro que representam os actuais alinhamentos dos telejornais. Logro, mentira, oportunismo, manipulação – não sei bem que palavra usar.
Por mim tenho a questão resolvida há muito tempo, provavelmente de um modo simplista: o livro e o filme são obras distintas, usam suportes diferentes, linguagens autónomas, implicam dos seus autores um trabalho não comparável.
Digamos que o livro pode inspirar o filme, o que às vezes nem acontece - os especialistas poderão dar-nos exemplos.
Eu não me preocupo com a questão: não me incomodo quando o filme se desvia do livro, assim como não me entusiasmo por seguir de perto a narração.
Tenho pouco para dar a esta conversa. Infelizmente.
O segundo comentário é para o Francisco. Eu não disse que “sonho com”; disse que “ambiciono que”. Parece a mesma coisa, mas não é. A segunda expressão tem uma determinação que não gostaria de pôr de lado. Ou seja: precisamos de insistir, precisamos de continuar a chamar a atenção para o logro que representam os actuais alinhamentos dos telejornais. Logro, mentira, oportunismo, manipulação – não sei bem que palavra usar.
Quarta-feira, Novembro 05, 2003
128 - AINDA AS VIAGENS
Duzentos e trinta mil euros ficaram por devolver - diz hoje o Público, ainda sobre o arquivamento dos processos instaurados aos senhores Deputados.
E somos nós, depois, os pequenos contribuintes, quem anda a fugir aos impostos e a prejudicar as finanças do país...
Mas não critiquemos os Deputados. Não vá dizer-se que estamos a contribuir para o agravamento da má imagem da classe política.
E somos nós, depois, os pequenos contribuintes, quem anda a fugir aos impostos e a prejudicar as finanças do país...
Mas não critiquemos os Deputados. Não vá dizer-se que estamos a contribuir para o agravamento da má imagem da classe política.
Terça-feira, Novembro 04, 2003
127 - ARQUIVO DE VIAGENS
Souto Moura arquiva processo de viagens de Deputados - informa hoje o Diário de Noticias.
Parece que umas cartas bastaram para esclarecer o assunto, ao fim deste tempo todo, quando quase o tinhamos esquecido.
Faz-me lembrar aquela anedota do juiz de Alcobaça que, quando lhe perguntavam pelo andamento de determinado processo, respondia invariavelmente: está a seguir o seu curso normal...
Deitava-os ao rio, claro.
É assim.
Arquiva-se. Fica o assunto esquecido.
É aliás uma excelente oportunidade para apaziguar os Deputados.
Aguardemos qual o "curso normal" dos restantes...
Parece que umas cartas bastaram para esclarecer o assunto, ao fim deste tempo todo, quando quase o tinhamos esquecido.
Faz-me lembrar aquela anedota do juiz de Alcobaça que, quando lhe perguntavam pelo andamento de determinado processo, respondia invariavelmente: está a seguir o seu curso normal...
Deitava-os ao rio, claro.
É assim.
Arquiva-se. Fica o assunto esquecido.
É aliás uma excelente oportunidade para apaziguar os Deputados.
Aguardemos qual o "curso normal" dos restantes...
Segunda-feira, Novembro 03, 2003
126 - ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA
Eu acho que aprendi sempre muito com o António Alçada Baptista.
Desde a sua Peregrinação Interior (1971), passando pela colaboração em O Tempo e o Modo, pela herança que dele recebi nos anos em que dirigi a Moraes Editores, sucedendo ao Pedro Tamen, até às suas crónicas e livros actuais.
Com o António aprende-se sempre. Mesmo só conversando. Mesmo só ouvindo-o falar.
Este tempo já não é o meu - diz ele agora ao “JL”.
Não tenho nada a ver com o que são hoje as relações entre as pessoas, a cultura, a política...
Quem é que não sente isto, hoje?
Ele di-lo com desgosto, suponho. Nós também.
Desde a sua Peregrinação Interior (1971), passando pela colaboração em O Tempo e o Modo, pela herança que dele recebi nos anos em que dirigi a Moraes Editores, sucedendo ao Pedro Tamen, até às suas crónicas e livros actuais.
Com o António aprende-se sempre. Mesmo só conversando. Mesmo só ouvindo-o falar.
Este tempo já não é o meu - diz ele agora ao “JL”.
Não tenho nada a ver com o que são hoje as relações entre as pessoas, a cultura, a política...
Quem é que não sente isto, hoje?
Ele di-lo com desgosto, suponho. Nós também.
125 - AINDA O LIVRO DE MARIA JOSÉ MORGADO
O livro de Maria José Morgado sobre a fraude e a corrupção em Portugal, colocado nas livrarias na sexta-feira passada, chega a hoje, segunda-feira, com os seus 12.000 exemplares praticamente esgotados.
Mesmo atravessando a situação negativa de sábado ter sido feriado; e grande parte das livrarias tradicionais, em todo o país, estarem portanto encerradas.
Vamos reimprimir mais 10.000 exemplares.
Quer isto dizer que se a comunicação social concedesse (regularmente) maior atenção aos livros de facto importantes, se os escolhesse a eles em vez de a outros temas menores, melhor sorte teriam os livros, melhor qualidade de informação teríamos todos nós.
Digo isto, também, relativamente à literatura.
Ambiciono o dia em que um telejornal possa abrir com a informação: foi hoje publicado um novo romance de um autor português... em vez do habitual “mulher esfaqueia marido por razões passionais...”
Mesmo atravessando a situação negativa de sábado ter sido feriado; e grande parte das livrarias tradicionais, em todo o país, estarem portanto encerradas.
Vamos reimprimir mais 10.000 exemplares.
Quer isto dizer que se a comunicação social concedesse (regularmente) maior atenção aos livros de facto importantes, se os escolhesse a eles em vez de a outros temas menores, melhor sorte teriam os livros, melhor qualidade de informação teríamos todos nós.
Digo isto, também, relativamente à literatura.
Ambiciono o dia em que um telejornal possa abrir com a informação: foi hoje publicado um novo romance de um autor português... em vez do habitual “mulher esfaqueia marido por razões passionais...”
124 - LIVROS
Os meus colegas de profissão deixaram-me para aqui a cantar sozinho. Reparo que o Oceanos (blogue de um editor) e o Bicho Escala Estantes (blogue de um livreiro) têm perdido o pio.
Sintoma da crise do livro, que lhes não deixa tempo? Cansaço? Pressão do trabalho do fim de ano?
Não é que a minha assiduidade seja exemplar. Mas lá procuro ir andando, no meio de jornalistas e outros comentadores mais regulares, falando disto e daquilo, exercitando aquela máxima do meu amigo Carlos Araújo, de que um editor “é um técnico altamente especializado em ideias gerais”.
Ou seja: alguém que não resiste a meter o bedelho onde nem sempre é chamado.
Sintoma da crise do livro, que lhes não deixa tempo? Cansaço? Pressão do trabalho do fim de ano?
Não é que a minha assiduidade seja exemplar. Mas lá procuro ir andando, no meio de jornalistas e outros comentadores mais regulares, falando disto e daquilo, exercitando aquela máxima do meu amigo Carlos Araújo, de que um editor “é um técnico altamente especializado em ideias gerais”.
Ou seja: alguém que não resiste a meter o bedelho onde nem sempre é chamado.
Sábado, Novembro 01, 2003
123 - NOVAS PROFISSÕES
No fim-de-semana, com a bateria de jornais, chegam aos quiosques aquelas revistas só com fotografias e legendas, quase sem texto. Confesso que às vezes não lhes resisto. Mas fico abismado.
Há gajos que "vendem" tudo.
Exibem-se a si próprios, às mulheres e namoradas, aos filhos, aos cães, aos gatos, aos periquitos, vendem imagens dos casamentos, dos divórcios, dos baptizados, da gravidez, das férias, das criancinhas acabadas de nascer, das casas, dos aniversários…
Que ganharão com isso? Dinheiro? Notoriedade? Favores? Umas viagens ou férias pagas? Uns vestidinhos emprestados para umas festas ou para encenar umas fotos? Uns trabalhos de cabeleireiros, esteticistas, umas horas de ginástica ou de massagens? Uns convites para jantarinhos ou umas festas? Puro exibicionismo?
Ele há cada nova profissão…
Dizia uma, há dias, a meio de um telejornal:
- Que é que pensam…eu trabalho muito.
Pagará impostos? Ou viverá de trocas directas?
Meio país de tanga e deprimido, assiste ao outro meio que se diverte com tolices.
Há gajos que "vendem" tudo.
Exibem-se a si próprios, às mulheres e namoradas, aos filhos, aos cães, aos gatos, aos periquitos, vendem imagens dos casamentos, dos divórcios, dos baptizados, da gravidez, das férias, das criancinhas acabadas de nascer, das casas, dos aniversários…
Que ganharão com isso? Dinheiro? Notoriedade? Favores? Umas viagens ou férias pagas? Uns vestidinhos emprestados para umas festas ou para encenar umas fotos? Uns trabalhos de cabeleireiros, esteticistas, umas horas de ginástica ou de massagens? Uns convites para jantarinhos ou umas festas? Puro exibicionismo?
Ele há cada nova profissão…
Dizia uma, há dias, a meio de um telejornal:
- Que é que pensam…eu trabalho muito.
Pagará impostos? Ou viverá de trocas directas?
Meio país de tanga e deprimido, assiste ao outro meio que se diverte com tolices.
Sexta-feira, Outubro 31, 2003
122 - LIVRO DE MARIA JOSÉ MORGADO
O lançamento do livro de Maria José Morgado e José Vegar, “O Inimigo sem Rosto – Fraude e corrupção em Portugal”, mereceu a atenção e o cuidado de quase toda a comunicação social. Ontem a RTP, com Judite de Sousa, SIC, SIC-Noticias, hoje o Diário Económico, Público, Diário de Noticias, Correio da Manhã, amanhã, sábado, a TSF com Margarida Marante, domingo a revista Pública com Adelino Gomes, etc.
Talvez isto queira dizer que outros temas importantes, como a fraude e a corrupção, começam a ocupar o lugar que se justifica nas nossas preocupações.
Vejamos se as autoridades se sensibilizam também para essa importância e para o fornecimento dos meios necessários à sua investigação.
Talvez isto queira dizer que outros temas importantes, como a fraude e a corrupção, começam a ocupar o lugar que se justifica nas nossas preocupações.
Vejamos se as autoridades se sensibilizam também para essa importância e para o fornecimento dos meios necessários à sua investigação.
121 - PHILIP ROTH
Eis um desgosto para os "fanáticos" de Philip Roth: o seu último livro, "The Human Stain", não será afinal publicado na altura da estreia do filme de Robert Benton, com Nicole Kidman e Anthony Hopckins.
Roth recusou qualquer relação de proximidade do seu livro com o filme. Nenhuma imagem do filme na capa, nenhuma indicação na sua biografia dessa adaptação, etc.
Ignoro por quê.
Mas a vontade e as decisões dos autores são para nós sempre soberanas.
Mesmo dos que não estão cá para as controlar.
Desgosto para os blogues Portugal dos Pequeninos e A Montanha Mágica, pelo menos. Desgosto para mim também, é claro.
Roth recusou qualquer relação de proximidade do seu livro com o filme. Nenhuma imagem do filme na capa, nenhuma indicação na sua biografia dessa adaptação, etc.
Ignoro por quê.
Mas a vontade e as decisões dos autores são para nós sempre soberanas.
Mesmo dos que não estão cá para as controlar.
Desgosto para os blogues Portugal dos Pequeninos e A Montanha Mágica, pelo menos. Desgosto para mim também, é claro.
Terça-feira, Outubro 28, 2003
120 - A ENTREVISTA
Primeiro comentário: ao ouvir a entrevista com o Presidente a minha reacção inicial foi pensar: finalmente alguém assume a oposição às políticas do Governo. Sei que se trata de uma frase deslocada e algo comprometedora para o Presidente. Mas foi o que concluí a uma primeira leitura.
Sobretudo as suas criticas implícitas às prioridades do orçamento para 2004 deixaram-me preocupado. Há que pensar que o défice real se tem mantido muito acima daquele que o Governo insiste em apresentar ao país. O Presidente disse-o: uma coisa é o défice real resultante das contas reais; outra coisa são as medidas extraordinárias inventadas para o corrigir. Nenhum país (como nenhuma empresa) pode iludir-se permanentemente com o recurso a medidas extraordinárias.
Vejamos como reagem os Partidos. Como o avestruz, certamente, cada um à sua maneira. A entrevista foi incómoda para todos. Mas todos irão apoiá-la.
Segundo comentário: a Cultura foi coisa que não existiu nas preocupações dos entrevistadores. Por isso o Presidente também não se referiu a ela. E no entanto é ela um dos factores de recuperação da nossa auto-estima. A presença e os prémios internacionais dos nossos escritores, artistas plásticos, musicos, cineastas, arquitectos, etc. A não ser que se esteja a pensar que apenas os estádios e o futebol nos salvarão...
Terceiro comentário: uma excelente entrevista, com um timing algo estranho (ausência do país do Primeiro Ministro e do líder do PS, véspera do previsto julgamento do Bibi), uma generosa boleia ao PS, mostrando que o Presidente não anda mesmo nada distraído (vide referência ao caso do Hospital Amadora-Sintra).
Sobretudo as suas criticas implícitas às prioridades do orçamento para 2004 deixaram-me preocupado. Há que pensar que o défice real se tem mantido muito acima daquele que o Governo insiste em apresentar ao país. O Presidente disse-o: uma coisa é o défice real resultante das contas reais; outra coisa são as medidas extraordinárias inventadas para o corrigir. Nenhum país (como nenhuma empresa) pode iludir-se permanentemente com o recurso a medidas extraordinárias.
Vejamos como reagem os Partidos. Como o avestruz, certamente, cada um à sua maneira. A entrevista foi incómoda para todos. Mas todos irão apoiá-la.
Segundo comentário: a Cultura foi coisa que não existiu nas preocupações dos entrevistadores. Por isso o Presidente também não se referiu a ela. E no entanto é ela um dos factores de recuperação da nossa auto-estima. A presença e os prémios internacionais dos nossos escritores, artistas plásticos, musicos, cineastas, arquitectos, etc. A não ser que se esteja a pensar que apenas os estádios e o futebol nos salvarão...
Terceiro comentário: uma excelente entrevista, com um timing algo estranho (ausência do país do Primeiro Ministro e do líder do PS, véspera do previsto julgamento do Bibi), uma generosa boleia ao PS, mostrando que o Presidente não anda mesmo nada distraído (vide referência ao caso do Hospital Amadora-Sintra).
Segunda-feira, Outubro 27, 2003
119 - SURPREENDENTE E GRAVE
Foram roubadas da Direcção Distrital de Finanças de Lisboa as assinaturas digitais de todos os chefes de repartição. E mais: foram igualmente roubadas as bases de dados relativas aos principais devedores ao fisco (acima dos 250.000 euros, cada), mais a lista dos processos em execução fiscal.
Parece que não existem cópias de toda esta documentação, admitindo-se portanto a quebra das cobranças em curso.
Um assalto inocente, está a ver-se. Os larápios queriam apenas roubar os computadores. Por engano levaram também estes ficheiros.
Diz o Público que a Ministra das Finanças confirmou já o sucedido, embora desdramatizando a situação.
Por isso se fala tão pouco do assunto. Tem pouca importância. Afinal, certamente, os valores em causa já seriam dificilmente cobráveis.
Parece que não existem cópias de toda esta documentação, admitindo-se portanto a quebra das cobranças em curso.
Um assalto inocente, está a ver-se. Os larápios queriam apenas roubar os computadores. Por engano levaram também estes ficheiros.
Diz o Público que a Ministra das Finanças confirmou já o sucedido, embora desdramatizando a situação.
Por isso se fala tão pouco do assunto. Tem pouca importância. Afinal, certamente, os valores em causa já seriam dificilmente cobráveis.
Domingo, Outubro 26, 2003
118 - JOSÉ CARDOSO PIRES
O Diário de Noticias e a sua equipa da cultura, estão hoje de parabéns. Bonita homenagem (nas páginas 2, 3, 4, 5 e 6, com chamada na primeira), pela passagem do 5º aniversário da morte de José Cardoso Pires.
No Público (jornal onde o Zé escreveu semanalmente as suas crónicas no tempo da direcção de Vicente Jorge Silva), nem uma palavra.
Nos programas das televisões também não – ao menos com a inserção de um dos filmes extraídos dos seus romances: Balada da Praia dos Cães, de José Fonseca e Costa, ou O Delfim, de Fernando Lopes.
Mas também a Câmara de Lisboa se esqueceu. Duplamente. No tempo de João Soares/Maria Calado, ficaram na gaveta as propostas aprovadas logo após o seu falecimento, do nome para uma rua e para uma Biblioteca Municipal. Agora, no tempo de Santana Lopes/Maria Manuel Pinto Barbosa, as “bibliotecas estão fechadas ao domingo”…talvez para a semana o assunto da rua volte a ser discutido.
E não é verdade que outros municípios não tenham feito nada. Há uns meses, a Câmara Municipal de Vila de Rei (a mártir dos incêndios), deu o nome do Zé a uma rua e organizou-lhe uma homenagem com intervenções de Lídia Jorge, Rogério Rodrigues, Fernando Paulouro das Neves, Ana Cardoso Pires, do Presidente do IPLB e do Ministro da Cultura. Hoje à noite, a Câmara Municipal de Bombarral comemora estes 5 anos também com uma sessão de homenagem com intervenções de Ruy Zink e de mim próprio, que também participei da primeira.
Dezanove municípios honraram já a sua toponímia com ruas que recordam o seu nome. Lisboa, a sua cidade, deixou-se ficar para o fim. Vergonhosamente… para quem cá vive.
Valha-nos a descentralização…
No Público (jornal onde o Zé escreveu semanalmente as suas crónicas no tempo da direcção de Vicente Jorge Silva), nem uma palavra.
Nos programas das televisões também não – ao menos com a inserção de um dos filmes extraídos dos seus romances: Balada da Praia dos Cães, de José Fonseca e Costa, ou O Delfim, de Fernando Lopes.
Mas também a Câmara de Lisboa se esqueceu. Duplamente. No tempo de João Soares/Maria Calado, ficaram na gaveta as propostas aprovadas logo após o seu falecimento, do nome para uma rua e para uma Biblioteca Municipal. Agora, no tempo de Santana Lopes/Maria Manuel Pinto Barbosa, as “bibliotecas estão fechadas ao domingo”…talvez para a semana o assunto da rua volte a ser discutido.
E não é verdade que outros municípios não tenham feito nada. Há uns meses, a Câmara Municipal de Vila de Rei (a mártir dos incêndios), deu o nome do Zé a uma rua e organizou-lhe uma homenagem com intervenções de Lídia Jorge, Rogério Rodrigues, Fernando Paulouro das Neves, Ana Cardoso Pires, do Presidente do IPLB e do Ministro da Cultura. Hoje à noite, a Câmara Municipal de Bombarral comemora estes 5 anos também com uma sessão de homenagem com intervenções de Ruy Zink e de mim próprio, que também participei da primeira.
Dezanove municípios honraram já a sua toponímia com ruas que recordam o seu nome. Lisboa, a sua cidade, deixou-se ficar para o fim. Vergonhosamente… para quem cá vive.
Valha-nos a descentralização…
117 - JOÃO UBALDO RIBEIRO
Parece que tenho um novo leitor para estes textos, do outro lado do mar: o escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro.
Nada me deixa mais feliz.
O João é um grande escritor, um enorme contador de histórias, um homem que sabe fazer passar o humor, discretamente, pelo meio das palavras, um criador de linguagem, como dirão os críticos literários.
Escreveu um livro que considero excepcional: “Viva o Povo Brasileiro”. Durante muitos anos, antes de conseguir publicá-lo, foi um livro que li e reli por várias vezes. Um daqueles livros que abrimos à noite, ao acaso, para nos encantarmos com a leitura de algumas páginas. Depois pousamo-lo, lentamente, em cima da mesa, e ficamos a pensar no que nos conta.
E como nos conta.
De que modo e de que maneira aquelas palavras se ordenam para nos irem construindo o sentido e as emoções que nos transmitem.
Vai agora sair, até ao final do ano, o seu último romance publicado no Brasil: “Diário do Farol”. Um livro misterioso – assim o classifiquei no post anterior. Um narrador que, com a maior das canduras e ingenuidade, nos vai relatando as grandes maldades e tropelias que atravessaram a sua vida. Um exercício de linguagem que certamente não foi fácil de trabalhar e conseguir. Perfeito, dir-vos-ia. Com tudo aquilo que nos evidencia o que é o trabalho minucioso de um grande escritor.
João: agora que sei que nos visita através dos blogues, aí tem ao lado, à direita, alguns links para a bloguistica portuguesa. Neles encontrará outros, como num rendilhado.
Nada me deixa mais feliz.
O João é um grande escritor, um enorme contador de histórias, um homem que sabe fazer passar o humor, discretamente, pelo meio das palavras, um criador de linguagem, como dirão os críticos literários.
Escreveu um livro que considero excepcional: “Viva o Povo Brasileiro”. Durante muitos anos, antes de conseguir publicá-lo, foi um livro que li e reli por várias vezes. Um daqueles livros que abrimos à noite, ao acaso, para nos encantarmos com a leitura de algumas páginas. Depois pousamo-lo, lentamente, em cima da mesa, e ficamos a pensar no que nos conta.
E como nos conta.
De que modo e de que maneira aquelas palavras se ordenam para nos irem construindo o sentido e as emoções que nos transmitem.
Vai agora sair, até ao final do ano, o seu último romance publicado no Brasil: “Diário do Farol”. Um livro misterioso – assim o classifiquei no post anterior. Um narrador que, com a maior das canduras e ingenuidade, nos vai relatando as grandes maldades e tropelias que atravessaram a sua vida. Um exercício de linguagem que certamente não foi fácil de trabalhar e conseguir. Perfeito, dir-vos-ia. Com tudo aquilo que nos evidencia o que é o trabalho minucioso de um grande escritor.
João: agora que sei que nos visita através dos blogues, aí tem ao lado, à direita, alguns links para a bloguistica portuguesa. Neles encontrará outros, como num rendilhado.
Sábado, Outubro 25, 2003
116 - NOVOS LIVROS
Como não me apetece nada (mesmo nada…) estar a falar de outros “assuntos correntes”, aqui ficam algumas notas publicitárias, como lhes têm chamado alguns blogues mais mal-humorados.
Novas edições até ao final do ano:
LITERATURA
• Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo – o novo romance de António Lobo Antunes, após a recente atribuição do prémio União Latina. Será lançado em 18/11, durante um jantar comemorativo dos 20 anos de trabalho conjunto entre o editor e o autor. Apresentações de Eduardo Lourenço e de Maria Luísa Blanco (directora de Babélia/El País);
• Portugal – edição especial deste texto de Miguel Torga, acompanhado de fotografias do Prémio Pessoa, 2000, José Manuel Rodrigues;
• Fica Comigo Esta Noite – contos maravilhosos de Inês Pedrosa;
• Coisas da Alma – contos de João de Melo;
• Nunca Mais é Sábado – uma antologia de poesia e de poetas de Moçambique, organizada por Nelson Saúte;
• Catálogo de Sombras – contos do angolano José Eduardo Agualusa;
• Vermelho – o novo e surpreendente romance de Mafalda Ivo Cruz;
• O Paraíso na Outra Esquina – o último romance de Mário Vargas Llosa, recentemente lançado com a sua presença em Portugal;
• Para Além da Crença – novo romance de V.S.Naipaul, o prémio Nobel de 2001;
• Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde – o belíssimo romance de António Tabucchi, até ao momento inédito em Portugal;
• Diário do Farol – misterioso romance de João Ubaldo Ribeiro;
• Poemas Escolhidos de Jorge Luís Borges – edição bilingue, organização e tradução de Ruy Belo. A recuperação de um projecto antigo em homenagem a Ruy Belo, meu poeta de cabeceira;
• A reedição dos 4 romances de Coetzee, após a atribuição do Nobel deste ano. O 20º Nobel no catálogo da DQ. Dá gosto… sobretudo quando as apostas são anteriores ao prémio;
• Uma Antologia Lírica de Luís de Camões, em edição de bolso, excelentemente organizada pelo poeta e crítico literário Fernando Pinto do Amaral. O prazer de ler os textos tal e qual eles são. Um escândalo… as diferenças com as edições existentes.
NÃO-FICÇÃO
• O Inimigo sem Rosto – o importantíssimo e perturbador livro de Maria José Morgado e José Vegar sobre a fraude e a corrupção em Portugal. Nas livrarias já no próximo dia 31.10. Cobertura total de jornais, rádios, televisões. A esgotar no próprio dia, espero;
• O Estrago da Nação, Olhem para Mim, O Processo Casa Pia – os 3 primeiros títulos da nova colecção Cadernos DQ de Reportagem, da autoria, respectivamente, dos jornalistas Pedro Almeida Vieira, Fernanda Câncio, Óscar Mascarenhas. Os jornalistas deixam de poder queixar-se: passaram a ter um novo espaço de trabalho, um espaço onde se pode ir mais longe;
• Aprender a Ouvir Música Clássica – pelo maestro António Vitorino d' Almeida;
• Saber Escrever – um guia para uma melhor utilização da língua portuguesa, por uma equipa coordenada por Edite Estrela. Muito útil, nos tempos que correm. Até para os blogues...;
• As Entrevistas de Anabela Mota Ribeiro – finalmente reunidas em livro;
• As Memórias Vivas da senhora Clinton – polémico, talvez. Bom para os curiosos;
• As Maçãs do Senhor Peabody – Madonna publica o seu segundo texto para crianças. Houve muitas que gostaram;
E aqui fica a publicidade. Se entenderem podem também usá-la como informação.
Novas edições até ao final do ano:
LITERATURA
• Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo – o novo romance de António Lobo Antunes, após a recente atribuição do prémio União Latina. Será lançado em 18/11, durante um jantar comemorativo dos 20 anos de trabalho conjunto entre o editor e o autor. Apresentações de Eduardo Lourenço e de Maria Luísa Blanco (directora de Babélia/El País);
• Portugal – edição especial deste texto de Miguel Torga, acompanhado de fotografias do Prémio Pessoa, 2000, José Manuel Rodrigues;
• Fica Comigo Esta Noite – contos maravilhosos de Inês Pedrosa;
• Coisas da Alma – contos de João de Melo;
• Nunca Mais é Sábado – uma antologia de poesia e de poetas de Moçambique, organizada por Nelson Saúte;
• Catálogo de Sombras – contos do angolano José Eduardo Agualusa;
• Vermelho – o novo e surpreendente romance de Mafalda Ivo Cruz;
• O Paraíso na Outra Esquina – o último romance de Mário Vargas Llosa, recentemente lançado com a sua presença em Portugal;
• Para Além da Crença – novo romance de V.S.Naipaul, o prémio Nobel de 2001;
• Está a Fazer-se Cada Vez Mais Tarde – o belíssimo romance de António Tabucchi, até ao momento inédito em Portugal;
• Diário do Farol – misterioso romance de João Ubaldo Ribeiro;
• Poemas Escolhidos de Jorge Luís Borges – edição bilingue, organização e tradução de Ruy Belo. A recuperação de um projecto antigo em homenagem a Ruy Belo, meu poeta de cabeceira;
• A reedição dos 4 romances de Coetzee, após a atribuição do Nobel deste ano. O 20º Nobel no catálogo da DQ. Dá gosto… sobretudo quando as apostas são anteriores ao prémio;
• Uma Antologia Lírica de Luís de Camões, em edição de bolso, excelentemente organizada pelo poeta e crítico literário Fernando Pinto do Amaral. O prazer de ler os textos tal e qual eles são. Um escândalo… as diferenças com as edições existentes.
NÃO-FICÇÃO
• O Inimigo sem Rosto – o importantíssimo e perturbador livro de Maria José Morgado e José Vegar sobre a fraude e a corrupção em Portugal. Nas livrarias já no próximo dia 31.10. Cobertura total de jornais, rádios, televisões. A esgotar no próprio dia, espero;
• O Estrago da Nação, Olhem para Mim, O Processo Casa Pia – os 3 primeiros títulos da nova colecção Cadernos DQ de Reportagem, da autoria, respectivamente, dos jornalistas Pedro Almeida Vieira, Fernanda Câncio, Óscar Mascarenhas. Os jornalistas deixam de poder queixar-se: passaram a ter um novo espaço de trabalho, um espaço onde se pode ir mais longe;
• Aprender a Ouvir Música Clássica – pelo maestro António Vitorino d' Almeida;
• Saber Escrever – um guia para uma melhor utilização da língua portuguesa, por uma equipa coordenada por Edite Estrela. Muito útil, nos tempos que correm. Até para os blogues...;
• As Entrevistas de Anabela Mota Ribeiro – finalmente reunidas em livro;
• As Memórias Vivas da senhora Clinton – polémico, talvez. Bom para os curiosos;
• As Maçãs do Senhor Peabody – Madonna publica o seu segundo texto para crianças. Houve muitas que gostaram;
E aqui fica a publicidade. Se entenderem podem também usá-la como informação.
115 - MARIO VARGAS LLOSA
Desta vez o comentário de A Montanha Mágica foi injusto para com os jornalistas portugueses.
Mario Vargas Llosa esteve em Portugal por 4 ou 5 dias. Durante esse tempo foi possível à Dom Quixote organizar encontros e entrevistas com quase todos os mais importantes orgãos de comunicação social portugueses. Vieram todos, todos fizeram com ele o trabalho que entenderam. Muitas entrevistas e outros trabalhos estão, naturalmente, ainda por publicar: a revista Publica (Adelino Gomes), as revistas Ler e Os Meus Livros, o Expresso, uma longa entrevista de televisão com a Ana Sousa Dias (para além da de Judite de Sousa, transmitida a horas anormalmente tardias), a Visão, etc. Sairam apenas, até agora, as dos jornais diários e rádios (TSF), sempre mais flexíveis, como é natural.
Não há razão para comentários negativos. Desta vez.
Os problemas foram outros.
Durante a sua estadia Mário perguntou-me várias vezes se os jornalistas com quem falou conheceriam de factos os seus livros. Isto porque lhe não faziam perguntas sobre literatura; apenas sobre política. Tive de lhe explicar que, em Portugal, o raio da política invade tudo, mesmo a cabeça dos jornalistas culturais. É uma seca. Ele respondia: mas sobre o Perú?!!! Interessa-lhes assim tanto o que se passa no Perú? Ainda se fosse sobre o Iraque, tu não achas?
Mario Vargas Llosa esteve em Portugal por 4 ou 5 dias. Durante esse tempo foi possível à Dom Quixote organizar encontros e entrevistas com quase todos os mais importantes orgãos de comunicação social portugueses. Vieram todos, todos fizeram com ele o trabalho que entenderam. Muitas entrevistas e outros trabalhos estão, naturalmente, ainda por publicar: a revista Publica (Adelino Gomes), as revistas Ler e Os Meus Livros, o Expresso, uma longa entrevista de televisão com a Ana Sousa Dias (para além da de Judite de Sousa, transmitida a horas anormalmente tardias), a Visão, etc. Sairam apenas, até agora, as dos jornais diários e rádios (TSF), sempre mais flexíveis, como é natural.
Não há razão para comentários negativos. Desta vez.
Os problemas foram outros.
Durante a sua estadia Mário perguntou-me várias vezes se os jornalistas com quem falou conheceriam de factos os seus livros. Isto porque lhe não faziam perguntas sobre literatura; apenas sobre política. Tive de lhe explicar que, em Portugal, o raio da política invade tudo, mesmo a cabeça dos jornalistas culturais. É uma seca. Ele respondia: mas sobre o Perú?!!! Interessa-lhes assim tanto o que se passa no Perú? Ainda se fosse sobre o Iraque, tu não achas?
Domingo, Outubro 19, 2003
114 - FRANKFURT
O Ministro da Cultura esteve na Feira do Livro de Frankfurt, informa o blogue Portugal dos Pequeninos.
Não tive o gosto de o ver nem de o cumprimentar. Julgo que passou por lá no final da Feira.
Já lá vai o tempo em que os stands dos editores em representação nacional eram visitados com cortesia pelo nosso Embaixador na Alemanha, pelo ICEP local, pelo Ministro e/ou Secretário de Estado da Cultura, pelos Presidentes do IPLB e do Instituto Camões, um corropio de personalidades oficiais, de jornalistas, de autores...
Estamos a precisar de outro Prémio Nobel.
Agora há pouco espaço para tirar fotografias.
Não tive o gosto de o ver nem de o cumprimentar. Julgo que passou por lá no final da Feira.
Já lá vai o tempo em que os stands dos editores em representação nacional eram visitados com cortesia pelo nosso Embaixador na Alemanha, pelo ICEP local, pelo Ministro e/ou Secretário de Estado da Cultura, pelos Presidentes do IPLB e do Instituto Camões, um corropio de personalidades oficiais, de jornalistas, de autores...
Estamos a precisar de outro Prémio Nobel.
Agora há pouco espaço para tirar fotografias.
Sexta-feira, Outubro 17, 2003
113 - BOMBA INTELIGENTE
Uma palavra de simpatia e apreço para a Charlotte, autora do blogue Bomba Inteligente.
Há algum tempo que pensava fazê-lo, mas o tempo foi adiando a iniciativa.
Não só pelo humor das suas Cenas da Vida Conjugal, como pela inteligência do restante.
Leio e acompanho este blogue (aguardo com curiosidade a decisão pedida aos linguistas sobre a utilização da palavra...) com a maior atenção.
Já agora: um mau escritor, como um mau pedreiro, distingue-se, creio eu, com facilidade.
Vê-se bem, salta à vista.
O que é difícil é distinguir os bons.
Além de serem poucos não costumam deixar as costuras à mostra...
Há algum tempo que pensava fazê-lo, mas o tempo foi adiando a iniciativa.
Não só pelo humor das suas Cenas da Vida Conjugal, como pela inteligência do restante.
Leio e acompanho este blogue (aguardo com curiosidade a decisão pedida aos linguistas sobre a utilização da palavra...) com a maior atenção.
Já agora: um mau escritor, como um mau pedreiro, distingue-se, creio eu, com facilidade.
Vê-se bem, salta à vista.
O que é difícil é distinguir os bons.
Além de serem poucos não costumam deixar as costuras à mostra...
112 - E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LOS ?
É uma interrogação dura e extrema, com a qual terminava uma selecção de textos de Karl Valentin, encenados há alguns anos pelo Teatro da Cornucópia e por Jorge Silva Melo.
Nunca mais esqueci este espectáculo fascinante.
Mas se a frase é extrema, não se poderia ao menos alterá-la, actualmente, para E NÃO SE PODE MANDÁ-LOS CALAR? Não se lhes pode pedir que se calem? Não se lhes pode pedir que acabem com este espectáculo deprimente e lamentável? Não se lhes pode pedir serenidade e dignidade? Políticos, ex-políticos, comentadores, advogados, juizes, procuradores, deputados, arguidos, testemunhas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, provedores, alunos e ex-alunos, eu sei lá...
O país está doente – há quem diga. Caramba, como não há-de estar...
Nunca mais esqueci este espectáculo fascinante.
Mas se a frase é extrema, não se poderia ao menos alterá-la, actualmente, para E NÃO SE PODE MANDÁ-LOS CALAR? Não se lhes pode pedir que se calem? Não se lhes pode pedir que acabem com este espectáculo deprimente e lamentável? Não se lhes pode pedir serenidade e dignidade? Políticos, ex-políticos, comentadores, advogados, juizes, procuradores, deputados, arguidos, testemunhas, psiquiatras, psicólogos e psicanalistas, provedores, alunos e ex-alunos, eu sei lá...
O país está doente – há quem diga. Caramba, como não há-de estar...
Terça-feira, Outubro 14, 2003
111 - A POLÍTICA, OS POLÍTICOS...
Decidi não comentar aqui nenhum dos recentes acontecimentos políticos.
Em primeiro lugar porque ocorreram durante a minha ausência e já foram todos largamente comentados na comunicação social tradicional e pela maioria dos blogues.
Depois porque sinto vergonha destas situações, porque me sinto incomodado enquanto cidadão.
Sei que a democracia de faz com os partidos políticos e que nos cabe tentar preservar e respeitar a dignidade da imagem dos políticos.
Mas como, nas actuais circunstâncias ? Se eles próprios dão de si mesmos a triste imagem de comportamento e de conduta a que estamos a assistir ?
Para além dos 2 Ministros demitidos, da sua actuação e das suas palavras de honra, como aguentar ouvir nas televisões os comentários do senhor Guilherme Silva ou da senhora dona Ana Gomes ? O senhor Ferro Rodrigues ou o espectáculo lamentável do senhor Paulo Pedroso ? Um juiz em todo o terreno ou um procurador falando mais do que deveria ?
Como aguentar tudo isto sem sentir vergonha de viver aqui, da pobreza do nosso ambiente político, destes políticos que se dirigem aos seus concidadãos como se todos nós fossemos estúpidos, como se nenhum de nós soubesse pensar, como se não tivéssemos a nossa própria capacidade de discernimento ?
Afinal que país real conhecem a eles, que ideia têm a nosso respeito, continuarão a julgar-se reis num país de cegos ?
Não haverá um único que tenha coragem de mostrar a dignidade que lhes cabe ?
Não haverá um único que evite o populismo ou a demagogia de tentar esconder o que é óbvio ?
Que respeite os seus eleitores, os cidadãos deste país ?
Em primeiro lugar porque ocorreram durante a minha ausência e já foram todos largamente comentados na comunicação social tradicional e pela maioria dos blogues.
Depois porque sinto vergonha destas situações, porque me sinto incomodado enquanto cidadão.
Sei que a democracia de faz com os partidos políticos e que nos cabe tentar preservar e respeitar a dignidade da imagem dos políticos.
Mas como, nas actuais circunstâncias ? Se eles próprios dão de si mesmos a triste imagem de comportamento e de conduta a que estamos a assistir ?
Para além dos 2 Ministros demitidos, da sua actuação e das suas palavras de honra, como aguentar ouvir nas televisões os comentários do senhor Guilherme Silva ou da senhora dona Ana Gomes ? O senhor Ferro Rodrigues ou o espectáculo lamentável do senhor Paulo Pedroso ? Um juiz em todo o terreno ou um procurador falando mais do que deveria ?
Como aguentar tudo isto sem sentir vergonha de viver aqui, da pobreza do nosso ambiente político, destes políticos que se dirigem aos seus concidadãos como se todos nós fossemos estúpidos, como se nenhum de nós soubesse pensar, como se não tivéssemos a nossa própria capacidade de discernimento ?
Afinal que país real conhecem a eles, que ideia têm a nosso respeito, continuarão a julgar-se reis num país de cegos ?
Não haverá um único que tenha coragem de mostrar a dignidade que lhes cabe ?
Não haverá um único que evite o populismo ou a demagogia de tentar esconder o que é óbvio ?
Que respeite os seus eleitores, os cidadãos deste país ?
Domingo, Outubro 12, 2003
110 - DE NOVO O NOBEL...
"O nosso editor reage mal sempre que uma edição da Dom Quixote é criticada, e isso é natural. Não gostou da comparação que fiz entre a edição portuguesa e a inglesa de Coetzee, que a sua editora teve o mérito de publicar. Mas agora, que vai ter que reeditar os livros por causa do Nobel, valia a pena corrigir alguns aspectos da edição portuguesa de Desgraça."
Só hoje, de regresso da Feira do Livro de Frankfurt, pude ler este comentário de Pacheco Pereira sobre o texto de contracapa deste romance de Coetzee.
A expressão "reage mal sempre", usada por Pacheco Pereira, é no entanto um pouco despropositada. E inadequada em alguém que tem a obrigação de ter cuidado com as palavras.
Não é verdade o que diz, ouço com cuidado os comentários que me dirigem e corrijo-me sempre que considero necessário.
No caso presente posso até dizer que dei já indicações para que o texto de contracapa do livro fosse corrigido na nova edição.
A edição deste livro entretanto esgotou, assim como as dos outros livros de Coetzee.
Os quatro romances de Coetzee irão portanto reaparecer dentro de dias com uma nova imagem gráfica uniforme (sempre da autoria do Henrique Cayatte) e com novos textos de contracapa menos controversos (julgo).
Só hoje, de regresso da Feira do Livro de Frankfurt, pude ler este comentário de Pacheco Pereira sobre o texto de contracapa deste romance de Coetzee.
A expressão "reage mal sempre", usada por Pacheco Pereira, é no entanto um pouco despropositada. E inadequada em alguém que tem a obrigação de ter cuidado com as palavras.
Não é verdade o que diz, ouço com cuidado os comentários que me dirigem e corrijo-me sempre que considero necessário.
No caso presente posso até dizer que dei já indicações para que o texto de contracapa do livro fosse corrigido na nova edição.
A edição deste livro entretanto esgotou, assim como as dos outros livros de Coetzee.
Os quatro romances de Coetzee irão portanto reaparecer dentro de dias com uma nova imagem gráfica uniforme (sempre da autoria do Henrique Cayatte) e com novos textos de contracapa menos controversos (julgo).
109 - A ALEMANHA JÁ NÃO É O QUE ERA…
A Alemanha já não é o que era… – diz-me um amigo à chegada ao aeroporto de Frankfurt.
A fila para os táxis, caótica, empurrões, um “salve-se quem puder”, sem a menor ordem, disciplina, ou respeito. Comparado com isto o aeroporto de Lisboa pareceu-me de súbito um paraíso.
À noite, ao chegar para jantar em casa de amigos, a campainha da porta não tocava dentro de casa, a porta também não abria pelo lado de dentro. A Alemanha já não é o que era… – diziam os meus amigos aos convidados que iam entrando, à medida que eram vistos da janela.
Na Feira do Livro a crise e a poupança eram mais do que visíveis. Stands de grandes editores internacionais reduzidos a metade, menores representações nacionais, menos cocktails, menos festas, menos novidades, nenhuma surpresa, os editores e os agentes ensaiavam declaradamente uma nova solução: vendiam “ar”. Quer dizer: tentavam vender por pequenas fortunas livros que ainda não existem, que irão ainda ser escritos, que estarão concluídos lá para 2005, ou 2008, ou 2010, na melhor das hipóteses.
À falta de negócios concretos, antecipavam-se receitas sobre o que ainda não existe.
Alguns ingénuos, compravam, negociavam, participavam em leilões de direitos sobre o vazio. Ele era a biografia de “x”, as memórias de “y”, a vida intima de “z”. Tudo isto se vendia, ou se procurava vender, através de breves descrições escritas pelos próprios responsáveis de marketing dos vendedores.
A Europa já não é o que era… - dizia-se.
A fila para os táxis, caótica, empurrões, um “salve-se quem puder”, sem a menor ordem, disciplina, ou respeito. Comparado com isto o aeroporto de Lisboa pareceu-me de súbito um paraíso.
À noite, ao chegar para jantar em casa de amigos, a campainha da porta não tocava dentro de casa, a porta também não abria pelo lado de dentro. A Alemanha já não é o que era… – diziam os meus amigos aos convidados que iam entrando, à medida que eram vistos da janela.
Na Feira do Livro a crise e a poupança eram mais do que visíveis. Stands de grandes editores internacionais reduzidos a metade, menores representações nacionais, menos cocktails, menos festas, menos novidades, nenhuma surpresa, os editores e os agentes ensaiavam declaradamente uma nova solução: vendiam “ar”. Quer dizer: tentavam vender por pequenas fortunas livros que ainda não existem, que irão ainda ser escritos, que estarão concluídos lá para 2005, ou 2008, ou 2010, na melhor das hipóteses.
À falta de negócios concretos, antecipavam-se receitas sobre o que ainda não existe.
Alguns ingénuos, compravam, negociavam, participavam em leilões de direitos sobre o vazio. Ele era a biografia de “x”, as memórias de “y”, a vida intima de “z”. Tudo isto se vendia, ou se procurava vender, através de breves descrições escritas pelos próprios responsáveis de marketing dos vendedores.
A Europa já não é o que era… - dizia-se.
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
108 - O NOBEL, OUTRA VEZ...
Enquanto, num lado, Marcelo falava de livros no seu programa dominical, tive oportunidade de ir espreitar pela primeira vez Pacheco Pereira, ao outro.
Tive azar.
Pacheco falava de livros, também - a isso obriga provavelmente a concorrência televisiva.
Como de costume, defendendo-se de fazer outros comentários, Marcelo mostrava apressadamente as capas e arrumava a questão. Dele não se espera muito mais. Creio que nem sequer referiu o Nobel.
Ao contrário, Pacheco, mais erudito, tentava ir mais longe. Comentava os textos de contracapa das edições portuguesas, mostrava as edições estrangeiras, falava das capas, mais ou menos adequadas em seu entender, contava aos espectadores o “enredo” dos livros, como quem lhes conta uma história das mil e uma noites.
Falava de Coetzee... sem dizer uma palavra sobre literatura. Quer dizer: sobre as razões que afinal justificaram a atribuição do Nobel a este importante escritor da literatura pós-colonial.
Receia-se que Marcelo tenha encontrado um “renovador” para o seu estilo…
Ou que os políticos tenham encontrado no discurso sobre o literário uma nova forma de competição.
Ou, ainda, que tudo isto não passe da ocupação de um espaço que o Ministro da Cultura tem deixado ao abandono.
Tive azar.
Pacheco falava de livros, também - a isso obriga provavelmente a concorrência televisiva.
Como de costume, defendendo-se de fazer outros comentários, Marcelo mostrava apressadamente as capas e arrumava a questão. Dele não se espera muito mais. Creio que nem sequer referiu o Nobel.
Ao contrário, Pacheco, mais erudito, tentava ir mais longe. Comentava os textos de contracapa das edições portuguesas, mostrava as edições estrangeiras, falava das capas, mais ou menos adequadas em seu entender, contava aos espectadores o “enredo” dos livros, como quem lhes conta uma história das mil e uma noites.
Falava de Coetzee... sem dizer uma palavra sobre literatura. Quer dizer: sobre as razões que afinal justificaram a atribuição do Nobel a este importante escritor da literatura pós-colonial.
Receia-se que Marcelo tenha encontrado um “renovador” para o seu estilo…
Ou que os políticos tenham encontrado no discurso sobre o literário uma nova forma de competição.
Ou, ainda, que tudo isto não passe da ocupação de um espaço que o Ministro da Cultura tem deixado ao abandono.
Domingo, Outubro 05, 2003
107 - AINDA O NOBEL...
A chamada “short list” (segundo constou…) era este ano riquíssima: para além de Coetzee, estavam Ismail Kadaré, Salman Rushdie, Philip Roth, Mário Vargas Llosa, António Lobo Antunes, etc.
Todos grandes escritores. Todos publicados pela Dom Quixote.
Respondo agora a A Montanha Mágica: sim, confirmo que Mário Vargas Llosa estará de novo em Portugal no final deste mês de Outubro.
Convidado o ano passado, em Frankfurt, aceitou o programa de visita que lhe foi proposto e confirmou já as datas: 21, 22 e 23 de Outubro, em Lisboa; 24, no Porto.
Mário colocou uma única questão: queria tempo livre para conhecer Lisboa um pouco mais demoradamente e visitar alguns amigos.
Virá acompanhar o lançamento do seu último romance, “O Paraíso na Outra Esquina”, que já está nas livrarias.
Para além do programa normal da sua estadia vamos tentar surpreendê-lo, a propósito do tema deste seu novo livro, organizando um encontro com uma Senhora, neta de Gaugin, que vive em Cascais.
Todos grandes escritores. Todos publicados pela Dom Quixote.
Respondo agora a A Montanha Mágica: sim, confirmo que Mário Vargas Llosa estará de novo em Portugal no final deste mês de Outubro.
Convidado o ano passado, em Frankfurt, aceitou o programa de visita que lhe foi proposto e confirmou já as datas: 21, 22 e 23 de Outubro, em Lisboa; 24, no Porto.
Mário colocou uma única questão: queria tempo livre para conhecer Lisboa um pouco mais demoradamente e visitar alguns amigos.
Virá acompanhar o lançamento do seu último romance, “O Paraíso na Outra Esquina”, que já está nas livrarias.
Para além do programa normal da sua estadia vamos tentar surpreendê-lo, a propósito do tema deste seu novo livro, organizando um encontro com uma Senhora, neta de Gaugin, que vive em Cascais.
Sábado, Outubro 04, 2003
106 - PRÉMIOS
Parto para a Feira de Frankfurt num momento de prémios literários.
O Nobel para J. M. Coetzee, ao fim dos 4 romances publicados ( "À Espera dos Bárbaros", "A Ilha", "A Idade do Ferro" e "Desgraça" - certamente alguns terão agora de ser reeditados); os do Pen Clube para o romance "O Rapaz de Boticelli", de Mafalda Ivo Cruz (no momento em que é colocado nas livrarias o seu novo romance: "Vermelho"), e para a "Obra Poética" de João Rui de Sousa; o prémio Fernando Namora (do Estoril-Sol) para o romance "O Homem que Sabia a Mar", de Armando Silva Carvalho; o Prémio da Crítica também para a "Obra Poética" de João Rui de Sousa.
Sinto-me como o Pacheco Pereira a fazer o elogio do número de leitores do seu blogue...
Parabéns aos Autores. Sobretudo ao Coetzee, enorme escritor, que não lerá certamente esta mensagem.
Ao menos assim teremos direito a umas linhas na comunicação social. Depois de lhes enviarmos as informações preparadas, já se sabe.
Sobre Coetzee encontrarão aqui reproduzida uma breve mas interessante nota biográfica: Não Esperem Nada de Mim. E aqui, em A Montanha Mágica, como não podia deixar de ser, uma excelente entrevista. Os blogues não andam distraídos.
Quanto a Frankfurt é cada vez mais uma maçada.
Este ano até o Nobel foi anunciado antes.
Até essa expectativa lhe foi retirada.
O Nobel para J. M. Coetzee, ao fim dos 4 romances publicados ( "À Espera dos Bárbaros", "A Ilha", "A Idade do Ferro" e "Desgraça" - certamente alguns terão agora de ser reeditados); os do Pen Clube para o romance "O Rapaz de Boticelli", de Mafalda Ivo Cruz (no momento em que é colocado nas livrarias o seu novo romance: "Vermelho"), e para a "Obra Poética" de João Rui de Sousa; o prémio Fernando Namora (do Estoril-Sol) para o romance "O Homem que Sabia a Mar", de Armando Silva Carvalho; o Prémio da Crítica também para a "Obra Poética" de João Rui de Sousa.
Sinto-me como o Pacheco Pereira a fazer o elogio do número de leitores do seu blogue...
Parabéns aos Autores. Sobretudo ao Coetzee, enorme escritor, que não lerá certamente esta mensagem.
Ao menos assim teremos direito a umas linhas na comunicação social. Depois de lhes enviarmos as informações preparadas, já se sabe.
Sobre Coetzee encontrarão aqui reproduzida uma breve mas interessante nota biográfica: Não Esperem Nada de Mim. E aqui, em A Montanha Mágica, como não podia deixar de ser, uma excelente entrevista. Os blogues não andam distraídos.
Quanto a Frankfurt é cada vez mais uma maçada.
Este ano até o Nobel foi anunciado antes.
Até essa expectativa lhe foi retirada.
Quinta-feira, Setembro 25, 2003
105 - JORGE COLOMBO
Vá lá, façam uma visita ao site do Jorge Colombo.
Ninguém se arrependerá.
É bem melhor do que ficar a ouvir o futuro cabeça de lista da coligação PSD/CDS às eleições europeias. Ele não vai dizer nada de importante. Só vai preparar o terreno para sair por aí.
Ninguém se arrependerá.
É bem melhor do que ficar a ouvir o futuro cabeça de lista da coligação PSD/CDS às eleições europeias. Ele não vai dizer nada de importante. Só vai preparar o terreno para sair por aí.
104 - GRUPOS EDITORIAIS - EDITORES "INDEPENDENTES"
Este é o título do último texto publicado no DNA de 13.09.2003.
Com ele encerrei, ao fim de um ano, a minha colaboração em termos regulares nesta publicação.
Sobra-me a inveja e a admiração por todos aqueles que, não sendo profissionais, conseguem manter uma colaboração regular na comunicação social. Não é fácil, na verdade. Sobretudo quando (como é o meu caso) a vida se nos enche de outras responsabilidades e compromissos. Nem sempre tão agradáveis...
Tentarei voltar, outro dia, após esta pausa. Se alguém achar isso interessante, evidentemente.
Aqui fica o texto:
A presença de Grupos empresariais na área da edição ou da comercialização do livro, não está em Portugal ainda suficientemente tratada, provavelmente por não termos para a pensar nem a experiência, nem os dados, nem o distanciamento suficientes.
Em algumas intervenções recentes, no nosso meio, tenho ouvido classificar esta situação – repetidamente – como de uma “grave ameaça” para o nosso mercado.
É evidente que esta é uma forma barroca de considerar o problema. A não ser que consideremos “ameaçadora” a própria realidade em que nos movemos.
Em toda a parte tem sido esta a tendência dominante no mundo empresarial, não apenas no sector da edição. As empresas associam-se, fundem-se, constituem grupos poderosos, internacionalizam-se, os grandes envolvem os pequenos, procuram novos mercados para um mais largo exercício da sua actividade.
São um dos efeitos da globalização, como agora se diz. Não há nada a fazer. Ou melhor: não está nas nossas mãos fazer diferente, enquanto esta for a tendência dominante da economia mundial.
Esta é a realidade com que temos de contar no nosso dia a dia, não vale a pena fugir dela. Tão-pouco considerá-la “ameaçadora”, porque não será isso que a transformará.
O que temos é de aprender a viver com ela, modificando alguns dos nossos critérios profissionais e de gestão, as nossas estratégias empresariais, explorando as oportunidades e os espaços que consideramos poder e dever ocupar.
Os Grupos não são necessariamente "inimigos", nem são irremediavelmente “maus”, antes, em alguns casos, poderão ser parceiros interessantes para o contraste das nossas próprias experiências, para o desenvolvimento da nossa criatividade e capacidade de reacção.
Mesmo em Portugal, onde estas coisas chegam sempre com atraso, algumas destas tendências manifestam-se já desde há alguns anos, não são uma realidade nova. Começaram na área da comercialização com o aparecimento das grandes superfícies de venda, os hipermercados, todos integrados em grupos empresariais poderosos, passaram depois pela formação de fortes grupos livreiros nacionais como foi o caso das mais de 30 livrarias Bertrand, culminaram com a chegada ao nosso mercado de um grupo europeu como a Fnac, já com várias lojas em funcionamento, e alguns outros se aproximam, como por exemplo El Corte Inglês, que se instalou há menos tempo.
Mesmo na área da edição propriamente dita, poderemos citar a já antiga presença em Portugal do Grupo Bertelsmann, com o seu clube do livro, o Circulo de Leitores e com a Temas e Debates a sua editora para o mercado tradicional das livrarias; do Grupo Noticias/Lusomundo/Portugal Telecom, com a Editorial Noticias, a editorial Oficina do Livro, a sua distribuidora e a sua rede livrarias; da própria Dom Quixote hoje integrada no Grupo Planeta, o mais importante grupo editorial da Península Ibérica, ou de muitas outras iniciativas que todos sabemos que se aproximam.
Todos estes Grupos têm estratégias ambiciosas, objectivos de liderança do mercado, alguns deles visam, inclusivamente, o objectivo mais largo de liderança em todo o espaço da língua portuguesa. Refiro-me ao Brasil e aos países africanos de língua oficial portuguesa.
A par desta actuação, coexistem evidentemente com o seu imprescindível e meritório trabalho muitas editoras designadas por “independentes” – embora esta designação mereça hoje, também, alguma clarificação. Dado que para se manterem “independentes” muitas destas empresas tiveram também de criar as “dependências” específicas que melhor lhes permitam resistir e actuar.
Quanto a mim, encaro com poucas diferenças a dependência de um Grupo empresarial de edição, da dependência de um Banco, de um Distribuidor, ou até das poderosas redes livreiras existentes no mercado. Ou melhor: porque já tive as duas experiências, prefiro de longe a dependência de um Grupo profissional com quem possa partilhar objectivos similares.
Os verdadeiros editores são, por princípio e definição, “independentes”... quer exerçam a sua actividade no interior de um Grupo, quer isoladamente.
Todos compreendemos hoje que só obtendo resultados se garante a sobrevivência a médio e longo prazo, e que esta é uma regra a que nenhuma empresa (pequena ou grande, “independente” ou em Grupo) poderá fugir. Para isso, cada um cria as dependências que considera mais convenientes para salvaguarda da continuidade do seu trabalho. Até mesmo os editores que gostam de continuar a designar-se como “independentes”...
Nos últimos anos, em Portugal, a propósito da falência de uma grande Distribuidora nacional e das graves consequências dessa situação para muitos pequenos editores “independentes”, tenho ouvido culpar a lógica e o funcionamento dos grupos empresariais que entre nós actuam na área da comercialização.
Trata-se evidentemente de uma reacção emocional, muito motivada pelas previsíveis dificuldades que terão de ser geridas por essas dezenas de pequenas editoras, que recorriam antes aos serviços e ao crédito da referida Distribuidora.
Aqui, como em tudo o mais, há pois que saber controlar as nossas emoções e preocupações, tentando encontrar a correcta análise da realidade.
Os Grupos não podem ser responsabilizados por todas as nossas “desgraças”.
E, evidentemente, não parece correcto, tal como aconteceu nessa altura, tentar solicitar que seja o Estado, torneando provavelmente a legislação europeia reguladora da concorrência e do funcionamento do mercado, a intervir em casos como esses, moderando a capacidade de gestão dessas unidades empresariais relativamente a outras que operam em idênticas condições e circunstâncias de mercado.
Portugal pode dizer que tem hoje um público de leitores e de compradores regulares de livros que antes não tinha – pena que as pobres estatísticas oficiais (referidas ainda aos anos em que nem sequer existiam Fnacs...), nos não consigam mostrar mais do que uma arqueologia do sector. E onde há mais leitores e mais leitura aumentam certamente as oportunidades para as empresas do sector do livro, tanto editores como livreiros.
Em termos culturais, eu não sou partidário (como parecem ser alguns dos actuais responsáveis culturais) de um total liberalismo de funcionamento do mercado. Trata-se afinal da cultura de um país, do modo como nos vemos uns aos outros, ou de como queremos ser vistos do exterior. A cultura é a nossa cara, e mais do que a nossa cara é a nossa respiração.
Deixá-la entregue, livremente, com todas as suas fragilidades e especificidades, às puras regras de funcionamento do mercado é correr o risco do que pode designar-se como o fenómeno “Big-Brother”. Se o mercado exige, é isso apenas o que teremos de consumir…
Não pode ser assim... os gostos educam-se, o “pensar” ensina-se, e todos (incluindo o Estado) teremos de fazer algum esforço nesse sentido.
Mas também não pode exigir-se ao Estado que intervenha fora dos limites da sua função reguladora. O apelo vulgar e sistemático à intervenção do Estado nas situações de crise, só pode ser revelador da nossa falta de capacidade para encontrar as soluções adequadas para os problemas que teremos de ser nós a resolver.
Eu costumo dizer que devemos deixar (e sobretudo vigiar) que o Estado cumpra o seu papel e faça o trabalho que lhe compete: que produza e melhore a legislação necessária (uma boa Lei do Preço Fixo, uma mais clara legislação sobre a concorrência, um Código do Direito de Autor adaptado aos tempos modernos, etc.); que promova na actividade escolar o gosto dos jovens pela leitura e pelo estudo do nosso património literário; que intensifique o alargamento da rede de bibliotecas escolares e de leitura pública; que apoie o reconhecimento externo da nossa língua e dos nossos escritores; que apoie a edição, não estritamente comercial, do nosso património literário fundamental; que compre livros para as bibliotecas pelas quais é responsável, e não que legisle de modo a que estes lhes sejam entregues gratuitamente sob a forma de Depósitos Legais; que reflicta sobre os efeitos desse verdadeiro imposto sobre o crescimento da leitura que é o IVA, ou aproveite as suas receitas para reais acções de dinamização da leitura, etc.
O que não podemos é exigir do Estado que corrija as más decisões dos gestores editoriais.
Os Grupos empresariais na área do livro ocuparam o seu espaço em Portugal tal como aconteceu noutros países. Inundaram o mercado de muitos livros bons e de muitos livros maus, desenvolveram novas regras de funcionamento junto dos autores, aplicaram ao livro e aos seus produtores novas regras de comercialização, de marketing, de venda. Introduziram no mercado as suas regras de funcionamento, a sua elevada capacidade negocial, mas também um maior dinamismo, imaginação e criatividade que foram capazes de abrir novos espaços para a leitura, o lazer, a aprendizagem através do livro.
Construíram além disso uma indústria editorial mais forte. E sem uma indústria editorial forte não há espaço de trabalho independente para os criadores ou para os profissionais do sector.
Os Grupos não publicam só best-sellers, ou só lixo editorial. E sobretudo não são sequer os únicos a fazê-lo…
Só criando novos leitores se aumentam os hábitos de leitura permanentes; só despertando o interesse pela leitura se formam leitores cada dia mais capazes de livremente seleccionar aquilo que querem ler.
Cabe-nos a nós a adaptação e o contraponto a estes desafios. O que não podemos é continuar a repetir a filosofia da desgraça e da crise permanente, ou a solicitar o paternal apoio do Estado perante estas ditas “ameaças” – onde apenas nos é exigido uma melhor definição e ocupação do espaço enorme que nos sobra para o exercício da nossa criatividade e profissionalismo.
O mercado está a crescer, pelo menos em Portugal. Há que aproveitar as suas oportunidades.
A presença dos grupos de edição ou de comercialização do livro tornou o nosso mercado mais dinâmico, aberto, competitivo. Cabe aos editores e livreiros “independentes”, retirarem disso, com imaginação e trabalho, maiores benefícios e oportunidades.
Ou unirem-se, também, é outra possibilidade.
Com ele encerrei, ao fim de um ano, a minha colaboração em termos regulares nesta publicação.
Sobra-me a inveja e a admiração por todos aqueles que, não sendo profissionais, conseguem manter uma colaboração regular na comunicação social. Não é fácil, na verdade. Sobretudo quando (como é o meu caso) a vida se nos enche de outras responsabilidades e compromissos. Nem sempre tão agradáveis...
Tentarei voltar, outro dia, após esta pausa. Se alguém achar isso interessante, evidentemente.
Aqui fica o texto:
A presença de Grupos empresariais na área da edição ou da comercialização do livro, não está em Portugal ainda suficientemente tratada, provavelmente por não termos para a pensar nem a experiência, nem os dados, nem o distanciamento suficientes.
Em algumas intervenções recentes, no nosso meio, tenho ouvido classificar esta situação – repetidamente – como de uma “grave ameaça” para o nosso mercado.
É evidente que esta é uma forma barroca de considerar o problema. A não ser que consideremos “ameaçadora” a própria realidade em que nos movemos.
Em toda a parte tem sido esta a tendência dominante no mundo empresarial, não apenas no sector da edição. As empresas associam-se, fundem-se, constituem grupos poderosos, internacionalizam-se, os grandes envolvem os pequenos, procuram novos mercados para um mais largo exercício da sua actividade.
São um dos efeitos da globalização, como agora se diz. Não há nada a fazer. Ou melhor: não está nas nossas mãos fazer diferente, enquanto esta for a tendência dominante da economia mundial.
Esta é a realidade com que temos de contar no nosso dia a dia, não vale a pena fugir dela. Tão-pouco considerá-la “ameaçadora”, porque não será isso que a transformará.
O que temos é de aprender a viver com ela, modificando alguns dos nossos critérios profissionais e de gestão, as nossas estratégias empresariais, explorando as oportunidades e os espaços que consideramos poder e dever ocupar.
Os Grupos não são necessariamente "inimigos", nem são irremediavelmente “maus”, antes, em alguns casos, poderão ser parceiros interessantes para o contraste das nossas próprias experiências, para o desenvolvimento da nossa criatividade e capacidade de reacção.
Mesmo em Portugal, onde estas coisas chegam sempre com atraso, algumas destas tendências manifestam-se já desde há alguns anos, não são uma realidade nova. Começaram na área da comercialização com o aparecimento das grandes superfícies de venda, os hipermercados, todos integrados em grupos empresariais poderosos, passaram depois pela formação de fortes grupos livreiros nacionais como foi o caso das mais de 30 livrarias Bertrand, culminaram com a chegada ao nosso mercado de um grupo europeu como a Fnac, já com várias lojas em funcionamento, e alguns outros se aproximam, como por exemplo El Corte Inglês, que se instalou há menos tempo.
Mesmo na área da edição propriamente dita, poderemos citar a já antiga presença em Portugal do Grupo Bertelsmann, com o seu clube do livro, o Circulo de Leitores e com a Temas e Debates a sua editora para o mercado tradicional das livrarias; do Grupo Noticias/Lusomundo/Portugal Telecom, com a Editorial Noticias, a editorial Oficina do Livro, a sua distribuidora e a sua rede livrarias; da própria Dom Quixote hoje integrada no Grupo Planeta, o mais importante grupo editorial da Península Ibérica, ou de muitas outras iniciativas que todos sabemos que se aproximam.
Todos estes Grupos têm estratégias ambiciosas, objectivos de liderança do mercado, alguns deles visam, inclusivamente, o objectivo mais largo de liderança em todo o espaço da língua portuguesa. Refiro-me ao Brasil e aos países africanos de língua oficial portuguesa.
A par desta actuação, coexistem evidentemente com o seu imprescindível e meritório trabalho muitas editoras designadas por “independentes” – embora esta designação mereça hoje, também, alguma clarificação. Dado que para se manterem “independentes” muitas destas empresas tiveram também de criar as “dependências” específicas que melhor lhes permitam resistir e actuar.
Quanto a mim, encaro com poucas diferenças a dependência de um Grupo empresarial de edição, da dependência de um Banco, de um Distribuidor, ou até das poderosas redes livreiras existentes no mercado. Ou melhor: porque já tive as duas experiências, prefiro de longe a dependência de um Grupo profissional com quem possa partilhar objectivos similares.
Os verdadeiros editores são, por princípio e definição, “independentes”... quer exerçam a sua actividade no interior de um Grupo, quer isoladamente.
Todos compreendemos hoje que só obtendo resultados se garante a sobrevivência a médio e longo prazo, e que esta é uma regra a que nenhuma empresa (pequena ou grande, “independente” ou em Grupo) poderá fugir. Para isso, cada um cria as dependências que considera mais convenientes para salvaguarda da continuidade do seu trabalho. Até mesmo os editores que gostam de continuar a designar-se como “independentes”...
Nos últimos anos, em Portugal, a propósito da falência de uma grande Distribuidora nacional e das graves consequências dessa situação para muitos pequenos editores “independentes”, tenho ouvido culpar a lógica e o funcionamento dos grupos empresariais que entre nós actuam na área da comercialização.
Trata-se evidentemente de uma reacção emocional, muito motivada pelas previsíveis dificuldades que terão de ser geridas por essas dezenas de pequenas editoras, que recorriam antes aos serviços e ao crédito da referida Distribuidora.
Aqui, como em tudo o mais, há pois que saber controlar as nossas emoções e preocupações, tentando encontrar a correcta análise da realidade.
Os Grupos não podem ser responsabilizados por todas as nossas “desgraças”.
E, evidentemente, não parece correcto, tal como aconteceu nessa altura, tentar solicitar que seja o Estado, torneando provavelmente a legislação europeia reguladora da concorrência e do funcionamento do mercado, a intervir em casos como esses, moderando a capacidade de gestão dessas unidades empresariais relativamente a outras que operam em idênticas condições e circunstâncias de mercado.
Portugal pode dizer que tem hoje um público de leitores e de compradores regulares de livros que antes não tinha – pena que as pobres estatísticas oficiais (referidas ainda aos anos em que nem sequer existiam Fnacs...), nos não consigam mostrar mais do que uma arqueologia do sector. E onde há mais leitores e mais leitura aumentam certamente as oportunidades para as empresas do sector do livro, tanto editores como livreiros.
Em termos culturais, eu não sou partidário (como parecem ser alguns dos actuais responsáveis culturais) de um total liberalismo de funcionamento do mercado. Trata-se afinal da cultura de um país, do modo como nos vemos uns aos outros, ou de como queremos ser vistos do exterior. A cultura é a nossa cara, e mais do que a nossa cara é a nossa respiração.
Deixá-la entregue, livremente, com todas as suas fragilidades e especificidades, às puras regras de funcionamento do mercado é correr o risco do que pode designar-se como o fenómeno “Big-Brother”. Se o mercado exige, é isso apenas o que teremos de consumir…
Não pode ser assim... os gostos educam-se, o “pensar” ensina-se, e todos (incluindo o Estado) teremos de fazer algum esforço nesse sentido.
Mas também não pode exigir-se ao Estado que intervenha fora dos limites da sua função reguladora. O apelo vulgar e sistemático à intervenção do Estado nas situações de crise, só pode ser revelador da nossa falta de capacidade para encontrar as soluções adequadas para os problemas que teremos de ser nós a resolver.
Eu costumo dizer que devemos deixar (e sobretudo vigiar) que o Estado cumpra o seu papel e faça o trabalho que lhe compete: que produza e melhore a legislação necessária (uma boa Lei do Preço Fixo, uma mais clara legislação sobre a concorrência, um Código do Direito de Autor adaptado aos tempos modernos, etc.); que promova na actividade escolar o gosto dos jovens pela leitura e pelo estudo do nosso património literário; que intensifique o alargamento da rede de bibliotecas escolares e de leitura pública; que apoie o reconhecimento externo da nossa língua e dos nossos escritores; que apoie a edição, não estritamente comercial, do nosso património literário fundamental; que compre livros para as bibliotecas pelas quais é responsável, e não que legisle de modo a que estes lhes sejam entregues gratuitamente sob a forma de Depósitos Legais; que reflicta sobre os efeitos desse verdadeiro imposto sobre o crescimento da leitura que é o IVA, ou aproveite as suas receitas para reais acções de dinamização da leitura, etc.
O que não podemos é exigir do Estado que corrija as más decisões dos gestores editoriais.
Os Grupos empresariais na área do livro ocuparam o seu espaço em Portugal tal como aconteceu noutros países. Inundaram o mercado de muitos livros bons e de muitos livros maus, desenvolveram novas regras de funcionamento junto dos autores, aplicaram ao livro e aos seus produtores novas regras de comercialização, de marketing, de venda. Introduziram no mercado as suas regras de funcionamento, a sua elevada capacidade negocial, mas também um maior dinamismo, imaginação e criatividade que foram capazes de abrir novos espaços para a leitura, o lazer, a aprendizagem através do livro.
Construíram além disso uma indústria editorial mais forte. E sem uma indústria editorial forte não há espaço de trabalho independente para os criadores ou para os profissionais do sector.
Os Grupos não publicam só best-sellers, ou só lixo editorial. E sobretudo não são sequer os únicos a fazê-lo…
Só criando novos leitores se aumentam os hábitos de leitura permanentes; só despertando o interesse pela leitura se formam leitores cada dia mais capazes de livremente seleccionar aquilo que querem ler.
Cabe-nos a nós a adaptação e o contraponto a estes desafios. O que não podemos é continuar a repetir a filosofia da desgraça e da crise permanente, ou a solicitar o paternal apoio do Estado perante estas ditas “ameaças” – onde apenas nos é exigido uma melhor definição e ocupação do espaço enorme que nos sobra para o exercício da nossa criatividade e profissionalismo.
O mercado está a crescer, pelo menos em Portugal. Há que aproveitar as suas oportunidades.
A presença dos grupos de edição ou de comercialização do livro tornou o nosso mercado mais dinâmico, aberto, competitivo. Cabe aos editores e livreiros “independentes”, retirarem disso, com imaginação e trabalho, maiores benefícios e oportunidades.
Ou unirem-se, também, é outra possibilidade.
Sexta-feira, Setembro 19, 2003
103 - PUBLICIDADE ? INFORMAÇÃO ?
Cá está de novo a mesma situação. Publicidade? Informação?
A mim apetece-me registar estas coisas como informação.
Como quando se diz em que cinema passa um filme, em que local se realiza um concerto, ou em que estádio se jogará uma partida de futebol.
Mas outros considerarão que se trata de publicidade. Estão no seu direito.
Aqui fica o anúncio de mais um livro, dentro de dias nas livrarias:
Globalização – Ciência, Cultura e Religiões
Globalização, Ciência, Cultura e Religiões foi o tema da Conferência Internacional organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian que juntou reputados especialistas internacionais e proporcionou uma oportunidade excepcional de debate sobre várias questões cruciais do nosso tempo.
A ciência desde sempre estabeleceu o universo como o seu território. E a religião – embora assente em formas de carácter regional – exprime por excelência uma atitude universal. Como poderão as religiões enfrentar a tensão entre o seu enraizamento particular e a sua atitude universal, num mundo em que estes princípios são quase diariamente confrontados entre si? E, no caso da ciência, que novos desafios lhe coloca este mundo global? Em particular, que desafios específicos são hoje enfrentados pelas instituições que dominantemente lhe serviam de lar: as universidades?
Cultura e civilização, são também abordadas do ponto de vista dos desafios da era global. Pode um mundo globalizado preservar a riqueza da pluralidade de culturas, ou está destinado ao empobrecimento da uniformização?
Este livro reúne textos de várias individualidades do mundo da política e cultura como: Eduardo Lourenço, Eduardo Marçal Grilo, Emílio Rui Vilar, João Lobo Antunes, Jorge Sampaio, José Manuel Durão Barroso, José Policarpo, Mario Vargas Llosa, Michael Gibbons, entre outros.
Depois da publicação de Globalização, Desenvolvimento e Equidade e Cidadania e Novos Poderes Numa Cidade Global, a Dom Quixote encerra com este livro, a publicação dos textos das três conferências organizadas pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre Globalização.
Quem perdeu as sessões que leia os livros.
A mim apetece-me registar estas coisas como informação.
Como quando se diz em que cinema passa um filme, em que local se realiza um concerto, ou em que estádio se jogará uma partida de futebol.
Mas outros considerarão que se trata de publicidade. Estão no seu direito.
Aqui fica o anúncio de mais um livro, dentro de dias nas livrarias:
Globalização – Ciência, Cultura e Religiões
Globalização, Ciência, Cultura e Religiões foi o tema da Conferência Internacional organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian que juntou reputados especialistas internacionais e proporcionou uma oportunidade excepcional de debate sobre várias questões cruciais do nosso tempo.
A ciência desde sempre estabeleceu o universo como o seu território. E a religião – embora assente em formas de carácter regional – exprime por excelência uma atitude universal. Como poderão as religiões enfrentar a tensão entre o seu enraizamento particular e a sua atitude universal, num mundo em que estes princípios são quase diariamente confrontados entre si? E, no caso da ciência, que novos desafios lhe coloca este mundo global? Em particular, que desafios específicos são hoje enfrentados pelas instituições que dominantemente lhe serviam de lar: as universidades?
Cultura e civilização, são também abordadas do ponto de vista dos desafios da era global. Pode um mundo globalizado preservar a riqueza da pluralidade de culturas, ou está destinado ao empobrecimento da uniformização?
Este livro reúne textos de várias individualidades do mundo da política e cultura como: Eduardo Lourenço, Eduardo Marçal Grilo, Emílio Rui Vilar, João Lobo Antunes, Jorge Sampaio, José Manuel Durão Barroso, José Policarpo, Mario Vargas Llosa, Michael Gibbons, entre outros.
Depois da publicação de Globalização, Desenvolvimento e Equidade e Cidadania e Novos Poderes Numa Cidade Global, a Dom Quixote encerra com este livro, a publicação dos textos das três conferências organizadas pela Fundação Calouste Gulbenkian sobre Globalização.
Quem perdeu as sessões que leia os livros.
102 - DIVERSOS DE UMA SEXTA-FEIRA
O blogue de Manuel Falcão, que visito com assiduidade, deixou-me uns dias a "cantarolar para dentro" o Waltzing Mathilda, de Tom Waits, que já era uma das minhas preferidas lá nos finais dos anos 70 do século passado. Voltei a recordá-la. Ainda por cima agora com a ajuda da reprodução integral do texto, que Manuel Falcão teve a paciência de transcrever. Quem se quiser lembrar... Tenho o disco mas já não tenho gira-discos. Tenho de "recuperar" esta situação.
Recebi agora da Gráfica o primeiro exemplar do livro de José António Saraiva, Confissões de um Director de Jornal - nos bastidores do Expresso e do Poder. Mais do que as "confissões", um fresco de uma geração, diz ele. Daqui a uma semana estará nas livrarias.
Leio a Crónica de hoje, no Público, do Eduardo Prado Coelho sobre os noticiários das televisões. Esqueceu-se de mencionar a SIC-Noticias, que não foge à regra, contribuindo todos "para a paroquialização das mentalidades portuguesas".
Vou escrever uma mensagem ao Nuno Júdice comentando a sua substituição em Paris pela apresentadora de televisão Maria Elisa. Mas isso é conversa privada...
E, mais logo, a caminho de Tavira, finalmente livre do bulício do verão. Esperando que o Macário continue firme, protegendo-a de agressões.
Recebi agora da Gráfica o primeiro exemplar do livro de José António Saraiva, Confissões de um Director de Jornal - nos bastidores do Expresso e do Poder. Mais do que as "confissões", um fresco de uma geração, diz ele. Daqui a uma semana estará nas livrarias.
Leio a Crónica de hoje, no Público, do Eduardo Prado Coelho sobre os noticiários das televisões. Esqueceu-se de mencionar a SIC-Noticias, que não foge à regra, contribuindo todos "para a paroquialização das mentalidades portuguesas".
Vou escrever uma mensagem ao Nuno Júdice comentando a sua substituição em Paris pela apresentadora de televisão Maria Elisa. Mas isso é conversa privada...
E, mais logo, a caminho de Tavira, finalmente livre do bulício do verão. Esperando que o Macário continue firme, protegendo-a de agressões.
Quarta-feira, Setembro 17, 2003
101 - ELEIÇÕES NA SPA
Parabéns à Lista B, ganhadora das eleições para os Corpos Gerentes da SPA.
Ia a escrever "das primeiras eleições democráticas" (dado que, pela primeira vez, concorreram duas listas), mas arrependi-me a tempo.
Só com dificuldade se pode considerar "democrático" um universo de 16.000 cooperadores, em que apenas 600 têm direito a voto.
Espera-se portanto que, entre as suas outras promessas eleitorais, os novos Corpos Gerentes levem adiante a projectada e necessária alteração dos Estatutos.
Pode parecer estranho que um Editor saúde uma cooperativa que defende os direitos dos Autores.
Mas não é.
Sem a intransigente defesa dos direitos dos autores, sem um Código do Direito de Autor actualizado e adaptado aos tempos modernos, não há industria editorial digna desse nome.
Os editores, tal como os autores, também têm direitos a fazer respeitar.
Espero que, do lado do editores, a União dos Editores Portugueses saiba encontrar com rapidez as necessárias plataformas de diálogo e de cooperação.
Ia a escrever "das primeiras eleições democráticas" (dado que, pela primeira vez, concorreram duas listas), mas arrependi-me a tempo.
Só com dificuldade se pode considerar "democrático" um universo de 16.000 cooperadores, em que apenas 600 têm direito a voto.
Espera-se portanto que, entre as suas outras promessas eleitorais, os novos Corpos Gerentes levem adiante a projectada e necessária alteração dos Estatutos.
Pode parecer estranho que um Editor saúde uma cooperativa que defende os direitos dos Autores.
Mas não é.
Sem a intransigente defesa dos direitos dos autores, sem um Código do Direito de Autor actualizado e adaptado aos tempos modernos, não há industria editorial digna desse nome.
Os editores, tal como os autores, também têm direitos a fazer respeitar.
Espero que, do lado do editores, a União dos Editores Portugueses saiba encontrar com rapidez as necessárias plataformas de diálogo e de cooperação.
Segunda-feira, Setembro 15, 2003
100 - ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Leio este texto de Christophe Mercier (publicado no Figaro Littéraire de 28.08.2003) sobre os romances de António Lobo Antunes.
Deixo-o por aqui.
Julgo ser um texto-sintese, muito bem feito, clarificador do percurso do escritor. Útil sobretudo para aqueles que têm “tropeçado” na aparente complexidade dos seus romances mais recentes.
Os destaques a negro são meus; a tradução é do Miguel Serras Pereira.
CEDER À EMBRIAGUEZ
COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Christophe Mercier
Os seus títulos tornam-se cada vez mais esotéricos: a Exortação aos Crocodilos e Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura sucede Que Farei Quando Tudo Arde? Os seus livros são cada vez mais volumosos: 500 páginas, 660, 710, para os três mais recentes. Parecem-se cada vez menos com romances (Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura tinha, aliás, por subtítulo Poema). A obra de António Lobo Antunes acabou, todavia, por transpor o círculo fechado de uns quantos amadores (ainda que os jurados do Nobel se tenham dado ao ridículo de, entre dois portugueses, escolherem o laborioso José Saramago), para ser reconhecida como uma das mais importantes e mais inovadoras da literatura do século XX.
Com António Lobo Antunes, estamos do lado de Faulkner (Lisboa e os seus bairros velhos são o seu Yoknapatawpha, o Tejo o seu Mississipi e Angola a sua Guerra de Secessão), mas de um Faulkner que, em vez de evoluir no sentido da simplicidade cristalina de Os Ratoneiros, tivesse tomado o rumo de uma complexidade cada vez maior, de uma cada vez maior liberdade relativamente a quaisquer regras: um livro de Lobo Antunes parece não ter modelo algum, inventar os seus próprios cânones, fazer recuar os seus próprios limites. O mesmo é dizer que não se aconselhará o neófito a começar a Obra através dos últimos opus, mas a descobri-la pela ordem segundo a qual foi escrita, único meio de vir a compreender o seu desenvolvimento quase orgânico.
António Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, numa família de médicos. Muito jovem cai no caldeirão da literatura e devora, muitas vezes em versão original (fala francês, inglês, alemão, além do português), Proust, Céline, Faulkner, Tolstoi, Thomas Wolfe. Faz-se já sentir o gosto das grandes arquitecturas. Mas também lê muito Tchekov. Terá sido por isso que, antes de se tornar escritor, fez estudos de medicina? Será psiquiatra. Mas, antes, terá de ir para Angola, como médico militar, durante dois anos, e de viver no terreno uma guerra de descolonização dolorosa e sangrenta cujas imagens impregnarão uma grande parte da sua obra.
De regresso, trabalha como psiquiatra no hospital, mas começa a escrever, talvez à laia de exorcismo. Memórias de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979), Conhecimento do Inferno (1980) são como uma trilogia catártica. Lobo Antunes fala da sua profissão de psiquiatra, dos anos passados em Angola, do seu divórcio, dos seus pais, da sua infância. Numerosos dos seus temas futuros estão já presentes, e até mesmo a sua maneira: desde Memória de Elefante, o “argumento” é evacuado, e o romance torna-se um encadeamento lírico de imagens ao sabor da fantasia desperta do autor, uma cascata de metáforas que já não se ligam umas às outras segundo o fio de uma intriga-pretexto, mas que se associam segundo as cores que introduzem no conjunto.
Com Explicação dos Pássaros (1981), Fado Alexandrino (1983), O Auto dos Danados (1985), a obra assume uma nova dimensão. Lobo Antunes transforma-se deveras em romancista, inventa personagens, entrecruza as histórias. Explicação dos Pássaros e O Auto dos Danados narram peripécias familiares que têm lugar no mundo da boa burguesia portuguesa, e o leitor descobre um novo círculo de O Inferno. É Mauriac reescrito por Céline: lirismo, sempre, cólera, excesso, humor “enorme”, narrativa transportada pela musicalidade da língua, secreta nostalgia da infância. As conversas sobrepõem-se, as épocas correspondem-se, o romance torna-se uma tapeçaria de motivos visuais, musicais, que se ecoam uns aos outros. Fado Alexandrino, através dos monólogos cruzados de cinco militares de regresso de Angola, o romance mais “faulkneriano” do romancista, é um quadro quase balzaquiano de um Portugal em pleno descalabro, no qual os fracassos dos indivíduos não são senão os reflexos dos de um país à deriva, em vias de se afundar.
As Naus (1988), lancinante lamento que evoca a glória de um Portugal degradado, persiste na mesma via, e anuncia os êxitos que se vão seguir. Porque, daí em diante, Lobo Antunes enceta um período soberano. Tratado das Paixões da Alma (1990) é um ponto culminante como os quatro ou cinco títulos seguintes. É um romance bufo, lírico, poético, satírico, político: o escritor mistura histórias de família, a epopeia burlesca de terroristas lamentáveis que conspiram contra Salazar, as visões nostálgicas de uma infância magnificada. A Ordem Natural das Coisas (1992), A Morte de Carlos Gardel (1994), O Manual de Inquisidores (1996), O Esplendor de Portugal (1998), Exortação aos Crocodilos (1999), manifestam, cada um por sua conta, um domínio e uma liberdade cada vez maiores. Os temas são sempre os mesmos: a descolonização, a decadência, o regime policial, a Revolução dos Cravos, as velhas famílias que se extinguem, as gaivotas por cima do Tejo, os velhos que repisam o passado e morrem de tédio em apartamentos medíocres de bairros esquecidos de Lisboa, fora do tempo. Com estes romances, Lobo Antunes torna-se músico: a sua escrita assenta nos ritmos, nas rimas, nas imagens. Faz uma literatura de pura emoção. Cada vez mais vezes, tudo é visto como num sonho, a intriga perde os seus contornos precisos, e é com o recuo, depois de terminado o livro, que o leitor atento a reconstitui. Nunca se aconselhará demais o leitor apressado que descubra a obra de Lobo Antunes através do Tratado das Paixões da Alma, deixando-se levar até à Exortação aos Crocodilos.
Com Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2001) e Que Farei Quando Tudo Arde?, última cria da ninhada, é transposto mais um patamar de liberdade criadora, de emancipação de todas as regras. Nestes dois romances deixamos o veio político pelo veio familiar: são dois ajustes de contas com a infância. Para o escritor português, o romance torna-se mais do que nunca o lugar da vacilação, da subjectividade. À medida que o poema (pois é bem de poesia narrativa e lírica que se trata) se desenvolve, a intriga que pensámos ver aparecer por entre a bruma dissipa-se, bifurca-se, desaparece, como um desenho numa vidraça embaciada. O essencial já não é a história contada (em Que Farei Quando Tudo Arde?, temos um jovem traumatizado pela recordação dos pais; com algum motivo: o pai é um velho palhaço que deu em travesti e companheiro de um jovem drogado, e a mãe uma ex-professora primária que caiu na prostituição e no alcoolismo; estamos em pleno melodrama), mas as emoções suscitadas pela maneira de a contar. A arte já não é uma arte narrativa, mas uma arte decididamente musical. Devemos deixar que nos transportem as vagas desta prosa-poesia cada vez mais pessoal, ampla, de um virtuosismo crescente, aceitar as suas obscuridades, beber toda a sua sumptuosidade: deixarmo-nos, numa palavra, embriagar. Só a esse preço poderemos apreciar uma obra que, de consumação em consumação, continua a incomodar, a desconcertar, a descobrir novos territórios.
Ao longo de um século inteiro, as obras de dimensão comparável podem contar-se pelos dedos da mão.
Deixo-o por aqui.
Julgo ser um texto-sintese, muito bem feito, clarificador do percurso do escritor. Útil sobretudo para aqueles que têm “tropeçado” na aparente complexidade dos seus romances mais recentes.
Os destaques a negro são meus; a tradução é do Miguel Serras Pereira.
CEDER À EMBRIAGUEZ
COM ANTÓNIO LOBO ANTUNES
Christophe Mercier
Os seus títulos tornam-se cada vez mais esotéricos: a Exortação aos Crocodilos e Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura sucede Que Farei Quando Tudo Arde? Os seus livros são cada vez mais volumosos: 500 páginas, 660, 710, para os três mais recentes. Parecem-se cada vez menos com romances (Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura tinha, aliás, por subtítulo Poema). A obra de António Lobo Antunes acabou, todavia, por transpor o círculo fechado de uns quantos amadores (ainda que os jurados do Nobel se tenham dado ao ridículo de, entre dois portugueses, escolherem o laborioso José Saramago), para ser reconhecida como uma das mais importantes e mais inovadoras da literatura do século XX.
Com António Lobo Antunes, estamos do lado de Faulkner (Lisboa e os seus bairros velhos são o seu Yoknapatawpha, o Tejo o seu Mississipi e Angola a sua Guerra de Secessão), mas de um Faulkner que, em vez de evoluir no sentido da simplicidade cristalina de Os Ratoneiros, tivesse tomado o rumo de uma complexidade cada vez maior, de uma cada vez maior liberdade relativamente a quaisquer regras: um livro de Lobo Antunes parece não ter modelo algum, inventar os seus próprios cânones, fazer recuar os seus próprios limites. O mesmo é dizer que não se aconselhará o neófito a começar a Obra através dos últimos opus, mas a descobri-la pela ordem segundo a qual foi escrita, único meio de vir a compreender o seu desenvolvimento quase orgânico.
António Lobo Antunes nasceu em 1942, em Lisboa, numa família de médicos. Muito jovem cai no caldeirão da literatura e devora, muitas vezes em versão original (fala francês, inglês, alemão, além do português), Proust, Céline, Faulkner, Tolstoi, Thomas Wolfe. Faz-se já sentir o gosto das grandes arquitecturas. Mas também lê muito Tchekov. Terá sido por isso que, antes de se tornar escritor, fez estudos de medicina? Será psiquiatra. Mas, antes, terá de ir para Angola, como médico militar, durante dois anos, e de viver no terreno uma guerra de descolonização dolorosa e sangrenta cujas imagens impregnarão uma grande parte da sua obra.
De regresso, trabalha como psiquiatra no hospital, mas começa a escrever, talvez à laia de exorcismo. Memórias de Elefante (1979), Os Cus de Judas (1979), Conhecimento do Inferno (1980) são como uma trilogia catártica. Lobo Antunes fala da sua profissão de psiquiatra, dos anos passados em Angola, do seu divórcio, dos seus pais, da sua infância. Numerosos dos seus temas futuros estão já presentes, e até mesmo a sua maneira: desde Memória de Elefante, o “argumento” é evacuado, e o romance torna-se um encadeamento lírico de imagens ao sabor da fantasia desperta do autor, uma cascata de metáforas que já não se ligam umas às outras segundo o fio de uma intriga-pretexto, mas que se associam segundo as cores que introduzem no conjunto.
Com Explicação dos Pássaros (1981), Fado Alexandrino (1983), O Auto dos Danados (1985), a obra assume uma nova dimensão. Lobo Antunes transforma-se deveras em romancista, inventa personagens, entrecruza as histórias. Explicação dos Pássaros e O Auto dos Danados narram peripécias familiares que têm lugar no mundo da boa burguesia portuguesa, e o leitor descobre um novo círculo de O Inferno. É Mauriac reescrito por Céline: lirismo, sempre, cólera, excesso, humor “enorme”, narrativa transportada pela musicalidade da língua, secreta nostalgia da infância. As conversas sobrepõem-se, as épocas correspondem-se, o romance torna-se uma tapeçaria de motivos visuais, musicais, que se ecoam uns aos outros. Fado Alexandrino, através dos monólogos cruzados de cinco militares de regresso de Angola, o romance mais “faulkneriano” do romancista, é um quadro quase balzaquiano de um Portugal em pleno descalabro, no qual os fracassos dos indivíduos não são senão os reflexos dos de um país à deriva, em vias de se afundar.
As Naus (1988), lancinante lamento que evoca a glória de um Portugal degradado, persiste na mesma via, e anuncia os êxitos que se vão seguir. Porque, daí em diante, Lobo Antunes enceta um período soberano. Tratado das Paixões da Alma (1990) é um ponto culminante como os quatro ou cinco títulos seguintes. É um romance bufo, lírico, poético, satírico, político: o escritor mistura histórias de família, a epopeia burlesca de terroristas lamentáveis que conspiram contra Salazar, as visões nostálgicas de uma infância magnificada. A Ordem Natural das Coisas (1992), A Morte de Carlos Gardel (1994), O Manual de Inquisidores (1996), O Esplendor de Portugal (1998), Exortação aos Crocodilos (1999), manifestam, cada um por sua conta, um domínio e uma liberdade cada vez maiores. Os temas são sempre os mesmos: a descolonização, a decadência, o regime policial, a Revolução dos Cravos, as velhas famílias que se extinguem, as gaivotas por cima do Tejo, os velhos que repisam o passado e morrem de tédio em apartamentos medíocres de bairros esquecidos de Lisboa, fora do tempo. Com estes romances, Lobo Antunes torna-se músico: a sua escrita assenta nos ritmos, nas rimas, nas imagens. Faz uma literatura de pura emoção. Cada vez mais vezes, tudo é visto como num sonho, a intriga perde os seus contornos precisos, e é com o recuo, depois de terminado o livro, que o leitor atento a reconstitui. Nunca se aconselhará demais o leitor apressado que descubra a obra de Lobo Antunes através do Tratado das Paixões da Alma, deixando-se levar até à Exortação aos Crocodilos.
Com Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura (2001) e Que Farei Quando Tudo Arde?, última cria da ninhada, é transposto mais um patamar de liberdade criadora, de emancipação de todas as regras. Nestes dois romances deixamos o veio político pelo veio familiar: são dois ajustes de contas com a infância. Para o escritor português, o romance torna-se mais do que nunca o lugar da vacilação, da subjectividade. À medida que o poema (pois é bem de poesia narrativa e lírica que se trata) se desenvolve, a intriga que pensámos ver aparecer por entre a bruma dissipa-se, bifurca-se, desaparece, como um desenho numa vidraça embaciada. O essencial já não é a história contada (em Que Farei Quando Tudo Arde?, temos um jovem traumatizado pela recordação dos pais; com algum motivo: o pai é um velho palhaço que deu em travesti e companheiro de um jovem drogado, e a mãe uma ex-professora primária que caiu na prostituição e no alcoolismo; estamos em pleno melodrama), mas as emoções suscitadas pela maneira de a contar. A arte já não é uma arte narrativa, mas uma arte decididamente musical. Devemos deixar que nos transportem as vagas desta prosa-poesia cada vez mais pessoal, ampla, de um virtuosismo crescente, aceitar as suas obscuridades, beber toda a sua sumptuosidade: deixarmo-nos, numa palavra, embriagar. Só a esse preço poderemos apreciar uma obra que, de consumação em consumação, continua a incomodar, a desconcertar, a descobrir novos territórios.
Ao longo de um século inteiro, as obras de dimensão comparável podem contar-se pelos dedos da mão.
Sábado, Setembro 13, 2003
099 - INCÊNDIOS...
Os incêndios… como é possível ?!!!
Mais de 1.000 homens no terreno, não sei quantas centenas de viaturas, colaboração dos militares, dezenas de apoios aéreos, a situação está totalmente sob controlo – dizem os responsáveis operacionais (!!) e o Ministro, a ver se nos tranquilizam pela televisão.
Não se vêem bombeiros suficientes, não há viaturas à vista, falta a água, os meios aéreos apagam, depois desaparecem, o fogo volta a acender-se, eles já se foram embora – clamam as populações e os autarcas, em desespero, com simples baldes na mão.
Não há como duvidar da situação. As televisões mostram as imagens, as casas a arder, as pessoas em desespero, abandonadas.
A sensação que se tem é a da absoluta falta de operacionalidade, a total descoordenação, a incompetência da gestão dos meios disponíveis.
A incompetência parece a palavra-chave para tudo isto, o amadorismo, a desorientação.
A incompetência que não ajuda as populações e torna inútil o esforço dos bombeiros.
A incompetência que deixa o país cada vez mais pobre.
Já devíamos saber que era assim.
E que responsáveis, claro, é coisa que não há…
Uma espécie de relatório da Comissão de Inquérito à ponte sobre o IC19.
Mais de 1.000 homens no terreno, não sei quantas centenas de viaturas, colaboração dos militares, dezenas de apoios aéreos, a situação está totalmente sob controlo – dizem os responsáveis operacionais (!!) e o Ministro, a ver se nos tranquilizam pela televisão.
Não se vêem bombeiros suficientes, não há viaturas à vista, falta a água, os meios aéreos apagam, depois desaparecem, o fogo volta a acender-se, eles já se foram embora – clamam as populações e os autarcas, em desespero, com simples baldes na mão.
Não há como duvidar da situação. As televisões mostram as imagens, as casas a arder, as pessoas em desespero, abandonadas.
A sensação que se tem é a da absoluta falta de operacionalidade, a total descoordenação, a incompetência da gestão dos meios disponíveis.
A incompetência parece a palavra-chave para tudo isto, o amadorismo, a desorientação.
A incompetência que não ajuda as populações e torna inútil o esforço dos bombeiros.
A incompetência que deixa o país cada vez mais pobre.
Já devíamos saber que era assim.
E que responsáveis, claro, é coisa que não há…
Uma espécie de relatório da Comissão de Inquérito à ponte sobre o IC19.
098 - OS POLÍTICOS NA COM. SOCIAL
Cá estamos na rentrée.
Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade.
Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores.
A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam.
Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior.
Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
Os políticos no activo e com altas responsabilidades partidárias, vão regressar às televisões disfarçados de simples comentadores. Mesmo aqueles que, antes, deploravam esta promiscuidade.
Nisto estou com o Miguel Sousa Tavares, há que fazer opções, não é sério, não é leal com os telespectadores.
A não ser que exijam que o seu nome passe em baixo, sempre, acompanhado da indicação do partido que representam.
Porque não me venham dizer que estão lá apenas a título pessoal, a desonestidade ainda seria maior.
Até nos debates sobre futebol a gente sabe quem representam aqueles “individuais”.
097 - OS LIVROS NA COM. SOCIAL
Já sabemos que os livros são “tratados com os pés” nos meios de comunicação social. Programas que desaparecem, espaços que se encurtam, comentadores que desistem, outros que passam dos comentários culturais para as reportagens sobre os fogos, etc.
Ou então faz-se, como fez o Expresso este fim-de-semana, uma amálgama de títulos ainda mais caótica do que a praticada por Marcelo Rebelo de Sousa na revista “Os Meus Livros”.
Mas Marcelo, ao menos, tem algum cuidado na correcta citação dos títulos e dos autores, mostra que não lê mas prepara a lição com cuidado.
Ao contrário, no Expresso, diz-se, por exemplo, que o próximo romance de António Lobo Antunes, “Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo”, "se sucede" ao seu romance “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura”.
Isto é não fazer o mais elementar trabalho jornalístico na preparação de um texto, é desprezar os livros, é desconsiderar os autores, é “meia bola e força”, é “tudo ao molho e fé em deus”, para não lhe chamar outras coisas piores…
Ou então faz-se, como fez o Expresso este fim-de-semana, uma amálgama de títulos ainda mais caótica do que a praticada por Marcelo Rebelo de Sousa na revista “Os Meus Livros”.
Mas Marcelo, ao menos, tem algum cuidado na correcta citação dos títulos e dos autores, mostra que não lê mas prepara a lição com cuidado.
Ao contrário, no Expresso, diz-se, por exemplo, que o próximo romance de António Lobo Antunes, “Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo”, "se sucede" ao seu romance “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura”.
Isto é não fazer o mais elementar trabalho jornalístico na preparação de um texto, é desprezar os livros, é desconsiderar os autores, é “meia bola e força”, é “tudo ao molho e fé em deus”, para não lhe chamar outras coisas piores…
Sexta-feira, Setembro 12, 2003
096 - R.A.P.
Já agora uma nota em tom mais pessoal para dar os parabéns ao casal Ricardo Araujo Pereira pelo nascimento da Rita.
Compreende-se por isso a sua ausência das lides bloguisticas, um filho dá muito trabalho e ocupa muito espaço.
Mas retribui com muitas alegrias e emoções.
A mim calhou-me ser avô. O que, confesso, não é alegria menor. O Tiago vai já fazer um ano no dia 9 do próximo mês, começa a andar e a querer dizer coisas, nomear o mundo à sua volta.
Não vou assistir; como infelizmente não assisti, o ano passado, ao seu nascimento. Mergulhado no frenesim da Feira do Livro de Frankfurt. Que arrependimento...
Mas cá estarei, depois, preparado para encher de atrevimentos o que os pais gostam que seja compostura.
É esse o lugar dos avós: desestabilizar onde os pais tentam pôr a primeira ordenação.
Parabéns Ricardo, felicidades para a Rita e para a família.
Os blogues também servem para falar da vida.
Compreende-se por isso a sua ausência das lides bloguisticas, um filho dá muito trabalho e ocupa muito espaço.
Mas retribui com muitas alegrias e emoções.
A mim calhou-me ser avô. O que, confesso, não é alegria menor. O Tiago vai já fazer um ano no dia 9 do próximo mês, começa a andar e a querer dizer coisas, nomear o mundo à sua volta.
Não vou assistir; como infelizmente não assisti, o ano passado, ao seu nascimento. Mergulhado no frenesim da Feira do Livro de Frankfurt. Que arrependimento...
Mas cá estarei, depois, preparado para encher de atrevimentos o que os pais gostam que seja compostura.
É esse o lugar dos avós: desestabilizar onde os pais tentam pôr a primeira ordenação.
Parabéns Ricardo, felicidades para a Rita e para a família.
Os blogues também servem para falar da vida.
Terça-feira, Setembro 09, 2003
095 - JOSÉ CARDOSO PIRES
Já que alguns jornalistas gostam de passar por aqui e colher informações, seria bom que não esquecessem que no próximo mês de Outubro passam os primeiros 5 anos sobre a morte do escritor José Cardoso Pires (02.10.1925/26.10.1998).
Agradeço ao nosso Livreiro (há muito que sabia quem ele era...), a referência simpática a um texto meu sobre o escritor, publicado inicialmente no DNA.
Vá, senhores jornalistas, ao trabalho. Porque é através dos seus novos leitores que a voz de um autor se continua a ouvir.
E, já agora, não esqueçam: apesar de aprovada em reunião camarária, nem uma ruazinha ainda lhe deram na cidade de Lisboa. Nem a rua, nem a escola, nem a biblioteca pública de Alvalade. Promessas vãs; decisões esquecidas. É só reler as Actas...
Agradeço ao nosso Livreiro (há muito que sabia quem ele era...), a referência simpática a um texto meu sobre o escritor, publicado inicialmente no DNA.
Vá, senhores jornalistas, ao trabalho. Porque é através dos seus novos leitores que a voz de um autor se continua a ouvir.
E, já agora, não esqueçam: apesar de aprovada em reunião camarária, nem uma ruazinha ainda lhe deram na cidade de Lisboa. Nem a rua, nem a escola, nem a biblioteca pública de Alvalade. Promessas vãs; decisões esquecidas. É só reler as Actas...
Segunda-feira, Setembro 08, 2003
094 - PHILIP ROTH, 2
Para os “fanáticos” de Philip Roth (1933), como parece ser o caso de “Portugal dos Pequeninos”, informo que o romance “The Human Stain” será publicado em Portugal por volta de 14 de Novembro próximo, coincidindo com a estreia do filme de Robert Benton, tendo Nicole Kidman e Anthony Hopkins como actores principais.
O livro foi publicado em França pela Gallimard (La Tache), vendeu mais de 150.000 exemplares e ganhou o Prémio Médicis para o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2002; nos USA ganhou o Prémio Pen/Faulkner; na Grã-Bretanha ganhou igualmente o WH Smith para o melhor livro do ano.
Roth é também um dos frequentadores habituais das listas para o Nobel.
Romance e filme trazem portanto as melhores referências.
Em Portugal é provável que livro e filme não tenham o mesmo título. O filme chamar-se-à “Culpa Humana”, enquanto o romance poderá vir a intitular-se “A Mancha Humana”, seguindo aliás o exemplo de Alfaguara, em Espanha..
Tradução portuguesa de Fernanda Pinto Rodrigues.
Outros títulos de Roth publicados pela DQ:
Pastoral Americana (Prémio Pulitzer, 1998)
Teatro de Sabbath (National Book Award, 1995)
Casei com um Comunista
O livro foi publicado em França pela Gallimard (La Tache), vendeu mais de 150.000 exemplares e ganhou o Prémio Médicis para o melhor romance estrangeiro publicado em França em 2002; nos USA ganhou o Prémio Pen/Faulkner; na Grã-Bretanha ganhou igualmente o WH Smith para o melhor livro do ano.
Roth é também um dos frequentadores habituais das listas para o Nobel.
Romance e filme trazem portanto as melhores referências.
Em Portugal é provável que livro e filme não tenham o mesmo título. O filme chamar-se-à “Culpa Humana”, enquanto o romance poderá vir a intitular-se “A Mancha Humana”, seguindo aliás o exemplo de Alfaguara, em Espanha..
Tradução portuguesa de Fernanda Pinto Rodrigues.
Outros títulos de Roth publicados pela DQ:
Pastoral Americana (Prémio Pulitzer, 1998)
Teatro de Sabbath (National Book Award, 1995)
Casei com um Comunista
Quinta-feira, Setembro 04, 2003
093 - O PACTO DE ESTABILIDADE
Reproduzir aqui um post do Abrupto, de Pacheco Pereira, cheira a pretensiosismo da minha parte. O Abrupto é certamente um dos blogues com maior indíce de leitura da nossa blogosfera. Pretender ampliar aqui essa leitura é quase ridículo. Mesmo assim, insisto. Chamando a vossa atenção para uma questão-chave que se irá arrastar durante os próximos meses. Nem sempre estou de acordo com as teses do Abrupto. Mas com esta estou, inteiramente:
A VIOLAÇÃO DO PACTO DE ESTABILIDADE PELA FRANÇA E ALEMANHA
é algo que deve ser seguido com muita atenção, porque pode mostrar como são as relações de poder na UE nos dias de hoje, marcados por uma grande retórica europeísta .
A França, que é um dos países que quer ir mais para a frente com a Constituição, de que se considera pai e mãe com a Alemanha, tem, a propósito da violação do Pacto de Estabilidade, com os seu déficit previsto e reincidente de 4% ,um discurso interno de absoluto desprezo pelo Pacto e de afirmação unilateral dos interesses franceses. O Pacto foi proposto pela Alemanha e pela França com o objectivo de condicionar os pequenos países do Sul, Portugal inclusive, que tinham imagem de "gastadores", e podiam pôr em causa a estabilidade do euro. O Pacto prevê sanções e pesadas. Portugal foi ameaçado com elas ainda bem recentemente. Ora, não se vê que a Comissão mostre grande vontade de as aplicar à França e à Alemanha...
Isto é inadmissível. Espera-se que Portugal tenha a máxima firmeza, exigindo que, o que se aplica a Portugal, se aplica à França e à Alemanha. Se se admite a duplicidade numa matéria que não oferece qualquer ambiguidade, aceita-se a humilhação.
A VIOLAÇÃO DO PACTO DE ESTABILIDADE PELA FRANÇA E ALEMANHA
é algo que deve ser seguido com muita atenção, porque pode mostrar como são as relações de poder na UE nos dias de hoje, marcados por uma grande retórica europeísta .
A França, que é um dos países que quer ir mais para a frente com a Constituição, de que se considera pai e mãe com a Alemanha, tem, a propósito da violação do Pacto de Estabilidade, com os seu déficit previsto e reincidente de 4% ,um discurso interno de absoluto desprezo pelo Pacto e de afirmação unilateral dos interesses franceses. O Pacto foi proposto pela Alemanha e pela França com o objectivo de condicionar os pequenos países do Sul, Portugal inclusive, que tinham imagem de "gastadores", e podiam pôr em causa a estabilidade do euro. O Pacto prevê sanções e pesadas. Portugal foi ameaçado com elas ainda bem recentemente. Ora, não se vê que a Comissão mostre grande vontade de as aplicar à França e à Alemanha...
Isto é inadmissível. Espera-se que Portugal tenha a máxima firmeza, exigindo que, o que se aplica a Portugal, se aplica à França e à Alemanha. Se se admite a duplicidade numa matéria que não oferece qualquer ambiguidade, aceita-se a humilhação.
Quarta-feira, Setembro 03, 2003
092 - CURIOSO...
Alguma da imprensa tradicional, rádios, e até as televisões, vieram aqui retirar e transcrever algumas das informações contidas no post anterior.
Contrariamente ao habitual (e às normais regras de delicadeza...), todos omitiram a fonte.
Talvez para não dar importância ao fenómeno bloguista, escondendo que muitos jornalistas vêm aqui, afinal, regularmente, procurar informações.
Contrariamente ao habitual (e às normais regras de delicadeza...), todos omitiram a fonte.
Talvez para não dar importância ao fenómeno bloguista, escondendo que muitos jornalistas vêm aqui, afinal, regularmente, procurar informações.
Segunda-feira, Setembro 01, 2003
091 - VÁRIOS EXCLUSIVOS PARA OS BLOGUES…
Depois do caso Versículos Satânicos, com ameaças de morte e protecção do SIS, do percurso agitado e sinuoso da publicação do livro de Rui Mateus (que um dia relatarei em detalhe...), eis-me de novo envolvido na edição de um livro que agitará por aí muitas águas.
Este sim, espero que não seja silenciado...
Chama-se “O Inimigo Sem Rosto – Fraude e Corrupção em Portugal”, da autoria de Maria José Morgado, actualmente Procuradora-Geral Adjunta do Tribunal da Relação de Lisboa, até quase ao final de 2002 responsável pela Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira da Polícia Judiciária.
Num blogue que tem por nome Textos de Contracapa, nada melhor do que reproduzir abaixo o texto da contracapa deste livro, da autoria do jornalista José Vegar, seu co-autor – fica o texto no final desta informação.
Sem grandes alaridos, nem sensacionalismos. Para respeitar o rigor, a precisão e o sentido das responsabilidades contidos neste texto impressionante e perturbador.
Publicação lá para o final de Outubro.
*
Antes da saída deste livro teremos ainda (nesta agitada rentrée) um outro livro surpreendente e polémico.
O director do Expresso, José António Saraiva, resolve finalmente contar algumas das histórias internas e inéditas do jornal: “Confissões de um Director de Jornal”, a sair no final de Setembro.
*
Também em Outubro, para além das polémicas memórias da senhora Clinton que tanta tinta têm feito correr, será publicado um inédito de Shimon Peres, “Um Tempo para a Guerra; Um Tempo para a Paz”.
Infelizmente, na prática, todos sabemos, muito mais para a Guerra do que para a Paz... De qualquer forma, a reflexão de um homem que tentou lutar pela paz com as armas de que dispunha.
*
E conforme tinha já prometido num post anterior, realço também a nova colecção CADERNOS DOM QUIXOTE DE REPORTAGEM, com o lançamento simultâneo dos seus 3 primeiros títulos lá para o início de Novembro:
1 – O ESTRAGO DA NAÇÃO, de Pedro Almeida Vieira (incluí um capítulo sobre os recentes fogos florestais);
2 – OLHEM PARA MIM, Geração Modelo, de Fernanda Câncio (Prefácios de Inês Pedrosa e Alexandre Melo, fotos de Abílio Leitão);
3 – A NUVEM DE CHUMBO, O Processo da Casa Pia na Imprensa, de Oscar Mascarenhas e Nuno Ivo;
*
Um bom regresso de férias e um sinal de optimismo relativamente ao interesse dos portugueses pela leitura e pela reflexão.
E da vitalidade da Dom Quixote, já agora, também.
Um dia destes falarei de outras novidades, nomeadamente das literárias, onde estão os livros novos de Pepetela, Inês Pedrosa, António Lobo Antunes, Vargas Llosa, João de Melo, Mafalda Ivo Cruz, José Eduardo Agualusa, António Tabucchi, João Ubaldo Ribeiro, uma belíssima antologia poética de Borges em tradução de Ruy Belo, etc.
*
E aqui fica então o texto da contracapa do livro de Maria José Morgado:
"Os crimes económico-financeiros organizados, neles incluindo a corrupção e a fraude, não fazem, aparentemente, vítimas. No entanto, como se tenta demonstrar ao longo destas páginas, são provavelmente aqueles que maiores danos causam aos Estados e aos seus cidadãos. Geram pobreza, impedem o desenvolvimento económico, provocam injustiça social e são responsáveis pela degradação do sistema político e das instituições públicas.
Neste livro, onde se procura escrever sobre questões complexas e delicadas de um modo simples, pretende-se fazer uma análise, tão fundamentada quanto possível, da dimensão real desta criminalidade no nosso país.
Por outro lado, sendo este um tema que continua arredado da agenda política, o que provoca dificuldades acrescidas a polícias e a magistrados no terreno, defende-se um modelo de combate ao fenómeno que tarda em ser aplicado."
*
Promoção e publicidade, dirão uns. Boa informação, dirão outros.
Há que decidir por uma...
Este sim, espero que não seja silenciado...
Chama-se “O Inimigo Sem Rosto – Fraude e Corrupção em Portugal”, da autoria de Maria José Morgado, actualmente Procuradora-Geral Adjunta do Tribunal da Relação de Lisboa, até quase ao final de 2002 responsável pela Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira da Polícia Judiciária.
Num blogue que tem por nome Textos de Contracapa, nada melhor do que reproduzir abaixo o texto da contracapa deste livro, da autoria do jornalista José Vegar, seu co-autor – fica o texto no final desta informação.
Sem grandes alaridos, nem sensacionalismos. Para respeitar o rigor, a precisão e o sentido das responsabilidades contidos neste texto impressionante e perturbador.
Publicação lá para o final de Outubro.
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Antes da saída deste livro teremos ainda (nesta agitada rentrée) um outro livro surpreendente e polémico.
O director do Expresso, José António Saraiva, resolve finalmente contar algumas das histórias internas e inéditas do jornal: “Confissões de um Director de Jornal”, a sair no final de Setembro.
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Também em Outubro, para além das polémicas memórias da senhora Clinton que tanta tinta têm feito correr, será publicado um inédito de Shimon Peres, “Um Tempo para a Guerra; Um Tempo para a Paz”.
Infelizmente, na prática, todos sabemos, muito mais para a Guerra do que para a Paz... De qualquer forma, a reflexão de um homem que tentou lutar pela paz com as armas de que dispunha.
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E conforme tinha já prometido num post anterior, realço também a nova colecção CADERNOS DOM QUIXOTE DE REPORTAGEM, com o lançamento simultâneo dos seus 3 primeiros títulos lá para o início de Novembro:
1 – O ESTRAGO DA NAÇÃO, de Pedro Almeida Vieira (incluí um capítulo sobre os recentes fogos florestais);
2 – OLHEM PARA MIM, Geração Modelo, de Fernanda Câncio (Prefácios de Inês Pedrosa e Alexandre Melo, fotos de Abílio Leitão);
3 – A NUVEM DE CHUMBO, O Processo da Casa Pia na Imprensa, de Oscar Mascarenhas e Nuno Ivo;
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Um bom regresso de férias e um sinal de optimismo relativamente ao interesse dos portugueses pela leitura e pela reflexão.
E da vitalidade da Dom Quixote, já agora, também.
Um dia destes falarei de outras novidades, nomeadamente das literárias, onde estão os livros novos de Pepetela, Inês Pedrosa, António Lobo Antunes, Vargas Llosa, João de Melo, Mafalda Ivo Cruz, José Eduardo Agualusa, António Tabucchi, João Ubaldo Ribeiro, uma belíssima antologia poética de Borges em tradução de Ruy Belo, etc.
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E aqui fica então o texto da contracapa do livro de Maria José Morgado:
"Os crimes económico-financeiros organizados, neles incluindo a corrupção e a fraude, não fazem, aparentemente, vítimas. No entanto, como se tenta demonstrar ao longo destas páginas, são provavelmente aqueles que maiores danos causam aos Estados e aos seus cidadãos. Geram pobreza, impedem o desenvolvimento económico, provocam injustiça social e são responsáveis pela degradação do sistema político e das instituições públicas.
Neste livro, onde se procura escrever sobre questões complexas e delicadas de um modo simples, pretende-se fazer uma análise, tão fundamentada quanto possível, da dimensão real desta criminalidade no nosso país.
Por outro lado, sendo este um tema que continua arredado da agenda política, o que provoca dificuldades acrescidas a polícias e a magistrados no terreno, defende-se um modelo de combate ao fenómeno que tarda em ser aplicado."
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Promoção e publicidade, dirão uns. Boa informação, dirão outros.
Há que decidir por uma...
090 - PHILIP ROTH
No blogue de Joel Neto encontro um comentário desagradável sobre a qualidade da tradução do romance "Pastoral Americana", de Philip Roth.
Ao contrário do que possa pensar-se, os editores dão o máximo de atenção a estes comentários - pelo menos eu dou. Eles ajudam-nos a trabalhar melhor, a chamar a atenção dos Tradutores e Revisores, a seleccioná-los com critérios mais rigorosos, etc.
A tradução não é uma tarefa fácil, e nem sempre tem, publicamente, o reconhecimento que merece.
Philip Roth é um escritor que a Dom Quixote publica com o maior cuidado, temos já uns quantos livros publicados, outros estão comprados e em trabalho de edição.
Escolhemos para ele tradutores adequados, no caso presente Luísa Feijó e Maria João Delgado, tradutoras com suficientes provas dadas, desde há muitos anos.
Creio que o comentário de Joel Neto é, pelo menos, injusto e apressado.
Daí a responsabilidade dos comentadores, que também não é pequena.
Dado que, evidentemente, há que pensar que um comentário injusto afasta, também injustamente, muitos leitores da leitura do livro.
*
NOTA para Portugal dos Pequeninos: a Dom Quixote publicou já uns 4 romances de Philip Roth tendo comprado, conforme digo acima, praticamente toda a sua obra, que se encontra em trabalho de edição. Lamento que apenas tenha conhecimento de Pastoral Americana, certamente por defeito de comunicação da nossa parte. The Human Stain será o próximo a sair, evidentemente para acompanhar a circulação do filme.
Ao contrário do que possa pensar-se, os editores dão o máximo de atenção a estes comentários - pelo menos eu dou. Eles ajudam-nos a trabalhar melhor, a chamar a atenção dos Tradutores e Revisores, a seleccioná-los com critérios mais rigorosos, etc.
A tradução não é uma tarefa fácil, e nem sempre tem, publicamente, o reconhecimento que merece.
Philip Roth é um escritor que a Dom Quixote publica com o maior cuidado, temos já uns quantos livros publicados, outros estão comprados e em trabalho de edição.
Escolhemos para ele tradutores adequados, no caso presente Luísa Feijó e Maria João Delgado, tradutoras com suficientes provas dadas, desde há muitos anos.
Creio que o comentário de Joel Neto é, pelo menos, injusto e apressado.
Daí a responsabilidade dos comentadores, que também não é pequena.
Dado que, evidentemente, há que pensar que um comentário injusto afasta, também injustamente, muitos leitores da leitura do livro.
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NOTA para Portugal dos Pequeninos: a Dom Quixote publicou já uns 4 romances de Philip Roth tendo comprado, conforme digo acima, praticamente toda a sua obra, que se encontra em trabalho de edição. Lamento que apenas tenha conhecimento de Pastoral Americana, certamente por defeito de comunicação da nossa parte. The Human Stain será o próximo a sair, evidentemente para acompanhar a circulação do filme.
Domingo, Agosto 31, 2003
089 - GRANDE RAZIA
Afinal não são só os blogues que se suspendem ou extinguem com o calor do Verão, o Acontece que se pulveriza no meio dos telejornais diários, os programas Flashback e Grande Júri que desaparecem da TSF ainda não se sabe bem para onde, a Livraria Francesa (mais umas quantas a que ninguém presta atenção...) que fecha as portas definitivamente, agora também a Grande Reportagem perde a sua periodicidade e circulação autónoma.
Fora o resto, que ainda nos espera.
Grande razia, na verdade.
Fora o resto, que ainda nos espera.
Grande razia, na verdade.
Sábado, Agosto 30, 2003
088 - AUTORES
Aqui fica arquivada mais uma história de autores. Esta publicada hoje mesmo pelo DNA.
Depois de Vergilio Ferreira, do Zé Cardoso Pires, do António Lobo Antunes, do Ruy Belo, do José Gomes Ferreira, dou um salto no tempo até a uma geração posterior:
INÊS PEDROSA
On ne bâtit un bonheur que sur un fondement de désespoir.
Je crois que je vais pouvoir me mettre à construire.
M. Yourcenar
O Pedrosa, o Ricardo Pedrosa, era um matemático competente, um homem grande e austero, mas de uma simpatia e cordialidade que parecia não ter a ver com o seu corpo grande, bem constituído, de atleta. Creio que isso lhe vinha dos muitos anos como oficial miliciano a que esses tempos obrigavam, como daí lhe viriam também os hábitos de disciplina e de rigor com que organizava meticulosamente a sua vida. Trabalhámos juntos muitos anos, lado a lado, sob a direcção do Doutor Camelo, o Dr. Amândio Camelo, tal como o Pedrosa, também já falecido.
Trabalhávamos com boa disposição, cultivávamos o humor e a brincadeira. O Doutor Camelo, que não era propriamente um ás do volante, era até frequentemente insultado durante a condução:
- Seu camelo... – berravam-lhe amiúde de dentro dos outros carros.
Ao que ele respondia, erguendo cortesmente o chapéu:
- Como está, passou bem... – como se se dirigisse a alguém que acabasse de o reconhecer.
O Pedrosa era um pai-galinha, como se costuma dizer, vaidoso das suas crias, de quem cuidava enternecido e babado, mas simultaneamente com aquela austeridade que parecia querer mostrar que “a coisa não era nada com ele”..
Periodicamente, porém, lá tínhamos de aguentar a cena. O Pedrosa trazia a filha para mostrar aos colegas. Ora porque ia com ela a uma consulta médica, ora para não ficar sozinha em casa, todos os pretextos lhe serviam. Lá vinha a criança vestidinha de branco, com um vestido rodado, laçarotes, fazer gracinhas para o emprego do papá. O Pedrosa pegava-lhe ao colo, punha-a de pé em cima da secretária, e a menina lá ia fazendo as suas habilidades.
Foi assim que primeiro conheci a Inês.
É-me difícil localizar no tempo quando tudo isto se passava, mas certamente há bem mais do que trinta anos.
Depois de concluídas as suas palhaçadas a Inês andava de colo em colo, lambuzava-nos a cara com os seus beijos molhados de chocolate, lembro-me que perguntava tudo a todos, queria saber tudo, perante o olhar embevecido mas distante do Pedrosa.
Quando a voltei a encontrar, anos mais tarde, e o nosso convívio verdadeiramente começou, era ela já uma jornalista literária, colaborando no JL, escrevendo sobre livros, fazendo entrevistas a escritores importantes. Lembro-me que a sua escrita me impressionou pela qualidade, consistência e desenvoltura – nós, os editores, achamos sempre que conseguimos aprender a reconhecer estas “promessas”.
Deixei passar mais uns anos, calmamente, até lhe fazer o desafio:
- Quando é que tentas escrever um romance?
Não se pode fazer estes desafios a pessoas determinadas como a Inês. É uma costela que lhe ficou certamente do Pedrosa, tanto quanto se pode falar assim. O que é certo é que a Inês, sem dizer nada a ninguém, organizou a sua vida, recolheu-se um pouco das saídas nocturnas, aproveitou a organização de um primeiro casamento e pôs-se a escrever. Um dia convidou-me a passar lá por casa, numa tarde de sábado.
- Aqui tens. Chama-se A Instrução dos Amantes...
Colocou-me nos braços um maço de folhas dactilografadas e só então me revelou que era a filha do Pedrosa, a quem entretanto eu tinha perdido o rasto.
Pedi-lhe um lápis emprestado (já não sei ler sem lápis, mesmo que o não use) e, logo em sua casa, iniciei a leitura. Publiquei o livro em Abril de 1992, já lá vão mais de dez anos, e até hoje já fez para aí umas 10 edições, foi traduzido em Espanha, incluído em bolso, vai a caminho de outros países e de outras aventuras.
Desde essa data, construímos em conjunto vários projectos, envolvemo-nos em muitas iniciativas editoriais, trabalhámos em muitos livros, construímos uma relação de cumplicidade e amizade estreitas, a Inês publicou entretanto mais dois romances que, a meu ver, comprovaram sobejamente o desafio que lhe havia feito.
Não tive outra importância que não essa, tê-la sabido desafiar. O resto foi tudo trabalho seu. Muito trabalho seu.
Entretanto o Pedrosa faleceu, apressadamente, de surpresa, sem dar tempo a que nos voltássemos a encontrar. Conheceu ainda a neta, a Laura, com quem se preparava certamente para se enternecer, do mesmo modo que havia feito com a filha, mas já sem necessidade de exibir a antiga austeridade, que isto com os netos, como sabem os que lá chegaram, é uma coisa diferente, já sem espaço para austeridades.
Depois disso, como com o primeiro romance, a Inês pôs-se a escrever entrelaçando agora na sua escrita o peso de uma morte recente, o lado vagaroso de um trabalho que queria por força entender a densidade do que havia caído sobre ela. Daí nasceu este seu último romance, Fazes-me Falta, atingindo num curto espaço de tempo mais de 50.000 leitores em Portugal, para além das edições em Espanha, Alemanha, França, Brasil.
Decidiu, amavelmente, dedicar-me este livro. Devia tê-lo feito, antes, com o primeiro. O único de que, como editor, tenho motivos para me orgulhar. Tudo o mais, a seguir, foi trabalho dela. Só dela.
Depois de Vergilio Ferreira, do Zé Cardoso Pires, do António Lobo Antunes, do Ruy Belo, do José Gomes Ferreira, dou um salto no tempo até a uma geração posterior:
INÊS PEDROSA
On ne bâtit un bonheur que sur un fondement de désespoir.
Je crois que je vais pouvoir me mettre à construire.
M. Yourcenar
O Pedrosa, o Ricardo Pedrosa, era um matemático competente, um homem grande e austero, mas de uma simpatia e cordialidade que parecia não ter a ver com o seu corpo grande, bem constituído, de atleta. Creio que isso lhe vinha dos muitos anos como oficial miliciano a que esses tempos obrigavam, como daí lhe viriam também os hábitos de disciplina e de rigor com que organizava meticulosamente a sua vida. Trabalhámos juntos muitos anos, lado a lado, sob a direcção do Doutor Camelo, o Dr. Amândio Camelo, tal como o Pedrosa, também já falecido.
Trabalhávamos com boa disposição, cultivávamos o humor e a brincadeira. O Doutor Camelo, que não era propriamente um ás do volante, era até frequentemente insultado durante a condução:
- Seu camelo... – berravam-lhe amiúde de dentro dos outros carros.
Ao que ele respondia, erguendo cortesmente o chapéu:
- Como está, passou bem... – como se se dirigisse a alguém que acabasse de o reconhecer.
O Pedrosa era um pai-galinha, como se costuma dizer, vaidoso das suas crias, de quem cuidava enternecido e babado, mas simultaneamente com aquela austeridade que parecia querer mostrar que “a coisa não era nada com ele”..
Periodicamente, porém, lá tínhamos de aguentar a cena. O Pedrosa trazia a filha para mostrar aos colegas. Ora porque ia com ela a uma consulta médica, ora para não ficar sozinha em casa, todos os pretextos lhe serviam. Lá vinha a criança vestidinha de branco, com um vestido rodado, laçarotes, fazer gracinhas para o emprego do papá. O Pedrosa pegava-lhe ao colo, punha-a de pé em cima da secretária, e a menina lá ia fazendo as suas habilidades.
Foi assim que primeiro conheci a Inês.
É-me difícil localizar no tempo quando tudo isto se passava, mas certamente há bem mais do que trinta anos.
Depois de concluídas as suas palhaçadas a Inês andava de colo em colo, lambuzava-nos a cara com os seus beijos molhados de chocolate, lembro-me que perguntava tudo a todos, queria saber tudo, perante o olhar embevecido mas distante do Pedrosa.
Quando a voltei a encontrar, anos mais tarde, e o nosso convívio verdadeiramente começou, era ela já uma jornalista literária, colaborando no JL, escrevendo sobre livros, fazendo entrevistas a escritores importantes. Lembro-me que a sua escrita me impressionou pela qualidade, consistência e desenvoltura – nós, os editores, achamos sempre que conseguimos aprender a reconhecer estas “promessas”.
Deixei passar mais uns anos, calmamente, até lhe fazer o desafio:
- Quando é que tentas escrever um romance?
Não se pode fazer estes desafios a pessoas determinadas como a Inês. É uma costela que lhe ficou certamente do Pedrosa, tanto quanto se pode falar assim. O que é certo é que a Inês, sem dizer nada a ninguém, organizou a sua vida, recolheu-se um pouco das saídas nocturnas, aproveitou a organização de um primeiro casamento e pôs-se a escrever. Um dia convidou-me a passar lá por casa, numa tarde de sábado.
- Aqui tens. Chama-se A Instrução dos Amantes...
Colocou-me nos braços um maço de folhas dactilografadas e só então me revelou que era a filha do Pedrosa, a quem entretanto eu tinha perdido o rasto.
Pedi-lhe um lápis emprestado (já não sei ler sem lápis, mesmo que o não use) e, logo em sua casa, iniciei a leitura. Publiquei o livro em Abril de 1992, já lá vão mais de dez anos, e até hoje já fez para aí umas 10 edições, foi traduzido em Espanha, incluído em bolso, vai a caminho de outros países e de outras aventuras.
Desde essa data, construímos em conjunto vários projectos, envolvemo-nos em muitas iniciativas editoriais, trabalhámos em muitos livros, construímos uma relação de cumplicidade e amizade estreitas, a Inês publicou entretanto mais dois romances que, a meu ver, comprovaram sobejamente o desafio que lhe havia feito.
Não tive outra importância que não essa, tê-la sabido desafiar. O resto foi tudo trabalho seu. Muito trabalho seu.
Entretanto o Pedrosa faleceu, apressadamente, de surpresa, sem dar tempo a que nos voltássemos a encontrar. Conheceu ainda a neta, a Laura, com quem se preparava certamente para se enternecer, do mesmo modo que havia feito com a filha, mas já sem necessidade de exibir a antiga austeridade, que isto com os netos, como sabem os que lá chegaram, é uma coisa diferente, já sem espaço para austeridades.
Depois disso, como com o primeiro romance, a Inês pôs-se a escrever entrelaçando agora na sua escrita o peso de uma morte recente, o lado vagaroso de um trabalho que queria por força entender a densidade do que havia caído sobre ela. Daí nasceu este seu último romance, Fazes-me Falta, atingindo num curto espaço de tempo mais de 50.000 leitores em Portugal, para além das edições em Espanha, Alemanha, França, Brasil.
Decidiu, amavelmente, dedicar-me este livro. Devia tê-lo feito, antes, com o primeiro. O único de que, como editor, tenho motivos para me orgulhar. Tudo o mais, a seguir, foi trabalho dela. Só dela.
Terça-feira, Agosto 26, 2003
087 - REGRESSO, 2
De regresso, percorro com algum vagar os blogues cuja leitura havia ficado atrasada. Não me arrependo. Há sempre sinais de inteligência e de interesse no que vai ficando escrito por aqui.
Mas de súbito tomo consciência: grande parte dos posts mais recentes são de despedida ou anúncio de longos interregnos - que é que se passa ?
Os blogues não souberam resistir ao calor incendiado deste Verão ? Eram de facto apenas uma moda, como comentava Eduardo Prado Coelho ? Atingiram os seus objectivos de notoriedade e foram pregar para outras freguesias ? Desistiram ? Cansaram-se ? Têm mais que fazer ?
Com tudo isso não deixam de continuar a revelar mais uma faceta do nosso modo de ser, da "genuina alma nacional". Talvez um dia o nosso Sociólogo tenha paciência e tempo para nos explicar isto.
Espero que resistam os melhores, aqueles que de facto têm coisas para dizer, que discutem pelo prazer e interesse em confrontar e repartir ideias. Que sabem que pensar em voz alta não é propriamente o mesmo que andar em busca de pepitas de ouro. A maior parte das vezes não se encontra nada.
Mas de súbito tomo consciência: grande parte dos posts mais recentes são de despedida ou anúncio de longos interregnos - que é que se passa ?
Os blogues não souberam resistir ao calor incendiado deste Verão ? Eram de facto apenas uma moda, como comentava Eduardo Prado Coelho ? Atingiram os seus objectivos de notoriedade e foram pregar para outras freguesias ? Desistiram ? Cansaram-se ? Têm mais que fazer ?
Com tudo isso não deixam de continuar a revelar mais uma faceta do nosso modo de ser, da "genuina alma nacional". Talvez um dia o nosso Sociólogo tenha paciência e tempo para nos explicar isto.
Espero que resistam os melhores, aqueles que de facto têm coisas para dizer, que discutem pelo prazer e interesse em confrontar e repartir ideias. Que sabem que pensar em voz alta não é propriamente o mesmo que andar em busca de pepitas de ouro. A maior parte das vezes não se encontra nada.
Segunda-feira, Agosto 25, 2003
086 - REGRESSO...
Regresso.
Não muito animado.
O verão foi violento e duro, o país ficou bastante mais pobre do que era, muita dessa pobreza nem nós a imaginamos bem, agora.
Ela acabará por revelar-se depois, lentamente, quase sem darmos por isso, nos mais variados aspectos da nossa vida.
Nem vale a pena iludirmo-nos com os apoios anunciados, com os preços garantidos, com os subsídios que hão-de chegar de fora, com as colectas públicas aparentemente generosas, etc. Os grandes proprietários, como sempre, começarão a recolher tudo isso com os seus lobbies, as suas estruturas bem preparadas. Os pequenos (também como sempre...) terão de dirigir-se às Juntas de Freguesia, preencher papéis, requerimentos, juntar certidões, preencher mais papéis, fornecer dados justificativos, aguardar, aguardar... aguardar até ao esquecimento.
*
As páginas de economia do Expresso, este último fim de semana, relatavam aliás um estudo curioso. Tudo desceu: o consumo de cimento, a compra de brinquedos, a compra de casas, de vestuário, as despesas com restaurantes, etc.
Só uma coisa subiu: as despesas dos portugueses com o totoloto e o totobola (cerca de 15%).
Somos assim. Não protegemos a riqueza criada. Apostamos na sorte.
Os Governos também, apostam na sorte. Falta-lhes a capacidade de previsão, o estudo sério dos problemas, a iniciativa, a seriedade dos processos.
Tira-se de um bolso; põe-se no outro. Fica tudo na mesma, não se criou riqueza nenhuma, mas o Orçamento anual fica mais limpo, a ver se conseguimos enganar-nos a nós próprios. Como na decisão recente de vender património público imobiliário à Caixa Geral de Depósitos.
Tira-se de um bolso; põe-se no outro.
Lamentável.
Não muito animado.
O verão foi violento e duro, o país ficou bastante mais pobre do que era, muita dessa pobreza nem nós a imaginamos bem, agora.
Ela acabará por revelar-se depois, lentamente, quase sem darmos por isso, nos mais variados aspectos da nossa vida.
Nem vale a pena iludirmo-nos com os apoios anunciados, com os preços garantidos, com os subsídios que hão-de chegar de fora, com as colectas públicas aparentemente generosas, etc. Os grandes proprietários, como sempre, começarão a recolher tudo isso com os seus lobbies, as suas estruturas bem preparadas. Os pequenos (também como sempre...) terão de dirigir-se às Juntas de Freguesia, preencher papéis, requerimentos, juntar certidões, preencher mais papéis, fornecer dados justificativos, aguardar, aguardar... aguardar até ao esquecimento.
*
As páginas de economia do Expresso, este último fim de semana, relatavam aliás um estudo curioso. Tudo desceu: o consumo de cimento, a compra de brinquedos, a compra de casas, de vestuário, as despesas com restaurantes, etc.
Só uma coisa subiu: as despesas dos portugueses com o totoloto e o totobola (cerca de 15%).
Somos assim. Não protegemos a riqueza criada. Apostamos na sorte.
Os Governos também, apostam na sorte. Falta-lhes a capacidade de previsão, o estudo sério dos problemas, a iniciativa, a seriedade dos processos.
Tira-se de um bolso; põe-se no outro. Fica tudo na mesma, não se criou riqueza nenhuma, mas o Orçamento anual fica mais limpo, a ver se conseguimos enganar-nos a nós próprios. Como na decisão recente de vender património público imobiliário à Caixa Geral de Depósitos.
Tira-se de um bolso; põe-se no outro.
Lamentável.
Segunda-feira, Agosto 11, 2003
085 - O "ACONTECE", AINDA...
“Ainda há homens assim” – encontrei escrito no blogue de Manuel Falcão a propósito do texto deixado escrito por João Pulido Valente para depois da sua morte.
Deveria dizer-se antes: “Já quase não há homens assim”.
*
Escrevi no DNA contra o fim do Acontece, apesar de ter sido um programa que nunca me agradou, conforme tive oportunidade de dizer nesse mesmo texto. Pelos seus enormes defeitos, pelo seu amiguismo exagerado, pela sua superficialidade talvez inevitável.
Mas, mesmo com tudo isso, não fazia qualquer sentido eliminá-lo sem alternativas, sobretudo fazendo-o do modo desastrado como foi feito, humilhando publicamente o seu autor.
Anunciam agora os jornais (li a notícia no Público de 09.08.) que afinal o Acontece vai ter em breve um programa substituto, que o seu perfil “já foi definido pela equipa dirigente”, que o apresentará publicamente nos primeiros dias de Setembro para ter início em Outubro, que alguém já tinha afinal aceite o que muitos certamente teriam tido o respeito e o decoro de não aceitar.
*
Já quase não há homens assim... – é verdade.
Deveria dizer-se antes: “Já quase não há homens assim”.
*
Escrevi no DNA contra o fim do Acontece, apesar de ter sido um programa que nunca me agradou, conforme tive oportunidade de dizer nesse mesmo texto. Pelos seus enormes defeitos, pelo seu amiguismo exagerado, pela sua superficialidade talvez inevitável.
Mas, mesmo com tudo isso, não fazia qualquer sentido eliminá-lo sem alternativas, sobretudo fazendo-o do modo desastrado como foi feito, humilhando publicamente o seu autor.
Anunciam agora os jornais (li a notícia no Público de 09.08.) que afinal o Acontece vai ter em breve um programa substituto, que o seu perfil “já foi definido pela equipa dirigente”, que o apresentará publicamente nos primeiros dias de Setembro para ter início em Outubro, que alguém já tinha afinal aceite o que muitos certamente teriam tido o respeito e o decoro de não aceitar.
*
Já quase não há homens assim... – é verdade.
Sábado, Agosto 09, 2003
084 - SAIAS...
Com os incêndios demonstrando dolorosamente a nossa incapacidade e falta de planeamento, com este calor, com uma comunicação social desastrada e sem notícias, com uma classe política acabrunhada e sem saber como reagir, resta-me uma história que achei divertida.
Confesso que a história tem o seu lado machista mas, mesmo assim, não hesito em reproduzi-la aqui. Que me perdoem os/as fundamentalistas.
Chega do Brasil e está contada num dos últimos números da revista VEJA.
Diz o deputado federal do PTB-RJ, Roberto Jefferson, que nunca se deve discutir com “gente de saias” porque isso dá sempre mau resultado.
Sublinhando depois estar a referir-se a padres, mulheres e juízes.
No caso brasileiro foram os juízes quem menos gostou da graçola…
Confesso que a história tem o seu lado machista mas, mesmo assim, não hesito em reproduzi-la aqui. Que me perdoem os/as fundamentalistas.
Chega do Brasil e está contada num dos últimos números da revista VEJA.
Diz o deputado federal do PTB-RJ, Roberto Jefferson, que nunca se deve discutir com “gente de saias” porque isso dá sempre mau resultado.
Sublinhando depois estar a referir-se a padres, mulheres e juízes.
No caso brasileiro foram os juízes quem menos gostou da graçola…
Quinta-feira, Agosto 07, 2003
083 - O IVA NOS LIVROS
Continua a falar-se com frequência nos produtos que têm IVA, e naqueles que estão isentos dele.
Nesta última categoria estão incluídos, por exemplo, os lugares cativos nos novos estádios de futebol - isentos de IVA devido a uma sinuosa equiparação a arrendamentos urbanos... Eu ter um lugar cativo num estádio de futebol é assim, para o Fisco, o mesmo que eu ter arrendada a minha habitação permanente.
Legislação produzida pelo PS, diz o PSD.
Boa oportunidade para deixar aqui arquivado este texto sobre o "IVA NOS LIVROS" (in DNA de 02.11. 2002):
Si la minoría que lee dejara de hacerlo, la atmósfera se volvería irrespirable. (...)
El lector es una especie de funcionario que hace un servicio público a su comunidad. (...)
Y no sólo no cobra por ello, sino que paga impuestos. (...)
J.J.Millás
Antes de partir para as suas férias de Verão, o meu amigo Jordi Nadal (um excelente editor temporariamente retirado do oficio) distribuiu, com um pedido de apoio ao tema, um impressionante texto de Juan José Millás (El País, 26.07.02) sobre a velha questão do IVA nos livros.
A questão do IVA de facto não é nova, mas creio que vale a pena explicá-la. Sobretudo ao Governo, ou aos sucessivos Governos, a ver se entendem de que modo se pode estar a pisar os próprios pés.
O IVA é um imposto que aumenta o preço dos livros em mais 5% do que aquele que os editores estabeleceram como razoável para a venda dos seus títulos. Este imposto é pago, inteirinho, pelos compradores de livros: os leitores, as bibliotecas publicas e privadas, as escolas, os professores e os investigadores, os cientistas, os estudantes, todos aqueles que utilizam o livro para estudo e trabalho ou como forma de enriquecimento pessoal ou profissional.
Não há outro uso para os livros a não ser este: serem lidos. Não se pode comê-los, não se pode sair à rua com eles vestidos, não nos podemos ornamentar com eles, só os podemos ler. O IVA, portanto, enquanto imposto sobre o consumo dos livros, é na prática um imposto sobre a leitura.
Como se sabe, o sector editorial, contrariamente a muitos outros sectores, trabalha sem números ou estatísticas, apesar do Estado, através do IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas), ter entregue à APEL (Associação Portuguesa dos Editores e Livreiros), com essa finalidade mas sem quaisquer contrapartidas visíveis, mais de 700.000 euros (150 mil contos) durante os últimos cinco anos.
É o que se chama um dinheiro mal entregue e mal usado... porque do seu gasto, em cinco anos, nada de útil se obteve.
Mesmo sem estatísticas, é no entanto possível estimar que o Estado arrecada anualmente com este imposto sobre a leitura cerca de 25 milhões de euros, valor que (teoricamente) seria suposto ser re-utilizado como instrumento de dinamização da leitura, da produção de novos títulos ou de apoio a iniciativas editoriais relevantes.
Mas não é, como se sabe.
Quer isto então dizer que, ao arrecadar tão significativo valor sem investir nada de semelhante em qualquer destas iniciativas, o Estado está a taxar injustamente a formação cultural e profissional dos portugueses, o seu acesso à leitura, o seu desenvolvimento intelectual.
Quer dizer: o Estado não gosta que os portugueses beneficiem do desenvolvimento, da formação, da cultura. Mais ainda: acha que isso não tem para ele o menor interesse. Por isso “castiga” quem lê.
Ultimamente tem-se falado muito da questão da produtividade. Dizem os senhores Ministros e até o Presidente da República, que a produtividade dos portugueses é inferior à dos trabalhadores europeus, que é muito baixa, que tem de subir – inventando logo, para corrigir a situação, algumas medidas de controlo.
Eu costumo dizer, ao contrário, que a questão da produtividade se resolve com a formação, com a cultura, com a informação, com a leitura, enfim. A grande diferença entre nós e os outros cidadãos europeus é que, apesar de baixas, as suas taxas de leitura e de compra de livros são já bastante superiores às nossas.
Não tenham duvidas: entre um carpinteiro que lê e um carpinteiro que não lê, a diferença é um abismo; entre um estudante com hábitos de leitura regular e um estudante que os não tem, a diferença de capacidade de aprendizagem é imensa; um engenheiro que lê distingue-se de outro que não lê pela sua capacidade de adaptação às novas tecnologias, pela sua criatividade; o mesmo se passa com um ministro, um político, ou qualquer outra profissão ou actividade. Veja-se, por exemplo, a diferença das respectivas capacidades de expressão quando os vemos na televisão ou a falar em público.
A leitura é uma das mais importantes chaves do desenvolvimento.
Daí que possa dizer-se que taxar o acesso à leitura e ao consumo de livros, com um imposto que permanece como uma receita líquida do Estado (porque a sua colheita não é aplicada, em termos quantitativos similares, no incentivo ao seu crescimento), significa dificultar e atrasar um mais rápido desenvolvimento do país.
Vários países europeus já compreenderam isto há muito tempo, reduzindo ou passando a utilizar a taxa zero sobre o consumo dos livros. Isto porque os seus Governos acabaram por reconhecer quanto os seus países já beneficiam com o acto de desenvolvimento da leitura, e com tudo o que ela contribui para o enriquecimento pessoal e social dos seus cidadãos.
Que seria inútil e injusto “castigar” ainda mais aqueles que lêem...
Nesta última categoria estão incluídos, por exemplo, os lugares cativos nos novos estádios de futebol - isentos de IVA devido a uma sinuosa equiparação a arrendamentos urbanos... Eu ter um lugar cativo num estádio de futebol é assim, para o Fisco, o mesmo que eu ter arrendada a minha habitação permanente.
Legislação produzida pelo PS, diz o PSD.
Boa oportunidade para deixar aqui arquivado este texto sobre o "IVA NOS LIVROS" (in DNA de 02.11. 2002):
Si la minoría que lee dejara de hacerlo, la atmósfera se volvería irrespirable. (...)
El lector es una especie de funcionario que hace un servicio público a su comunidad. (...)
Y no sólo no cobra por ello, sino que paga impuestos. (...)
J.J.Millás
Antes de partir para as suas férias de Verão, o meu amigo Jordi Nadal (um excelente editor temporariamente retirado do oficio) distribuiu, com um pedido de apoio ao tema, um impressionante texto de Juan José Millás (El País, 26.07.02) sobre a velha questão do IVA nos livros.
A questão do IVA de facto não é nova, mas creio que vale a pena explicá-la. Sobretudo ao Governo, ou aos sucessivos Governos, a ver se entendem de que modo se pode estar a pisar os próprios pés.
O IVA é um imposto que aumenta o preço dos livros em mais 5% do que aquele que os editores estabeleceram como razoável para a venda dos seus títulos. Este imposto é pago, inteirinho, pelos compradores de livros: os leitores, as bibliotecas publicas e privadas, as escolas, os professores e os investigadores, os cientistas, os estudantes, todos aqueles que utilizam o livro para estudo e trabalho ou como forma de enriquecimento pessoal ou profissional.
Não há outro uso para os livros a não ser este: serem lidos. Não se pode comê-los, não se pode sair à rua com eles vestidos, não nos podemos ornamentar com eles, só os podemos ler. O IVA, portanto, enquanto imposto sobre o consumo dos livros, é na prática um imposto sobre a leitura.
Como se sabe, o sector editorial, contrariamente a muitos outros sectores, trabalha sem números ou estatísticas, apesar do Estado, através do IPLB (Instituto Português do Livro e das Bibliotecas), ter entregue à APEL (Associação Portuguesa dos Editores e Livreiros), com essa finalidade mas sem quaisquer contrapartidas visíveis, mais de 700.000 euros (150 mil contos) durante os últimos cinco anos.
É o que se chama um dinheiro mal entregue e mal usado... porque do seu gasto, em cinco anos, nada de útil se obteve.
Mesmo sem estatísticas, é no entanto possível estimar que o Estado arrecada anualmente com este imposto sobre a leitura cerca de 25 milhões de euros, valor que (teoricamente) seria suposto ser re-utilizado como instrumento de dinamização da leitura, da produção de novos títulos ou de apoio a iniciativas editoriais relevantes.
Mas não é, como se sabe.
Quer isto então dizer que, ao arrecadar tão significativo valor sem investir nada de semelhante em qualquer destas iniciativas, o Estado está a taxar injustamente a formação cultural e profissional dos portugueses, o seu acesso à leitura, o seu desenvolvimento intelectual.
Quer dizer: o Estado não gosta que os portugueses beneficiem do desenvolvimento, da formação, da cultura. Mais ainda: acha que isso não tem para ele o menor interesse. Por isso “castiga” quem lê.
Ultimamente tem-se falado muito da questão da produtividade. Dizem os senhores Ministros e até o Presidente da República, que a produtividade dos portugueses é inferior à dos trabalhadores europeus, que é muito baixa, que tem de subir – inventando logo, para corrigir a situação, algumas medidas de controlo.
Eu costumo dizer, ao contrário, que a questão da produtividade se resolve com a formação, com a cultura, com a informação, com a leitura, enfim. A grande diferença entre nós e os outros cidadãos europeus é que, apesar de baixas, as suas taxas de leitura e de compra de livros são já bastante superiores às nossas.
Não tenham duvidas: entre um carpinteiro que lê e um carpinteiro que não lê, a diferença é um abismo; entre um estudante com hábitos de leitura regular e um estudante que os não tem, a diferença de capacidade de aprendizagem é imensa; um engenheiro que lê distingue-se de outro que não lê pela sua capacidade de adaptação às novas tecnologias, pela sua criatividade; o mesmo se passa com um ministro, um político, ou qualquer outra profissão ou actividade. Veja-se, por exemplo, a diferença das respectivas capacidades de expressão quando os vemos na televisão ou a falar em público.
A leitura é uma das mais importantes chaves do desenvolvimento.
Daí que possa dizer-se que taxar o acesso à leitura e ao consumo de livros, com um imposto que permanece como uma receita líquida do Estado (porque a sua colheita não é aplicada, em termos quantitativos similares, no incentivo ao seu crescimento), significa dificultar e atrasar um mais rápido desenvolvimento do país.
Vários países europeus já compreenderam isto há muito tempo, reduzindo ou passando a utilizar a taxa zero sobre o consumo dos livros. Isto porque os seus Governos acabaram por reconhecer quanto os seus países já beneficiam com o acto de desenvolvimento da leitura, e com tudo o que ela contribui para o enriquecimento pessoal e social dos seus cidadãos.
Que seria inútil e injusto “castigar” ainda mais aqueles que lêem...
Domingo, Agosto 03, 2003
082 - AINDA MACHADO DE ASSIS
A brincadeira "Machado de Assis" espalhou-se afinal rapidamente.
Muitos jornais falaram dela (cada um segundo o seu estilo noticioso), mas foi sobretudo a caixa de correio quem recebeu o maior número de reacções.
Uns julgaram tratar-se de uma invenção da minha parte, o que seria certamente de mau-gosto; outros consideraram que fui brando, talvez por ter recebido algum telefonema ameaçador do Presidente da Câmara; outros ainda resolveram apontar as obras em curso na cidade da Lisboa, como atenuantes para os erros das secretárias do Presidente da Câmara - como se uma coisa tivesse a ver com a outra...
Afinal tratava-se apenas de uma história divertida, igual a tantas outras, quando se tem algum sentido de humor.
Muitos jornais falaram dela (cada um segundo o seu estilo noticioso), mas foi sobretudo a caixa de correio quem recebeu o maior número de reacções.
Uns julgaram tratar-se de uma invenção da minha parte, o que seria certamente de mau-gosto; outros consideraram que fui brando, talvez por ter recebido algum telefonema ameaçador do Presidente da Câmara; outros ainda resolveram apontar as obras em curso na cidade da Lisboa, como atenuantes para os erros das secretárias do Presidente da Câmara - como se uma coisa tivesse a ver com a outra...
Afinal tratava-se apenas de uma história divertida, igual a tantas outras, quando se tem algum sentido de humor.
Sexta-feira, Agosto 01, 2003
081 - EM AGOSTO...
Nuno Júdice, in Pedro, Lembrando Inês, DQ - 2001:
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que/
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a/
manhã da minha noite. É verdade que te podia/
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas/
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos/
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me/
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,/
até sermos um apenas no amor que nos une,/
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:/
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua/
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo/
esse que mal corria quando por ele passámos,/
subindo a margem em que descobri o sentido/
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo/
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,/
de chegar antes de ti para te ver chegar: com/
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água/
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:/
a primavera luminosa da minha expectativa,/
a mais certa certeza de que gosto de ti, como/
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste./
Nuno Júdice, in Pedro, Lembrando Inês, DQ - 2001:
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que/
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a/
manhã da minha noite. É verdade que te podia/
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas/
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos/
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me/
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,/
até sermos um apenas no amor que nos une,/
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:/
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua/
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo/
esse que mal corria quando por ele passámos,/
subindo a margem em que descobri o sentido/
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo/
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,/
de chegar antes de ti para te ver chegar: com/
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água/
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:/
a primavera luminosa da minha expectativa,/
a mais certa certeza de que gosto de ti, como/
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste./
080 - OS BLOGUES
Quando da conferência de imprensa e da entrevista de Fátima Felgueiras à RTP 1, houve quem, com excesso de entusiasmo, se alegrasse com a reacção e eficácia dos blogues.
Na verdade, escassos minutos após os acontecimentos, era possível encontrar por aqui as mais variadas reacções. Posições da direita até à esquerda, análises profundas ou comentários superficiais. Os blogues mostravam ser mais rápidos e mais amplos do que a comunicação social tradicional. E assim foi, igualmente, em muitas outras situações. A velocidade deste meio permitiu ter acesso quase imediato à noticia e à variedade dos comentários.
Mas foi sol de pouca duração, como é costume dizer-se.
Hoje os blogues parecem distraídos do mundo que os rodeia. Falam de si próprios. Das suas "audiências", inclusivé, como os canais de televisão, contentes com o que conquistaram. Como se receassem intervir sobre o que se passa à sua volta. De activos passaram a niilistas.
A não ser que os "silêncios impostos" os tenham já atingido também a eles...
Nem o jantar dos militares comentaram.
PS: O jornal "24 horas" transcreve o meu post nº 076. É assim. Quando se não tem nada para dizer, quando se não quer falar de outras coisas, tudo serve para encher o papinho dos escandalos. Fizeram-me, além do mais, uma autêntica perseguição telefónica à procura de comentários adicionais. Ligando-me para vários telefones, usando vários telefones para ver se eu os não identificava. Coloquei aqui o comentário porque lhe achei graça e oportunidade. Mas não contem comigo para alimentar faits divers.
Na verdade, escassos minutos após os acontecimentos, era possível encontrar por aqui as mais variadas reacções. Posições da direita até à esquerda, análises profundas ou comentários superficiais. Os blogues mostravam ser mais rápidos e mais amplos do que a comunicação social tradicional. E assim foi, igualmente, em muitas outras situações. A velocidade deste meio permitiu ter acesso quase imediato à noticia e à variedade dos comentários.
Mas foi sol de pouca duração, como é costume dizer-se.
Hoje os blogues parecem distraídos do mundo que os rodeia. Falam de si próprios. Das suas "audiências", inclusivé, como os canais de televisão, contentes com o que conquistaram. Como se receassem intervir sobre o que se passa à sua volta. De activos passaram a niilistas.
A não ser que os "silêncios impostos" os tenham já atingido também a eles...
Nem o jantar dos militares comentaram.
PS: O jornal "24 horas" transcreve o meu post nº 076. É assim. Quando se não tem nada para dizer, quando se não quer falar de outras coisas, tudo serve para encher o papinho dos escandalos. Fizeram-me, além do mais, uma autêntica perseguição telefónica à procura de comentários adicionais. Ligando-me para vários telefones, usando vários telefones para ver se eu os não identificava. Coloquei aqui o comentário porque lhe achei graça e oportunidade. Mas não contem comigo para alimentar faits divers.
Quinta-feira, Julho 31, 2003
079 - JORNALISMO E POLÍTICA
Claro, Pacheco Pereira, é exactamente assim, tal como refere neste seu post que transcrevo aqui:
UMA QUESTÃO TABU DO JORNALISMO E DA POLÍTICA
Um jornalista que tem fontes altamente colocadas na vida política, que lhe fornecem informações confidenciais que implicam quebra de segredo ou lealdade ou com o governo ou com o partido de que fazem parte, acaba por ter um ascendente sobre essas fontes. Por muito que exista uma troca de favores entre o político que assim fornece informações com intencionalidade (contra os seu adversários políticos, contra quem lhe faz sombra na carreira) e o jornalista que vê o seu jornal aumentar as tiragens pelos “escândalos” que publica e a própria carreira de jornalista subir de cotação , a verdade é que dada a natureza das suas funções e a distinção entre a penalização social dos dois comportamentos, é o jornalista que “manda”.
O que é que acontece quando o jornalista inicia uma carreira política e vai ter que partilhar o mesmo mundo com os políticos que o informavam? Como é que ele pode iludir que sabe, no mesmo gabinete, no mesmo partido, quem informa os jornais? Como é que as “fontes”, que sabem que ele sabe que foram eles que denunciaram X, ou forneceram o documento que incriminou Y, o tratam? Podem ter liberdade para criticar o homem a quem passavam informações? Podem deixar de sentir uma potencial chantagem sobre eles? Mesmo na melhor das hipóteses é uma relação particularmente doentia e ambígua.
Adicionando o que eu havia dito antes no meu post nº 077
A questão das informações, das reportagens, das fotos, etc. que são mantidas inéditas como elementos de pressão, "enquanto te portares bem..."
Seguindo aquele velho esquema do "eu sei que tu sabes que eu sei..."
UMA QUESTÃO TABU DO JORNALISMO E DA POLÍTICA
Um jornalista que tem fontes altamente colocadas na vida política, que lhe fornecem informações confidenciais que implicam quebra de segredo ou lealdade ou com o governo ou com o partido de que fazem parte, acaba por ter um ascendente sobre essas fontes. Por muito que exista uma troca de favores entre o político que assim fornece informações com intencionalidade (contra os seu adversários políticos, contra quem lhe faz sombra na carreira) e o jornalista que vê o seu jornal aumentar as tiragens pelos “escândalos” que publica e a própria carreira de jornalista subir de cotação , a verdade é que dada a natureza das suas funções e a distinção entre a penalização social dos dois comportamentos, é o jornalista que “manda”.
O que é que acontece quando o jornalista inicia uma carreira política e vai ter que partilhar o mesmo mundo com os políticos que o informavam? Como é que ele pode iludir que sabe, no mesmo gabinete, no mesmo partido, quem informa os jornais? Como é que as “fontes”, que sabem que ele sabe que foram eles que denunciaram X, ou forneceram o documento que incriminou Y, o tratam? Podem ter liberdade para criticar o homem a quem passavam informações? Podem deixar de sentir uma potencial chantagem sobre eles? Mesmo na melhor das hipóteses é uma relação particularmente doentia e ambígua.
Adicionando o que eu havia dito antes no meu post nº 077
A questão das informações, das reportagens, das fotos, etc. que são mantidas inéditas como elementos de pressão, "enquanto te portares bem..."
Seguindo aquele velho esquema do "eu sei que tu sabes que eu sei..."
Quarta-feira, Julho 30, 2003
078 - AUTORES, 6
Talvez seja do calor.
Sem grande paciência para falar de coisas novas, deixo uma história antiga de José Cardoso Pires. Sobre a ética das profissões - o que em alguns casos vem mesmo a propósito (ver post anterior).
Publiquei-a no DNA do último sábado, 26.07., e aqui fica arquivada.
JOSÉ CARDOSO PIRES:
o Polícia e o Carteirista
Esta não é uma história de escritores e editores como tem sido frequente nestas crónicas, mas de um escritor confrontado com o mundo real das suas personagens.
Uma história de policias e carteiristas, mesmo ao gosto de José Cardoso Pires.
Ele gostava de a contar, por isso a repetia sempre que desafiado. E eu, confesso, de tanto a ouvir, nunca fui capaz de distinguir o que havia nela de verdadeiro ou onde se infiltrava a conhecida imaginação dos escritores.
Quem conheceu de perto José Cardoso Pires recordará por certo a sua irritação relativamente a umas quantas autoridades (Policias, GNRs, Pides, Legionários, Juízes, etc.), assim como a sua compreensão e indulgência por algumas actividades marginais (carteiristas, traficantes, vadios, etc.), sobre as quais escreveu algumas histórias geniais: o Al Capone da Conceição com escritório numa leitaria da avenida Almirante Reis, o Martins Mãos de Seda, o Lidoro da Conceição, dito o Ganso, o Dente de Ouro vampiro-almirante, e outros, que eu sei lá. O próprio Cauteleiro de “O Delfim”, que é afinal quem assume a consciência final de toda a história.
Pois um dia o Zé regressava a Lisboa, tranquilamente, depois de cumpridos os afazeres que o haviam levado até fora da cidade. O cenário não pode ser uma auto-estrada, porque nesse tempo ainda as não havia em profusão, como hoje acontece. Também não poderemos falar em grandes velocidades porque o condutor a isso se não atrevia, com a sua conhecida inabilidade para as máquinas motorizadas. Receios de assaltos na estrada também não se comparavam aos que hoje acontecem. Por isso, a meio do caminho, tranquilo, o Zé decidiu aceitar a companhia de um novo passageiro que lhe solicitava boleia na berma da estrada.
Pessoa educada (como depois se pôde confirmar), razoavelmente bem vestido, agradeceu cortesmente o transporte que lhe era oferecido e sentou-se a seu lado.
O Zé, como se sabe, gostava de companhia e de conversar. Viu imediatamente na situação uma forma de quebrar a monotonia da condução até Lisboa. E tentou “puxar” pelo homem, saber quem era, o que fazia, porque andava ali na estrada sozinho, contou-lhe algumas coisas acerca de si próprio a ver se lhe desatava a língua. Mas o homem nada, não se descosia, respondendo apenas com monossílabos. Pessoa de poucas falas, portanto, homem reservado e misterioso, terá pensado o Zé.
Do pouco que falaram, a única coisa que o escritor conseguiu perceber foi que o seu companheiro de viagem tinha pressa de chegar a Lisboa. Por isso decidiu ser amável, aceitar e respeitar o silêncio do outro, acelerando o carro o mais que lhe era possível. Não devia ter sido muita a velocidade, porque o velho NSU já não daria para muito mais e o condutor, como já referi, também não possuía grandes dotes de acelera. De qualquer modo foi o suficiente para exceder os limites permitidos e para que um polícia, escondido como é costume na berma da estrada, os mandasse parar.
- Ora que espiga… – estou mesmo a ouvir o Zé, começando a ficar irritado com a situação.
- Tudo por minha causa, o senhor faça o favor de desculpar… – dizia o companheiro, bem-educado e preocupado com o transtorno causado.
E lá pararam, o NSU cansado e ofegante.
- Os seus documentos… – pediu certamente o agente da autoridade depois da continência convencional.
Nova irritação para o Zé, já se imagina. Onde estariam o raio dos documentos do carro? No porta-luvas? À frente, escondidos dentro da bagageira? – não se esqueça que o NSU tinha o motor atrás…
Condutor e companheiro procuraram, procuraram, o Zé cada vez mais irritado, o companheiro continuando solicito, ajudando, desculpando-se sempre pelo incómodo causado.
Saíram os dois do carro, documentos finalmente encontrados, o Zé já não sabendo se havia de estar mais irritado com o polícia ou com a situação em que se viu envolvido.
- Faz favor… – disse o Zé, entregando finalmente os documentos ao polícia, como quem lhe aponta uma pistola ao peito.
O Zé odiava polícias, vinha-lhe isto, como já disse, da sua genérica aversão às autoridades. Fiscais, policiais, aduaneiras militares. Todas.
- Vou ter de o multar… o cavalheiro vinha em excesso de velocidade, está ali aquele sinal antes da curva…
Era mesmo o que eu estava à espera, deve ter pensado o Zé enquanto via o polícia puxar pelo livro das multas e iniciar, com dificuldade e lentidão, o preenchimento do papelinho, virando e revirando os documentos que, felizmente, estavam em ordem.
Foi então que, rodeando o polícia, o seu companheiro de viagem decidiu colocar-se também em seu apoio.
- O Senhor Guarda não pode fazer uma coisa destas. A minha mulher está a morrer no Hospital, este senhor fez o favor de me dar uma boleia, ia depressa por minha causa, a ver se ainda chego antes da coitada exalar o último suspiro.
Mas o polícia não se comoveu com a cantilena, agora rodeado pelos dois, cada um tentando à sua maneira demove-lo de cumprir o seu dever.
Quando de novo arrancaram, o Zé amarfanhando a multa no bolso do casaco, resmungando com a sua queda para atrair as desgraças e os problemas, o silêncio era de gelo.
Foram assim os primeiros quilómetros de reinício da viagem: um silêncio pesado, o Zé certamente arrependido da boleia dada a um gajo que nem tinha rendido conversa para um conto; o outro preocupado, sentindo-se o causador do infortúnio.
Até que, por fim, foi o outro quem decidiu falar:
- O senhor desculpe… o senhor foi tão amável… tudo isto por minha causa… tudo isto porque eu lhe disse que tinha pressa…embora eu nem seja casado… nem tenho mulher nenhuma às portas da morte…sou apenas um modesto carteirista, um profissional do gamanço…
Imagine-se o Zé, conduzindo irritado, ter de repente que pensar em que bolso estava guardada a carteira, onde é que tinha voltado a pôr os documentos do carro, o que é que estava na bagageira do carro quando a abrira, como era possível que tudo isto lhe estivesse a acontecer a ele, dar boleia a um carteirista.
- O senhor foi tão amável que eu, que sou um homem sério e agradecido, não posso deixar de o compensar à minha modesta maneira…
E levando a mão ao bolso, pousou delicadamente sobre o tablier do velho NSU o livro das multas, roubado ao polícia durante os abraços.
Não há duvida. Todas as profissões têm a sua ética...
Sem grande paciência para falar de coisas novas, deixo uma história antiga de José Cardoso Pires. Sobre a ética das profissões - o que em alguns casos vem mesmo a propósito (ver post anterior).
Publiquei-a no DNA do último sábado, 26.07., e aqui fica arquivada.
JOSÉ CARDOSO PIRES:
o Polícia e o Carteirista
Esta não é uma história de escritores e editores como tem sido frequente nestas crónicas, mas de um escritor confrontado com o mundo real das suas personagens.
Uma história de policias e carteiristas, mesmo ao gosto de José Cardoso Pires.
Ele gostava de a contar, por isso a repetia sempre que desafiado. E eu, confesso, de tanto a ouvir, nunca fui capaz de distinguir o que havia nela de verdadeiro ou onde se infiltrava a conhecida imaginação dos escritores.
Quem conheceu de perto José Cardoso Pires recordará por certo a sua irritação relativamente a umas quantas autoridades (Policias, GNRs, Pides, Legionários, Juízes, etc.), assim como a sua compreensão e indulgência por algumas actividades marginais (carteiristas, traficantes, vadios, etc.), sobre as quais escreveu algumas histórias geniais: o Al Capone da Conceição com escritório numa leitaria da avenida Almirante Reis, o Martins Mãos de Seda, o Lidoro da Conceição, dito o Ganso, o Dente de Ouro vampiro-almirante, e outros, que eu sei lá. O próprio Cauteleiro de “O Delfim”, que é afinal quem assume a consciência final de toda a história.
Pois um dia o Zé regressava a Lisboa, tranquilamente, depois de cumpridos os afazeres que o haviam levado até fora da cidade. O cenário não pode ser uma auto-estrada, porque nesse tempo ainda as não havia em profusão, como hoje acontece. Também não poderemos falar em grandes velocidades porque o condutor a isso se não atrevia, com a sua conhecida inabilidade para as máquinas motorizadas. Receios de assaltos na estrada também não se comparavam aos que hoje acontecem. Por isso, a meio do caminho, tranquilo, o Zé decidiu aceitar a companhia de um novo passageiro que lhe solicitava boleia na berma da estrada.
Pessoa educada (como depois se pôde confirmar), razoavelmente bem vestido, agradeceu cortesmente o transporte que lhe era oferecido e sentou-se a seu lado.
O Zé, como se sabe, gostava de companhia e de conversar. Viu imediatamente na situação uma forma de quebrar a monotonia da condução até Lisboa. E tentou “puxar” pelo homem, saber quem era, o que fazia, porque andava ali na estrada sozinho, contou-lhe algumas coisas acerca de si próprio a ver se lhe desatava a língua. Mas o homem nada, não se descosia, respondendo apenas com monossílabos. Pessoa de poucas falas, portanto, homem reservado e misterioso, terá pensado o Zé.
Do pouco que falaram, a única coisa que o escritor conseguiu perceber foi que o seu companheiro de viagem tinha pressa de chegar a Lisboa. Por isso decidiu ser amável, aceitar e respeitar o silêncio do outro, acelerando o carro o mais que lhe era possível. Não devia ter sido muita a velocidade, porque o velho NSU já não daria para muito mais e o condutor, como já referi, também não possuía grandes dotes de acelera. De qualquer modo foi o suficiente para exceder os limites permitidos e para que um polícia, escondido como é costume na berma da estrada, os mandasse parar.
- Ora que espiga… – estou mesmo a ouvir o Zé, começando a ficar irritado com a situação.
- Tudo por minha causa, o senhor faça o favor de desculpar… – dizia o companheiro, bem-educado e preocupado com o transtorno causado.
E lá pararam, o NSU cansado e ofegante.
- Os seus documentos… – pediu certamente o agente da autoridade depois da continência convencional.
Nova irritação para o Zé, já se imagina. Onde estariam o raio dos documentos do carro? No porta-luvas? À frente, escondidos dentro da bagageira? – não se esqueça que o NSU tinha o motor atrás…
Condutor e companheiro procuraram, procuraram, o Zé cada vez mais irritado, o companheiro continuando solicito, ajudando, desculpando-se sempre pelo incómodo causado.
Saíram os dois do carro, documentos finalmente encontrados, o Zé já não sabendo se havia de estar mais irritado com o polícia ou com a situação em que se viu envolvido.
- Faz favor… – disse o Zé, entregando finalmente os documentos ao polícia, como quem lhe aponta uma pistola ao peito.
O Zé odiava polícias, vinha-lhe isto, como já disse, da sua genérica aversão às autoridades. Fiscais, policiais, aduaneiras militares. Todas.
- Vou ter de o multar… o cavalheiro vinha em excesso de velocidade, está ali aquele sinal antes da curva…
Era mesmo o que eu estava à espera, deve ter pensado o Zé enquanto via o polícia puxar pelo livro das multas e iniciar, com dificuldade e lentidão, o preenchimento do papelinho, virando e revirando os documentos que, felizmente, estavam em ordem.
Foi então que, rodeando o polícia, o seu companheiro de viagem decidiu colocar-se também em seu apoio.
- O Senhor Guarda não pode fazer uma coisa destas. A minha mulher está a morrer no Hospital, este senhor fez o favor de me dar uma boleia, ia depressa por minha causa, a ver se ainda chego antes da coitada exalar o último suspiro.
Mas o polícia não se comoveu com a cantilena, agora rodeado pelos dois, cada um tentando à sua maneira demove-lo de cumprir o seu dever.
Quando de novo arrancaram, o Zé amarfanhando a multa no bolso do casaco, resmungando com a sua queda para atrair as desgraças e os problemas, o silêncio era de gelo.
Foram assim os primeiros quilómetros de reinício da viagem: um silêncio pesado, o Zé certamente arrependido da boleia dada a um gajo que nem tinha rendido conversa para um conto; o outro preocupado, sentindo-se o causador do infortúnio.
Até que, por fim, foi o outro quem decidiu falar:
- O senhor desculpe… o senhor foi tão amável… tudo isto por minha causa… tudo isto porque eu lhe disse que tinha pressa…embora eu nem seja casado… nem tenho mulher nenhuma às portas da morte…sou apenas um modesto carteirista, um profissional do gamanço…
Imagine-se o Zé, conduzindo irritado, ter de repente que pensar em que bolso estava guardada a carteira, onde é que tinha voltado a pôr os documentos do carro, o que é que estava na bagageira do carro quando a abrira, como era possível que tudo isto lhe estivesse a acontecer a ele, dar boleia a um carteirista.
- O senhor foi tão amável que eu, que sou um homem sério e agradecido, não posso deixar de o compensar à minha modesta maneira…
E levando a mão ao bolso, pousou delicadamente sobre o tablier do velho NSU o livro das multas, roubado ao polícia durante os abraços.
Não há duvida. Todas as profissões têm a sua ética...
077 - COMADRES
A política portuguesa está cada vez mais lamentável e sinuosa.
A prática da democracia não é fácil, é verdade.
Mas o que não pode ser é mais obscura que a ditadura onde, ao menos, os presos sabiam porque estavam ou continuavam detidos.
E está sendo.
Suspeito que um dia destes vamos ter grandes, sérias e desagradáveis surpresas.
Já aqui falei (num post posteriormente apagado) dos gabinetes ministeriais que se transformaram em centros de informação e contra-informação, onde tudo vale.
Não fui o único a referi-lo, mesmo nos jornais.
Falam-me agora da existência de stocks de reportagens, investigações, informações, etc., comprometedoras para algumas figuras públicas de alto relevo, cuja não publicação estaria a servir de caução para o seu silêncio, complacência, imobilismo.
Apetece perguntar: e se um dia "as comadres" se zangam ?
A prática da democracia não é fácil, é verdade.
Mas o que não pode ser é mais obscura que a ditadura onde, ao menos, os presos sabiam porque estavam ou continuavam detidos.
E está sendo.
Suspeito que um dia destes vamos ter grandes, sérias e desagradáveis surpresas.
Já aqui falei (num post posteriormente apagado) dos gabinetes ministeriais que se transformaram em centros de informação e contra-informação, onde tudo vale.
Não fui o único a referi-lo, mesmo nos jornais.
Falam-me agora da existência de stocks de reportagens, investigações, informações, etc., comprometedoras para algumas figuras públicas de alto relevo, cuja não publicação estaria a servir de caução para o seu silêncio, complacência, imobilismo.
Apetece perguntar: e se um dia "as comadres" se zangam ?
Terça-feira, Julho 29, 2003
076 - NOVA VERSÃO DOS VIOLINOS DE CHOPIN
Na minha vida de trabalho acontecem muitas vezes incidentes como este, com as mais variadas origens.
A maior parte das vezes esqueço-os, ignoro-os, não lhes dou importância, calo-me, não os revelo publicamente, poupando quem os pratica.
Mas este não resisto a contá-lo.
Que o próprio me perdoe.
Acabo de receber na Dom Quixote um cartão pessoal assinado pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, enviado pelo seu próprio Gabinete, agradecendo (com toda a simpatia) o envio do romance "Dom Casmurro", da autoria, como se sabe, do escritor brasileiro Machado de Assis (nascido em 1839 - falecido em 1908).
Tudo isto seria normal e não mereceria outros comentários.
Se o envelope não viesse dirigido ao... "Exmº. Senhor Machado de Assis, ao c/ das Publicações Dom Quixote, em Lisboa".
Quem constituirá o Gabinete do Presidente da Câmara de Lisboa para fazer coisas como estas ?
Meninas bonitas, já sabemos. Chamam-lhes as "santanetes"...
Fico curioso a ver como "esta" circulará...
A maior parte das vezes esqueço-os, ignoro-os, não lhes dou importância, calo-me, não os revelo publicamente, poupando quem os pratica.
Mas este não resisto a contá-lo.
Que o próprio me perdoe.
Acabo de receber na Dom Quixote um cartão pessoal assinado pelo Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Dr. Pedro Santana Lopes, enviado pelo seu próprio Gabinete, agradecendo (com toda a simpatia) o envio do romance "Dom Casmurro", da autoria, como se sabe, do escritor brasileiro Machado de Assis (nascido em 1839 - falecido em 1908).
Tudo isto seria normal e não mereceria outros comentários.
Se o envelope não viesse dirigido ao... "Exmº. Senhor Machado de Assis, ao c/ das Publicações Dom Quixote, em Lisboa".
Quem constituirá o Gabinete do Presidente da Câmara de Lisboa para fazer coisas como estas ?
Meninas bonitas, já sabemos. Chamam-lhes as "santanetes"...
Fico curioso a ver como "esta" circulará...
Segunda-feira, Julho 28, 2003
075 - SEM ASSUNTO
Lá fui a Tróia, este fim de semana, fazer companhia a Lídia Jorge na entrega do Prémio da APE ao seu romance "O Vento Assobiando nas Gruas". Estavam 3 canais de televisão, vários jornalistas, muitos fotógrafos, todos bloquearam o Presidente para saber noticias do Ministro da Defesa e das demissões que ciclicamente o assolam. Do Prémio, depois, quase não vi noticias. Nem por não haver muitas para encher os jornais...
Do "Acontece" fez-se o elogio fúnebre, desistente - já estamos por tudo. Eliminado a soco, dizia um engraçadinho.
O Presidente fez um discurso para animar as hostes, estava bem disposto, conversador. Falou contra a tristeza e o pessimismo.
Aproveitei para ir a casa de amigos e depois à praia.
Os jornais, como diz Manuel Falcão, pouco têm para dizer. Os blogues (desculpem...) estão na mesma, fora aqueles optimistas que se entretêm citando-se uns aos outros.
Esperemos então pelas notícias sobre os meios de comunicação da Lusomundo e a Impresa. Parece que para muito breve.
Do "Acontece" fez-se o elogio fúnebre, desistente - já estamos por tudo. Eliminado a soco, dizia um engraçadinho.
O Presidente fez um discurso para animar as hostes, estava bem disposto, conversador. Falou contra a tristeza e o pessimismo.
Aproveitei para ir a casa de amigos e depois à praia.
Os jornais, como diz Manuel Falcão, pouco têm para dizer. Os blogues (desculpem...) estão na mesma, fora aqueles optimistas que se entretêm citando-se uns aos outros.
Esperemos então pelas notícias sobre os meios de comunicação da Lusomundo e a Impresa. Parece que para muito breve.
Quinta-feira, Julho 24, 2003
074 - LEITURAS
Extenso artigo de Lynn Hirschberg no The New York Times Magazine de Domingo 20.07. , acerca do Sr. Peter Olson, chairman da Random House.
Perter Olson é, actualmente, o homem mais poderoso da edição em todo mundo.
E no entanto... no entanto não se conhece que alguma vez tenha publicado um livro ou descoberto algum novo escritor.
Espero ter sabido colocar bem o link, para aqueles que se interessarem.
Perter Olson é, actualmente, o homem mais poderoso da edição em todo mundo.
E no entanto... no entanto não se conhece que alguma vez tenha publicado um livro ou descoberto algum novo escritor.
Espero ter sabido colocar bem o link, para aqueles que se interessarem.
Quarta-feira, Julho 23, 2003
073 - OFERTAS DE LIVROS
Deparo com este post no blogue do "nosso Livreiro":
Primeiro foi a Relógio d'Água que me colocou na mailing list. Revi, assim, os livros que já me tinham sido apresentados pelo vendedor da editora há mais de quinze dias. Agradeço a desinteressada simpatia, e, já agora, estico um pouco a corda:Porque é que a estratégia não pode ser um pouco mais agressiva e me passam a oferecer um exemplar de cada novidade que sai? Uma ideia para o Textos da Contracapa e Oceanos meditarem também.
Por muito que vos custe a crer não se trata de uma situação original. Chegam-me com frequência, por mail, pedidos/sugestões similares. Como compreendem não sei enviar livros a entidades anónimas. Respondi portanto, mais ou menos deste modo, no caso presente:
Envie-me por favor o seu nome, endereço e local de trabalho.
Examinaremos a sua sugestão.
Os Vendedores da DQ, sempre que solicitados, já oferecem alguns dos nossos livros aos livreiros seus interlocutores.
A ideia é evitar duplicação de ofertas. O livro, como sabe, não é um objecto sem valor.
Saudações do
Primeiro foi a Relógio d'Água que me colocou na mailing list. Revi, assim, os livros que já me tinham sido apresentados pelo vendedor da editora há mais de quinze dias. Agradeço a desinteressada simpatia, e, já agora, estico um pouco a corda:Porque é que a estratégia não pode ser um pouco mais agressiva e me passam a oferecer um exemplar de cada novidade que sai? Uma ideia para o Textos da Contracapa e Oceanos meditarem também.
Por muito que vos custe a crer não se trata de uma situação original. Chegam-me com frequência, por mail, pedidos/sugestões similares. Como compreendem não sei enviar livros a entidades anónimas. Respondi portanto, mais ou menos deste modo, no caso presente:
Envie-me por favor o seu nome, endereço e local de trabalho.
Examinaremos a sua sugestão.
Os Vendedores da DQ, sempre que solicitados, já oferecem alguns dos nossos livros aos livreiros seus interlocutores.
A ideia é evitar duplicação de ofertas. O livro, como sabe, não é um objecto sem valor.
Saudações do
Terça-feira, Julho 22, 2003
072 - OS JORNAIS, OS LIVROS
Os jornais e as revistas descobriram ultimamente que os livros são uma boa forma de incentivar as suas vendas e ainda ganhar dinheiro. Temos então o Público, o DN, a Visão, a Fócus, o JL, o Expresso, o Jornal de Negócios, eu sei lá...
Porque será ? Os livros ajudam a vender jornais ?
Mas os jornais, em contrapartida, não procuram ajudar a vender os livros. Agora, o pouco espaço que antes dedicavam aos livros, passou a ser quase todo ocupado com os livros que a eles lhes interessa vender. Depoimentos de terceiros, entrevistas com os autores, comentários, reportagens, fotografias - atenções e destaques que os livros que vão saindo normalmente não lhes merecem.
Ou seja: saber fazer as coisas, eles sabem, quando querem ou lhes interessa, evidentemente.
Podiam ser um pouco mais equilibrados nesta sua distribuição de espaço.
Às vezes dizem-me: fazemos operações que são uteis à divulgação dos autores. Certamente, certamente... é Miguel Torga, ou Cardoso Pires, ou Saramago, quem beneficia da promoção de um jornal; não o jornal que se valoriza com a edição dos seus livros.
Porque será ? Os livros ajudam a vender jornais ?
Mas os jornais, em contrapartida, não procuram ajudar a vender os livros. Agora, o pouco espaço que antes dedicavam aos livros, passou a ser quase todo ocupado com os livros que a eles lhes interessa vender. Depoimentos de terceiros, entrevistas com os autores, comentários, reportagens, fotografias - atenções e destaques que os livros que vão saindo normalmente não lhes merecem.
Ou seja: saber fazer as coisas, eles sabem, quando querem ou lhes interessa, evidentemente.
Podiam ser um pouco mais equilibrados nesta sua distribuição de espaço.
Às vezes dizem-me: fazemos operações que são uteis à divulgação dos autores. Certamente, certamente... é Miguel Torga, ou Cardoso Pires, ou Saramago, quem beneficia da promoção de um jornal; não o jornal que se valoriza com a edição dos seus livros.
071 - ESCUTAS, 2
O PSD e o CDS já declararam considerar inoportuna a proposta de Santana Lopes de constituir uma comissão de inquérito parlamentar. O próprio Primeiro-Ministro já tinha dado a entender o mesmo na entrevista à RTP. O PS, muito ao seu estilo, diz que apoia mas não avança com nenhuma proposta.
Enfim, o que é preciso é não fazer ondas, não vão os juizes ficar incomodados.
Tudo na mesma; como a lesma - diria a minha avó...
Enfim, o que é preciso é não fazer ondas, não vão os juizes ficar incomodados.
Tudo na mesma; como a lesma - diria a minha avó...
070 - A EXPERIÊNCIA DE LER
Já me referi aqui a uma série de edições da Sudoeste que me tinham surpreendido pela qualidade. Acrescento duas que ainda mais reforçam essa verificação. E que duas! Uma é uma tradução de Sete Odes de Píndaro, de Maria Helena Rocha Pereira; outra, uma edição da Experiência de Ler de C.S. Lewis.
Neste post de hoje de Pacheco Pereira é referido um livro que não sabia estar publicado em Portugal: "A Experiência de Ler", de Carl S. Lewis. Em termos profissionais causa-me, aliás, alguma perplexidade esta edição; sabia que o livro iria ser publicado... mas por outra Editora...
Mas isso não importa, agora, para o caso.
Permito-me apenas referir que se trata de um texto importantissimo para todos aqueles que convivem de perto com os livros: com a escrita, com a leitura ou a crítica, com o ensino, com a edição, com as bibliotecas. Trata-se de um livro belíssimo que nos desvenda e explica o mundo maravilhoso da leitura. Recomendo vivamente, aproveitando a oportunidade da referência que lhe é feita.
Um daqueles livros que um editor tem desgosto por não ter sido ele a publicá-lo.
Corram a comprá-lo; eu vou fazer o mesmo com a esperança de que a tradução seja cuidada.
Neste post de hoje de Pacheco Pereira é referido um livro que não sabia estar publicado em Portugal: "A Experiência de Ler", de Carl S. Lewis. Em termos profissionais causa-me, aliás, alguma perplexidade esta edição; sabia que o livro iria ser publicado... mas por outra Editora...
Mas isso não importa, agora, para o caso.
Permito-me apenas referir que se trata de um texto importantissimo para todos aqueles que convivem de perto com os livros: com a escrita, com a leitura ou a crítica, com o ensino, com a edição, com as bibliotecas. Trata-se de um livro belíssimo que nos desvenda e explica o mundo maravilhoso da leitura. Recomendo vivamente, aproveitando a oportunidade da referência que lhe é feita.
Um daqueles livros que um editor tem desgosto por não ter sido ele a publicá-lo.
Corram a comprá-lo; eu vou fazer o mesmo com a esperança de que a tradução seja cuidada.
Segunda-feira, Julho 21, 2003
069 - ESCUTAS TELEFÓNICAS, SISTEMA JUDICIAL, ETC.
Ontem, na RTP 1, Pedro Santana Lopes sugeriu a abertura de uma comissão parlamentar de inquérito à questão das escutas telefónicas. Apoio inteiramente, em termos de opinião (já que não me resta outro "poder").
É a primeira sugestão concreta e aceitável que vi a este respeito. Acho mesmo que os deputados têm a obrigação unanime de a viabilizar - afinal têm sido eles quem em primeiro lugar têm estado em causa.
A não ser que se pretenda, como disse Pedro Cunha e Silva no DN de 20.07., que a justiça portuguesa continue a transformar-se num talk-show.
É a primeira sugestão concreta e aceitável que vi a este respeito. Acho mesmo que os deputados têm a obrigação unanime de a viabilizar - afinal têm sido eles quem em primeiro lugar têm estado em causa.
A não ser que se pretenda, como disse Pedro Cunha e Silva no DN de 20.07., que a justiça portuguesa continue a transformar-se num talk-show.
Domingo, Julho 20, 2003
068 - TOP LIVROS, PONTO DE INTERROGAÇÃO
Mesmo conhecendo a falta de rigor da maior parte destas listas, passo em revista os Tops publicados durante o fim de semana. Deles retiro alguns títulos, omitindo intencionalmente os autores e editores:
José Mourinho; Não há lugar para Divorciadas; Onze Minutos; Porque não Consigo Parar de Comer; Dietas sem Dieta; Absolutamente Tias; Este Jesus Cristo Que vos Fala; etc.
Convenhamos que se fica um pouco incrédulo acerca das preferências de leitura dos portugueses, ou das influências do futebol, da televisão, ou das revistas de entretenimento nas suas escolhas literárias.
Sei também que estes não são os únicos títulos que se vendem bem. Felizmente. Existem muitos outros títulos que uma análise mais fina nos levaria a incluir no final destas listas. Não aparecem nas listas porque as suas vendas se distanciam muito das outras. Alguma vez lá chegarão? Porque as diferenças (acreditem) são ainda um abismo. Um enorme abismo, por muito que alguns julguem que não...
O que interessa é que as pessoas leiam - digo eu às vezes - estes livros representam uma conquista relativamente a outras formas menos interessantes de ocupação dos tempos livres (ver televisão, por exemplo, os programas do Herman, Os Malucos do Riso, as Telenovelas, os Big-Brothers, o Baião, etc.). Criam hábitos de leitura que se vão enraizando lentamente. Que levarão as pessoas, gradualmente, a procurar outro tipo de livros, a encetar a experiência das suas próprias escolhas, afinando o seu sentido crítico.
Será?
Se se não fizer mais nada será isso o que vai acontecer?
Pode o Ministério da Cultura continuar a dormir sossegado? O Secretário a assobiar, o Ministro a julgar que estas coisas devem continuar entregues exclusivamente às chamadas leis de funcionamento do mercado?
O que são as leis do mercado na área da comunicação e da cultura? O que representa deixar que o mercado funcione livremente na área da comunicação e da cultura? O Big-Brother?
Não caberá ao Estado intervir nessa "liberdade" de funcionamento do mercado, através do apoio às formas de cultura ditas minoritárias, desenvolvendo o gosto pela leitura nas escolas, construindo mais bibliotecas, apoiando o cinema, o teatro, a musica, as artes em geral?
Só se apoia o que já tem mercado? Como se formam os novos públicos?
Hoje deu-me para os pontos de interrogação.
José Mourinho; Não há lugar para Divorciadas; Onze Minutos; Porque não Consigo Parar de Comer; Dietas sem Dieta; Absolutamente Tias; Este Jesus Cristo Que vos Fala; etc.
Convenhamos que se fica um pouco incrédulo acerca das preferências de leitura dos portugueses, ou das influências do futebol, da televisão, ou das revistas de entretenimento nas suas escolhas literárias.
Sei também que estes não são os únicos títulos que se vendem bem. Felizmente. Existem muitos outros títulos que uma análise mais fina nos levaria a incluir no final destas listas. Não aparecem nas listas porque as suas vendas se distanciam muito das outras. Alguma vez lá chegarão? Porque as diferenças (acreditem) são ainda um abismo. Um enorme abismo, por muito que alguns julguem que não...
O que interessa é que as pessoas leiam - digo eu às vezes - estes livros representam uma conquista relativamente a outras formas menos interessantes de ocupação dos tempos livres (ver televisão, por exemplo, os programas do Herman, Os Malucos do Riso, as Telenovelas, os Big-Brothers, o Baião, etc.). Criam hábitos de leitura que se vão enraizando lentamente. Que levarão as pessoas, gradualmente, a procurar outro tipo de livros, a encetar a experiência das suas próprias escolhas, afinando o seu sentido crítico.
Será?
Se se não fizer mais nada será isso o que vai acontecer?
Pode o Ministério da Cultura continuar a dormir sossegado? O Secretário a assobiar, o Ministro a julgar que estas coisas devem continuar entregues exclusivamente às chamadas leis de funcionamento do mercado?
O que são as leis do mercado na área da comunicação e da cultura? O que representa deixar que o mercado funcione livremente na área da comunicação e da cultura? O Big-Brother?
Não caberá ao Estado intervir nessa "liberdade" de funcionamento do mercado, através do apoio às formas de cultura ditas minoritárias, desenvolvendo o gosto pela leitura nas escolas, construindo mais bibliotecas, apoiando o cinema, o teatro, a musica, as artes em geral?
Só se apoia o que já tem mercado? Como se formam os novos públicos?
Hoje deu-me para os pontos de interrogação.
067 - AS PESSOAS...
Ao decidir eliminar os Comentários neste blogue (já o deveria ter feito há mais tempo... provavelmente), deixo aqui a citação de um post de Pacheco Pereira, que vem bem a propósito:
Nos blogues …
… as pessoas zangam-se muito, são muito piegas, são malcriadas, são gentis, são espertas, são espertinhas, são parvas, copiam, fazem de conta que não copiam, irritam-se, reconciliam-se, cuidam muito da sua identidade, dão-se todas aos estranhos, representam, representam-se, são azedas, são poucas vezes alegres, são tristes, são tristonhas, são fúteis, são totalmente fúteis, têm interesse, têm interesses, têm egos gigantescos, têm egos pequeninos, têm que “dizer-qualquer-coisismo” , deixam cair muitos nomes, deixam cair muitos livros, parece que lêem muito, lêem muito, não lêem quase nada, nunca vêem televisão, têm graça, são engraçadinhas, têm tribos, têm fúrias, têm territórios, estão sozinhas, estão tanto mais sozinhas quanto mais acompanhadas, têm alguns pais, começam a ter filhos, têm maridos, não têm amantes, têm “o que escrevo é para ti”, têm “o que escrevo é só para ti”, têm “o que escrevo é só para ti”, mas é só para mim , ou para o outro(a), não têm muita paciência, têm pressa de chegar a algum lado, têm a esperança de chegar a qualquer lado, estão convictos que não vão chegar a lado nenhum, têm quereres, têm birras, são meli-melo, são assim …
… porque se calhar é assim na vida toda.
E assino por baixo (se ele me deixar...) o Texto Longo do Francisco José Viegas, publicado no Aviz, que só li depois.
Entre um texto e o outro texto, fica tudo dito.
Para quê acrescentar mais palavras ?
Nos blogues …
… as pessoas zangam-se muito, são muito piegas, são malcriadas, são gentis, são espertas, são espertinhas, são parvas, copiam, fazem de conta que não copiam, irritam-se, reconciliam-se, cuidam muito da sua identidade, dão-se todas aos estranhos, representam, representam-se, são azedas, são poucas vezes alegres, são tristes, são tristonhas, são fúteis, são totalmente fúteis, têm interesse, têm interesses, têm egos gigantescos, têm egos pequeninos, têm que “dizer-qualquer-coisismo” , deixam cair muitos nomes, deixam cair muitos livros, parece que lêem muito, lêem muito, não lêem quase nada, nunca vêem televisão, têm graça, são engraçadinhas, têm tribos, têm fúrias, têm territórios, estão sozinhas, estão tanto mais sozinhas quanto mais acompanhadas, têm alguns pais, começam a ter filhos, têm maridos, não têm amantes, têm “o que escrevo é para ti”, têm “o que escrevo é só para ti”, têm “o que escrevo é só para ti”, mas é só para mim , ou para o outro(a), não têm muita paciência, têm pressa de chegar a algum lado, têm a esperança de chegar a qualquer lado, estão convictos que não vão chegar a lado nenhum, têm quereres, têm birras, são meli-melo, são assim …
… porque se calhar é assim na vida toda.
E assino por baixo (se ele me deixar...) o Texto Longo do Francisco José Viegas, publicado no Aviz, que só li depois.
Entre um texto e o outro texto, fica tudo dito.
Para quê acrescentar mais palavras ?
Sábado, Julho 19, 2003
066 - AS FÈRIAS
Começa assim a crónica de hoje de Clara Ferreira Alves, na revista do Expresso:
"Uma pessoa olha em volta na praia e não vê um inocente lusitano a ler um livro. Podia ser um daqueles livros leves, ou ultraleves, ou quadrados, ou mesmo quadradões, mas, caramba, seria um livro, um livrinho, essa coisa recheada de páginas e, com sorte, de algumas ideias. Nada. (...) Nem um Paulo Coelho, para disfarçar."
(...)
"Os portugueses não percebem que enquanto não aprenderem a ler, aprenderem português e matemática, aprenderem a pensar e a abstrair, nunca passarão disto, da crise, da baixa produtividade, do subsídio, da cauda da Europa, da cepa torta. Não percebem que têm de se esforçar, que ler é como andar de "jet ski", é preciso aprender, tentar, errar, tentar de novo, até chegar ao prazer de ler."
Não julgo necessário comentar.
"Uma pessoa olha em volta na praia e não vê um inocente lusitano a ler um livro. Podia ser um daqueles livros leves, ou ultraleves, ou quadrados, ou mesmo quadradões, mas, caramba, seria um livro, um livrinho, essa coisa recheada de páginas e, com sorte, de algumas ideias. Nada. (...) Nem um Paulo Coelho, para disfarçar."
(...)
"Os portugueses não percebem que enquanto não aprenderem a ler, aprenderem português e matemática, aprenderem a pensar e a abstrair, nunca passarão disto, da crise, da baixa produtividade, do subsídio, da cauda da Europa, da cepa torta. Não percebem que têm de se esforçar, que ler é como andar de "jet ski", é preciso aprender, tentar, errar, tentar de novo, até chegar ao prazer de ler."
Não julgo necessário comentar.
065 - JOSÉ CARDOSO PIRES
A Montanha Mágica, reproduz hoje excertos do Lisboa, Livro de Bordo, de José Cardoso Pires.
Textos que brilham ao sol que faz lá fora. Como dizia o Fernando Assis Pacheco: se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa.
Excelente oportunidade para aqui reproduzir este parágrafo de um post anterior (041), dedicado a José Cardoso Pires:
Quando morreu, o Presidente da Câmara de Lisboa (João Soares), a cidade que ele amava e tanto lhe deve, apressou-se a prometer uma rua digna do seu nome, a Biblioteca Publica da Freguesia de Alvalade também com o seu nome e, dentro desta, uma sala onde depositar os seus livros, os seus arquivos, os seus manuscritos, a sua correspondência, de modo a permitir um acesso fácil a todos quantos quisessem estudar a sua obra.
Não consigo perdoar que nenhuma dessas promessas tenha sido cumprida, agora que se cumprem cinco anos após a sua morte. E isto, apesar da disponibilidade da família para ceder todos os materiais e apoiar todas as iniciativas nesse sentido.
É verdadeiramente indesculpável.
Textos que brilham ao sol que faz lá fora. Como dizia o Fernando Assis Pacheco: se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa.
Excelente oportunidade para aqui reproduzir este parágrafo de um post anterior (041), dedicado a José Cardoso Pires:
Quando morreu, o Presidente da Câmara de Lisboa (João Soares), a cidade que ele amava e tanto lhe deve, apressou-se a prometer uma rua digna do seu nome, a Biblioteca Publica da Freguesia de Alvalade também com o seu nome e, dentro desta, uma sala onde depositar os seus livros, os seus arquivos, os seus manuscritos, a sua correspondência, de modo a permitir um acesso fácil a todos quantos quisessem estudar a sua obra.
Não consigo perdoar que nenhuma dessas promessas tenha sido cumprida, agora que se cumprem cinco anos após a sua morte. E isto, apesar da disponibilidade da família para ceder todos os materiais e apoiar todas as iniciativas nesse sentido.
É verdadeiramente indesculpável.
Quinta-feira, Julho 17, 2003
064 - AUTORES, 5
Hoje, parece que o contador de visitas decidiu também entrar de férias.
Tentarei fazer como ele. Virei aqui de vez em quando, para não "perder o pé". Ou "a mão".
Depois dos breves textos sobre José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira, Abelaira, arquivo agora um texto sobre António Lobo Antunes, publicado no DNA de 15.02.2003.
Não são textos analíticos ou de comentário das suas obras, isso cabe à critica fazê-lo. São textos memorialistas (que os criticos não podem evidentemente escrever). São textos de um editor, alguém que escolheu trabalhar com eles e faz da divulgação das suas obras, com prazer, uma parte importante da sua vida.
António Lobo Antunes
“a única forma de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.”
in Segundo Livro de Crónicas
Nunca nos tínhamos encontrado antes. Mas foi por volta do final de 1982 que o António entrou pela primeira vez no meu gabinete de trabalho, ainda na pequena vivenda da rua Luciano Cordeiro:
- Chamo-me António e gostava de publicar nesta editora...
disse ele apertando-me a mão com força ao mesmo tempo que fazia aquele sorriso educado, de menino envergonhado, em que quase só se lhe vê os olhos.
Sentámo-nos a conversar nos mesmos maples de couro envelhecido, onde antes namoravam Snu e Sá Carneiro, herança que eu conservo com o maior cuidado e emoção.
Nessa altura ele era já um escritor famoso, tinha publicado os seus quatro primeiros romances, iniciava a sua carreira internacional com a tradução de Os Cus de Judas na Random House, tinha um Agente importante nos Estados Unidos, a comunicação social apresentava-o como um dos mais interessantes e promissores escritores da sua geração, os seus livros atingiam índices de leitura invulgares para a época, reeditando-se em sucessão.
António cultivava simultaneamente um perfil de austeridade e de irreverência. Ao mesmo tempo que ia dizendo aos funcionários da editora para não o tratarem pelos seus apelidos ou por “senhor doutor”,
- ...chamo-me António...
completava de imediato
- Lobo Antunes há muitos... eu sou o António...
para logo comentar, olhando as fotos fixadas na parede da minha sala de trabalho:
- ...mas esta gente são todos escritores?
Depois das primeiras conversas, algo monossilábicas, havia então que acertar um contrato para a publicação dos seus livros futuros. Incomodado com o comportamento da sua anterior editora, António quis que tudo fosse feito com advogados, profissionalmente, tratava-se de definir e proteger o seu trabalho. Escolheu o apoio do Miguel Sousa Tavares com quem tivemos várias sessões de trabalho, negociações que não foram simples, queria que tudo ficasse claro à partida para que não viéssemos a perturbar a nossa relação, no futuro, discutindo questões contratuais.
Já não me lembro quando começámos a considerar-nos amigos, mas sei que foi rápido e fulminante. Iniciámos o trabalho publicando e lançando simultaneamente os seus quatro romances iniciais, que ainda hoje considero como fazendo parte de um ciclo muito bem definido da sua obra, e preparámo-nos para lançar quase de seguida esse romance extraordinário que é o Fado Alexandrino, título que o António recebeu oferecido do Dinis Machado que, por essa altura, estivera uma temporada alojado na sua casa de Alcoitão.
Eu passava muitos fins-de-semana em Albarraque, numa casa emprestada pelo José Gomes Ferreira, e dada a proximidade entre as duas casas o nosso convívio estreitou-se rapidamente em longas tardes e noites de conversa.
Foi assim que tudo começou. Publicámos desde essa altura um novo romance com um intervalo médio de dois anos. Já lá vão onze, depois desses quatro primeiros, para além de dois livros de crónicas.
- Publicámos...
dizia ele, referindo-se ao nosso trabalho, sempre no plural.
- Temos tido boas críticas... esgotámos rapidamente esta edição... tivemos este prémio... vamos ser traduzidos na Alemanha... temos mais algum livro para reeditar?... parece que as pessoas gostaram desta redacção...
Como se quisesse repartir comigo uma parte do trabalho que evidentemente só ele realizava.
Com a edição dos seus livros aprendi a inverter a importância gráfica, na capa das edições, entre o nome do autor e o título do livro. Até aí era usual os editores atribuírem importância predominante ao título do livro: dizia-se A Selva, Domingo à Tarde, Aparição, A Sibila, O Delfim. Depois disso passaram a ser as Obras de..., inversão que ainda hoje permanece como moda.
Em seguida iniciou-se o período a que chamo das nossas itinerâncias e vagabundagens. As idas regulares à Feira do Livro do Porto, continuando o António a dar autógrafos, pela noite dentro, já com a Feira encerrada e as luzes apagadas, as idas a Coimbra, Braga, Galiza (convidados pelo Victor Freixanes e pelo Manuel Bragado das edições Xerais), os encontros em Frankfurt, Paris (os jantares em casa do editor Christian Bourgois), Madrid (com a equipa da Siruella e o seu editor Jacobo Stuart), Barcelona, etc. Ainda hoje destacamos, sempre que falamos disso, uma prolongada viagem pelas Universidades da Galiza, na companhia de José Cardoso Pires, conduzidos pelo inenarrável Manolo Batán das Ediciones Xerais, a quem chamávamos Walter Mathau tão evidentes eram as semelhanças e tiques de comportamento, conversando, sempre contando histórias, divertindo-nos, falando sério quando era preciso.
Mas apesar da boa disposição e da amizade, o António “não brinca em serviço”, o seu trabalho é um trabalho sério, a literatura é a coisa mais importante da sua vida. Creio não conhecer ninguém que, como ele, chegue a trabalhar, seguidas, mais do que doze horas por dia.
Com o evoluir do seu trabalho literário e o aumento dos rendimentos dele provenientes, o António foi abandonando, deliberadamente, um a um, os seus compromissos na área da medicina, até conquistar uma situação de dedicação exclusiva à literatura. Percebeu que era isso o que tinha de fazer, percebeu cedo que era isso o que o trabalho da escrita exigia dele.
- Não se pode decidir ser escritor, de repente, de um dia para outro...por exemplo, aos 40 anos... -
dizia ele muitas vezes.
- É-se escritor, quer dizer, não se consegue fazer outra coisa senão escrever... escreve-se permanentemente, muitas horas diárias. Um romance exige concentração total. Não se pensa noutra coisa. Tem de se escrever a vida inteira...
ou ainda
- Ninguém pode escrever um romance importante antes dos 40 anos. O romance é uma arte particularmente difícil. Antes dessa idade não se tem a experiência necessária. Nem da vida nem, o que é mais importante, do trabalho da escrita. Tem de se trabalhar muito...
E assim fazia, trabalhando longas horas diárias, sem interrupção, ano após ano, preparando minuciosos esquemas para cada livro, capitulo a capitulo, que colava nas paredes, um quadrado para cada capitulo, no interior de cada quadrado o esquema do capitulo, o conjunto fazendo como que a casca de um caracol, em circulo, construído de dentro para fora. Quando começava já sabia exactamente o que ia fazer.
- Este livro terá 3 partes, cada uma com 8 capítulos... o capítulo mais extenso e difícil vai ser o terceiro da segunda parte... espero ter a primeira versão concluída dentro de oito meses.
Recordo um ano, já mais recente, em que passámos juntos as férias do Verão numa casa próximo do mar. Enquanto eu, no início da manhã, caminhava até à praia, displicente, com um livro debaixo do braço, o António ficava em casa, fechado, sozinho, escrevendo, quase não comia. Durante as duas semanas em que aí estivemos não saiu de casa uma única vez, não foi sequer olhar o mar, não mexeu no carro, não procurou ninguém. Lia e escrevia. Permanentemente.
Ao final da tarde, sentado a uma mesa à sombra do jardim, aguardava o nosso regresso. Passava-me então as folhas manuscritas, acompanhava a leitura espreitando por cima do meu ombro, medindo cuidadosamente todas as minhas reacções, lendo de imediato as minhas notas.
- Tem de se escrever a vida inteira... – dizia.
Tentarei fazer como ele. Virei aqui de vez em quando, para não "perder o pé". Ou "a mão".
Depois dos breves textos sobre José Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira, Abelaira, arquivo agora um texto sobre António Lobo Antunes, publicado no DNA de 15.02.2003.
Não são textos analíticos ou de comentário das suas obras, isso cabe à critica fazê-lo. São textos memorialistas (que os criticos não podem evidentemente escrever). São textos de um editor, alguém que escolheu trabalhar com eles e faz da divulgação das suas obras, com prazer, uma parte importante da sua vida.
António Lobo Antunes
“a única forma de abordar os romances que escrevo é apanhá-los do mesmo modo que se apanha uma doença.”
in Segundo Livro de Crónicas
Nunca nos tínhamos encontrado antes. Mas foi por volta do final de 1982 que o António entrou pela primeira vez no meu gabinete de trabalho, ainda na pequena vivenda da rua Luciano Cordeiro:
- Chamo-me António e gostava de publicar nesta editora...
disse ele apertando-me a mão com força ao mesmo tempo que fazia aquele sorriso educado, de menino envergonhado, em que quase só se lhe vê os olhos.
Sentámo-nos a conversar nos mesmos maples de couro envelhecido, onde antes namoravam Snu e Sá Carneiro, herança que eu conservo com o maior cuidado e emoção.
Nessa altura ele era já um escritor famoso, tinha publicado os seus quatro primeiros romances, iniciava a sua carreira internacional com a tradução de Os Cus de Judas na Random House, tinha um Agente importante nos Estados Unidos, a comunicação social apresentava-o como um dos mais interessantes e promissores escritores da sua geração, os seus livros atingiam índices de leitura invulgares para a época, reeditando-se em sucessão.
António cultivava simultaneamente um perfil de austeridade e de irreverência. Ao mesmo tempo que ia dizendo aos funcionários da editora para não o tratarem pelos seus apelidos ou por “senhor doutor”,
- ...chamo-me António...
completava de imediato
- Lobo Antunes há muitos... eu sou o António...
para logo comentar, olhando as fotos fixadas na parede da minha sala de trabalho:
- ...mas esta gente são todos escritores?
Depois das primeiras conversas, algo monossilábicas, havia então que acertar um contrato para a publicação dos seus livros futuros. Incomodado com o comportamento da sua anterior editora, António quis que tudo fosse feito com advogados, profissionalmente, tratava-se de definir e proteger o seu trabalho. Escolheu o apoio do Miguel Sousa Tavares com quem tivemos várias sessões de trabalho, negociações que não foram simples, queria que tudo ficasse claro à partida para que não viéssemos a perturbar a nossa relação, no futuro, discutindo questões contratuais.
Já não me lembro quando começámos a considerar-nos amigos, mas sei que foi rápido e fulminante. Iniciámos o trabalho publicando e lançando simultaneamente os seus quatro romances iniciais, que ainda hoje considero como fazendo parte de um ciclo muito bem definido da sua obra, e preparámo-nos para lançar quase de seguida esse romance extraordinário que é o Fado Alexandrino, título que o António recebeu oferecido do Dinis Machado que, por essa altura, estivera uma temporada alojado na sua casa de Alcoitão.
Eu passava muitos fins-de-semana em Albarraque, numa casa emprestada pelo José Gomes Ferreira, e dada a proximidade entre as duas casas o nosso convívio estreitou-se rapidamente em longas tardes e noites de conversa.
Foi assim que tudo começou. Publicámos desde essa altura um novo romance com um intervalo médio de dois anos. Já lá vão onze, depois desses quatro primeiros, para além de dois livros de crónicas.
- Publicámos...
dizia ele, referindo-se ao nosso trabalho, sempre no plural.
- Temos tido boas críticas... esgotámos rapidamente esta edição... tivemos este prémio... vamos ser traduzidos na Alemanha... temos mais algum livro para reeditar?... parece que as pessoas gostaram desta redacção...
Como se quisesse repartir comigo uma parte do trabalho que evidentemente só ele realizava.
Com a edição dos seus livros aprendi a inverter a importância gráfica, na capa das edições, entre o nome do autor e o título do livro. Até aí era usual os editores atribuírem importância predominante ao título do livro: dizia-se A Selva, Domingo à Tarde, Aparição, A Sibila, O Delfim. Depois disso passaram a ser as Obras de..., inversão que ainda hoje permanece como moda.
Em seguida iniciou-se o período a que chamo das nossas itinerâncias e vagabundagens. As idas regulares à Feira do Livro do Porto, continuando o António a dar autógrafos, pela noite dentro, já com a Feira encerrada e as luzes apagadas, as idas a Coimbra, Braga, Galiza (convidados pelo Victor Freixanes e pelo Manuel Bragado das edições Xerais), os encontros em Frankfurt, Paris (os jantares em casa do editor Christian Bourgois), Madrid (com a equipa da Siruella e o seu editor Jacobo Stuart), Barcelona, etc. Ainda hoje destacamos, sempre que falamos disso, uma prolongada viagem pelas Universidades da Galiza, na companhia de José Cardoso Pires, conduzidos pelo inenarrável Manolo Batán das Ediciones Xerais, a quem chamávamos Walter Mathau tão evidentes eram as semelhanças e tiques de comportamento, conversando, sempre contando histórias, divertindo-nos, falando sério quando era preciso.
Mas apesar da boa disposição e da amizade, o António “não brinca em serviço”, o seu trabalho é um trabalho sério, a literatura é a coisa mais importante da sua vida. Creio não conhecer ninguém que, como ele, chegue a trabalhar, seguidas, mais do que doze horas por dia.
Com o evoluir do seu trabalho literário e o aumento dos rendimentos dele provenientes, o António foi abandonando, deliberadamente, um a um, os seus compromissos na área da medicina, até conquistar uma situação de dedicação exclusiva à literatura. Percebeu que era isso o que tinha de fazer, percebeu cedo que era isso o que o trabalho da escrita exigia dele.
- Não se pode decidir ser escritor, de repente, de um dia para outro...por exemplo, aos 40 anos... -
dizia ele muitas vezes.
- É-se escritor, quer dizer, não se consegue fazer outra coisa senão escrever... escreve-se permanentemente, muitas horas diárias. Um romance exige concentração total. Não se pensa noutra coisa. Tem de se escrever a vida inteira...
ou ainda
- Ninguém pode escrever um romance importante antes dos 40 anos. O romance é uma arte particularmente difícil. Antes dessa idade não se tem a experiência necessária. Nem da vida nem, o que é mais importante, do trabalho da escrita. Tem de se trabalhar muito...
E assim fazia, trabalhando longas horas diárias, sem interrupção, ano após ano, preparando minuciosos esquemas para cada livro, capitulo a capitulo, que colava nas paredes, um quadrado para cada capitulo, no interior de cada quadrado o esquema do capitulo, o conjunto fazendo como que a casca de um caracol, em circulo, construído de dentro para fora. Quando começava já sabia exactamente o que ia fazer.
- Este livro terá 3 partes, cada uma com 8 capítulos... o capítulo mais extenso e difícil vai ser o terceiro da segunda parte... espero ter a primeira versão concluída dentro de oito meses.
Recordo um ano, já mais recente, em que passámos juntos as férias do Verão numa casa próximo do mar. Enquanto eu, no início da manhã, caminhava até à praia, displicente, com um livro debaixo do braço, o António ficava em casa, fechado, sozinho, escrevendo, quase não comia. Durante as duas semanas em que aí estivemos não saiu de casa uma única vez, não foi sequer olhar o mar, não mexeu no carro, não procurou ninguém. Lia e escrevia. Permanentemente.
Ao final da tarde, sentado a uma mesa à sombra do jardim, aguardava o nosso regresso. Passava-me então as folhas manuscritas, acompanhava a leitura espreitando por cima do meu ombro, medindo cuidadosamente todas as minhas reacções, lendo de imediato as minhas notas.
- Tem de se escrever a vida inteira... – dizia.
Quarta-feira, Julho 16, 2003
063 - AUTORES, 4
Quase de partida para férias, sem paciência para responder aos disparatados comentários e mails com que me inundam a caixa de correio, regresso ao arquivo de textos sobre os Autores.
Desta vez sobre José Gomes Ferreira, publicado no DNA de 03.05.2003.
Aqui fica, para aqueles que ainda o lembram.
JOSÉ GOMES FERREIRA
Não fiques para trás, ó companheiro (...)
Às seis da tarde costumávamos descer o Chiado até ao Metro. Ele aparecia na Moraes quase sempre de surpresa, trabalhávamos o que havia para trabalhar, contávamos histórias um ou outro, conversávamos de tudo e de nada e, pelo fim da tarde, o seu braço enfiado no meu, cabelo branco ao vento, uma velha gabardina desabotoada, descíamos o Chiado a pé até ao Metro.
O Zé Gomes adorava ser reconhecido e cumprimentado nas ruas. Sorria à esquerda e à direita, alisava com a mão, vaidoso, a sua bonita cabeleira branca, enfiava o braço no meu e, muito direito, baixando levemente a cabeça, cumprimentava com elegância e educação todos os que o saudavam.
- Quem é esta? – perguntava-me em voz baixa – Você conhece?
- Ó Zé Gomes, sei lá! Não posso conhecer todas as pessoas que o cumprimentam...
- Então porque é que ela nos cumprimentou?
- Ora essa... porque conhece os seus livros, certamente, porque o viu na televisão...
Ele ficava vaidoso e embevecido. Via-se que sorria para dentro.
Embora procurasse gerir a situação com um certo distanciamento adorava este ritual de ser reconhecido e cumprimentado nas ruas. Sentia-se de facto como um poeta do povo. E gostava que “o povo” lhe reconhecesse isso.
- Há dias um pai atirou-me a criança para o colo e pediu-me para tirar uma fotografia com ela... Já pareço o Gomes Leal...
Eram os leitores anónimos, pessoas de todas as idades, homens ou mulheres, simples conhecidos de quem seria impossível recordar-se.
A sua poesia era cantada nas ruas e na rádio, nos comícios políticos, em espectáculos, a sua imagem aparecia frequentemente na televisão, nos jornais, em cartazes, todos o conheciam, todos sabiam de cor muitos dos seus poemas. Os seus livros, a ficção, as crónicas, a poesia, atingiam tiragens e vendas impensáveis. Estávamos na segunda metade da década de setenta. Todos sabiam quem era. Todos o respeitavam. Todos sabiam de cor os seus poemas.
Confesso que não voltei a encontrar até hoje, entre os muitos escritores com quem tenho trabalhado, um fenómeno de adesão popular tão impressionante. O Zé Gomes era um símbolo, o Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, o poeta do povo, o “poeta militante”, como ele gostava de se chamar a si próprio.
Como pudemos esquecê-lo? Porque deixámos de o ler? – por que, para um escritor, ser esquecido é termos deixado de o ler. Mas a verdade é que fomos deixando de o ler. Lentamente, como o bicho corroendo a madeira, distraídos e desatentos, deixando que a poeira do tempo fosse pousando sobre a sua obra. “A borracha implacável do Grande Livro da Glória – há-de chegar um dia a minha vez, vai ver...” – costumava ele dizer.
Talvez alguns continuem a rever na televisão a Aldeia da Roupa Branca ignorando que é dele o texto do filme, que são dele as letras de muitas canções musicadas por Lopes Graça, as legendas de muito filmes da época em tradução assinada por Álvaro Gomes. Os seus livros. Sobretudo os seus livros, que hoje desapareceram das escolas (como aconteceu, aliás, com tanta outra literatura contemporânea), onde os jovens aprendiam a ler "As Aventuras de João Sem Medo" e a recitar e a interpretar os seus poemas.
Nascido em 1900, José Gomes Ferreira atravessou o século vinte como uma nuvem, como o zepelim prateado que começou a voar no dia em que ele abriu os olhos. “Sou do tamanho do século, assisti a tudo ou quase tudo...”. À morte do Rei, ao começo da Republica, duas guerras, à carnificina e à barbárie nazi, aos campos de concentração, à primeira e infame experiência atómica, ao inicio das ditaduras, ao silêncio que nos impuseram, às madrugadas de luz e ao anoitecer das esperanças.
Espanto-me – escreveu ele – do que afinal sempre espantou os poetas de todos os séculos. De haver ao mesmo tempo injustiças e estrelas...
Comemorou-se no ano 2000 o centenário do seu nascimento. Apesar dos esforços e do empenho dos seus filhos Raul José e Alexandre e de uns quantos amigos, a verdade é que tudo o que foi feito ficou aquém do que ele merecia, da ternura e do envolvimento popular visível nessas tardes em que descíamos o Chiado, juntos, de braço dado, até ao Metro.
Quando finalmente nos despedíamos, no Rossio, junto às escadas do Metro, havia ainda outra cena que se repetia.
- Onde terá posto a Rosalia a nota de 20 escudos que me deu antes de sair de casa?
e revolvia os bolsos, envergonhado, até a encontrar, dobrada em quatro, envelhecida, no bolso do casaco.
Zé Gomes não usava dinheiro, nem chaves, nem tabaco, suponho que nem relógio. Perderia tudo; ou não necessitava de nenhum desses objectos. Por isso Rosalia lhe entregava apenas aquela nota de 20 escudos cuidadosamente dobrada em quatro mas que ele tinha sempre dificuldade em encontrar. Dos seus bolsos, nesses momentos, saíam apenas poemas manuscritos, rabiscados e emendados nos mais inacreditáveis pedaços de papel.
Como quando me aparecia na editora para entregar as provas de um livro depois de revistas por si. Emendas sobre emendas, rasuras sobre rasuras, riscos a toda a largura da página, folhas rasgadas, palavras ininteligíveis.
- Ó Zé Gomes, como é que eu posso agora enviar isto para a Gráfica... – ralhava-lhe eu, tentando ser convencional.
- Você desculpe, mas eu fui revendo as provas enquanto passeava de eléctrico pela cidade... – dizia-me ele, baixando os olhos, como um menino apanhado numa falta grave –... e aquilo treme que se farta... Faça-me lá o favor de voltar a ver tudo outra vez com os seus olhos mágicos.
Para as gralhas, claro.
Quando faleceu, em Fevereiro de 1985 (vai fazer em breve 20 anos...), no dia em que, do outro lado da cidade, também faleceu o escritor Nuno Bragança, Lisboa colocou-se inteira aos seus pés.
Morreu o poeta...
Pela pequena sala da Casa da Imprensa, apesar da chuva que caía, passou inteira uma multidão. O Largo de Camões encheu como num dia de manifestação.
Como pudemos esquecê-lo assim, tão depressa?
Como permitimos que se esqueçam tão breve aqueles que afinal moldaram de sonhos a nossa vida?
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias (...)
Desta vez sobre José Gomes Ferreira, publicado no DNA de 03.05.2003.
Aqui fica, para aqueles que ainda o lembram.
JOSÉ GOMES FERREIRA
Não fiques para trás, ó companheiro (...)
Às seis da tarde costumávamos descer o Chiado até ao Metro. Ele aparecia na Moraes quase sempre de surpresa, trabalhávamos o que havia para trabalhar, contávamos histórias um ou outro, conversávamos de tudo e de nada e, pelo fim da tarde, o seu braço enfiado no meu, cabelo branco ao vento, uma velha gabardina desabotoada, descíamos o Chiado a pé até ao Metro.
O Zé Gomes adorava ser reconhecido e cumprimentado nas ruas. Sorria à esquerda e à direita, alisava com a mão, vaidoso, a sua bonita cabeleira branca, enfiava o braço no meu e, muito direito, baixando levemente a cabeça, cumprimentava com elegância e educação todos os que o saudavam.
- Quem é esta? – perguntava-me em voz baixa – Você conhece?
- Ó Zé Gomes, sei lá! Não posso conhecer todas as pessoas que o cumprimentam...
- Então porque é que ela nos cumprimentou?
- Ora essa... porque conhece os seus livros, certamente, porque o viu na televisão...
Ele ficava vaidoso e embevecido. Via-se que sorria para dentro.
Embora procurasse gerir a situação com um certo distanciamento adorava este ritual de ser reconhecido e cumprimentado nas ruas. Sentia-se de facto como um poeta do povo. E gostava que “o povo” lhe reconhecesse isso.
- Há dias um pai atirou-me a criança para o colo e pediu-me para tirar uma fotografia com ela... Já pareço o Gomes Leal...
Eram os leitores anónimos, pessoas de todas as idades, homens ou mulheres, simples conhecidos de quem seria impossível recordar-se.
A sua poesia era cantada nas ruas e na rádio, nos comícios políticos, em espectáculos, a sua imagem aparecia frequentemente na televisão, nos jornais, em cartazes, todos o conheciam, todos sabiam de cor muitos dos seus poemas. Os seus livros, a ficção, as crónicas, a poesia, atingiam tiragens e vendas impensáveis. Estávamos na segunda metade da década de setenta. Todos sabiam quem era. Todos o respeitavam. Todos sabiam de cor os seus poemas.
Confesso que não voltei a encontrar até hoje, entre os muitos escritores com quem tenho trabalhado, um fenómeno de adesão popular tão impressionante. O Zé Gomes era um símbolo, o Presidente da Associação Portuguesa de Escritores, o poeta do povo, o “poeta militante”, como ele gostava de se chamar a si próprio.
Como pudemos esquecê-lo? Porque deixámos de o ler? – por que, para um escritor, ser esquecido é termos deixado de o ler. Mas a verdade é que fomos deixando de o ler. Lentamente, como o bicho corroendo a madeira, distraídos e desatentos, deixando que a poeira do tempo fosse pousando sobre a sua obra. “A borracha implacável do Grande Livro da Glória – há-de chegar um dia a minha vez, vai ver...” – costumava ele dizer.
Talvez alguns continuem a rever na televisão a Aldeia da Roupa Branca ignorando que é dele o texto do filme, que são dele as letras de muitas canções musicadas por Lopes Graça, as legendas de muito filmes da época em tradução assinada por Álvaro Gomes. Os seus livros. Sobretudo os seus livros, que hoje desapareceram das escolas (como aconteceu, aliás, com tanta outra literatura contemporânea), onde os jovens aprendiam a ler "As Aventuras de João Sem Medo" e a recitar e a interpretar os seus poemas.
Nascido em 1900, José Gomes Ferreira atravessou o século vinte como uma nuvem, como o zepelim prateado que começou a voar no dia em que ele abriu os olhos. “Sou do tamanho do século, assisti a tudo ou quase tudo...”. À morte do Rei, ao começo da Republica, duas guerras, à carnificina e à barbárie nazi, aos campos de concentração, à primeira e infame experiência atómica, ao inicio das ditaduras, ao silêncio que nos impuseram, às madrugadas de luz e ao anoitecer das esperanças.
Espanto-me – escreveu ele – do que afinal sempre espantou os poetas de todos os séculos. De haver ao mesmo tempo injustiças e estrelas...
Comemorou-se no ano 2000 o centenário do seu nascimento. Apesar dos esforços e do empenho dos seus filhos Raul José e Alexandre e de uns quantos amigos, a verdade é que tudo o que foi feito ficou aquém do que ele merecia, da ternura e do envolvimento popular visível nessas tardes em que descíamos o Chiado, juntos, de braço dado, até ao Metro.
Quando finalmente nos despedíamos, no Rossio, junto às escadas do Metro, havia ainda outra cena que se repetia.
- Onde terá posto a Rosalia a nota de 20 escudos que me deu antes de sair de casa?
e revolvia os bolsos, envergonhado, até a encontrar, dobrada em quatro, envelhecida, no bolso do casaco.
Zé Gomes não usava dinheiro, nem chaves, nem tabaco, suponho que nem relógio. Perderia tudo; ou não necessitava de nenhum desses objectos. Por isso Rosalia lhe entregava apenas aquela nota de 20 escudos cuidadosamente dobrada em quatro mas que ele tinha sempre dificuldade em encontrar. Dos seus bolsos, nesses momentos, saíam apenas poemas manuscritos, rabiscados e emendados nos mais inacreditáveis pedaços de papel.
Como quando me aparecia na editora para entregar as provas de um livro depois de revistas por si. Emendas sobre emendas, rasuras sobre rasuras, riscos a toda a largura da página, folhas rasgadas, palavras ininteligíveis.
- Ó Zé Gomes, como é que eu posso agora enviar isto para a Gráfica... – ralhava-lhe eu, tentando ser convencional.
- Você desculpe, mas eu fui revendo as provas enquanto passeava de eléctrico pela cidade... – dizia-me ele, baixando os olhos, como um menino apanhado numa falta grave –... e aquilo treme que se farta... Faça-me lá o favor de voltar a ver tudo outra vez com os seus olhos mágicos.
Para as gralhas, claro.
Quando faleceu, em Fevereiro de 1985 (vai fazer em breve 20 anos...), no dia em que, do outro lado da cidade, também faleceu o escritor Nuno Bragança, Lisboa colocou-se inteira aos seus pés.
Morreu o poeta...
Pela pequena sala da Casa da Imprensa, apesar da chuva que caía, passou inteira uma multidão. O Largo de Camões encheu como num dia de manifestação.
Como pudemos esquecê-lo assim, tão depressa?
Como permitimos que se esqueçam tão breve aqueles que afinal moldaram de sonhos a nossa vida?
Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias (...)
Terça-feira, Julho 15, 2003
062 - O BLOGUE DE UM LIVREIRO
Bicho Escala Estantes é um blogue de um livreiro falando, como ele próprio diz, do "sacerdócio" da sua profissão.
Bem escrito (a provar que os livreiros não são todos iguais aos das Grandes Superfícies...), cheio de humor e ironia, pleno de conhecimento dos livros, com argutas observações sobre os frequentadores das livrarias, nomeadamente sobre os escritores que lá vão em busca dos seus próprios livros...
Bem vindo, companheiro. Talvez assim o livro ocupe na blogosfera o espaço que não tem no exterior. Nas nossas vidas.
Mas então - caramba! - a sua livraria não vende selos para o carro?!!
Bem escrito (a provar que os livreiros não são todos iguais aos das Grandes Superfícies...), cheio de humor e ironia, pleno de conhecimento dos livros, com argutas observações sobre os frequentadores das livrarias, nomeadamente sobre os escritores que lá vão em busca dos seus próprios livros...
Bem vindo, companheiro. Talvez assim o livro ocupe na blogosfera o espaço que não tem no exterior. Nas nossas vidas.
Mas então - caramba! - a sua livraria não vende selos para o carro?!!
061 - A EDIÇÃO, AINDA
O “nosso sociólogo” João L. Nogueira, do Socioblogue, continua a tentar ajudar-nos a decifrar algumas parcelas da realidade. Pena que, às vezes, de um modo demasiado especializado para o “meio”. Talvez com excessivo arsenal teórico. Mas compreende-se. Era Lacan que dizia: a ciência é árdua...
Desta vez (e fê-lo muito bem), decidiu comentar a actividade da edição.
Pessoalmente fico-lhe grato pela atenção – tão pouca é aquela que normalmente nos dedicam.
Nunca mais esqueci a definição de editor que um dia ouvi do meu colega Carlos Araújo (hoje Terramar), quando ainda trabalhava na Dom Quixote: o editor é um técnico altamente especializado em ideias gerais.
Concordo absolutamente que, na actualidade, “os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais” (a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, os efeitos dos novos media), transformando a “hegemonia de um mercado da oferta para um predomínio de um mercado da procura”, têm causado transformações não negligenciáveis “na actividade quotidiana de editores e escritores”.
Com tudo isto lá se vão as lições dos grandes editores do início do século XX, os Gallimard, os Feltrinelli, os Einaudi, os Siegfried Unseld, etc., para quem a construção e a coerência de um catálogo de autores era objectivo e projecto principal.
Depois deles vieram os chamados “grupos” editoriais com a frieza da sua lógica própria, absorveram quase todas essas editoras “independentes”, laboriosamente construídas por esses editores ao longo de muitos anos. É o tempo do que André Schiffrin chamou de “a edição sem editores”. Ou do “publica-se o que dá”, para poder publicar-se “o que não dá”, já referido pelo meu colega Manuel Alberto Valente.
Esta situação é particularmente séria em países como Portugal onde, para além de um universo de leitores muito reduzido, a evolução das taxas de leitura e de compra de livros continua a ser muito débil. Em países como a Espanha, a França, a Alemanha, a Itália, os livros “que não dão”, dão apesar de tudo um mínimo aceitável - o que permite um equilíbrio mais eficaz e a publicação de um menor número de livros de entretenimento. Em Portugal, não. O que “não dá”, não chega mesmo para coisa nenhuma, na maior parte dos casos. Há que recorrer mais frequentemente ao trash da industria editorial para se poder salvar a coerência e a qualidade de um catálogo.
Adicionalmente, diz ainda João Nogueira num mail que me enviou:
O Textos de Contracapa é, talvez, dos espaços mais «corajosos» no mundo dos blogues. Não deve ser fácil, cálculo, manter o sistema de comentários quando se é alvo de observações tão pouco construtivas e com intenções, no mínimo, nebulosas (já para não falar da linguagem assiduamente violenta, agressiva e ofensiva que parece caracterizar algumas dessas mensagens). Admiro-lhe o estoicismo e respeito-lhe a persistência.
Agradeço as suas palavras amáveis – esta parte da conversa também me interessa e tem uma explicação fácil, julgo eu, não encontro outras razões. Recebo mensalmente na editora uma média de 200 originais que me são propostos para edição. Como se imagina não posso publicar todos, mesmo que todos estivessem em condições de justificar publicação, o que na maior parte dos casos não acontece. Isso deixa, ao longo de muitos anos, um acumulado de mágoas, revoltas, frustrações, expectativas goradas, certamente também de algumas injustiças. Pago normalmente um elevado preço público por isso. Em Portugal, como dizia o meu autor António Lobo Antunes, todo o candidato a escritor se julga imediatamente como um automático candidato ao Nobel. Haverá certamente muito “ajuste de contas” no meio desses comentários. Para além de muita palermice juvenil, evidentemente, como lhe tenho chamado.
Mas há um reverso interessante em tudo isto, de que um dia tenciono falar: num país onde se lê pouco, porque razão existe tão grande número de candidatos a escritores? Num país onde lê pouco, porquê tantos desejam ser lidos? Num país onde se lê pouco, porquê tantos desejam envolver-se nessa enigmática actividade da escrita?
Será que escrevem mas não leem?
Continuaremos, de outra vez.
Desta vez (e fê-lo muito bem), decidiu comentar a actividade da edição.
Pessoalmente fico-lhe grato pela atenção – tão pouca é aquela que normalmente nos dedicam.
Nunca mais esqueci a definição de editor que um dia ouvi do meu colega Carlos Araújo (hoje Terramar), quando ainda trabalhava na Dom Quixote: o editor é um técnico altamente especializado em ideias gerais.
Concordo absolutamente que, na actualidade, “os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais” (a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, os efeitos dos novos media), transformando a “hegemonia de um mercado da oferta para um predomínio de um mercado da procura”, têm causado transformações não negligenciáveis “na actividade quotidiana de editores e escritores”.
Com tudo isto lá se vão as lições dos grandes editores do início do século XX, os Gallimard, os Feltrinelli, os Einaudi, os Siegfried Unseld, etc., para quem a construção e a coerência de um catálogo de autores era objectivo e projecto principal.
Depois deles vieram os chamados “grupos” editoriais com a frieza da sua lógica própria, absorveram quase todas essas editoras “independentes”, laboriosamente construídas por esses editores ao longo de muitos anos. É o tempo do que André Schiffrin chamou de “a edição sem editores”. Ou do “publica-se o que dá”, para poder publicar-se “o que não dá”, já referido pelo meu colega Manuel Alberto Valente.
Esta situação é particularmente séria em países como Portugal onde, para além de um universo de leitores muito reduzido, a evolução das taxas de leitura e de compra de livros continua a ser muito débil. Em países como a Espanha, a França, a Alemanha, a Itália, os livros “que não dão”, dão apesar de tudo um mínimo aceitável - o que permite um equilíbrio mais eficaz e a publicação de um menor número de livros de entretenimento. Em Portugal, não. O que “não dá”, não chega mesmo para coisa nenhuma, na maior parte dos casos. Há que recorrer mais frequentemente ao trash da industria editorial para se poder salvar a coerência e a qualidade de um catálogo.
Adicionalmente, diz ainda João Nogueira num mail que me enviou:
O Textos de Contracapa é, talvez, dos espaços mais «corajosos» no mundo dos blogues. Não deve ser fácil, cálculo, manter o sistema de comentários quando se é alvo de observações tão pouco construtivas e com intenções, no mínimo, nebulosas (já para não falar da linguagem assiduamente violenta, agressiva e ofensiva que parece caracterizar algumas dessas mensagens). Admiro-lhe o estoicismo e respeito-lhe a persistência.
Agradeço as suas palavras amáveis – esta parte da conversa também me interessa e tem uma explicação fácil, julgo eu, não encontro outras razões. Recebo mensalmente na editora uma média de 200 originais que me são propostos para edição. Como se imagina não posso publicar todos, mesmo que todos estivessem em condições de justificar publicação, o que na maior parte dos casos não acontece. Isso deixa, ao longo de muitos anos, um acumulado de mágoas, revoltas, frustrações, expectativas goradas, certamente também de algumas injustiças. Pago normalmente um elevado preço público por isso. Em Portugal, como dizia o meu autor António Lobo Antunes, todo o candidato a escritor se julga imediatamente como um automático candidato ao Nobel. Haverá certamente muito “ajuste de contas” no meio desses comentários. Para além de muita palermice juvenil, evidentemente, como lhe tenho chamado.
Mas há um reverso interessante em tudo isto, de que um dia tenciono falar: num país onde se lê pouco, porque razão existe tão grande número de candidatos a escritores? Num país onde lê pouco, porquê tantos desejam ser lidos? Num país onde se lê pouco, porquê tantos desejam envolver-se nessa enigmática actividade da escrita?
Será que escrevem mas não leem?
Continuaremos, de outra vez.
Segunda-feira, Julho 14, 2003
060 - OS AUTORES, SENHOR...
Olá, Francisco... com que então, os Autores, senhor, porque os fazeis sofrer assim ?!!
Não me diga que após o conhecido "choradinho" dos editores, teremos agora o choradinho dos autores... Sem razão, penso eu, no que se refere àqueles que têm um trabalho regular enquanto tal.
Cada vez maiores tiragens, cada vez maior número de leitores, cada vez mais livros vendidos, razoável acesso à promoção através dos media, uma industria editorial que se fortaleceu e modernizou e lhes presta hoje um serviço de razoável qualidade em todas as vertentes, cada vez maior descentralização de iniciativas culturais através do apoio das bibliotecas e municípios, cada vez maior interesse externo pelas suas obras promovido pelos editores e seus agentes, etc., etc.
Claro que há autores que terão razões de queixa dos seus editores. Não posso falar deles porque não conheço os problemas particulares de cada um. E há ainda a questão especifíca das "primeiras obras", que é um problema distinto.
Mas no resto, Francisco, porque nos lamentaremos assim ?
Só se for por causa do Ministro que nos coube (pessoa estimável, é certo) e da falta de acção do Estado nesta área, ignorando a parcela de trabalho que lhe cabe.
Não me diga que após o conhecido "choradinho" dos editores, teremos agora o choradinho dos autores... Sem razão, penso eu, no que se refere àqueles que têm um trabalho regular enquanto tal.
Cada vez maiores tiragens, cada vez maior número de leitores, cada vez mais livros vendidos, razoável acesso à promoção através dos media, uma industria editorial que se fortaleceu e modernizou e lhes presta hoje um serviço de razoável qualidade em todas as vertentes, cada vez maior descentralização de iniciativas culturais através do apoio das bibliotecas e municípios, cada vez maior interesse externo pelas suas obras promovido pelos editores e seus agentes, etc., etc.
Claro que há autores que terão razões de queixa dos seus editores. Não posso falar deles porque não conheço os problemas particulares de cada um. E há ainda a questão especifíca das "primeiras obras", que é um problema distinto.
Mas no resto, Francisco, porque nos lamentaremos assim ?
Só se for por causa do Ministro que nos coube (pessoa estimável, é certo) e da falta de acção do Estado nesta área, ignorando a parcela de trabalho que lhe cabe.
059 - OS BLOGUES E A GUERRA DO IRAQUE
Salam Pax é o pseudónimo de um jovem iraquiano de 29 anos, de ascendência judia, que escreveu um blogue (antes, durante, após) sobre a guerra no Iraque.
Os seus posts foram sendo publicados pelo The Guardian sob o título The Baghdad Blog.
Este blogue vai agora ser publicado em livro (a 3 de Setembro próximo) por Atlantic Books (UK), já com uma enorme corrida internacional aos respectivos direitos: Itália, Dinamarca, Bélgica, Austrália, USA, Alemanha, França, que o consideram o "Diário de Anne Frank" da era moderna. William Gibson vai ao ponto de considerar este jovem bloguista como um "talentoso escritor". Foi detectada pelo Google a existência noutros websites de mais de 30.000 links para discussão deste blogue.
Mais uma manifestação importante deste movimento.
Os seus posts foram sendo publicados pelo The Guardian sob o título The Baghdad Blog.
Este blogue vai agora ser publicado em livro (a 3 de Setembro próximo) por Atlantic Books (UK), já com uma enorme corrida internacional aos respectivos direitos: Itália, Dinamarca, Bélgica, Austrália, USA, Alemanha, França, que o consideram o "Diário de Anne Frank" da era moderna. William Gibson vai ao ponto de considerar este jovem bloguista como um "talentoso escritor". Foi detectada pelo Google a existência noutros websites de mais de 30.000 links para discussão deste blogue.
Mais uma manifestação importante deste movimento.
Sexta-feira, Julho 11, 2003
058 - FEIRA DO LIVRO, AINDA
A Senhora Vereadora da Cultura da CML, em artigo publicado no Público de 09.07, diz que afinal estava tudo bem na Feira do Livro deste ano. "A Feira a quem a Visita", ironiza simpaticamente, a propósito do título do meu texto, publicado no DNA de 21.06: "A Feira a Quem a Trabalha...", aqui arquivado no post 030.
Costuma dizer-se que "não há pior cego do que aquele que não quer ver..."
Costuma dizer-se que "não há pior cego do que aquele que não quer ver..."
058 - OS "CADERNOS", DE CAMUS
Aquilo que chamei anteriormente de "gaguez mental e sintáctica" continua, infelizmente, a proliferar ao abrigo do anonimato. Por mail, nos comentários, espalhada por alguns dos blogues, etc. Parece que não há remédio. Por mim não lhe dou seguimento. Tomara arranjar tempo para manter por aqui alguma conversa interessante, quanto mais ter ainda que responder a palermices e vulgaridades. Com erros de ortografia e sintaxe, ainda por cima. Ao menos podiam aprender a usar um mero dicionário...
Li os três volumes dos "Cadernos" de Camus, tal como Pacheco Pereira, aí pelos inícios dos anos 60, também na célebre colecção Miniatura da editora Livros do Brasil. Cheguei a imitá-lo, tão forte foi a impressão que me causaram. Tenho, dessa época, umas pequenas agendas de bolso onde ia fazendo o mesmo, anotando a vida e as ideias. Sorrio, hoje, quando me atrevo a relê-las. Pela ingenuidade das ideias, por um certo pretenciosismo da escrita, às vezes pela premonição de alguns apontamentos.
Mas os "Cadernos", de Camus, os originais, perdi-os nas voltas que a vida dá. Ficaram-me pelo caminho no meio de alguma mudança de casa, tê-los-ei emprestado e não mos devolveram, ou algo similar.
Pacheco Pereira fala-me agora da sua reedição. É uma boa sugestão. Vou ver como estão os direitos, digo-o aqui em público apesar de haver outros editores bloguistas. Mas não tem importância. Há certos livros que não é relevante quem os publica; o importante é que estejam disponíveis para ser lidos.
A Dom Quixote (anuncio) vai aliás recuperar em breve uma outra velha ideia, que marcou claramente o seu passado, no final dos anos 60: a dos "Cadernos Dom Quixote". Provavelmente sairão ainda este ano. Com nova forma e novos objectivos, evidentemente. Textos de jornalismo de investigação, escritos por jornalistas, com o espaço que hoje os jornais e as revistas não consentem aos seus trabalhos, sobre alguns temas quentes que atravessam a sociedade portuguesa actual. Os três primeiros, se tudo correr bem, surgirão lá para o início de Outubro. Os temas e os autores são, por enquanto, surpresa. E os próximos já estão a ser escritos, também, neste momento. É um projecto que estou a acarinhar com bastante entusiasmo, "compensador" da situação em que se encontra a imprensa escrita actualmente, sem espaços nem vontade para "ir mais longe". Chama-se "Cadernos Dom Quixote de Reportagem". Com três vertentes: as reportagens portuguesas de actualidade; algumas reportagens de jornalistas estrangeiros sobre temas internacionais; uma área antológica de grandes reportagens que ficaram "perdidas no passado". Vamos ver se conseguimos interessar os leitores. E os divulgadores, é claro, que os livros não se fazem sem isso, e "isso" é o que menos existe na nossa comunicação social.
Obrigado Pacheco Pereira pela sugestão do Camus. Já agora, quem não leu, aproveite para ler "O Estrangeiro" recentemente relançado com o jornal Público. Ia a dizer: passe a publicidade. Mas recomendar um bom livro, um bom disco, um bom filme, um bom espectáculo, nunca é apenas publicidade. É informação. Entendam isto, de uma vez, amigos jornalistas de secretária.
Li os três volumes dos "Cadernos" de Camus, tal como Pacheco Pereira, aí pelos inícios dos anos 60, também na célebre colecção Miniatura da editora Livros do Brasil. Cheguei a imitá-lo, tão forte foi a impressão que me causaram. Tenho, dessa época, umas pequenas agendas de bolso onde ia fazendo o mesmo, anotando a vida e as ideias. Sorrio, hoje, quando me atrevo a relê-las. Pela ingenuidade das ideias, por um certo pretenciosismo da escrita, às vezes pela premonição de alguns apontamentos.
Mas os "Cadernos", de Camus, os originais, perdi-os nas voltas que a vida dá. Ficaram-me pelo caminho no meio de alguma mudança de casa, tê-los-ei emprestado e não mos devolveram, ou algo similar.
Pacheco Pereira fala-me agora da sua reedição. É uma boa sugestão. Vou ver como estão os direitos, digo-o aqui em público apesar de haver outros editores bloguistas. Mas não tem importância. Há certos livros que não é relevante quem os publica; o importante é que estejam disponíveis para ser lidos.
A Dom Quixote (anuncio) vai aliás recuperar em breve uma outra velha ideia, que marcou claramente o seu passado, no final dos anos 60: a dos "Cadernos Dom Quixote". Provavelmente sairão ainda este ano. Com nova forma e novos objectivos, evidentemente. Textos de jornalismo de investigação, escritos por jornalistas, com o espaço que hoje os jornais e as revistas não consentem aos seus trabalhos, sobre alguns temas quentes que atravessam a sociedade portuguesa actual. Os três primeiros, se tudo correr bem, surgirão lá para o início de Outubro. Os temas e os autores são, por enquanto, surpresa. E os próximos já estão a ser escritos, também, neste momento. É um projecto que estou a acarinhar com bastante entusiasmo, "compensador" da situação em que se encontra a imprensa escrita actualmente, sem espaços nem vontade para "ir mais longe". Chama-se "Cadernos Dom Quixote de Reportagem". Com três vertentes: as reportagens portuguesas de actualidade; algumas reportagens de jornalistas estrangeiros sobre temas internacionais; uma área antológica de grandes reportagens que ficaram "perdidas no passado". Vamos ver se conseguimos interessar os leitores. E os divulgadores, é claro, que os livros não se fazem sem isso, e "isso" é o que menos existe na nossa comunicação social.
Obrigado Pacheco Pereira pela sugestão do Camus. Já agora, quem não leu, aproveite para ler "O Estrangeiro" recentemente relançado com o jornal Público. Ia a dizer: passe a publicidade. Mas recomendar um bom livro, um bom disco, um bom filme, um bom espectáculo, nunca é apenas publicidade. É informação. Entendam isto, de uma vez, amigos jornalistas de secretária.
Quarta-feira, Julho 09, 2003
057 - RUY, DAVID
(...)
A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida
(...)
versos do Ruy que hoje me assaltaram a memória, sabe-se lá porquê.
Como também:
(...)
Eu vinha para a vida e dão-me dias
Reduzida ao relógio a aventura
(...)
ou David:
Agarro agora a vida pelos ombros
Ó tempo em que a prendi pela cintura
A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida
(...)
versos do Ruy que hoje me assaltaram a memória, sabe-se lá porquê.
Como também:
(...)
Eu vinha para a vida e dão-me dias
Reduzida ao relógio a aventura
(...)
ou David:
Agarro agora a vida pelos ombros
Ó tempo em que a prendi pela cintura
Segunda-feira, Julho 07, 2003
056 - A LITERATURA E O ENSINO DA LÍNGUA
Aqui fica mais um texto arquivado.
Publicado no DNA de 05.07.2003
Aqui fica mais um texto arquivado.
Publicado no DNA de 05.07.2003
“Nela (na literatura) se jogam trabalho e não trabalho, jogo e artesania, mas também conhecimento, modulações dos afectos e aquela aprendizagem ética que nenhum decálogo e nenhuma catequese nos podem proporcionar”
Manuel Gusmão
Quando alguém procura uma dessas escolas de aprendizagem rápida do francês, inglês ou alemão, pode dizer-se que pretende sobretudo aceder a uma utilização instrumental dessas línguas. Para efeitos de negócios, de trabalho, de viagens, ou para mera comunicação elementar.
Trata-se de uma das mais simples funções da linguagem: a estrita comunicação veicular. As palavras ligam-se às coisas e às situações e permitem-nos falar delas tal e qual são, como seus meros referentes. A Lua é apenas o satélite da terra; o Sol, uma simples estrela.
Ninguém pensaria, porém, enviar um filho para uma dessas escolas para aí aprender, do mesmo modo, a língua materna.
Isto porque a linguagem tem outras funções (nomeadamente aquela que alguns linguistas designam ainda como a função poética) e que evidentemente não é possível colocar em evidência fora do campo onde predominantemente se utiliza: a literatura – onde o tal satélite da terra poderá denominar-se, por exemplo, como aquela “foice de prata”, ou o sol por “astro-rei”.
Dizia o linguista Èmile Benveniste que sem a aquisição da linguagem não é possível falar em pensamento. Que não é possível pensar sem ter por base o domínio de uma língua. A aquisição da linguagem pelas crianças está aliás intimamente ligada à consciência do mundo que as rodeia. Inicialmente as crianças aprendem a relacionar as palavras e as coisas, enquanto meros referentes umas das outras, só depois acedem, lentamente, à faculdade de simbolizar. É esta faculdade que lhes permite distanciar a palavra do objecto de que ela é o referente, formulando um conceito distinto e de mais larga significação. É este poder da linguagem que instaura a realidade imaginária, faz das coisas outras coisas, mostra o que não é visível, diz o que não está dito, possibilita o que não é possível, cria o que não existe, modula ou amplia os sentimentos e as emoções.
Vem tudo isto a propósito da recente discussão acerca das propostas de alterações introduzidas nos programas do ensino secundário e da progressiva e dramática secundarização do ensino da literatura no âmbito mais geral do ensino da língua.
Questão que tem motivado algumas polémicas apaixonadas mas de escasso rigor científico, sobretudo quando questionaram a diminuição do estudo de alguns textos fundadores da nossa literatura, como é o caso, por exemplo, de Os Lusíadas. Mas que felizmente motivaram dois textos que julgo importantes de António Guerreiro e Manuel Gusmão, publicados na revista ACTUAL, do Expresso de 1 de Março passado, chamando a atenção para o risco que representa o facto de a literatura “ocupar um lugar cada vez mais residual nos programas do Secundário”. Na teoria, como na prática; dadas as queixas dos professores sobre a impossibilidade de “dar a ler convenientemente” o que se encontra prescrito.
A tese dos programadores destas alterações é que o ensino se deve aproximar cada vez mais da preparação do estudante para o mundo do trabalho (o chamado mundo das realidades), libertando-o das disciplinas que representam o que aparentemente é inútil (as disciplinas de humanidades) e, portanto, pode e deve ser suprimido sem perdas imediatas. Os perigos são evidentes, e cito Jacques Derrida através do texto já referido de António Guerreiro: “simplificação acelerada, manipulação, homogeneização, submissão da investigação a cálculos de rentabilidade imediata, marketing intelectual, destruição da cultura literária”.
Em Portugal, como as coisas ainda hoje continuam a chegar com muito atraso, está agora a tentar implantar-se uma tendência que em muitos outros países, como a França, a Itália, a Alemanha, se detectou há muito que deve ser corrigida. Tendência essa que, como refere Manuel Gusmão, parte do principio redutor e obsceno de que o ensino da literatura “só atrapalha o ensino da língua”.
Ora, ao contrário, é o ensino da língua materna, se desligado desse modo de usar a língua que representa a experiência literária, dos próprios usos e costumes de uma língua que nela vai retendo a experiência e a história de um povo, que sairá enormemente empobrecido.
Em toda a Europa (pelo menos) cada vez mais se caminha para que o ensino da literatura (e da história da literatura enquanto parte da história das ideias) se relacione de perto com o ensino da língua. Isto porque a faculdade de simbolizar se encontra na origem de todo o pensamento, da faculdade de conceptualizar. O pensamento, também referia Benveniste, não é outra coisa que o poder de construir representações e de operar sobre elas.
Atrasar esta faculdade para um grau de ensino superior ao Secundário, privar o estudante da aquisição de um pensamento crítico, do desenvolvimento das suas capacidades criadoras é, como bem refere Manuel Gusmão, limitar “de forma injusta as possibilidades de encontro com a literatura, por parte daqueles que provavelmente só na escola a poderão encontrar”.
Esperemos que alguém no Ministério da Educação esteja em condições de reflectir sobre isto. Submersos pelo linguarejar simplificado das mensagens telefónicas escritas, dos computadores, dos jogos electrónicos, da locução nas rádios e nas televisões, da escrita apressada dos jornais e revistas de socialites, dos discursos dos políticos sem cultura literária, da má literatura, estaremos certamente a criar uma geração ainda mais tatibitate que aquela com a qual hoje convivemos.
Manuel Gusmão
Quando alguém procura uma dessas escolas de aprendizagem rápida do francês, inglês ou alemão, pode dizer-se que pretende sobretudo aceder a uma utilização instrumental dessas línguas. Para efeitos de negócios, de trabalho, de viagens, ou para mera comunicação elementar.
Trata-se de uma das mais simples funções da linguagem: a estrita comunicação veicular. As palavras ligam-se às coisas e às situações e permitem-nos falar delas tal e qual são, como seus meros referentes. A Lua é apenas o satélite da terra; o Sol, uma simples estrela.
Ninguém pensaria, porém, enviar um filho para uma dessas escolas para aí aprender, do mesmo modo, a língua materna.
Isto porque a linguagem tem outras funções (nomeadamente aquela que alguns linguistas designam ainda como a função poética) e que evidentemente não é possível colocar em evidência fora do campo onde predominantemente se utiliza: a literatura – onde o tal satélite da terra poderá denominar-se, por exemplo, como aquela “foice de prata”, ou o sol por “astro-rei”.
Dizia o linguista Èmile Benveniste que sem a aquisição da linguagem não é possível falar em pensamento. Que não é possível pensar sem ter por base o domínio de uma língua. A aquisição da linguagem pelas crianças está aliás intimamente ligada à consciência do mundo que as rodeia. Inicialmente as crianças aprendem a relacionar as palavras e as coisas, enquanto meros referentes umas das outras, só depois acedem, lentamente, à faculdade de simbolizar. É esta faculdade que lhes permite distanciar a palavra do objecto de que ela é o referente, formulando um conceito distinto e de mais larga significação. É este poder da linguagem que instaura a realidade imaginária, faz das coisas outras coisas, mostra o que não é visível, diz o que não está dito, possibilita o que não é possível, cria o que não existe, modula ou amplia os sentimentos e as emoções.
Vem tudo isto a propósito da recente discussão acerca das propostas de alterações introduzidas nos programas do ensino secundário e da progressiva e dramática secundarização do ensino da literatura no âmbito mais geral do ensino da língua.
Questão que tem motivado algumas polémicas apaixonadas mas de escasso rigor científico, sobretudo quando questionaram a diminuição do estudo de alguns textos fundadores da nossa literatura, como é o caso, por exemplo, de Os Lusíadas. Mas que felizmente motivaram dois textos que julgo importantes de António Guerreiro e Manuel Gusmão, publicados na revista ACTUAL, do Expresso de 1 de Março passado, chamando a atenção para o risco que representa o facto de a literatura “ocupar um lugar cada vez mais residual nos programas do Secundário”. Na teoria, como na prática; dadas as queixas dos professores sobre a impossibilidade de “dar a ler convenientemente” o que se encontra prescrito.
A tese dos programadores destas alterações é que o ensino se deve aproximar cada vez mais da preparação do estudante para o mundo do trabalho (o chamado mundo das realidades), libertando-o das disciplinas que representam o que aparentemente é inútil (as disciplinas de humanidades) e, portanto, pode e deve ser suprimido sem perdas imediatas. Os perigos são evidentes, e cito Jacques Derrida através do texto já referido de António Guerreiro: “simplificação acelerada, manipulação, homogeneização, submissão da investigação a cálculos de rentabilidade imediata, marketing intelectual, destruição da cultura literária”.
Em Portugal, como as coisas ainda hoje continuam a chegar com muito atraso, está agora a tentar implantar-se uma tendência que em muitos outros países, como a França, a Itália, a Alemanha, se detectou há muito que deve ser corrigida. Tendência essa que, como refere Manuel Gusmão, parte do principio redutor e obsceno de que o ensino da literatura “só atrapalha o ensino da língua”.
Ora, ao contrário, é o ensino da língua materna, se desligado desse modo de usar a língua que representa a experiência literária, dos próprios usos e costumes de uma língua que nela vai retendo a experiência e a história de um povo, que sairá enormemente empobrecido.
Em toda a Europa (pelo menos) cada vez mais se caminha para que o ensino da literatura (e da história da literatura enquanto parte da história das ideias) se relacione de perto com o ensino da língua. Isto porque a faculdade de simbolizar se encontra na origem de todo o pensamento, da faculdade de conceptualizar. O pensamento, também referia Benveniste, não é outra coisa que o poder de construir representações e de operar sobre elas.
Atrasar esta faculdade para um grau de ensino superior ao Secundário, privar o estudante da aquisição de um pensamento crítico, do desenvolvimento das suas capacidades criadoras é, como bem refere Manuel Gusmão, limitar “de forma injusta as possibilidades de encontro com a literatura, por parte daqueles que provavelmente só na escola a poderão encontrar”.
Esperemos que alguém no Ministério da Educação esteja em condições de reflectir sobre isto. Submersos pelo linguarejar simplificado das mensagens telefónicas escritas, dos computadores, dos jogos electrónicos, da locução nas rádios e nas televisões, da escrita apressada dos jornais e revistas de socialites, dos discursos dos políticos sem cultura literária, da má literatura, estaremos certamente a criar uma geração ainda mais tatibitate que aquela com a qual hoje convivemos.
Sábado, Julho 05, 2003
055 - A INDUSTRIA EDITORIAL, HOJE
Há coisas que nos custam dizer em voz alta; mas há coisas que teremos de ter a coragem de começar a dizer em voz alta.
Fez bem o editor Manuel Alberto Valente ao colocar este post no seu blogue:
PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A EDIÇÃO
Publicam-se muitos livros. Publicam-se mesmo demasiados livros. Mas quantos desses livros não passam de espuma que o vento levará? Todos temos consciência disso. Mas são as regras da indústria editorial.
Vão longe os tempos em que um editor publicava apenas os livros de que gostava. Já ninguém o faz, mesmo aqueles que, para auto-promoção, dizem fazê-lo. Publica-se o que dá para poder publicar-se o que não dá. É bom que se perceba esta dinâmica. Muitos livros "minoritários" ficariam sem editor se não fosse a existência dos best-sellers que os sustentam.
É verdade. Sendo a industria editorial uma actividade eminentemente privada, não há outra solução. Sobretudo enquanto o Estado não se preocupar com a correcção dos actuais indíces de leitura, como os recentemente publicados, sem qualquer alteração significativa relativamente aos de anos anteriores.
É verdade. Muitos livros e autores importantes ficariam por publicar se não fosse a ajuda dos chamados "best-sellers", ou "livros mediáticos" como lhes chamamos hoje. Para além do mais eles representam "leituras" (novas pessoas conquistadas para a leitura), um modo de enfrentar outras formas de ocupação do tempo. E sem leituras não nascem leitores (pessoas que crescem, evoluem, aprendem a seleccionar, aperfeiçoam o sentido crítico, que irão gradualmente procurando outro tipo de livros).
Fez bem o editor Manuel Alberto Valente ao colocar este post no seu blogue:
PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A EDIÇÃO
Publicam-se muitos livros. Publicam-se mesmo demasiados livros. Mas quantos desses livros não passam de espuma que o vento levará? Todos temos consciência disso. Mas são as regras da indústria editorial.
Vão longe os tempos em que um editor publicava apenas os livros de que gostava. Já ninguém o faz, mesmo aqueles que, para auto-promoção, dizem fazê-lo. Publica-se o que dá para poder publicar-se o que não dá. É bom que se perceba esta dinâmica. Muitos livros "minoritários" ficariam sem editor se não fosse a existência dos best-sellers que os sustentam.
É verdade. Sendo a industria editorial uma actividade eminentemente privada, não há outra solução. Sobretudo enquanto o Estado não se preocupar com a correcção dos actuais indíces de leitura, como os recentemente publicados, sem qualquer alteração significativa relativamente aos de anos anteriores.
É verdade. Muitos livros e autores importantes ficariam por publicar se não fosse a ajuda dos chamados "best-sellers", ou "livros mediáticos" como lhes chamamos hoje. Para além do mais eles representam "leituras" (novas pessoas conquistadas para a leitura), um modo de enfrentar outras formas de ocupação do tempo. E sem leituras não nascem leitores (pessoas que crescem, evoluem, aprendem a seleccionar, aperfeiçoam o sentido crítico, que irão gradualmente procurando outro tipo de livros).
054 - AUGUSTO ABELAIRA
No meio da voragem dos temas políticos, das discussões do nosso dia a dia, das guerras e guerrinhas, dos Lellos e dos Portas, não posso deixar de registar aqui o falecimento do escritor Augusto Abelaira.
Ao menos para que nos reconciliemos com nós próprios, para que se sinta por uma vez o que de facto é importante nas nossas vidas.
O Augusto escreveu romances belíssimos como "A Cidade das Flores" (1959), "Os Desertores" (1960), "A Palavra é de Oiro" (1961), "As Boas Intenções" (1963), "Enseada Amena" (1966), "O Único Animal Que" (1985), criou personagens femininos inexquecíveis como Rosa Bianca ou Maria Brenda (serei eu uma flor de papel?), as suas crónicas na imprensa, durante muitos anos, foram imperdíveis.
Fui procurar e folhear de novo os seus livros. Aos jovens que o não leram recomendaria evidentemente, ainda hoje, "A Cidade das Flores".
Convivemos de perto durante muitos anos, embora nunca tivesse sido seu editor: nas conversas de fim de tarde no Café Monte Carlo - no tempo em que havia cafés e se conversava - com José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, José Cardoso Pires; após o 25 de Abril nas reuniões semanais da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Foi o Augusto que recomendou ao António Ramos, da Bertrand, o meu segundo romance, nessa altura fazia-se assim, a recomendação era dos mais velhos.
Que a sua memória perdure, que os seus livros continuem a ser lidos. Porque afinal são eles, os livros, a música que o Augusto tanto apreciava, que nos salvam deste mundo pobre que nos sobrou para viver.
O tal dos Lellos e dos Portas, e de tantos outros.
Ao menos para que nos reconciliemos com nós próprios, para que se sinta por uma vez o que de facto é importante nas nossas vidas.
O Augusto escreveu romances belíssimos como "A Cidade das Flores" (1959), "Os Desertores" (1960), "A Palavra é de Oiro" (1961), "As Boas Intenções" (1963), "Enseada Amena" (1966), "O Único Animal Que" (1985), criou personagens femininos inexquecíveis como Rosa Bianca ou Maria Brenda (serei eu uma flor de papel?), as suas crónicas na imprensa, durante muitos anos, foram imperdíveis.
Fui procurar e folhear de novo os seus livros. Aos jovens que o não leram recomendaria evidentemente, ainda hoje, "A Cidade das Flores".
Convivemos de perto durante muitos anos, embora nunca tivesse sido seu editor: nas conversas de fim de tarde no Café Monte Carlo - no tempo em que havia cafés e se conversava - com José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, José Cardoso Pires; após o 25 de Abril nas reuniões semanais da direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Foi o Augusto que recomendou ao António Ramos, da Bertrand, o meu segundo romance, nessa altura fazia-se assim, a recomendação era dos mais velhos.
Que a sua memória perdure, que os seus livros continuem a ser lidos. Porque afinal são eles, os livros, a música que o Augusto tanto apreciava, que nos salvam deste mundo pobre que nos sobrou para viver.
O tal dos Lellos e dos Portas, e de tantos outros.
Sexta-feira, Julho 04, 2003
053 - PEDRO J. GUTIÉRREZ
Passei esta semana com o escritor cubano Pedro J. Gutiérrez.
Pedro Juan veio à Europa para o lançamento do seu livro “Animal Tropical”, depois de “Trilogia Suja de Havana” e “O Rei de Havana”. Foi ainda ao Brasil e a outros países.
Tinha saído de Cuba no início de Março, antes dos acontecimentos mais recentes.
Regressa hoje a casa.
Sem saber muito bem o que o pode esperar...
Jantámos juntos na Quarta-feira, com a sua Agente Anne-Marie Vallat.
Cansado, Pedro queixava-se que o seu trabalho literário havia ficado um pouco esquecido em muitas das perguntas dos jornalistas. Tentei explicar-lhe que era natural, nas actuais circunstâncias.
Pedro Juan veio à Europa para o lançamento do seu livro “Animal Tropical”, depois de “Trilogia Suja de Havana” e “O Rei de Havana”. Foi ainda ao Brasil e a outros países.
Tinha saído de Cuba no início de Março, antes dos acontecimentos mais recentes.
Regressa hoje a casa.
Sem saber muito bem o que o pode esperar...
Jantámos juntos na Quarta-feira, com a sua Agente Anne-Marie Vallat.
Cansado, Pedro queixava-se que o seu trabalho literário havia ficado um pouco esquecido em muitas das perguntas dos jornalistas. Tentei explicar-lhe que era natural, nas actuais circunstâncias.
Quinta-feira, Julho 03, 2003
052 - TRADUÇÕES DEFEITUOSAS
Pede-me o blogue Salmoura que lhe diga como se deve proceder quando um leitor adquire um livro com uma má tradução.
E refere um caso concreto, dando exemplos.
Infelizmente, todos nós, editores, temos situações desse tipo, por maior cuidado que se procure ter.
Infelizmente, também, mesmo os mais conceituados tradutores fazem às vezes traduções deficientes.
No exemplo que me dá, trata-se de um tradutor conceituadíssimo, várias vezes premiado. De modo algum um “desconhecido”, como refere. Trabalhou já com a DQ na tradução de dificílimos escritores italianos (Primo Levi, Leonardo Sciascia, António Tabucchi, que também sabe bom português, etc.). Ultimamente tem trabalhado com os meus colegas da Editorial Teorema, traduzindo, por exemplo, todo o Calvino, algum Borges, etc.
Recomendo-lhe pois que dirija ao editor os seus comentários e reclamações e oiça as suas explicações.
O leitor tem sempre o direito legitimo de reclamar de um “objecto com defeitos” e solicitar a sua troca ou a devolução do valor pago, desde que justifique a existência de tais defeitos.
Alguns dos exemplos por si referidos podem também resultar da forma de escrita e intenção do próprio autor original, o que muitas vezes acontece. A liberdade do tradutor também tem os seus limites.
E refere um caso concreto, dando exemplos.
Infelizmente, todos nós, editores, temos situações desse tipo, por maior cuidado que se procure ter.
Infelizmente, também, mesmo os mais conceituados tradutores fazem às vezes traduções deficientes.
No exemplo que me dá, trata-se de um tradutor conceituadíssimo, várias vezes premiado. De modo algum um “desconhecido”, como refere. Trabalhou já com a DQ na tradução de dificílimos escritores italianos (Primo Levi, Leonardo Sciascia, António Tabucchi, que também sabe bom português, etc.). Ultimamente tem trabalhado com os meus colegas da Editorial Teorema, traduzindo, por exemplo, todo o Calvino, algum Borges, etc.
Recomendo-lhe pois que dirija ao editor os seus comentários e reclamações e oiça as suas explicações.
O leitor tem sempre o direito legitimo de reclamar de um “objecto com defeitos” e solicitar a sua troca ou a devolução do valor pago, desde que justifique a existência de tais defeitos.
Alguns dos exemplos por si referidos podem também resultar da forma de escrita e intenção do próprio autor original, o que muitas vezes acontece. A liberdade do tradutor também tem os seus limites.
051 - OS NOVOS EMIGRANTES, 3
Regresso então a este tema.
Os dados seguintes estão contidos num estudo intitulado “Os Movimentos Migratórios Externos e a sua Incidência no Mercado de Trabalho em Portugal”, de que é co-autora a socióloga Maria Ioannis Baganha, professora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e foram reproduzidos no DN de 26.06.2003.
1. Cinco milhões de portugueses vivem actualmente fora do país, o que é um número deveras impressionante se comparado com o total da nossa população;
2. 31% estão na Europa (França, Reino Unido, Suíça, Alemanha, Espanha, Luxemburgo) os restantes noutros continentes;
3. Cem mil portugueses atravessam a fronteira anualmente em busca de trabalho no exterior;
4. O saldo entre as saídas e os regressos é mais ou menos equilibrado;
5. Apesar desse equilíbrio, nos últimos 10 anos, o número de saídas consistentes é de cerca de 300 mil;
6. Anteriormente, as regiões do norte do país contribuíam com o maior número de emigrantes. Actualmente tem-se destacado a subida da região de Lisboa e Vale do Tejo;
7. Portugal é o país europeu com a maior taxa de emigração;
8. A melhoria das habilitações literárias (sobretudo os recém-licenciados) distingue os actuais emigrantes das anteriores gerações. Cerca de 80% dos nossos emigrantes actuais têm o ensino básico e 11,3% o ensino secundário ou superior (INE);
9. Em confronto com este número de saídas, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras indica que, para além dos legais, Portugal tem neste momento cerca de meio milhão de imigrantes ilegais;
10. Dada a situação económica do país todas estas tendências tenderão a agravar-se nos próximos anos;
11. Em 2002 houve já um aumento das saídas de 32,9%, representando mais de 27 mil novos emigrantes, com especial incidência nas mulheres (INE) ;
12. Conclusão da CGTP (Carlos Trindade): exportamos hoje mão de obra qualificada em busca de emprego e de melhores salários, recebemos mão de obra barata, desprotegida e sem regalias sociais, em benefício claro dos empregadores;
13. A Assembleia da República recebeu, entre 26 e 28.06., os 97 conselheiros do Plenário do Conselho das Comunidades Portuguesas (o tal onde esteve presente aquele senhor ex-agente da PIDE que foi (ou esteve para ser, ou chegou a ser e depois não foi) condecorado pelo Presidente da Republica. O objectivo desta reunião seria discutir o apoio consular aos nossos emigrantes, o ensino da língua portuguesa, etc. Desconhecem-se ainda conclusões;
Eu não sou especialista destas matérias. Deixo aqui apenas os números recolhidos, que dão muito que pensar. Não posso deixar de considerar acertado o comentário transcrito da CGTP.
O Presidente da República (e o próprio Primeiro-Ministro) têm tentado promover a reflexão sobre estes temas. Refiro-me concretamente ao grupo de trabalho dinamizado pela Profª. Maria João Rodrigues (actual Presidente do Conselho da Comissão Europeia para as Ciências Sociais), trabalhando sobre temas como os da criatividade, inovação, produtividade e competitividade.
Aos interessados, não posso deixar de indicar a leitura do livro “Para Uma Política de Inovação em Portugal” (2003), publicado pela DQ (perdoem a publicidade justificada).
Mas deixo o que me parece ser uma terrível interrogação: para quem estamos de facto a formar os nossos trabalhadores e os nossos jovens licenciados? Quando é que estas políticas se orientarão também para os empregadores?
Os dados seguintes estão contidos num estudo intitulado “Os Movimentos Migratórios Externos e a sua Incidência no Mercado de Trabalho em Portugal”, de que é co-autora a socióloga Maria Ioannis Baganha, professora da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e foram reproduzidos no DN de 26.06.2003.
1. Cinco milhões de portugueses vivem actualmente fora do país, o que é um número deveras impressionante se comparado com o total da nossa população;
2. 31% estão na Europa (França, Reino Unido, Suíça, Alemanha, Espanha, Luxemburgo) os restantes noutros continentes;
3. Cem mil portugueses atravessam a fronteira anualmente em busca de trabalho no exterior;
4. O saldo entre as saídas e os regressos é mais ou menos equilibrado;
5. Apesar desse equilíbrio, nos últimos 10 anos, o número de saídas consistentes é de cerca de 300 mil;
6. Anteriormente, as regiões do norte do país contribuíam com o maior número de emigrantes. Actualmente tem-se destacado a subida da região de Lisboa e Vale do Tejo;
7. Portugal é o país europeu com a maior taxa de emigração;
8. A melhoria das habilitações literárias (sobretudo os recém-licenciados) distingue os actuais emigrantes das anteriores gerações. Cerca de 80% dos nossos emigrantes actuais têm o ensino básico e 11,3% o ensino secundário ou superior (INE);
9. Em confronto com este número de saídas, o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras indica que, para além dos legais, Portugal tem neste momento cerca de meio milhão de imigrantes ilegais;
10. Dada a situação económica do país todas estas tendências tenderão a agravar-se nos próximos anos;
11. Em 2002 houve já um aumento das saídas de 32,9%, representando mais de 27 mil novos emigrantes, com especial incidência nas mulheres (INE) ;
12. Conclusão da CGTP (Carlos Trindade): exportamos hoje mão de obra qualificada em busca de emprego e de melhores salários, recebemos mão de obra barata, desprotegida e sem regalias sociais, em benefício claro dos empregadores;
13. A Assembleia da República recebeu, entre 26 e 28.06., os 97 conselheiros do Plenário do Conselho das Comunidades Portuguesas (o tal onde esteve presente aquele senhor ex-agente da PIDE que foi (ou esteve para ser, ou chegou a ser e depois não foi) condecorado pelo Presidente da Republica. O objectivo desta reunião seria discutir o apoio consular aos nossos emigrantes, o ensino da língua portuguesa, etc. Desconhecem-se ainda conclusões;
Eu não sou especialista destas matérias. Deixo aqui apenas os números recolhidos, que dão muito que pensar. Não posso deixar de considerar acertado o comentário transcrito da CGTP.
O Presidente da República (e o próprio Primeiro-Ministro) têm tentado promover a reflexão sobre estes temas. Refiro-me concretamente ao grupo de trabalho dinamizado pela Profª. Maria João Rodrigues (actual Presidente do Conselho da Comissão Europeia para as Ciências Sociais), trabalhando sobre temas como os da criatividade, inovação, produtividade e competitividade.
Aos interessados, não posso deixar de indicar a leitura do livro “Para Uma Política de Inovação em Portugal” (2003), publicado pela DQ (perdoem a publicidade justificada).
Mas deixo o que me parece ser uma terrível interrogação: para quem estamos de facto a formar os nossos trabalhadores e os nossos jovens licenciados? Quando é que estas políticas se orientarão também para os empregadores?
Quarta-feira, Julho 02, 2003
050 - FINALMENTE COMPANHIA
Saudemos aqui o aparecimento do blogue do editor Manuel Alberto Valente.
Desejamos-lhe muitos e bons posts.
Agora já poderão repartir com ele os ajustes de contas com os malvados dos editores.
Obrigado pelo link, que é coisa que eu ainda não aprendi a fazer...
Desejamos-lhe muitos e bons posts.
Agora já poderão repartir com ele os ajustes de contas com os malvados dos editores.
Obrigado pelo link, que é coisa que eu ainda não aprendi a fazer...
049 - OS NOVOS EMIGRANTES, 2
Continuo o tema do post 046. Tenho já alguns dados numéricos recolhidos e, como disse, voltarei a este assunto de um modo menos superficial.
Para já, com os meus agradecimentos, reproduzo um mail recebido e que me parece testemunho interessante sobre a questão:
From: sresende@iol.pt
To: ndematos@clix.pt
Sent: Wednesday, July 02, 2003 9:52 AM
Subject: emigrantes
Caro Nelson,
Sou uma das emigrantes a que fez referência no seu blog.
Em Fevereiro deste ano peguei nas malas (e como pesavam!) e avancei.
Cheguei a Madrid com trabalho, algo que nao tinha em Lisboa. A licenciatura, a pós-graduaçao, o conhecimento de línguas estrangeiras nao abrem muitas portas em Portugal.
O pouco que se consegue é com trabalho desproporcional à recompensa. Esta é ridícula, temporal, quando nao é nenhuma...
A minha anterior experiência profissional foi aterradora. A escravidao parece permanecer no espírito de muita gente...
Como nao gosto de repetir os erros, a melhor soluçao foi sair do casulo. Uma experiência interessante a todos os níveis.
De facto já é tempo de analisar o fenómeno da emigraçao. E estes novos emigrantes sao jovens, com estudos, curiosos e ambiciosos... Estou errada?
É tempo também de perceber quais as condiçoes que levam a que a massa cinzenta portuguesa tenha ganas de fugir do rectângulo...
(Já agora aproveito para o felicitar pelo seu blog)
Cumprimentos desde Madrid (e, como se percebe pela falta do til, desde um teclado espanhol)
Continuo o tema do post 046. Tenho já alguns dados numéricos recolhidos e, como disse, voltarei a este assunto de um modo menos superficial.
Para já, com os meus agradecimentos, reproduzo um mail recebido e que me parece testemunho interessante sobre a questão:
From: sresende@iol.pt
To: ndematos@clix.pt
Sent: Wednesday, July 02, 2003 9:52 AM
Subject: emigrantes
Caro Nelson,
Sou uma das emigrantes a que fez referência no seu blog.
Em Fevereiro deste ano peguei nas malas (e como pesavam!) e avancei.
Cheguei a Madrid com trabalho, algo que nao tinha em Lisboa. A licenciatura, a pós-graduaçao, o conhecimento de línguas estrangeiras nao abrem muitas portas em Portugal.
O pouco que se consegue é com trabalho desproporcional à recompensa. Esta é ridícula, temporal, quando nao é nenhuma...
A minha anterior experiência profissional foi aterradora. A escravidao parece permanecer no espírito de muita gente...
Como nao gosto de repetir os erros, a melhor soluçao foi sair do casulo. Uma experiência interessante a todos os níveis.
De facto já é tempo de analisar o fenómeno da emigraçao. E estes novos emigrantes sao jovens, com estudos, curiosos e ambiciosos... Estou errada?
É tempo também de perceber quais as condiçoes que levam a que a massa cinzenta portuguesa tenha ganas de fugir do rectângulo...
(Já agora aproveito para o felicitar pelo seu blog)
Cumprimentos desde Madrid (e, como se percebe pela falta do til, desde um teclado espanhol)
Terça-feira, Julho 01, 2003
048 - AUTORES, 3
Bom, parece que o texto sobre José Cardoso Pires teve algum agrado. Vale a pena continuar.
Aqui há uns dias, A Montanha Mágica publicou uns excertos de um conto de Vergílio Ferreira, dedicando-me essa publicação.
Agradeci, evidentemente. Creio que já disse algumas vezes que A Montanha Mágica é um dos blogues que visito diáriamente e onde sempre encontro motivos de interesse, de grande sensibilidade e bom gosto literário.
Retribuo agora a gentileza, arquivando por aqui esta memória de Vergílio Ferreira
VERGÍLIO FERREIRA
Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “verei dali a janela do meu quarto”. Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro.
Assim começa aquele que é, a meu ver, um dos mais enigmáticos e fascinantes romances da literatura portuguesa contemporânea: Alegria Breve, de Vergílio Ferreira, publicado em 1965, data em que as nossas relações foram estreitas e amigáveis.
Eu era um jovem candidato a escritor, bastante influenciado pela sua escrita e pelas suas ideias sobre a arte e a literatura; Vergílio gostava de abrir as asas do capote e de ter debaixo delas o que chamava de “os seus discípulos” que, por essa altura, eram eu e o Almeida Faria, a quem ele havia prefaciado o romance Rumor Branco, um acontecimento literário juvenil nesse inicio dos anos sessenta, prémio revelação de romance (1962) da então Sociedade Portuguesa de Escritores.
Como nessa altura ainda não havia computadores nem e-mails, trocávamos longas cartas manuscritas em que Vergílio, pacientemente, nos ia chamando a atenção para o trabalho sobre a escrita, nos ia ensinando o rigor, a seriedade e a disciplina, ao mesmo tempo que nos recomendava a leitura de alguns textos fundamentais e nos transmitia o seu amor pela literatura e a paixão pelas ideias.
Além de escritor era então professor no Liceu Camões, depois de o ter sido em Évora, onde escreveu Aparição.
Nunca foi meu professor e disso tenho desgosto, embora com surpresa de ambos lhe tenha caído nas mãos, como externo, no meu exame do então 7º ano do liceu. Lembro-me que falámos de Pessoa, Raul Brandão e Eça de Queiroz, durante um exame que durou mais do que seria normal.
Vergílio não era um homem mundano, muito antes pelo contrário, evitava as festas e as apresentações literárias, apreciava a leitura e o trabalho da escrita no recato da sua casa. Era para lá que me convidava por diversas vezes para podermos conversar tranquilamente, durante a tarde, num ambiente de semi-obscuridade que não esqueci, rodeados pelos seus livros. Ou em Fontanelas, onde às vezes reunia no verão os seus amigos, que ia buscar e levar, num velho Volkswagen, à estação dos comboios de Sintra. Foi através dele que pude conhecer Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa, Fernando Namora, o pintor Cruzeiro Seixas e muitos outros.
Alguns anos mais tarde, já durante o período aceso da revolução de 25 de Abril, fui seu editor na Arcádia, durante alguns anos, até à extinção desta editora e à sua saída para a Bertrand.
Vergílio vinha pelo meio tarde, às vezes acompanhado por Cesariny, Natália ou Cruzeiro Seixas, sentava-se a conversar, distraído, como se o tempo não fosse tempo, como se eu não tivesse trabalho para fazer, como se todos em volta tivéssemos que parar para lhe dar atenção. Era o período aceso da revolução, setenta e cinco, talvez. Discutia-se política, os boatos constantes, as ameaças da “reacção”, os golpes e contra-golpes ou, no que o preocupava especialmente, as “pressões centralistas do PC”.
Entregou-me, por essa altura, um romance que, no conjunto da sua obra, nunca apreciei especialmente, “Rápida, a Sombra”, 1975, onde creio que ajustou comigo algumas contas antigas através do retrato de um crítico literário (Túlio, que era o nome do meu pai), “um patife que eu trouxe ao colo e depois me cuspiu”, “…que me imitou tudo. Até a letra.”.
Isto porque entretanto, atrevidamente, eu havia “desancado” com alguma violência o seu Post-Scriptum Sobre a Revolução Estudantil de Maio de 1968, incluído como posfácio à edição de Invocação ao Meu Corpo (1969), texto esse em que Vergílio considerava, ironicamente, que eu praticara “a morte do Pai”, invocando-me a propósito, por várias vezes, a célebre frase de Lèon Chéstov, “os jovens matam e comem os velhos”.
Tenho uma especial recordação dessas tardes acesas na Arcádia, em que autor e editor discutiam, esquecidos, os problemas da democracia que começávamos a viver. Com ele a discussão nunca era fácil, antes exigente e rigorosa. Para além de, na altura, não estarmos em posições coincidentes, Vergílio já tinha tudo pensado, a sua cabeça era uma máquina de pensar, as suas ideias iam buscar, lá atrás, as raízes culturais, a enorme informação, as leituras em nada desatentas. Tinha explicações para tudo e tudo nele estava pensado até ao último argumento.
Vergílio não era o que os editores chamam um autor difícil. Os seus textos eram minuciosamente revistos por si próprio antes da entrega ao editor, emendados até à exaustão na sua letra minúscula, sempre com a mesma caneta de tinta permanente e em cor preta. Durante as provas poucas emendas fazia, tanto quanto me recordo, a não ser as das “gralhas” com que deveras se irritava.
Já comigo na Dom Quixote continuou a procurar-me, manifestando por diversas vezes a sua vontade de se juntar ao trabalho que eu fazia com os restantes escritores da editora. Mas a Dom Quixote, nessa altura, não teve condições para dar resposta ao trabalho que ele merecia.
Morreu uma tarde, em 1996, pouco depois de ter completado 80 anos, enquanto escrevia, deixando a sua habitual caneta de tinta permanente cair sobre um texto inacabado. Escrevendo, escrevendo sempre.
Não podia ter sido de outro modo.
Nos últimos anos havia surpreendido de novo toda a gente com a insuportável beleza e mestria dos seus últimos romances, nomeadamente Para Sempre, Até ao Fim e Cartas a Sandra, este ultimo, premonitoriamente, terminando a meio de uma frase, a meio de uma palavra, tal como a vida lhe haveria de fazer a ele.
A sua obra singular, o romance, o ensaio, o diário e os testemunhos, à medida que o tempo passa, agiganta-se em toda a sua monumentalidade. Vergílio não foi um escritor amado pelos seus pares, não foi sequer um autor muito traduzido para outras línguas e só já em plena democracia alguns críticos de uma geração mais nova deram a atenção devida à sua obra. Mas essa obra aí está, lutando contra tudo o que a silenciava, impondo-se como um dos momentos mais altos da literatura portuguesa do século vinte.
Publicado no DNA de 05.04.2003
Bom, parece que o texto sobre José Cardoso Pires teve algum agrado. Vale a pena continuar.
Aqui há uns dias, A Montanha Mágica publicou uns excertos de um conto de Vergílio Ferreira, dedicando-me essa publicação.
Agradeci, evidentemente. Creio que já disse algumas vezes que A Montanha Mágica é um dos blogues que visito diáriamente e onde sempre encontro motivos de interesse, de grande sensibilidade e bom gosto literário.
Retribuo agora a gentileza, arquivando por aqui esta memória de Vergílio Ferreira
VERGÍLIO FERREIRA
Enterrei hoje minha mulher – porque lhe chamo minha mulher? Enterrei-a eu próprio no fundo do quintal, debaixo da velha figueira. Levá-la para o cemitério, e como? Fica longe. Ela pedira-mo uma vez, inesperadamente, acordando-me a meio da noite. Queria que a enterrasse junto ao muro que dá para o caminho, porque se vê daí a casa dela. Habituara-se a olhar para aquele sítio depois que ficou só. E pensava: “verei dali a janela do meu quarto”. Mas teria de transportá-la para lá. Não tenho forças e cai neve. A quantos estamos? É Inverno, Dezembro, talvez, ou Janeiro.
Assim começa aquele que é, a meu ver, um dos mais enigmáticos e fascinantes romances da literatura portuguesa contemporânea: Alegria Breve, de Vergílio Ferreira, publicado em 1965, data em que as nossas relações foram estreitas e amigáveis.
Eu era um jovem candidato a escritor, bastante influenciado pela sua escrita e pelas suas ideias sobre a arte e a literatura; Vergílio gostava de abrir as asas do capote e de ter debaixo delas o que chamava de “os seus discípulos” que, por essa altura, eram eu e o Almeida Faria, a quem ele havia prefaciado o romance Rumor Branco, um acontecimento literário juvenil nesse inicio dos anos sessenta, prémio revelação de romance (1962) da então Sociedade Portuguesa de Escritores.
Como nessa altura ainda não havia computadores nem e-mails, trocávamos longas cartas manuscritas em que Vergílio, pacientemente, nos ia chamando a atenção para o trabalho sobre a escrita, nos ia ensinando o rigor, a seriedade e a disciplina, ao mesmo tempo que nos recomendava a leitura de alguns textos fundamentais e nos transmitia o seu amor pela literatura e a paixão pelas ideias.
Além de escritor era então professor no Liceu Camões, depois de o ter sido em Évora, onde escreveu Aparição.
Nunca foi meu professor e disso tenho desgosto, embora com surpresa de ambos lhe tenha caído nas mãos, como externo, no meu exame do então 7º ano do liceu. Lembro-me que falámos de Pessoa, Raul Brandão e Eça de Queiroz, durante um exame que durou mais do que seria normal.
Vergílio não era um homem mundano, muito antes pelo contrário, evitava as festas e as apresentações literárias, apreciava a leitura e o trabalho da escrita no recato da sua casa. Era para lá que me convidava por diversas vezes para podermos conversar tranquilamente, durante a tarde, num ambiente de semi-obscuridade que não esqueci, rodeados pelos seus livros. Ou em Fontanelas, onde às vezes reunia no verão os seus amigos, que ia buscar e levar, num velho Volkswagen, à estação dos comboios de Sintra. Foi através dele que pude conhecer Eduardo Lourenço, António Ramos Rosa, Fernando Namora, o pintor Cruzeiro Seixas e muitos outros.
Alguns anos mais tarde, já durante o período aceso da revolução de 25 de Abril, fui seu editor na Arcádia, durante alguns anos, até à extinção desta editora e à sua saída para a Bertrand.
Vergílio vinha pelo meio tarde, às vezes acompanhado por Cesariny, Natália ou Cruzeiro Seixas, sentava-se a conversar, distraído, como se o tempo não fosse tempo, como se eu não tivesse trabalho para fazer, como se todos em volta tivéssemos que parar para lhe dar atenção. Era o período aceso da revolução, setenta e cinco, talvez. Discutia-se política, os boatos constantes, as ameaças da “reacção”, os golpes e contra-golpes ou, no que o preocupava especialmente, as “pressões centralistas do PC”.
Entregou-me, por essa altura, um romance que, no conjunto da sua obra, nunca apreciei especialmente, “Rápida, a Sombra”, 1975, onde creio que ajustou comigo algumas contas antigas através do retrato de um crítico literário (Túlio, que era o nome do meu pai), “um patife que eu trouxe ao colo e depois me cuspiu”, “…que me imitou tudo. Até a letra.”.
Isto porque entretanto, atrevidamente, eu havia “desancado” com alguma violência o seu Post-Scriptum Sobre a Revolução Estudantil de Maio de 1968, incluído como posfácio à edição de Invocação ao Meu Corpo (1969), texto esse em que Vergílio considerava, ironicamente, que eu praticara “a morte do Pai”, invocando-me a propósito, por várias vezes, a célebre frase de Lèon Chéstov, “os jovens matam e comem os velhos”.
Tenho uma especial recordação dessas tardes acesas na Arcádia, em que autor e editor discutiam, esquecidos, os problemas da democracia que começávamos a viver. Com ele a discussão nunca era fácil, antes exigente e rigorosa. Para além de, na altura, não estarmos em posições coincidentes, Vergílio já tinha tudo pensado, a sua cabeça era uma máquina de pensar, as suas ideias iam buscar, lá atrás, as raízes culturais, a enorme informação, as leituras em nada desatentas. Tinha explicações para tudo e tudo nele estava pensado até ao último argumento.
Vergílio não era o que os editores chamam um autor difícil. Os seus textos eram minuciosamente revistos por si próprio antes da entrega ao editor, emendados até à exaustão na sua letra minúscula, sempre com a mesma caneta de tinta permanente e em cor preta. Durante as provas poucas emendas fazia, tanto quanto me recordo, a não ser as das “gralhas” com que deveras se irritava.
Já comigo na Dom Quixote continuou a procurar-me, manifestando por diversas vezes a sua vontade de se juntar ao trabalho que eu fazia com os restantes escritores da editora. Mas a Dom Quixote, nessa altura, não teve condições para dar resposta ao trabalho que ele merecia.
Morreu uma tarde, em 1996, pouco depois de ter completado 80 anos, enquanto escrevia, deixando a sua habitual caneta de tinta permanente cair sobre um texto inacabado. Escrevendo, escrevendo sempre.
Não podia ter sido de outro modo.
Nos últimos anos havia surpreendido de novo toda a gente com a insuportável beleza e mestria dos seus últimos romances, nomeadamente Para Sempre, Até ao Fim e Cartas a Sandra, este ultimo, premonitoriamente, terminando a meio de uma frase, a meio de uma palavra, tal como a vida lhe haveria de fazer a ele.
A sua obra singular, o romance, o ensaio, o diário e os testemunhos, à medida que o tempo passa, agiganta-se em toda a sua monumentalidade. Vergílio não foi um escritor amado pelos seus pares, não foi sequer um autor muito traduzido para outras línguas e só já em plena democracia alguns críticos de uma geração mais nova deram a atenção devida à sua obra. Mas essa obra aí está, lutando contra tudo o que a silenciava, impondo-se como um dos momentos mais altos da literatura portuguesa do século vinte.
Publicado no DNA de 05.04.2003
047 - PELA MANHÃ, OS JORNAIS
Leio os jornais, pelo início da manhã.
Logo na primeira página do DN, encontro:
"Rodrigo Santiago, (vírgula) advogado de Jorge Ritto, (vírgula) arguido no processo de pedofilia da Casa Pia, (vírgula) admite aceitar a acusação que o Ministério Público venha a deduzir contra o seu cliente, (vírgula) abdicando, (vírgula) assim, (vírgula) de requerer a abertura de instrução do processo, (vírgula) de modo a acelerar o julgamento."
Concluímos assim: que o advogado de Jorge Ritto se encontra também arguido no processo de pedofilia; ou que o jornalista que redigiu a notícia não conhece as regras gramaticais da língua com que trabalha.
Mas na última página do Público:
Húmus, de Raul Brandão. "Um diário? Um romance? Mesmo que inclassificável, trata-se de "uma obra-prima em qualquer literatura", dirá David Mourão-Ferreira".
Dirá ?
Leio os jornais, pelo início da manhã.
Logo na primeira página do DN, encontro:
"Rodrigo Santiago, (vírgula) advogado de Jorge Ritto, (vírgula) arguido no processo de pedofilia da Casa Pia, (vírgula) admite aceitar a acusação que o Ministério Público venha a deduzir contra o seu cliente, (vírgula) abdicando, (vírgula) assim, (vírgula) de requerer a abertura de instrução do processo, (vírgula) de modo a acelerar o julgamento."
Concluímos assim: que o advogado de Jorge Ritto se encontra também arguido no processo de pedofilia; ou que o jornalista que redigiu a notícia não conhece as regras gramaticais da língua com que trabalha.
Mas na última página do Público:
Húmus, de Raul Brandão. "Um diário? Um romance? Mesmo que inclassificável, trata-se de "uma obra-prima em qualquer literatura", dirá David Mourão-Ferreira".
Dirá ?
Segunda-feira, Junho 30, 2003
046 - OS NOVOS EMIGRANTES
A semana passada, a APEL (uma das associações de editores) apresentou publicamente os números actualizados sobre a evolução dos índices de leitura e compra de livros em Portugal.
Como habitualmente não são números brilhantes.
Por outro lado chegaram-me às mãos uns números curiosos sobre a nossa nova emigração.
Que nos últimos 10 anos emigraram cerca de 300.000 pessoas com profissões qualificadas ou especializadas, das quais mais de 100.000 com formação universitária recente.
Irei confirmar estes números e voltarei a este assunto, que é interessante.
Para já, apetece perguntar: investimos em educação e formação para quê? Em que países se encontram afinal a trabalhar os técnicos e os operários especializados que formamos?
Ou, no caso que me diz respeito, quantos leitores despertados através das novas escolas e das novas Bibliotecas foram ler para outras línguas?
A semana passada, a APEL (uma das associações de editores) apresentou publicamente os números actualizados sobre a evolução dos índices de leitura e compra de livros em Portugal.
Como habitualmente não são números brilhantes.
Por outro lado chegaram-me às mãos uns números curiosos sobre a nossa nova emigração.
Que nos últimos 10 anos emigraram cerca de 300.000 pessoas com profissões qualificadas ou especializadas, das quais mais de 100.000 com formação universitária recente.
Irei confirmar estes números e voltarei a este assunto, que é interessante.
Para já, apetece perguntar: investimos em educação e formação para quê? Em que países se encontram afinal a trabalhar os técnicos e os operários especializados que formamos?
Ou, no caso que me diz respeito, quantos leitores despertados através das novas escolas e das novas Bibliotecas foram ler para outras línguas?
045 - FUTEBOL
Ontem o Aviz e
A Montanha Magica (pelo menos) estiveram a conversar sobre futebol.
Hoje deparei com as notícias acerca da situação calamitosa que envolve o prosseguimento das obras dos estádios do Benfica e do Farense (pelo menos, também).
Confesso que fiquei preocupado - não tenho nada que me preocupar mas, que querem?
E pensei com os meus botões: isto do Euro 2004 e das obras nos estádios ainda vai dar muito que falar...
A procissão ainda não saíu do adro da igreja.
Espero que não dê uma uma grande bronca.
Ontem o Aviz e
A Montanha Magica (pelo menos) estiveram a conversar sobre futebol.
Hoje deparei com as notícias acerca da situação calamitosa que envolve o prosseguimento das obras dos estádios do Benfica e do Farense (pelo menos, também).
Confesso que fiquei preocupado - não tenho nada que me preocupar mas, que querem?
E pensei com os meus botões: isto do Euro 2004 e das obras nos estádios ainda vai dar muito que falar...
A procissão ainda não saíu do adro da igreja.
Espero que não dê uma uma grande bronca.
044 - MUITO HONRADO
O Blog "textos de contracapa" foi considerado Blog de serviço público, pelo apontador Blogues.
Blogues | Homepage | 30-06-2003 14:21:08
http://blogues.no.sapo.pt/
O Blog "textos de contracapa" foi considerado Blog de serviço público, pelo apontador Blogues.
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043 - AINDA O "DOMÍNIO PÚBLICO" E OS "LIVROS BRANCOS"
Gostava de tentar clarificar uma questão que abordei rapidamente no post 035 mas que, pelos comentários recebidos, verifiquei que muitos não entenderam, ou eu me expressei mal.
Trata-se da questão do “domínio público” e dos chamados “livros brancos”.
Os direitos patrimoniais de uma obra literária (os prazos são diferentes para outro tipo de obras) caem no chamado domínio público 70 anos após a morte do seu autor.
Tem-se entendido, genericamente, que a situação de “domínio público” permite que qualquer pessoa, instituição ou empresa, possa publicar essa obra com total liberdade. Não havendo portanto quaisquer encargos em termos de direitos autorais; tãopouco qualquer controlo sobre a genuinidade e exactidão do texto da obra.
Em quase todos os países tem-se verificado a publicação destas obras por supermercados, hipermercados, livrarias, particulares, editores menos cuidadosos - em confronto com outras edições (necessariamente mais caras) efectuadas com cuidadas fixações de texto realizadas normalmente por especialistas universitários.
São o que chamei “livros brancos”, mais graves ainda porque normalmente dirigidos a públicos escolares.
A meu ver, esta interpretação do “domínio público” como uma “balda” total, protege deficientemente os inalienáveis direitos morais do autor (um aspecto decisivo do direito de autor que tem a ver com o respeito devido à sua obra) e o património literário de um país que cabe ao Estado defender e cuidar.
Esta era aliás (se alguns se lembram) a tese defendida por Vasco Pulido Valente no tempo em que exerceu as funções de Secretário de Estado da Cultura, e que tanto incomodou alguns editores: a de que o Estado, através das suas instituições, não pode abdicar de tentar regular o controlo sobre a genuinidade da utilização dos textos caídos em domínio público.
A notícia do “The Wall Street Journal”, por mim citada nesse post 035 vai no entanto ainda mais longe: refere que, para além dos livros em domínio público, os supermercados, as cadeias de livrarias, se preparam agora também para efectuar edições originais, dispensando a intermediação do trabalho e do critério dos editores. Na origem desta iniciativa estiveram certamente as vendas entusiásticas dos Harry Potter e da biografia de Hillary Clinton.
Se eu vendo milhões de exemplares destes livros (pensaram eles) para que preciso dos editores? Além do mais, posso ainda dizer: sem eles o livro pode ser vendido mais barato. Ou ainda: vendendo tantos exemplares destes livros, para que hei-de ocupar espaço com a História, a Sociologia, a Ciência, a Poesia, os novos autores literários?
A saraivada de palermices que recebi como criticas, acusava-me de estar a proteger-me da concorrência.
É verdade.
Mas quando essa concorrência inundar o mercado livreiro apenas com os chamados livros de “alta rotação” (mais os “livros brancos”, mais a “literatura light”) onde vamos depois encontrar quem nos forneça alternativas?
Para que serve um editor? - era a minha interrogação em fim de carreira...
Gostava de tentar clarificar uma questão que abordei rapidamente no post 035 mas que, pelos comentários recebidos, verifiquei que muitos não entenderam, ou eu me expressei mal.
Trata-se da questão do “domínio público” e dos chamados “livros brancos”.
Os direitos patrimoniais de uma obra literária (os prazos são diferentes para outro tipo de obras) caem no chamado domínio público 70 anos após a morte do seu autor.
Tem-se entendido, genericamente, que a situação de “domínio público” permite que qualquer pessoa, instituição ou empresa, possa publicar essa obra com total liberdade. Não havendo portanto quaisquer encargos em termos de direitos autorais; tãopouco qualquer controlo sobre a genuinidade e exactidão do texto da obra.
Em quase todos os países tem-se verificado a publicação destas obras por supermercados, hipermercados, livrarias, particulares, editores menos cuidadosos - em confronto com outras edições (necessariamente mais caras) efectuadas com cuidadas fixações de texto realizadas normalmente por especialistas universitários.
São o que chamei “livros brancos”, mais graves ainda porque normalmente dirigidos a públicos escolares.
A meu ver, esta interpretação do “domínio público” como uma “balda” total, protege deficientemente os inalienáveis direitos morais do autor (um aspecto decisivo do direito de autor que tem a ver com o respeito devido à sua obra) e o património literário de um país que cabe ao Estado defender e cuidar.
Esta era aliás (se alguns se lembram) a tese defendida por Vasco Pulido Valente no tempo em que exerceu as funções de Secretário de Estado da Cultura, e que tanto incomodou alguns editores: a de que o Estado, através das suas instituições, não pode abdicar de tentar regular o controlo sobre a genuinidade da utilização dos textos caídos em domínio público.
A notícia do “The Wall Street Journal”, por mim citada nesse post 035 vai no entanto ainda mais longe: refere que, para além dos livros em domínio público, os supermercados, as cadeias de livrarias, se preparam agora também para efectuar edições originais, dispensando a intermediação do trabalho e do critério dos editores. Na origem desta iniciativa estiveram certamente as vendas entusiásticas dos Harry Potter e da biografia de Hillary Clinton.
Se eu vendo milhões de exemplares destes livros (pensaram eles) para que preciso dos editores? Além do mais, posso ainda dizer: sem eles o livro pode ser vendido mais barato. Ou ainda: vendendo tantos exemplares destes livros, para que hei-de ocupar espaço com a História, a Sociologia, a Ciência, a Poesia, os novos autores literários?
A saraivada de palermices que recebi como criticas, acusava-me de estar a proteger-me da concorrência.
É verdade.
Mas quando essa concorrência inundar o mercado livreiro apenas com os chamados livros de “alta rotação” (mais os “livros brancos”, mais a “literatura light”) onde vamos depois encontrar quem nos forneça alternativas?
Para que serve um editor? - era a minha interrogação em fim de carreira...
Domingo, Junho 29, 2003
042 - AUTORES, 2
Ao inserir acima a palavra "autores", a intenção é ir arquivando aqui alguns pequenos textos sobre escritores com quem tive, e tenho, a felicidade de conviver no decorrer do meu trabalho.
Comecei com José Cardoso Pires, precisamente no dia em que me desloco ao Bombarral para participar, com Ruy Zink, Edite e Ana Cardoso Pires, numa sessão de homenagem que lhe é dedicada pelo Município local.
Faz-me lembrar que Lisboa, a cidade que tanto lhe deve, permanece em silêncio apesar das promessas feitas.
Pretendi posteriormente inserir umas fotos neste post. Por inabilidade, apaguei os comentários que entretanto haviam sido enviados.
As minhas desculpas.
Ao inserir acima a palavra "autores", a intenção é ir arquivando aqui alguns pequenos textos sobre escritores com quem tive, e tenho, a felicidade de conviver no decorrer do meu trabalho.
Comecei com José Cardoso Pires, precisamente no dia em que me desloco ao Bombarral para participar, com Ruy Zink, Edite e Ana Cardoso Pires, numa sessão de homenagem que lhe é dedicada pelo Município local.
Faz-me lembrar que Lisboa, a cidade que tanto lhe deve, permanece em silêncio apesar das promessas feitas.
Pretendi posteriormente inserir umas fotos neste post. Por inabilidade, apaguei os comentários que entretanto haviam sido enviados.
As minhas desculpas.
041 - AUTORES, 1
JOSÉ CARDOSO PIRES
“a pior desgraça dum bebedor é deixar o copo a meio”
in A Cavalo no Diabo
Sempre tive dificuldade em entender os editores que não têm na relação com os seus autores a parcela mais importante do seu trabalho. Por mim sempre tentei fazer o contrário, iniciando relações profissionais que invariavelmente acabaram em estreitas relações de amizade. Não faz para mim qualquer sentido que o trabalho de um editor não se dirija em primeiro lugar à cumplicidade e à solidariedade com os seus autores.
Sei que há editores que procedem de modo inverso, ocupando a sua vida a ver catálogos, a ler informações sobre livros, a folhear revistas literárias, a consultar listas de best-sellers, a contactar com agentes, a comprar direitos a editores estrangeiros, escolhendo livros ou seleccionando manuscritos de que não conhecem os autores.
Por mim procuro sempre começar pelos autores.
Mesmo a intermediação dos Agentes, que com o evoluir dos tempos se tornou inevitável e imprescindível, sempre me deixou algo perplexo, apesar das estreitas relações que mantenho com a maior parte deles. Não sei como começou esta profissão, ignoro quem foi o primeiro agente a iniciar a sua actividade de representação, ou o primeiro escritor a fazer depender dela a sua relação com os seus editores. O primeiro contacto que tive com esta profissão, lembro-me bem, era ainda criança, foi através de uma senhora muito bem falante e muito bem engomada, que visitava periodicamente a nossa casa, e com quem o meu avô tinha de repartir, numa percentagem significativa, os resultados da sua actividade de contrabandista. A “Mulher do Neves”, anunciava a minha avó quando ela batia à porta. Ela entrava, instalava-se com ar arrogante, bebia o chá, e passava a tarde a falar de percentagens com o meu avô que invariavelmente cedia às suas exigências.
Passada a infância, tenho continuado a conviver com a “Mulher do Neves” sob as mais diversas formas, mesmo aqui, na actividade editorial.
A minha relação com o José Cardoso Pires durou mais de trinta anos e foi ele que, infelizmente, acabou por a interromper.
Conhecemo-nos mais ou menos por altura do suplemento literário do Diário de Lisboa e do & Etc., ainda publicado como suplemento do Jornal do Fundão, dirigido pelo nosso querido amigo António Paulouro, recentemente falecido. O Zé e o Vítor Silva Tavares eram os dinamizadores destes dois projectos; eu, um critico literário ainda em fase de aprendizagem.
O Zé acabara de lançar O Delfim com alguma inovação promocional para a época – estaríamos para aí em 1968 – mas a nossa relação profissional só viria a iniciar-se mais tarde, em 1977, com a publicação do E Agora José?, quando eu, depois da Arcádia (onde o Zé também publicou) dirigia a Moraes Editores.
Trabalhámos estes anos todos, até à sua morte em 26 de Outubro de 1998, sem nunca termos assinado um contrato de edição. Um dia, quando ambos o constatámos – o contrato existia, tínhamo-lo certamente discutido e acertado, mas ambos nos esquecêramos de o assinar – resolvemos ir comemorar devidamente a singularidade e a confiança da nossa relação de trabalho. O Zé costumava dizer, aliás, que as maiores amizades se forjam na seriedade de uma relação de trabalho.
Fui vê-lo ao hospital de Santa Maria poucos dias antes de falecer. Pedi para que nos deixassem sós. E falei com ele quando certamente já não podia ouvir-me. Os médicos diziam: sabemos pouco a este respeito...; ignoramos se o cérebro destes doentes ainda lhes permite ouvir-nos. Mesmo assim resolvi tentar. E conversei com ele longamente, como fazíamos tantas vezes, falei-lhe de projectos em que estávamos a trabalhar, tentei pedir-lhe que tivesse forças. O Zé abria os olhos, umas vezes parecia concordar, outras discordar, com aquele ar refilão e lisboeta que lhe conhecia tão bem. Comovi-me evidentemente. Mas ainda hoje continuo a pensar, ao contrário dos médicos, que ele me conseguiu ouvir.
As relações de trabalho com os autores não são coisa fácil – talvez por isso alguns editores, como aqueles que já citei, fujam um pouco destas tarefas. Com o Zé isso era particularmente verdade. Ele trazia os livros todos na cabeça. Quer dizer: depois de os escrever, concebia integralmente a capa, o tipo e o corpo da letra em que os queria impressos, a mancha da página, as referências da contracapa, a promoção, o lançamento, etc. Era de um rigor e meticulosidade impressionantes. Fazia desenhos do que queria e como queria, montava em folhas de papel cuidadosamente dobradas o aspecto do caderno inicial, a ficha técnica, a dedicatória, a altura exacta em que deveriam iniciar-se os começos de capítulo.
Entrava no meu gabinete de trabalho manhã cedo – o Zé nunca sentiu necessidade de pedir para ser recebido – punha em cima da mesa todos os seus esquemas e papelinhos (muitos dos quais evidentemente conservo), trabalhávamos até à hora do almoço discutindo tudo com o maior rigor. Profissionalmente, seria a palavra exacta, e seria a palavra que certamente ele mais gostaria de utilizar.
Ao almoço, então, púnhamos a “escrita em dia”, falando de literatura e de política, fazendo projectos, comentando escritores que ele respeitava e outros que o irritavam. Estes almoços eram sempre especiais. Normalmente acabavam com a Edite a vir buscar-nos para o jantar, para o qual já seriam mais do que horas... Nunca consegui perceber como é que ela nos conseguia descobrir, não existindo ainda os malfadados telemóveis. Mas a verdade é que nos encontrava sempre.
Nessa altura eu atrevia-me pouco a comentar-lhe os textos ou os títulos, tão grande era a cerimónia e o respeito que lhe tinha. Depois, com o passar dos anos, fui ganhando coragem para assumir em pleno o meu trabalho de editor, como ainda hoje o entendo, o primeiro leitor, o cúmplice, aquele com quem o escritor não tem que ter cerimónias. E passei a atrever-me, a discutir, a comentar, a sugerir, acabando com ele a escrever-me: “deixo-o comprometido com esta escrita e rogo ao Porco Sujo que faça com que ela lhe agrade”.
É verdade, já me esquecia: levámos trinta anos a resmungar um com o outro sem que nunca nos chegássemos a tratar por tu.
Quando morreu, o Presidente da Câmara de Lisboa, a cidade que ele amava e tanto lhe deve, apressou-se a prometer uma rua digna do seu nome, a Biblioteca Publica da Freguesia de Alvalade também com o seu nome e, dentro desta, uma sala onde depositar os seus livros, os seus arquivos, os seus manuscritos, a sua correspondência, de modo a permitir um acesso fácil a todos quantos quisessem estudar a sua obra.
Não consigo perdoar que nenhuma dessas promessas tenha sido cumprida, agora que se cumprem cinco anos após a sua morte. E isto, apesar da disponibilidade da família para ceder todos os materiais e apoiar todas as iniciativas nesse sentido.
É verdadeiramente indesculpável.
Felizmente que a Câmara Municipal de Vila de Rei soube suprir esta falha, organizando recentemente um colóquio sobre a obra do escritor seu conterrâneo e dando o seu nome a uma das suas ruas.
Que fará Lisboa entretanto ?
Sendo José Cardoso Pires, depois de Cesário, um dos seus melhores cantores.
Pouco certamente. Muito pouco, sabendo-se o estado actual das coisas da cultura.
Publicado no DNA de 14.12.2002
(Ao tentar inserir fotos apaguei os comentários recebidos. Perdoem.)
JOSÉ CARDOSO PIRES
“a pior desgraça dum bebedor é deixar o copo a meio”
in A Cavalo no Diabo
Sempre tive dificuldade em entender os editores que não têm na relação com os seus autores a parcela mais importante do seu trabalho. Por mim sempre tentei fazer o contrário, iniciando relações profissionais que invariavelmente acabaram em estreitas relações de amizade. Não faz para mim qualquer sentido que o trabalho de um editor não se dirija em primeiro lugar à cumplicidade e à solidariedade com os seus autores.
Sei que há editores que procedem de modo inverso, ocupando a sua vida a ver catálogos, a ler informações sobre livros, a folhear revistas literárias, a consultar listas de best-sellers, a contactar com agentes, a comprar direitos a editores estrangeiros, escolhendo livros ou seleccionando manuscritos de que não conhecem os autores.
Por mim procuro sempre começar pelos autores.
Mesmo a intermediação dos Agentes, que com o evoluir dos tempos se tornou inevitável e imprescindível, sempre me deixou algo perplexo, apesar das estreitas relações que mantenho com a maior parte deles. Não sei como começou esta profissão, ignoro quem foi o primeiro agente a iniciar a sua actividade de representação, ou o primeiro escritor a fazer depender dela a sua relação com os seus editores. O primeiro contacto que tive com esta profissão, lembro-me bem, era ainda criança, foi através de uma senhora muito bem falante e muito bem engomada, que visitava periodicamente a nossa casa, e com quem o meu avô tinha de repartir, numa percentagem significativa, os resultados da sua actividade de contrabandista. A “Mulher do Neves”, anunciava a minha avó quando ela batia à porta. Ela entrava, instalava-se com ar arrogante, bebia o chá, e passava a tarde a falar de percentagens com o meu avô que invariavelmente cedia às suas exigências.
Passada a infância, tenho continuado a conviver com a “Mulher do Neves” sob as mais diversas formas, mesmo aqui, na actividade editorial.
A minha relação com o José Cardoso Pires durou mais de trinta anos e foi ele que, infelizmente, acabou por a interromper.
Conhecemo-nos mais ou menos por altura do suplemento literário do Diário de Lisboa e do & Etc., ainda publicado como suplemento do Jornal do Fundão, dirigido pelo nosso querido amigo António Paulouro, recentemente falecido. O Zé e o Vítor Silva Tavares eram os dinamizadores destes dois projectos; eu, um critico literário ainda em fase de aprendizagem.
O Zé acabara de lançar O Delfim com alguma inovação promocional para a época – estaríamos para aí em 1968 – mas a nossa relação profissional só viria a iniciar-se mais tarde, em 1977, com a publicação do E Agora José?, quando eu, depois da Arcádia (onde o Zé também publicou) dirigia a Moraes Editores.
Trabalhámos estes anos todos, até à sua morte em 26 de Outubro de 1998, sem nunca termos assinado um contrato de edição. Um dia, quando ambos o constatámos – o contrato existia, tínhamo-lo certamente discutido e acertado, mas ambos nos esquecêramos de o assinar – resolvemos ir comemorar devidamente a singularidade e a confiança da nossa relação de trabalho. O Zé costumava dizer, aliás, que as maiores amizades se forjam na seriedade de uma relação de trabalho.
Fui vê-lo ao hospital de Santa Maria poucos dias antes de falecer. Pedi para que nos deixassem sós. E falei com ele quando certamente já não podia ouvir-me. Os médicos diziam: sabemos pouco a este respeito...; ignoramos se o cérebro destes doentes ainda lhes permite ouvir-nos. Mesmo assim resolvi tentar. E conversei com ele longamente, como fazíamos tantas vezes, falei-lhe de projectos em que estávamos a trabalhar, tentei pedir-lhe que tivesse forças. O Zé abria os olhos, umas vezes parecia concordar, outras discordar, com aquele ar refilão e lisboeta que lhe conhecia tão bem. Comovi-me evidentemente. Mas ainda hoje continuo a pensar, ao contrário dos médicos, que ele me conseguiu ouvir.
As relações de trabalho com os autores não são coisa fácil – talvez por isso alguns editores, como aqueles que já citei, fujam um pouco destas tarefas. Com o Zé isso era particularmente verdade. Ele trazia os livros todos na cabeça. Quer dizer: depois de os escrever, concebia integralmente a capa, o tipo e o corpo da letra em que os queria impressos, a mancha da página, as referências da contracapa, a promoção, o lançamento, etc. Era de um rigor e meticulosidade impressionantes. Fazia desenhos do que queria e como queria, montava em folhas de papel cuidadosamente dobradas o aspecto do caderno inicial, a ficha técnica, a dedicatória, a altura exacta em que deveriam iniciar-se os começos de capítulo.
Entrava no meu gabinete de trabalho manhã cedo – o Zé nunca sentiu necessidade de pedir para ser recebido – punha em cima da mesa todos os seus esquemas e papelinhos (muitos dos quais evidentemente conservo), trabalhávamos até à hora do almoço discutindo tudo com o maior rigor. Profissionalmente, seria a palavra exacta, e seria a palavra que certamente ele mais gostaria de utilizar.
Ao almoço, então, púnhamos a “escrita em dia”, falando de literatura e de política, fazendo projectos, comentando escritores que ele respeitava e outros que o irritavam. Estes almoços eram sempre especiais. Normalmente acabavam com a Edite a vir buscar-nos para o jantar, para o qual já seriam mais do que horas... Nunca consegui perceber como é que ela nos conseguia descobrir, não existindo ainda os malfadados telemóveis. Mas a verdade é que nos encontrava sempre.
Nessa altura eu atrevia-me pouco a comentar-lhe os textos ou os títulos, tão grande era a cerimónia e o respeito que lhe tinha. Depois, com o passar dos anos, fui ganhando coragem para assumir em pleno o meu trabalho de editor, como ainda hoje o entendo, o primeiro leitor, o cúmplice, aquele com quem o escritor não tem que ter cerimónias. E passei a atrever-me, a discutir, a comentar, a sugerir, acabando com ele a escrever-me: “deixo-o comprometido com esta escrita e rogo ao Porco Sujo que faça com que ela lhe agrade”.
É verdade, já me esquecia: levámos trinta anos a resmungar um com o outro sem que nunca nos chegássemos a tratar por tu.
Quando morreu, o Presidente da Câmara de Lisboa, a cidade que ele amava e tanto lhe deve, apressou-se a prometer uma rua digna do seu nome, a Biblioteca Publica da Freguesia de Alvalade também com o seu nome e, dentro desta, uma sala onde depositar os seus livros, os seus arquivos, os seus manuscritos, a sua correspondência, de modo a permitir um acesso fácil a todos quantos quisessem estudar a sua obra.
Não consigo perdoar que nenhuma dessas promessas tenha sido cumprida, agora que se cumprem cinco anos após a sua morte. E isto, apesar da disponibilidade da família para ceder todos os materiais e apoiar todas as iniciativas nesse sentido.
É verdadeiramente indesculpável.
Felizmente que a Câmara Municipal de Vila de Rei soube suprir esta falha, organizando recentemente um colóquio sobre a obra do escritor seu conterrâneo e dando o seu nome a uma das suas ruas.
Que fará Lisboa entretanto ?
Sendo José Cardoso Pires, depois de Cesário, um dos seus melhores cantores.
Pouco certamente. Muito pouco, sabendo-se o estado actual das coisas da cultura.
Publicado no DNA de 14.12.2002
(Ao tentar inserir fotos apaguei os comentários recebidos. Perdoem.)
040 - ANÓNIMOS, 3
Escreve-me Pedro Rolo Duarte para me informar que o comentário assinado com o seu nome e com o endereço de e-mail do DNA, incluído nos comentários ao meu post nº. 034, não é da sua autoria.
Agora, além dos anónimos, temos também os apócrifos.
Lamentável, na verdade.
Pensarei em eliminar de futuro o espaço para comentários.
Escreve-me Pedro Rolo Duarte para me informar que o comentário assinado com o seu nome e com o endereço de e-mail do DNA, incluído nos comentários ao meu post nº. 034, não é da sua autoria.
Agora, além dos anónimos, temos também os apócrifos.
Lamentável, na verdade.
Pensarei em eliminar de futuro o espaço para comentários.
Sábado, Junho 28, 2003
039 - ANÓNIMOS, 2
No meio dos comentários a estes posts acabo de responder a mais um anónimo: Tenente Blueberry.
Mas não vou ter capacidade para responder a todos os mails recebidos sobre este tema. Perdoem.
Deixo portanto aqui, com mais destaque, essa minha resposta.
Dizia mais ou menos o Tenente Blueberry: sem o recurso ao anonimato este não seria um espaço de liberdade.
Respondi eu, também mais ou menos: explique-me então, o que é que a liberdade tem a ver com o anonimato ? O anonimato pretende proteger, ou esconder, o quê ? Estamos na clandestinidade, agora no sentido em que ela nos permite tudo, incluindo a desresponsabilização pelas nossas ideias e afirmações ? Os políticos no activo, protegidos pela imunidade, deveriam também ser anónimos ? Os Juízes ? Repito: que protege aqui o anonimato ? O direito de insultar ou dizer disparates sem responsabilidade, sem colocar em causa a nossa privacidade ?
Os blogues, em amplos sentidos, pretendem ir mais longe do que a chamada comunicação tradicional. Ora esta não é anónima. Por que é que nós havemos de defender aqui o anonimato ?
No meio dos comentários a estes posts acabo de responder a mais um anónimo: Tenente Blueberry.
Mas não vou ter capacidade para responder a todos os mails recebidos sobre este tema. Perdoem.
Deixo portanto aqui, com mais destaque, essa minha resposta.
Dizia mais ou menos o Tenente Blueberry: sem o recurso ao anonimato este não seria um espaço de liberdade.
Respondi eu, também mais ou menos: explique-me então, o que é que a liberdade tem a ver com o anonimato ? O anonimato pretende proteger, ou esconder, o quê ? Estamos na clandestinidade, agora no sentido em que ela nos permite tudo, incluindo a desresponsabilização pelas nossas ideias e afirmações ? Os políticos no activo, protegidos pela imunidade, deveriam também ser anónimos ? Os Juízes ? Repito: que protege aqui o anonimato ? O direito de insultar ou dizer disparates sem responsabilidade, sem colocar em causa a nossa privacidade ?
Os blogues, em amplos sentidos, pretendem ir mais longe do que a chamada comunicação tradicional. Ora esta não é anónima. Por que é que nós havemos de defender aqui o anonimato ?
038 - MANIPULAÇÕES
Não se pode deixar de acompanhar as polémicas surgidas entre a blogosfera e a chamada imprensa tradicional.
Acabam por nos dizer respeito a todos.
E são um sintoma interessante.
Lendo tudo o que aqui se tem escrito sobre determinados temas, verificando depois o que disso é transcrito e "montado" na referida imprensa tradicional, ficam à vista alguns bons exemplos do que pode ser classificado como manipulação da opinião.
Mais grave ainda quanto muitos dos leitores dessa imprensa não acedem ainda à informação contida nos blogues.
Que se passará com a restante informação, aquela que os blogues não têm comentado ?
NOTA POSTERIOR:
Não deixa de ser curioso que este post (aparentemente ingénuo) não tenha tido comentários ou outras intervenções. Ao contrário da questão do "anonimato" que, não sendo essencial, mobilizou tantas energias, tantos mails, tantos insultos despropositados. Chegaram a citar-me Salazar...
Não se pode deixar de acompanhar as polémicas surgidas entre a blogosfera e a chamada imprensa tradicional.
Acabam por nos dizer respeito a todos.
E são um sintoma interessante.
Lendo tudo o que aqui se tem escrito sobre determinados temas, verificando depois o que disso é transcrito e "montado" na referida imprensa tradicional, ficam à vista alguns bons exemplos do que pode ser classificado como manipulação da opinião.
Mais grave ainda quanto muitos dos leitores dessa imprensa não acedem ainda à informação contida nos blogues.
Que se passará com a restante informação, aquela que os blogues não têm comentado ?
NOTA POSTERIOR:
Não deixa de ser curioso que este post (aparentemente ingénuo) não tenha tido comentários ou outras intervenções. Ao contrário da questão do "anonimato" que, não sendo essencial, mobilizou tantas energias, tantos mails, tantos insultos despropositados. Chegaram a citar-me Salazar...
037 - DISCUTIR ?
Às vezes, parece-me, discute-se quase só para se discutir, para se ter uma opinião
diferente, pelo prazer da contradição, para aparecer postado no blogue do parceiro do lado.
Leio todos os dias, como provavelmente todos nós, uns quantos blogues que mais me
interessam.
E não leio mais (não por indiferença ou falta de interesse) apenas
porque não tenho tempo.
Alguns deixam-me maravilhado: falam de coisas que eu não sei, transmitem-me
informação cuidada, ajudam-me a pensar. Outros, orientam as minhas escolhas
em matérias em que não sou de todo especialista, deslumbram-me com a
qualidade e a criatividade da sua escrita, com o volume e a consistência da
sua informação, com o seu humor.
Creio que um sociólogo teria aqui abundante matéria de trabalho.
Afinal não seremos uma geração assim tão "rasca"...
Também um editor encontra aqui com que trabalhar e aprender - algum dia terei de explicar que um
editor não é apenas "um gajo que vende livros", embora alguns o
possam ser.
Leio estes blogues com atenção e cuidado. Recebo o que tentam
transmitir. Quedo-me a reflectir sobre o que dizem. Comento-os - quando
é o caso - com a cortesia que justificam.
Infelizmente, porém, andam aqui no meio uns gagos sintácticos e mentais que se põem a
discutir e a insultar por tudo e por nada, falando do que claramente não
sabem e não pretendem aprender, treslendo o que a alguns deu algum trabalho e tempo a escrever,
dizendo atrozes palermices. Não sabem escrever, não sabem ler, não sabem pensar, procuram apenas mostrar-se julgando que têm graça.
A blogosfera "ainda não tem uma massa crítica estável", tem referido Pacheco Pereira. Contribuiremos certamente para uma gradual aquisição dessa estabilidade eliminando o anonimato.
Insisto.
Obrigado pelo apoio Ana Roque.
Às vezes, parece-me, discute-se quase só para se discutir, para se ter uma opinião
diferente, pelo prazer da contradição, para aparecer postado no blogue do parceiro do lado.
Leio todos os dias, como provavelmente todos nós, uns quantos blogues que mais me
interessam.
E não leio mais (não por indiferença ou falta de interesse) apenas
porque não tenho tempo.
Alguns deixam-me maravilhado: falam de coisas que eu não sei, transmitem-me
informação cuidada, ajudam-me a pensar. Outros, orientam as minhas escolhas
em matérias em que não sou de todo especialista, deslumbram-me com a
qualidade e a criatividade da sua escrita, com o volume e a consistência da
sua informação, com o seu humor.
Creio que um sociólogo teria aqui abundante matéria de trabalho.
Afinal não seremos uma geração assim tão "rasca"...
Também um editor encontra aqui com que trabalhar e aprender - algum dia terei de explicar que um
editor não é apenas "um gajo que vende livros", embora alguns o
possam ser.
Leio estes blogues com atenção e cuidado. Recebo o que tentam
transmitir. Quedo-me a reflectir sobre o que dizem. Comento-os - quando
é o caso - com a cortesia que justificam.
Infelizmente, porém, andam aqui no meio uns gagos sintácticos e mentais que se põem a
discutir e a insultar por tudo e por nada, falando do que claramente não
sabem e não pretendem aprender, treslendo o que a alguns deu algum trabalho e tempo a escrever,
dizendo atrozes palermices. Não sabem escrever, não sabem ler, não sabem pensar, procuram apenas mostrar-se julgando que têm graça.
A blogosfera "ainda não tem uma massa crítica estável", tem referido Pacheco Pereira. Contribuiremos certamente para uma gradual aquisição dessa estabilidade eliminando o anonimato.
Insisto.
Obrigado pelo apoio Ana Roque.
Sexta-feira, Junho 27, 2003
036 - ANÓNIMOS
Ao contrário do que se diz na revista Visão (pela minha boca) não gosto dos blogues nem dos comentários anónimos.
Os que nesse contexto chamei "anónimos" (palavra que não sei se utilizei no meu depoimento telefónico) eram as "pessoas não conhecidas publicamente".
Admito tranquilamente que algumas pessoas (provavelmente a maior parte) não gostem de assumir a responsabilidade por aquilo que dizem, prefiram não ser identificados, ou usem o anonimato para melhor esconder as suas pequenas maldades.
Eu não gosto.
Gosto de saber com quem estou a falar, com quem estou a discutir, gosto de saber a origem de um bom e inteligente comentário.
Não vejo aliás razão para o anonimato.
Prefiro saber que Pacheco Pereira pensa bem mas dá muitos erros de ortografia, o que é que Francisco José Viegas anda a ler, que aquele sentido de humor é praticado pelo Ricardo Araujo Pereira, que este filme me está a ser recomendado e apresentado pelo Nuno Centeio, ou comentado pelo Hugo, etc.
Tenho respondido a alguns anónimos, mas lá que goste, não gosto.
Acho que um espaço aberto e de liberdade como este, merecia tudo menos isto.
Por outro lado, a quebra do anonimato isolaria irremediavelmente quem anda aqui sem ideias ou reflexões para repartir.
Ao contrário do que se diz na revista Visão (pela minha boca) não gosto dos blogues nem dos comentários anónimos.
Os que nesse contexto chamei "anónimos" (palavra que não sei se utilizei no meu depoimento telefónico) eram as "pessoas não conhecidas publicamente".
Admito tranquilamente que algumas pessoas (provavelmente a maior parte) não gostem de assumir a responsabilidade por aquilo que dizem, prefiram não ser identificados, ou usem o anonimato para melhor esconder as suas pequenas maldades.
Eu não gosto.
Gosto de saber com quem estou a falar, com quem estou a discutir, gosto de saber a origem de um bom e inteligente comentário.
Não vejo aliás razão para o anonimato.
Prefiro saber que Pacheco Pereira pensa bem mas dá muitos erros de ortografia, o que é que Francisco José Viegas anda a ler, que aquele sentido de humor é praticado pelo Ricardo Araujo Pereira, que este filme me está a ser recomendado e apresentado pelo Nuno Centeio, ou comentado pelo Hugo, etc.
Tenho respondido a alguns anónimos, mas lá que goste, não gosto.
Acho que um espaço aberto e de liberdade como este, merecia tudo menos isto.
Por outro lado, a quebra do anonimato isolaria irremediavelmente quem anda aqui sem ideias ou reflexões para repartir.
Quinta-feira, Junho 26, 2003
035 - PARA QUE SERVE UM EDITOR ?
Para que serve uma Editora ? - no sentido de "uma empresa editorial" - perguntava há dias o The Wall Street Journal, na sequência dos mega sucessos recentemente colocados no mercado: último Harry Potter e a biografia de Hillary Clinton.
Para logo em seguida informar: Barnes & Noble, a maior cadeia de livrarias do mundo (900 postos de venda e 16% do total do mercado nos USA), projecta criar a sua própria Editora.
Projecta-se portanto uma espécie de "livros brancos", como se se tratasse de uma pasta de dentes ou um detergente sem marca.
No meio de tudo isto (pergunto-me), para que meandros ficará relegada esta minha velha profissão ?
E os Estados ? Continuarão a consentir que o património literário dos seus países (os chamados livros no domínio público) sejam cada vez mais "produtos brancos", ao sabor de iniciativas desreguladas, sem controlo de qualidade, e gratuitas em termos de custos de direitos autorais ?
Que deve entender-se exactamente por "domínio público" ?
Na verdade, se eu vendo milhões de exemplares do Harry Potter, porque não pensar em editá-lo eu próprio com uma margem superior ?
E Fernando Pessoa, em 2005, lá ficará também em domínio público...
O problema é que nas estruturas estatais ninguém pensa nestas questões.
Defender o património cultural "dá" poucos votos e muita maçada.
Para que serve uma Editora ? - no sentido de "uma empresa editorial" - perguntava há dias o The Wall Street Journal, na sequência dos mega sucessos recentemente colocados no mercado: último Harry Potter e a biografia de Hillary Clinton.
Para logo em seguida informar: Barnes & Noble, a maior cadeia de livrarias do mundo (900 postos de venda e 16% do total do mercado nos USA), projecta criar a sua própria Editora.
Projecta-se portanto uma espécie de "livros brancos", como se se tratasse de uma pasta de dentes ou um detergente sem marca.
No meio de tudo isto (pergunto-me), para que meandros ficará relegada esta minha velha profissão ?
E os Estados ? Continuarão a consentir que o património literário dos seus países (os chamados livros no domínio público) sejam cada vez mais "produtos brancos", ao sabor de iniciativas desreguladas, sem controlo de qualidade, e gratuitas em termos de custos de direitos autorais ?
Que deve entender-se exactamente por "domínio público" ?
Na verdade, se eu vendo milhões de exemplares do Harry Potter, porque não pensar em editá-lo eu próprio com uma margem superior ?
E Fernando Pessoa, em 2005, lá ficará também em domínio público...
O problema é que nas estruturas estatais ninguém pensa nestas questões.
Defender o património cultural "dá" poucos votos e muita maçada.
Terça-feira, Junho 24, 2003
034 - AS BATALHAS QUE VALEM A PENA
De vez em quando a blogosfera agita-se quase por inteiro e mobiliza-se para algumas batalhas.
Claro que a liberdade total deste meio também significa a liberdade total de se discutir o que cada um entender como importante.
Mas não deixa de ser excessivo.
É necessário distinguir o essencial do acessório.
O Pedro Rolo Duarte escreveu um texto infeliz e, provavelmente, mal pensado.
Mas será caso para tanto ruído?
Sou colaborador regular do DNa, embora não conheça o PRD nem tenha com ele qualquer relação.
Fica-me mal acrescentar muito mais a este comentário.
Mas aqui fica o que penso.
Much Ado About Nothing
De vez em quando a blogosfera agita-se quase por inteiro e mobiliza-se para algumas batalhas.
Claro que a liberdade total deste meio também significa a liberdade total de se discutir o que cada um entender como importante.
Mas não deixa de ser excessivo.
É necessário distinguir o essencial do acessório.
O Pedro Rolo Duarte escreveu um texto infeliz e, provavelmente, mal pensado.
Mas será caso para tanto ruído?
Sou colaborador regular do DNa, embora não conheça o PRD nem tenha com ele qualquer relação.
Fica-me mal acrescentar muito mais a este comentário.
Mas aqui fica o que penso.
Much Ado About Nothing
Segunda-feira, Junho 23, 2003
033 - CUSTOS DA INSULARIDADE ?
1. Pelo Dec.-Lei 284/97, de 22 de Outubro, são equiparados os preços de venda ao público de livros, revistas e jornais de natureza pedagógica, técnica, científica, literária, informativa e recreativa entre o Continente e as Regiões Autónomas, suportando o Estado os encargos totais relativos ao transporte e levantamento no destino das referidas publicações;
Tudo isto para que seja possível cumprir, também nas Regiões Autónomas, a legislação sobre o Preço Fixo do Livro;
Os encargos de expedição são reembolsados mediante a apresentação de documentos comprovativos, junto do IPLB - Instituto Português do Livro e das Bibliotecas;
O disposto no Dec-Lei acima referido, após algum tempo de experiência, veio a ser aperfeiçoado e clarificado pelo Dec.-Lei 112/99, de 14 de Abril;
2. Desde Agosto de 2002, o IPLB não tem procedido aos reembolsos devidos, invocando constrangimentos orçamentais;
3. Esta situação representa para qualquer editor uma quebra de receitas na sua tesouraria de uns largos milhares de euros;
4. A legislação do Preço Fixo do Livro tem sido portanto aplicada nas Regiões Autónomas à custa dos subsidios que os editores têm vindo a conceder ao Estado português;
1. Pelo Dec.-Lei 284/97, de 22 de Outubro, são equiparados os preços de venda ao público de livros, revistas e jornais de natureza pedagógica, técnica, científica, literária, informativa e recreativa entre o Continente e as Regiões Autónomas, suportando o Estado os encargos totais relativos ao transporte e levantamento no destino das referidas publicações;
Tudo isto para que seja possível cumprir, também nas Regiões Autónomas, a legislação sobre o Preço Fixo do Livro;
Os encargos de expedição são reembolsados mediante a apresentação de documentos comprovativos, junto do IPLB - Instituto Português do Livro e das Bibliotecas;
O disposto no Dec-Lei acima referido, após algum tempo de experiência, veio a ser aperfeiçoado e clarificado pelo Dec.-Lei 112/99, de 14 de Abril;
2. Desde Agosto de 2002, o IPLB não tem procedido aos reembolsos devidos, invocando constrangimentos orçamentais;
3. Esta situação representa para qualquer editor uma quebra de receitas na sua tesouraria de uns largos milhares de euros;
4. A legislação do Preço Fixo do Livro tem sido portanto aplicada nas Regiões Autónomas à custa dos subsidios que os editores têm vindo a conceder ao Estado português;
032 - PESSOA E A SIC
Ontem, Domingo, ao pousar por momentos num programa da SIC (sim, era o Herman...) alguém recitava Alvaro de Campos com uns ruídos como acompanhamento. E explicava à audiência (certamente grande) que Pessoa havia morrido há 115 anos.
Então o Pessoa já está no domínio público e eu não sabia ?
Que raio de profissional sou eu...
Vou já informar disto os meus colegas da Assírio & Alvim.
Ontem, Domingo, ao pousar por momentos num programa da SIC (sim, era o Herman...) alguém recitava Alvaro de Campos com uns ruídos como acompanhamento. E explicava à audiência (certamente grande) que Pessoa havia morrido há 115 anos.
Então o Pessoa já está no domínio público e eu não sabia ?
Que raio de profissional sou eu...
Vou já informar disto os meus colegas da Assírio & Alvim.
Domingo, Junho 22, 2003
031 - PEQUENAS DIFERENÇAS
Mesmo aqui ao lado, pequenas diferenças... Uma Ministra da Cultura que apesar de tudo existe; uma associação de editores que vai tendo iniciativas mesmo que não muito originais.
Do nosso lado, um Ministro da Cultura (pessoa respeitável) que advoga não fazer nada para não dar origem a criticas; duas Associações do sector, igualmente inoperantes, entretidas com as suas velhas discussões.
"Los poemas de Francisco de Quevedo, Mario Benedetti o José Hierro, los cuentos de Augusto Monterroso o los fragmentos de obras de José Jiménez Lozano, Rosa Chacel, Manuel Rivas, Max Aub o José Luis Pinillos formarán parte del paisaje interior de los autobuses (4.800 adhesivos), vagones de Metro (7.200) y trenes de cercanías de Madrid (4.000) gracias a la campaña «Libros a la calle», impulsada por el Gremio de Editores y Libreros de la ciudad. Enmarcada dentro del Plan de Fomento de Lectura propiciado por el Ministerio de Cultura, la campaña, que ayer presentó la ministra Pilar del Castillo, acompañada del presidente del Gremio de Libreros, Fernando Valverde, prosigue con el proyecto iniciado hace unos años de despertar el interés por la lectura entre los que aún no la han descubierto, reforzar el de los lectores y llevar los libros a un entorno cotidiano para los ciudadanos." (Marta Borcha - La Razón)
Mesmo aqui ao lado, pequenas diferenças... Uma Ministra da Cultura que apesar de tudo existe; uma associação de editores que vai tendo iniciativas mesmo que não muito originais.
Do nosso lado, um Ministro da Cultura (pessoa respeitável) que advoga não fazer nada para não dar origem a criticas; duas Associações do sector, igualmente inoperantes, entretidas com as suas velhas discussões.
"Los poemas de Francisco de Quevedo, Mario Benedetti o José Hierro, los cuentos de Augusto Monterroso o los fragmentos de obras de José Jiménez Lozano, Rosa Chacel, Manuel Rivas, Max Aub o José Luis Pinillos formarán parte del paisaje interior de los autobuses (4.800 adhesivos), vagones de Metro (7.200) y trenes de cercanías de Madrid (4.000) gracias a la campaña «Libros a la calle», impulsada por el Gremio de Editores y Libreros de la ciudad. Enmarcada dentro del Plan de Fomento de Lectura propiciado por el Ministerio de Cultura, la campaña, que ayer presentó la ministra Pilar del Castillo, acompañada del presidente del Gremio de Libreros, Fernando Valverde, prosigue con el proyecto iniciado hace unos años de despertar el interés por la lectura entre los que aún no la han descubierto, reforzar el de los lectores y llevar los libros a un entorno cotidiano para los ciudadanos." (Marta Borcha - La Razón)
Sábado, Junho 21, 2003
030 - FEIRA DO LIVRO DE LISBOA
Deixo aqui repetido o texto que, sobre o tema da Feira do Livro, hoje (21.06) publiquei no DNA.
Dentro dos temas de edição de que se ocupa este blogue, parece-me uma questão a sublinhar.
Para o ano teremos o Euro 2004 "em cima" das datas habituais de realização das Feiras do Livro de Lisboa e Porto.
Teremos as obras do túnel do Marquês de Pombal (com o Parque Eduardo VII como estaleiro), de que sabemos ainda muito pouca coisa de concreto.
Teremos também, ao cimo do Parque, a montagem de uma estrutura gigante (maior do que a roda que lá esteve), equivalente a um edificío de seis andares, alusiva ao Euro 2004. Julgo que um pavilhão multi-usos com a forma de uma bola.
No meio de tudo isto ficará a Feira ?
Ou será transferida para outro local ?
Em que datas se realizará ?
Se as duas associações do sector e a Camara não iniciarem desde já a preparação e discussão deste tema, esperam-se certamente maiores desconfortos do que os assinalados este ano neste meu texto.
Sugiro a nomeação imediata de uma comissão, com elementos representativos de cada área de responsabilidade, para iniciar desde já os seus trabalhos.
A FEIRA A QUEM A TRABALHA... (DNA 21.06.03)
Encerrou mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa. Vale a pena falar dela, como já fiz relativamente à do ano passado. Tanto mais que, este ano, tudo parece ter corrido de modo diferente, segundo a opinião generalizada dos editores e dos autores que dela são protagonistas.
O primeiro sinal surpreendente é que a Feira voltou a crescer em número de participantes – parecendo com isso ignorar a crise do sector tão insistentemente propalada por editores e por livreiros. Vejamos o que se passou este ano.
As principais questões: uma quebra de vendas assumida da ordem dos 30% (em alguns casos muito superior…), relativamente ao ano passado; ausência total de uma direcção central; uma deficiente organização do espaço que, apesar de renovado, não levou em consideração as reais necessidades dos participantes, antes provocando graves distorções entre eles.
As vendas: mais grave do que a queda de vendas em valor absoluto (embora muito significativa), parece ter sido a queda abrupta do número de unidades vendidas. Sintoma de que a crise geral do país (depois dos carros, dos electrodomésticos, do vestuário) chegou finalmente ao nível do preço dos livros (média entre 10 e 20 euros...). Era evidente a retracção, para quem pôde presenciá-la de perto. Desapareceram os grandes leitores, aqueles que aproveitavam a Feira para uma escolha mais ampla e minuciosa. Ficaram apenas os compradores ocasionais, os que andam a passear e funcionam por impulso, ao ver que um escritor está hoje a autografar os seus livros, que este ou aquele título está hoje em livro do dia, etc. Para alguns pequenos editores, o nível de vendas realizado poderá mesmo ter representado um prejuízo (dados os elevados encargos de inscrição, trabalhadores, custo real dos livros e direitos de autor, materiais de promoção, etc.). A Feira foi para eles, provavelmente, não uma ajuda, mas um aprofundamento da crise.
Ausência de direcção: todas as feiras, em todos os países, têm um responsável geral, alguém sempre presente, disponível para resolver o que acontece de imprevisto, para fazer cumprir os regulamentos, para dirimir e orientar os eventuais conflitos. Esta não tinha nada disso. Viveu-se ao abandono, sem ninguém capaz de tomar decisões em cima da hora. Tão-pouco se viram representantes das entidades organizadoras que, quando por lá passaram, o fizeram apenas para cuidar dos seus próprios interesses.
A organização do espaço: deixou-nos perplexos e desorientados, como a toda a gente. Os pavilhões infantis, destinados às crianças e aos pais que as tinham de levar ao colo, eram a última coisa da Feira, mesmo para além do Pavilhão Central, depois da subida de quase todo o Parque Eduardo VII. Cá em baixo, à entrada, a Feira fechava-se ao exterior mediante a colocação de dois enormes e despropositados pavilhões metálicos, estilo contentores, que a escondiam completamente da cidade, como por vergonha. Estes pavilhões (deturpando inteiramente uma bela foto de José Manuel Vasconcelos), tentavam criar um percurso de entrada em oblíquo que, não só deixava para trás e sem visitantes alguns stands de editores como, certamente por acaso, encaminhava o público, directamente, para alguns dos stands dos organizadores.
A implantação no terreno dos stands dos editores sofreu, este ano, também, algumas curiosas alterações. Tendo sido suprimida uma fila de stands junto à relva central do parque, de ambos os lados, foram esses stands intercalados no meio dos restantes, alargando excessivamente o comprimento da Feira e eliminando o espaço necessário aos autores para as suas sessões de autógrafos. Pensaram provavelmente os organizadores que era possível a edição sem autores, que os editores trabalham sem autores, ou então, o que é pior, quiseram afastar da Feira os escritores portugueses e anular o trabalho de quem os publica.
Por outro lado, esta nova disposição dos stands criou ao público dois circuitos de circulação distintos e, como se veio a provar, totalmente desequilibrados em termos do número de visitantes que os percorriam. De um lado, um percurso no meio de duas filas de stands; de outro, junto à relva central, com uma única fila de stands. Por cada 300 pessoas que visitaram a Feira e entraram por este último percurso, 1.300 pessoas escolheram o primeiro percurso para subir. Imagine-se o desnível de vendas potencial entre os editores colocados num e noutro circuito. A situação era de tal modo calamitosa que dispensava comentários: bastava olhar e constatar a diferença.
O Auditório Central sofreu igualmente profundas transformações relativamente ao ano anterior. De um espaço aberto, com paredes em vidro deixando ver um plano geral da Feira, transformou-se num caixote fechado, escuro, irrespirável de calor, forrado a alcatifa preta desde o chão até ao tecto. Que me desculpe a Clara Ferreira Alves mas, mesmo a programação cultural, pareceu-me este ano menos interessante e, sobretudo, com menor divulgação.
A Feira alargou-se em comprimento, já o disse. Mas a instalação sonora manteve a sua eficiência apenas no espaço previsto para o ano passado... provavelmente não havia mais fio disponível. Os sanitários eram escassos e já vi melhores quando a Câmara prepara as suas campanhas para a higiene dos cães; os restaurantes eram lamentáveis; a iluminação nocturna, em algumas zonas, deixaria boquiaberto qualquer técnico da especialidade.
Mas foi tudo mau?
Não, claro, e temos agora mais um ano inteiro para reflectir e voltar a fazer o mesmo, como de costume – agora nas vésperas do 2004. Ou, de uma vez por todas, entregar a Feira a quem de facto seja capaz de a organizar convenientemente. Talvez em diálogo com quem nela trabalha.
Deixo aqui repetido o texto que, sobre o tema da Feira do Livro, hoje (21.06) publiquei no DNA.
Dentro dos temas de edição de que se ocupa este blogue, parece-me uma questão a sublinhar.
Para o ano teremos o Euro 2004 "em cima" das datas habituais de realização das Feiras do Livro de Lisboa e Porto.
Teremos as obras do túnel do Marquês de Pombal (com o Parque Eduardo VII como estaleiro), de que sabemos ainda muito pouca coisa de concreto.
Teremos também, ao cimo do Parque, a montagem de uma estrutura gigante (maior do que a roda que lá esteve), equivalente a um edificío de seis andares, alusiva ao Euro 2004. Julgo que um pavilhão multi-usos com a forma de uma bola.
No meio de tudo isto ficará a Feira ?
Ou será transferida para outro local ?
Em que datas se realizará ?
Se as duas associações do sector e a Camara não iniciarem desde já a preparação e discussão deste tema, esperam-se certamente maiores desconfortos do que os assinalados este ano neste meu texto.
Sugiro a nomeação imediata de uma comissão, com elementos representativos de cada área de responsabilidade, para iniciar desde já os seus trabalhos.
A FEIRA A QUEM A TRABALHA... (DNA 21.06.03)
Encerrou mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa. Vale a pena falar dela, como já fiz relativamente à do ano passado. Tanto mais que, este ano, tudo parece ter corrido de modo diferente, segundo a opinião generalizada dos editores e dos autores que dela são protagonistas.
O primeiro sinal surpreendente é que a Feira voltou a crescer em número de participantes – parecendo com isso ignorar a crise do sector tão insistentemente propalada por editores e por livreiros. Vejamos o que se passou este ano.
As principais questões: uma quebra de vendas assumida da ordem dos 30% (em alguns casos muito superior…), relativamente ao ano passado; ausência total de uma direcção central; uma deficiente organização do espaço que, apesar de renovado, não levou em consideração as reais necessidades dos participantes, antes provocando graves distorções entre eles.
As vendas: mais grave do que a queda de vendas em valor absoluto (embora muito significativa), parece ter sido a queda abrupta do número de unidades vendidas. Sintoma de que a crise geral do país (depois dos carros, dos electrodomésticos, do vestuário) chegou finalmente ao nível do preço dos livros (média entre 10 e 20 euros...). Era evidente a retracção, para quem pôde presenciá-la de perto. Desapareceram os grandes leitores, aqueles que aproveitavam a Feira para uma escolha mais ampla e minuciosa. Ficaram apenas os compradores ocasionais, os que andam a passear e funcionam por impulso, ao ver que um escritor está hoje a autografar os seus livros, que este ou aquele título está hoje em livro do dia, etc. Para alguns pequenos editores, o nível de vendas realizado poderá mesmo ter representado um prejuízo (dados os elevados encargos de inscrição, trabalhadores, custo real dos livros e direitos de autor, materiais de promoção, etc.). A Feira foi para eles, provavelmente, não uma ajuda, mas um aprofundamento da crise.
Ausência de direcção: todas as feiras, em todos os países, têm um responsável geral, alguém sempre presente, disponível para resolver o que acontece de imprevisto, para fazer cumprir os regulamentos, para dirimir e orientar os eventuais conflitos. Esta não tinha nada disso. Viveu-se ao abandono, sem ninguém capaz de tomar decisões em cima da hora. Tão-pouco se viram representantes das entidades organizadoras que, quando por lá passaram, o fizeram apenas para cuidar dos seus próprios interesses.
A organização do espaço: deixou-nos perplexos e desorientados, como a toda a gente. Os pavilhões infantis, destinados às crianças e aos pais que as tinham de levar ao colo, eram a última coisa da Feira, mesmo para além do Pavilhão Central, depois da subida de quase todo o Parque Eduardo VII. Cá em baixo, à entrada, a Feira fechava-se ao exterior mediante a colocação de dois enormes e despropositados pavilhões metálicos, estilo contentores, que a escondiam completamente da cidade, como por vergonha. Estes pavilhões (deturpando inteiramente uma bela foto de José Manuel Vasconcelos), tentavam criar um percurso de entrada em oblíquo que, não só deixava para trás e sem visitantes alguns stands de editores como, certamente por acaso, encaminhava o público, directamente, para alguns dos stands dos organizadores.
A implantação no terreno dos stands dos editores sofreu, este ano, também, algumas curiosas alterações. Tendo sido suprimida uma fila de stands junto à relva central do parque, de ambos os lados, foram esses stands intercalados no meio dos restantes, alargando excessivamente o comprimento da Feira e eliminando o espaço necessário aos autores para as suas sessões de autógrafos. Pensaram provavelmente os organizadores que era possível a edição sem autores, que os editores trabalham sem autores, ou então, o que é pior, quiseram afastar da Feira os escritores portugueses e anular o trabalho de quem os publica.
Por outro lado, esta nova disposição dos stands criou ao público dois circuitos de circulação distintos e, como se veio a provar, totalmente desequilibrados em termos do número de visitantes que os percorriam. De um lado, um percurso no meio de duas filas de stands; de outro, junto à relva central, com uma única fila de stands. Por cada 300 pessoas que visitaram a Feira e entraram por este último percurso, 1.300 pessoas escolheram o primeiro percurso para subir. Imagine-se o desnível de vendas potencial entre os editores colocados num e noutro circuito. A situação era de tal modo calamitosa que dispensava comentários: bastava olhar e constatar a diferença.
O Auditório Central sofreu igualmente profundas transformações relativamente ao ano anterior. De um espaço aberto, com paredes em vidro deixando ver um plano geral da Feira, transformou-se num caixote fechado, escuro, irrespirável de calor, forrado a alcatifa preta desde o chão até ao tecto. Que me desculpe a Clara Ferreira Alves mas, mesmo a programação cultural, pareceu-me este ano menos interessante e, sobretudo, com menor divulgação.
A Feira alargou-se em comprimento, já o disse. Mas a instalação sonora manteve a sua eficiência apenas no espaço previsto para o ano passado... provavelmente não havia mais fio disponível. Os sanitários eram escassos e já vi melhores quando a Câmara prepara as suas campanhas para a higiene dos cães; os restaurantes eram lamentáveis; a iluminação nocturna, em algumas zonas, deixaria boquiaberto qualquer técnico da especialidade.
Mas foi tudo mau?
Não, claro, e temos agora mais um ano inteiro para reflectir e voltar a fazer o mesmo, como de costume – agora nas vésperas do 2004. Ou, de uma vez por todas, entregar a Feira a quem de facto seja capaz de a organizar convenientemente. Talvez em diálogo com quem nela trabalha.
Quinta-feira, Junho 19, 2003
029 - INTERREGNO
Estando fora de Lisboa alguns dias, a comunicação com os blogues torna-se mais difícil e morosa sem a ligação por banda larga.
Mas, verifico, já não passo sem a leitura actualizada de alguns deles.
Não vou falar dos vários textos que a comunicação social tradicional tem dedicado ultimamente ao “fenómeno dos blogues”, porque todos certamente os lemos. Sublinho apenas que começam a ser muitos.
Mesmo aqui, à distância, recebi um telefonema de um jornalista da Visão a fazer perguntas sobre o tema. Disse-me que tinha estado falar também com outros bloguistas. Teremos então, em próxima edição, um texto mais desenvolvido da Visão.
A coisa alarga-se no exterior. Enquanto, internamente, a discussão também subiu de nível e alargou-se a espaços (quantidade de blogues que estão a intervir) que tornam já difícil o seu acompanhamento.
Vai-se estabelecendo uma “ética”, uma linguagem (também já adoptei o “blogue”), por entre os vários tipos de discursos “especializados”.
Pacheco Pereira até me chama “o nosso editor”, colocando-me ao lado do “nosso latinista”, da “nossa jurista”, etc. – depois faço os links.
O jornalista da Visão pergunta-me concretamente o que anda um editor a fazer no meio dos blogues.
- À espreita, entre outras coisas – poderia eu ter respondido, o meu trabalho também é esse…
No meio dos blogues há excelentes “escritas”, excelentes analistas, excelentes divulgadores. Vale a pena acompanhá-los, tentar perceber o que se passa.
Alguns falam mesmo de projectos editoriais que têm em curso – quando está terminado esse livro, Pacheco Pereira? Estou à disposição…
Mas para além deste “estar à espreita” profissional (um editor nunca deixa de estar em serviço) existe sobretudo a noção de que se está a participar de algo de novo e importante.
Estando fora de Lisboa alguns dias, a comunicação com os blogues torna-se mais difícil e morosa sem a ligação por banda larga.
Mas, verifico, já não passo sem a leitura actualizada de alguns deles.
Não vou falar dos vários textos que a comunicação social tradicional tem dedicado ultimamente ao “fenómeno dos blogues”, porque todos certamente os lemos. Sublinho apenas que começam a ser muitos.
Mesmo aqui, à distância, recebi um telefonema de um jornalista da Visão a fazer perguntas sobre o tema. Disse-me que tinha estado falar também com outros bloguistas. Teremos então, em próxima edição, um texto mais desenvolvido da Visão.
A coisa alarga-se no exterior. Enquanto, internamente, a discussão também subiu de nível e alargou-se a espaços (quantidade de blogues que estão a intervir) que tornam já difícil o seu acompanhamento.
Vai-se estabelecendo uma “ética”, uma linguagem (também já adoptei o “blogue”), por entre os vários tipos de discursos “especializados”.
Pacheco Pereira até me chama “o nosso editor”, colocando-me ao lado do “nosso latinista”, da “nossa jurista”, etc. – depois faço os links.
O jornalista da Visão pergunta-me concretamente o que anda um editor a fazer no meio dos blogues.
- À espreita, entre outras coisas – poderia eu ter respondido, o meu trabalho também é esse…
No meio dos blogues há excelentes “escritas”, excelentes analistas, excelentes divulgadores. Vale a pena acompanhá-los, tentar perceber o que se passa.
Alguns falam mesmo de projectos editoriais que têm em curso – quando está terminado esse livro, Pacheco Pereira? Estou à disposição…
Mas para além deste “estar à espreita” profissional (um editor nunca deixa de estar em serviço) existe sobretudo a noção de que se está a participar de algo de novo e importante.
Quarta-feira, Junho 18, 2003
028 - OS MEUS LIVROS
Tem razão Pacheco Pereira nos irónicos comentários que faz a um conjunto de depoimentos incluídos no último número da revista Os Meus Livros sobre os livros proibidos pela censura antes de 25 de Abril.
Também já o tinha notado, divertido. Mas não comentei, por preguiça.
Há pessoas que querem "entrar na História" forçando as suas (dela) verdades.
Ou então, não liam tanto, nessa altura, como nos querem fazer crer.
Como se sabe, antes do 25 de Abril, contrariamente à imprensa escrita, os livros não tinham censura prévia. O seu exame era feito à posteriori, já depois da publicação, a não ser que houvesse denuncias ou suspeitas que motivassem outra actuação da Polícia.
Eram então retirados do mercado (livrarias), recolhidos dos armazens das editoras e até mesmo das tipografias que os imprimiam.
Só que esses livros não eram os que estas pessoas candidamente agora mencionam.
Eça, por exemplo, nunca esteve proibido (a Policia não era parva de todo), a "censura" que sobre os seus livros se exercia era uma censura doméstica, de costumes, de carácter religioso fundamentalmente.
A Polícia nunca se atreveu a proibir os seus livros, cedendo às pressões da Igreja. Eça era um símbolo nacional e, além disso, do ponto de vista político, da sua leitura não viria mal ao mundo. Estudava-se no liceu - a prova oral do meu exame de Literatura do 7º ano (no Liceu Camões, com Vergilio Ferreira) foi integralmente sobre os romances de Eça.
Outro caso curioso foi o de "O Dinossauro Excelentíssimo" de José Cardoso Pires, cuja primeira edição era acompanhada pelas famosas ilustrações de João Abel Manta.
Prevendo-se a sua apreensão imediata, o livro foi lançado (intencionalmente) com uma larga distribuição e um grande alarido de imprensa. A sua circulação motivou por isso uma tarde de acaloradas discussões na Assembleia Nacional, com acusações dos deputados à ineficácia da Polícia.
Com tanto espectáculo e publicidade, a Polícia já não se atreveu a retirá-lo do mercado. O escandalo seria maior que os prejuízos da sua circulação.
A Censura sabia bem o que fazia e a quem o fazia, ao contrário do que se relatou depois sobre os "disparates dos coronéis".
Que o digam aqueles que regularmente escreviam na imprensa. O corte de uma simples palavra, às vezes, era-lhes suficiente para nos destruir um texto. Ou, no caso das editoras, duas ou três apreensões sucessivas eram bastantes para abalar a frágil estrutura económica das editoras de então.
Quanto às listas de Marcelo, também é verdade. Como com os seus comentários a livros na TVI. Generosamente, Marcelo Rebelo de Sousa tenta apoiar a divulgação dos livros de autores portugueses. Mas fá-lo no pior dos sentidos, misturando tudo (desde as edições camarárias ou de confissões religiosas aos livros de autores na verdade importantes), denunciando uma forma de leitura apressada, superficial, sem critério. A chamada "leitura de badana", dos textos de contracapa - já agora, para fazer ironia com o título destes textos.
Alguém lhe deveria explicar que não é deste modo que se ganham leitores nem se incentiva a leitura - tal como ele procura explicar aos políticos as suas boas ou más intervenções ou actuações. A leitura não é isto. Nem se pode querer mostrar (por muito pouco que se diga que se dorme) que se leu em média dois ou três livros por dia. Os editores estão-lhe gratos pela sua generosidade e boa intenção - e já lho demonstraram publicamente. Mas esta avalanche de "leituras" só o desdignifica a ele e desorienta os leitores.
Tem razão Pacheco Pereira nos irónicos comentários que faz a um conjunto de depoimentos incluídos no último número da revista Os Meus Livros sobre os livros proibidos pela censura antes de 25 de Abril.
Também já o tinha notado, divertido. Mas não comentei, por preguiça.
Há pessoas que querem "entrar na História" forçando as suas (dela) verdades.
Ou então, não liam tanto, nessa altura, como nos querem fazer crer.
Como se sabe, antes do 25 de Abril, contrariamente à imprensa escrita, os livros não tinham censura prévia. O seu exame era feito à posteriori, já depois da publicação, a não ser que houvesse denuncias ou suspeitas que motivassem outra actuação da Polícia.
Eram então retirados do mercado (livrarias), recolhidos dos armazens das editoras e até mesmo das tipografias que os imprimiam.
Só que esses livros não eram os que estas pessoas candidamente agora mencionam.
Eça, por exemplo, nunca esteve proibido (a Policia não era parva de todo), a "censura" que sobre os seus livros se exercia era uma censura doméstica, de costumes, de carácter religioso fundamentalmente.
A Polícia nunca se atreveu a proibir os seus livros, cedendo às pressões da Igreja. Eça era um símbolo nacional e, além disso, do ponto de vista político, da sua leitura não viria mal ao mundo. Estudava-se no liceu - a prova oral do meu exame de Literatura do 7º ano (no Liceu Camões, com Vergilio Ferreira) foi integralmente sobre os romances de Eça.
Outro caso curioso foi o de "O Dinossauro Excelentíssimo" de José Cardoso Pires, cuja primeira edição era acompanhada pelas famosas ilustrações de João Abel Manta.
Prevendo-se a sua apreensão imediata, o livro foi lançado (intencionalmente) com uma larga distribuição e um grande alarido de imprensa. A sua circulação motivou por isso uma tarde de acaloradas discussões na Assembleia Nacional, com acusações dos deputados à ineficácia da Polícia.
Com tanto espectáculo e publicidade, a Polícia já não se atreveu a retirá-lo do mercado. O escandalo seria maior que os prejuízos da sua circulação.
A Censura sabia bem o que fazia e a quem o fazia, ao contrário do que se relatou depois sobre os "disparates dos coronéis".
Que o digam aqueles que regularmente escreviam na imprensa. O corte de uma simples palavra, às vezes, era-lhes suficiente para nos destruir um texto. Ou, no caso das editoras, duas ou três apreensões sucessivas eram bastantes para abalar a frágil estrutura económica das editoras de então.
Quanto às listas de Marcelo, também é verdade. Como com os seus comentários a livros na TVI. Generosamente, Marcelo Rebelo de Sousa tenta apoiar a divulgação dos livros de autores portugueses. Mas fá-lo no pior dos sentidos, misturando tudo (desde as edições camarárias ou de confissões religiosas aos livros de autores na verdade importantes), denunciando uma forma de leitura apressada, superficial, sem critério. A chamada "leitura de badana", dos textos de contracapa - já agora, para fazer ironia com o título destes textos.
Alguém lhe deveria explicar que não é deste modo que se ganham leitores nem se incentiva a leitura - tal como ele procura explicar aos políticos as suas boas ou más intervenções ou actuações. A leitura não é isto. Nem se pode querer mostrar (por muito pouco que se diga que se dorme) que se leu em média dois ou três livros por dia. Os editores estão-lhe gratos pela sua generosidade e boa intenção - e já lho demonstraram publicamente. Mas esta avalanche de "leituras" só o desdignifica a ele e desorienta os leitores.
Segunda-feira, Junho 16, 2003
027 - DAVID LYNCH (2)
Com tantos mails recebidos sobre o assunto, voltemos então ao filme de David Lynch - embora esta conversa tenha um ano de atraso relativamente ao filme, que me desculpem os cinéfilos. Nem sempre se pode dar atenção a tudo, embora se devesse. Na altura da estreia, eu havia assistido, durante um jantar, a uma conversa entre Eduardo Prado Coelho e Inês Pedrosa acerca do filme. Fiquei curioso. Mas acabei por o "perder" no seu circuito normal.
Até agora, confesso, a melhor leitura acabei por encontrá-la nos comentários ao meu primeiro post.
Diz "H", do fordmustang : "um filme (...) feito para ser desfrutado mais do que analisado; feito para ser apreciado na sua componente estética e de caracterização de estados psicológicos de perplexidade, desorientação e de não-retorno, mais do que para estabelecer uma posição ou uma análise racional sobre determinado assunto".
É neste sentido que eu disse que o filme nos ajuda a repensar muita coisa.
Nomeadamente alguma literatura actual.
Lembro-me, por exemplo, do meu autor António Lobo Antunes quando escreveu: "gostava que os meus romances fossem lidos como se apanha uma doença". Referia-se evidentemente aos seus romances deste ciclo mais recente, os que implicam maior trabalho de leitura, nomeadamente ao ainda inédito "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (Outubro/Novembro).
Diz o António: trata-se de um livro em que "regresso" a Angola, sobre o tráfego de diamantes, as pessoas na sociedade angolana actual.
Depois a gente vai ler e o livro não é nada disso. Ou seja: pode até "passar" por este "tema", mas é "sobre" muitas outras coisas. Para o lermos temos de "mergulhar" no texto (como quem apanha uma doença) e deixarmo-nos conduzir por ele. Como se o livro tivesse criado (construído) as suas regras próprias, deixando-nos "entrar" nele se nos entregamos; "recusando-nos" a entrada se o queremos forçar a um único significado, a uma leitura puramente interpretativa.
É assim com a montagem final do que Lynch filmou para Mulholland Drive.
Dadas as suas "ligações" com este tipo de cinema, percebi também por que é que são os leitores mais jovens os mais entusiastas com as obras mais recentes do António, enquanto os leitores da geração anterior (a minha) encontram certas dificuldades com a leitura dos seus romances actuais.
Insisto: vale a pena "reler" este filme, deixarmo-nos conduzir por ele sem fazer grandes interrogações. Como se alguém nos conduzisse pela mão até ao fundo (de quê?), e nós nos deixássemos arrastar, temerosos mas perplexos.
Desculpem as aspas (muitas), que em mim são uma forma de destacar as palavras cujo significado literal se pretende forçar...
Com tantos mails recebidos sobre o assunto, voltemos então ao filme de David Lynch - embora esta conversa tenha um ano de atraso relativamente ao filme, que me desculpem os cinéfilos. Nem sempre se pode dar atenção a tudo, embora se devesse. Na altura da estreia, eu havia assistido, durante um jantar, a uma conversa entre Eduardo Prado Coelho e Inês Pedrosa acerca do filme. Fiquei curioso. Mas acabei por o "perder" no seu circuito normal.
Até agora, confesso, a melhor leitura acabei por encontrá-la nos comentários ao meu primeiro post.
Diz "H", do fordmustang : "um filme (...) feito para ser desfrutado mais do que analisado; feito para ser apreciado na sua componente estética e de caracterização de estados psicológicos de perplexidade, desorientação e de não-retorno, mais do que para estabelecer uma posição ou uma análise racional sobre determinado assunto".
É neste sentido que eu disse que o filme nos ajuda a repensar muita coisa.
Nomeadamente alguma literatura actual.
Lembro-me, por exemplo, do meu autor António Lobo Antunes quando escreveu: "gostava que os meus romances fossem lidos como se apanha uma doença". Referia-se evidentemente aos seus romances deste ciclo mais recente, os que implicam maior trabalho de leitura, nomeadamente ao ainda inédito "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo" (Outubro/Novembro).
Diz o António: trata-se de um livro em que "regresso" a Angola, sobre o tráfego de diamantes, as pessoas na sociedade angolana actual.
Depois a gente vai ler e o livro não é nada disso. Ou seja: pode até "passar" por este "tema", mas é "sobre" muitas outras coisas. Para o lermos temos de "mergulhar" no texto (como quem apanha uma doença) e deixarmo-nos conduzir por ele. Como se o livro tivesse criado (construído) as suas regras próprias, deixando-nos "entrar" nele se nos entregamos; "recusando-nos" a entrada se o queremos forçar a um único significado, a uma leitura puramente interpretativa.
É assim com a montagem final do que Lynch filmou para Mulholland Drive.
Dadas as suas "ligações" com este tipo de cinema, percebi também por que é que são os leitores mais jovens os mais entusiastas com as obras mais recentes do António, enquanto os leitores da geração anterior (a minha) encontram certas dificuldades com a leitura dos seus romances actuais.
Insisto: vale a pena "reler" este filme, deixarmo-nos conduzir por ele sem fazer grandes interrogações. Como se alguém nos conduzisse pela mão até ao fundo (de quê?), e nós nos deixássemos arrastar, temerosos mas perplexos.
Desculpem as aspas (muitas), que em mim são uma forma de destacar as palavras cujo significado literal se pretende forçar...
Sábado, Junho 14, 2003
026 - AZARES
Algumas pessoas costumam dizer: ando em maré de azares...
Que raio se passará com o PS e com Ferro Rodrigues ?
Andam em "maré de azares" ?
Pois bem parece. Sobretudo depois da intervenção de Armando Vara sobre a amnistia promulgada pelo PR nos 25 anos do 25 de Abril.
Só faltava mais esta: uma Oposição completamente manietada pelo avolumar dos seus próprios erros e disparates.
É o momento em que os independentes se sentem orfãos...
Algumas pessoas costumam dizer: ando em maré de azares...
Que raio se passará com o PS e com Ferro Rodrigues ?
Andam em "maré de azares" ?
Pois bem parece. Sobretudo depois da intervenção de Armando Vara sobre a amnistia promulgada pelo PR nos 25 anos do 25 de Abril.
Só faltava mais esta: uma Oposição completamente manietada pelo avolumar dos seus próprios erros e disparates.
É o momento em que os independentes se sentem orfãos...
025 - NOVIDADES POR AQUI
Com muito esforço, com muita paciência (sou tudo menos um especialista), lá consegui introduzir no Blog a possibilidade de comentários aos textos e um contador de visitas.
Vou descobrindo que as capacidades dos Blogs são enormes - para além das outras, que o Pacheco Pereira e a A. Roque têm estado a propor-nos para reflexão, com pouco êxito, infelizmente.
Uma delas, que não consegui ainda aprender, é a junção de imagens, que me "faz inveja" quando percorro alguns dos Blogs que leio regularmente.
Hoje é o penúltimo dia da Feira do Livro. Lá estarei, acompanhando o António Lobo Antunes - porque será que os escritores se sentirão tão desprotegidos diante dos seus leitores ? - alguns, claro, outros fazem disso um espectáculo de marionetas.
Leiam a crónica de Jorge Silva Melo, hoje, no MilFolhas do Público.
Leiam-no regularmente. Vale quase sempre a pena.
Com muito esforço, com muita paciência (sou tudo menos um especialista), lá consegui introduzir no Blog a possibilidade de comentários aos textos e um contador de visitas.
Vou descobrindo que as capacidades dos Blogs são enormes - para além das outras, que o Pacheco Pereira e a A. Roque têm estado a propor-nos para reflexão, com pouco êxito, infelizmente.
Uma delas, que não consegui ainda aprender, é a junção de imagens, que me "faz inveja" quando percorro alguns dos Blogs que leio regularmente.
Hoje é o penúltimo dia da Feira do Livro. Lá estarei, acompanhando o António Lobo Antunes - porque será que os escritores se sentirão tão desprotegidos diante dos seus leitores ? - alguns, claro, outros fazem disso um espectáculo de marionetas.
Leiam a crónica de Jorge Silva Melo, hoje, no MilFolhas do Público.
Leiam-no regularmente. Vale quase sempre a pena.
Sexta-feira, Junho 13, 2003
024 - O FBI E O CONTROLO DAS LEITURAS
Iniciei este blog com uma informação dos USA acerca do controlo do FBI sobre os cartões de crédito dos compradores de livros em Livrarias (001). Chegamos agora às requisições de leitura nas Bibliotecas.
(Lucía Petisco - Tribuna de Salamanca)
Las máquinas que guillotinan documentos están trabajando a destajo en algunas bibliotecas de California. El objetivo: salvaguardar los historiales de los lectores, y evitar que el FBI indague en sus archivos. Después de los atentados del 11 de septiembre, y con la lucha contra el terrorismo por bandera, se ha dado más poder al FBI y se le ha permitido incluso el acceso a los archivos de las bibliotecas. ¡Qué peligro! (...)
Tratar de controlar lo que el ciudadano lee, buscar relaciones entre lo que dicen los libros y lo que hace o piensa una persona es un peligro y, sobre todo, una amenaza a la libertad. A este paso, algún día se retomará el término de escritor maldito, y se meterán en ese saco la obra de Bukowski, por su burla al sueño americano; la de Saramago, por su grito contra la guerra; o las historias de Juan José Millás, y Eduardo Haro Tecglen por sus continuas irreverencias hacia la clase política.
Menos mal que esto es sólo un ejercicio de imaginación... al menos de momento.
Y como ahora estamos en plena Feria del Libro, nada mejor que ampliar ese historial literario, y lograr reducir el porcentaje de la población que declara que no lee nunca o casi nunca (nada más y nada menos que el 46 por ciento).
Saquen libros de la biblioteca, intercambien novelas con el vecino, pero lean...
Iniciei este blog com uma informação dos USA acerca do controlo do FBI sobre os cartões de crédito dos compradores de livros em Livrarias (001). Chegamos agora às requisições de leitura nas Bibliotecas.
(Lucía Petisco - Tribuna de Salamanca)
Las máquinas que guillotinan documentos están trabajando a destajo en algunas bibliotecas de California. El objetivo: salvaguardar los historiales de los lectores, y evitar que el FBI indague en sus archivos. Después de los atentados del 11 de septiembre, y con la lucha contra el terrorismo por bandera, se ha dado más poder al FBI y se le ha permitido incluso el acceso a los archivos de las bibliotecas. ¡Qué peligro! (...)
Tratar de controlar lo que el ciudadano lee, buscar relaciones entre lo que dicen los libros y lo que hace o piensa una persona es un peligro y, sobre todo, una amenaza a la libertad. A este paso, algún día se retomará el término de escritor maldito, y se meterán en ese saco la obra de Bukowski, por su burla al sueño americano; la de Saramago, por su grito contra la guerra; o las historias de Juan José Millás, y Eduardo Haro Tecglen por sus continuas irreverencias hacia la clase política.
Menos mal que esto es sólo un ejercicio de imaginación... al menos de momento.
Y como ahora estamos en plena Feria del Libro, nada mejor que ampliar ese historial literario, y lograr reducir el porcentaje de la población que declara que no lee nunca o casi nunca (nada más y nada menos que el 46 por ciento).
Saquen libros de la biblioteca, intercambien novelas con el vecino, pero lean...
023 - DAVID LYNCH
Li a recomendação de A Montanha Mágica ao filme Mulholland Drive, de David Lynch. Passei pela Fnac, comprei o DVD, e gastei a minha noite de St. António a ver o filme e a percorrer os extras, demoradamente.
Esta é uma outra qualidade dos blogs (infelizmente só de alguns...), a de podermos compartilhar informações, recomendações, emoções estéticas, até.
O filme é de 2001, passou em Portugal certamente em 2002 pelas datas de publicação das críticas, mas eu tinha-o deixado "escapar".
Obrigado A Montanha Mágica, trata-se na verdade de uma "grande fita", um filme de construção inquietante, decerto uma obra-prima, como eu já achara que era o Blue Velvet, que vi várias vezes.
Este vou voltar a vê-lo, hoje, de novo, durante o dia, tenho de encontrar um espaço para isso.
Ao vê-lo, lembrei-me muito do post que, por acaso, tinha escrito antes sobre A Escrita e a Leitura (022) a propósito de, neste caso, se forçar as imagens a dizer o que elas já quase não são capazes de dizer, do trabalho de decifração da leitura, do trabalho de elaboração da escrita cinematográfica tentando reter e transmitir os multiplos significados.
Para além das 10 pistas indicadas pelo autor do filme (para nos des-pistar ?), creio haver uma outra, essencial: a do mago, no "Clube Silêncio", quando diz que, afinal, tudo não passa de uma ilusão...
Creio também que a grande "modernidade" desta fita é que ela nos obriga (ajuda) a pensar, em conjunto, toda a arte do nosso tempo. Nomeadamente a literatura.
Vou vê-lo de novo, como já disse.
E quem não o viu, que o veja.
E quem já o viu, que me desculpe o atraso deste encontro.
Li a recomendação de A Montanha Mágica ao filme Mulholland Drive, de David Lynch. Passei pela Fnac, comprei o DVD, e gastei a minha noite de St. António a ver o filme e a percorrer os extras, demoradamente.
Esta é uma outra qualidade dos blogs (infelizmente só de alguns...), a de podermos compartilhar informações, recomendações, emoções estéticas, até.
O filme é de 2001, passou em Portugal certamente em 2002 pelas datas de publicação das críticas, mas eu tinha-o deixado "escapar".
Obrigado A Montanha Mágica, trata-se na verdade de uma "grande fita", um filme de construção inquietante, decerto uma obra-prima, como eu já achara que era o Blue Velvet, que vi várias vezes.
Este vou voltar a vê-lo, hoje, de novo, durante o dia, tenho de encontrar um espaço para isso.
Ao vê-lo, lembrei-me muito do post que, por acaso, tinha escrito antes sobre A Escrita e a Leitura (022) a propósito de, neste caso, se forçar as imagens a dizer o que elas já quase não são capazes de dizer, do trabalho de decifração da leitura, do trabalho de elaboração da escrita cinematográfica tentando reter e transmitir os multiplos significados.
Para além das 10 pistas indicadas pelo autor do filme (para nos des-pistar ?), creio haver uma outra, essencial: a do mago, no "Clube Silêncio", quando diz que, afinal, tudo não passa de uma ilusão...
Creio também que a grande "modernidade" desta fita é que ela nos obriga (ajuda) a pensar, em conjunto, toda a arte do nosso tempo. Nomeadamente a literatura.
Vou vê-lo de novo, como já disse.
E quem não o viu, que o veja.
E quem já o viu, que me desculpe o atraso deste encontro.
Quinta-feira, Junho 12, 2003
022 - A ESCRITA, A LEITURA
"Je suis de plus en plus convaincu qu'un livre est raté s'il est dur à lire.".
Encontrei há dias esta frase numa entrevista do escritor Jonathan Coe e fiquei a pensar nela.
Por contraponto, ocorreu-me a conhecida frase de Lacan, "a ciência é árdua", quando explicava aos seus alunos a dificuldade dos seus textos e a necessidade de um profundo trabalho de decifração para a sua completa compreensão.
Muitos dos jovens escritores que actualmente me procuram defendem como qualidade a "facilidade" dos seus textos, o imediatismo da sua escrita, a necessidade de uma rápida comunicação com os seus futuros leitores.
Esquecem que a escrita é um trabalho, tal como a leitura (a decifração), e que é esse trabalho que introduz no sistema a noção de valor.
Pouco importa o que se escreve e como se escreve, quando escrever é apenas a repetição do que já está dito e escrito.
Escrever é um trabalho sobre as palavras (sobre a articulação da língua), forçando-as a dizer aquilo que, no limite, elas já quase não são capazes de dizer.
Por isso os grandes escritores nos surpreendem permanentemente.
Por isso um livro não é necessáriamente "raté s'il est dur à lire".
Porque a leitura não é apenas a simples decifração de um significado ou de uma emoção. Mas sobretudo o trabalho de compreensão das formas e dos modos, sob os quais, esse significado ou essa emoção, foram capazes de chegar até nós através das palavras que usamos todos os dias.
Como no cinema, na pintura, ou em qualquer das outras artes.
Mais importante que o medo, ou o susto que sentimos ao ver um filme de Hitchcock (recordo especialmente Under Capricorn, um dos meus preferidos), é entendermos, de que forma e por que meios, esse medo nos foi transmitido. Porque é isso que dá valor ao filme: o emocionante e surpreendente trabalho lá contido.
"Je suis de plus en plus convaincu qu'un livre est raté s'il est dur à lire.".
Encontrei há dias esta frase numa entrevista do escritor Jonathan Coe e fiquei a pensar nela.
Por contraponto, ocorreu-me a conhecida frase de Lacan, "a ciência é árdua", quando explicava aos seus alunos a dificuldade dos seus textos e a necessidade de um profundo trabalho de decifração para a sua completa compreensão.
Muitos dos jovens escritores que actualmente me procuram defendem como qualidade a "facilidade" dos seus textos, o imediatismo da sua escrita, a necessidade de uma rápida comunicação com os seus futuros leitores.
Esquecem que a escrita é um trabalho, tal como a leitura (a decifração), e que é esse trabalho que introduz no sistema a noção de valor.
Pouco importa o que se escreve e como se escreve, quando escrever é apenas a repetição do que já está dito e escrito.
Escrever é um trabalho sobre as palavras (sobre a articulação da língua), forçando-as a dizer aquilo que, no limite, elas já quase não são capazes de dizer.
Por isso os grandes escritores nos surpreendem permanentemente.
Por isso um livro não é necessáriamente "raté s'il est dur à lire".
Porque a leitura não é apenas a simples decifração de um significado ou de uma emoção. Mas sobretudo o trabalho de compreensão das formas e dos modos, sob os quais, esse significado ou essa emoção, foram capazes de chegar até nós através das palavras que usamos todos os dias.
Como no cinema, na pintura, ou em qualquer das outras artes.
Mais importante que o medo, ou o susto que sentimos ao ver um filme de Hitchcock (recordo especialmente Under Capricorn, um dos meus preferidos), é entendermos, de que forma e por que meios, esse medo nos foi transmitido. Porque é isso que dá valor ao filme: o emocionante e surpreendente trabalho lá contido.
Quarta-feira, Junho 11, 2003
021 - FELGUEIRAS
Três canais de televisão (um de "serviço público"), ocuparam em simultâneo mais de 30 minutos do seu horário mais nobre, para que alguém pudesse insultar o sistema judicial português, um partido político do nosso sistema democrático, dizendo tudo o que entendeu dizer sem qualquer contraditório.
Tudo isto sem qualquer interrupção para publicidade: nem na telenovela, nem nos filmes, nem nos noticiários normais.
Tudo isto em directo, do Brasil, por satélite: nem na guerra do Iraque, nem em alguns debates importantes do Parlamento Europeu.
Tudo isto ainda, depois, com transcrições diversas, insistentes, sublinhadas, no meio do restante noticiário.
Convenhamos que foi perfeito: uma manipulação da opinião pública totalmente eficiente.
Três canais de televisão, em simultâneo, um deles de "serviço público".
Três canais de televisão (um de "serviço público"), ocuparam em simultâneo mais de 30 minutos do seu horário mais nobre, para que alguém pudesse insultar o sistema judicial português, um partido político do nosso sistema democrático, dizendo tudo o que entendeu dizer sem qualquer contraditório.
Tudo isto sem qualquer interrupção para publicidade: nem na telenovela, nem nos filmes, nem nos noticiários normais.
Tudo isto em directo, do Brasil, por satélite: nem na guerra do Iraque, nem em alguns debates importantes do Parlamento Europeu.
Tudo isto ainda, depois, com transcrições diversas, insistentes, sublinhadas, no meio do restante noticiário.
Convenhamos que foi perfeito: uma manipulação da opinião pública totalmente eficiente.
Três canais de televisão, em simultâneo, um deles de "serviço público".
Terça-feira, Junho 10, 2003
020 - DIA DE PORTUGAL, DE CAMÕES...
Não posso deixar de vos postar aqui, hoje, este artigo de jornal.
Um escritor galego, Xosé Luis Méndez Ferrín, publicado em Portugal pela Editorial Notícias e pela Dom Quixote, vencedor há uns anos do Prémio Literário do Eixo Atlântico (a que concorrem escritores portugueses e galegos), escreve e publica um texto em português no jornal galego "Faro de Vigo".
Não sei se a Senhora Presidente do Instituto Camões, ou o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros têm quem lhes leia os blogs, ou lhos encaminhem.
Porque este post, por mim, é-lhes inteiramente dedicado neste dia de Camões.
No Día de Portugal: Razão de Estado
X. L. MÉNDEZ FERRÍN
Pela primeira vez na minha vida vou escrever uma crónica de jornal em
Português. A ocasião deriva do facto de amanhã celebrarmos o Dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Os nossos caros
vizinhos, como já tenho repetido, são o único povo da Europa cuja
festa nacional está consagrada à memória de um poeta, neste caso
porta do mundo moderno, que acumula à sua condição excelsa o carácter
simbólico de emblema lírico e épico da Nação.
Teve a República dos Sonhos, que isso é também Portugal para alguns de
nós, a ideia boa de constituir um Instituto Camões como entidade
consagrada á difusão e promoção da cultura portuguesa no mundo. A
trinta e poucos quilómetros da fronteira, em Vigo, tem a sua sede o
único centro do Instituto Camões que se encontra de porta aberta na
Espanha administrativa. Não há casa posta do Instituto Camões nem em
Madrid nem em Barcelona; em Vigo, sim, há!
E temos cá o Instituto Camões porque a Câmara Municipal de Vigo
percebeu a importância da empresa, comprou as casas mais antigas da
cidade, belíssimas e com um certo ponto rococó (Otero Pedrayo),
situadas na Pracinha do Tenente Almeida, noutros dias chamada Das
Cebolas, fez com a sua fábrica uma restauração requintada e cedeu o uso
do tudo isso ao Governo português, sem qualquer interesse
económico, por noventa e nove anos.
O Instituto Camões de Vigo, após um início feliz nos dias em que era
Cônsul a inesquecível e saudosa Anabela Cardoso, entrou
progressivamente num período de abandono e decadência que vem
coincidir com o governo de Durão Barroso en Lisboa, de coligação
PSD/PP. Tudo parece indicar que este
Governo, do qual o senhor Martins da Cruz, antigo embaixador em
Madrid, é Ministro dos Negócios Extrangeiros, não deseja para nada um
Instituto Camões em Vigo, enquadrado juridicamente, dotado
economicamente, activo e vivo. A chamada Casa de Arines da Praça das
Cebolas de Vigo não interessa a Lisboa. Constato que no "site" da
internet do Instituto Camões as notícias do centro de Vigo não são
actualizadas e verifico que tem havido actividades desenvolvidas aqui
que mereciam aí figurar e não figuram.
O projecto da revista Desde LongeS, a editar pelo Instituto Camões em
Vigo, para o qual recebi um pedido de colaboração, ficou sem
resposta para desgosto do seu responsável, doutor Manuel Barroso.
Esta era uma excelente opurtunidade de consolidar a vida cultural da
Galiza e de Portugal, especialmente ao nível dos seus intelectuais.
As acções de divulgação turística, comercial, artística, cultural, de
importância ja não são mais implementadas a partir do Camões de aqui, e,
com surpresa, verifiquei que fechou o ICEP em Vigo: tratou-se do
encerramento de uma delegação do "Instituto do Comércio Externo
Português", organismo de Estado da maior importância, contrariando o que
o mesmo governo actual pretende: a "diplomacia económica".
No Dia de Portugal, a parte de população galega que deseja un
Instituto Camões dinámico e real sente-se defraudada. A direita
governamental de Lisboa não reconhece que a Galiza é uma raiz e o
cerne da nacionalidade portuguesa e que a sua representação
internacional tem a obrigação de entender de maneira específica esta
nossa comunidade, a qual compartilhou com a portuguesa a mesma língua
desde Afonso Henriques a Fernão Lopes.
Razão de Estado, diria eu para me referir aos interesses históricos
portugueses à hora de manter de forma privilegiada o Instituto Camões da
Galiza.
(os bolds são de minha responsabilidade: NM)
Não posso deixar de vos postar aqui, hoje, este artigo de jornal.
Um escritor galego, Xosé Luis Méndez Ferrín, publicado em Portugal pela Editorial Notícias e pela Dom Quixote, vencedor há uns anos do Prémio Literário do Eixo Atlântico (a que concorrem escritores portugueses e galegos), escreve e publica um texto em português no jornal galego "Faro de Vigo".
Não sei se a Senhora Presidente do Instituto Camões, ou o Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros têm quem lhes leia os blogs, ou lhos encaminhem.
Porque este post, por mim, é-lhes inteiramente dedicado neste dia de Camões.
No Día de Portugal: Razão de Estado
X. L. MÉNDEZ FERRÍN
Pela primeira vez na minha vida vou escrever uma crónica de jornal em
Português. A ocasião deriva do facto de amanhã celebrarmos o Dia de
Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Os nossos caros
vizinhos, como já tenho repetido, são o único povo da Europa cuja
festa nacional está consagrada à memória de um poeta, neste caso
porta do mundo moderno, que acumula à sua condição excelsa o carácter
simbólico de emblema lírico e épico da Nação.
Teve a República dos Sonhos, que isso é também Portugal para alguns de
nós, a ideia boa de constituir um Instituto Camões como entidade
consagrada á difusão e promoção da cultura portuguesa no mundo. A
trinta e poucos quilómetros da fronteira, em Vigo, tem a sua sede o
único centro do Instituto Camões que se encontra de porta aberta na
Espanha administrativa. Não há casa posta do Instituto Camões nem em
Madrid nem em Barcelona; em Vigo, sim, há!
E temos cá o Instituto Camões porque a Câmara Municipal de Vigo
percebeu a importância da empresa, comprou as casas mais antigas da
cidade, belíssimas e com um certo ponto rococó (Otero Pedrayo),
situadas na Pracinha do Tenente Almeida, noutros dias chamada Das
Cebolas, fez com a sua fábrica uma restauração requintada e cedeu o uso
do tudo isso ao Governo português, sem qualquer interesse
económico, por noventa e nove anos.
O Instituto Camões de Vigo, após um início feliz nos dias em que era
Cônsul a inesquecível e saudosa Anabela Cardoso, entrou
progressivamente num período de abandono e decadência que vem
coincidir com o governo de Durão Barroso en Lisboa, de coligação
PSD/PP. Tudo parece indicar que este
Governo, do qual o senhor Martins da Cruz, antigo embaixador em
Madrid, é Ministro dos Negócios Extrangeiros, não deseja para nada um
Instituto Camões em Vigo, enquadrado juridicamente, dotado
economicamente, activo e vivo. A chamada Casa de Arines da Praça das
Cebolas de Vigo não interessa a Lisboa. Constato que no "site" da
internet do Instituto Camões as notícias do centro de Vigo não são
actualizadas e verifico que tem havido actividades desenvolvidas aqui
que mereciam aí figurar e não figuram.
O projecto da revista Desde LongeS, a editar pelo Instituto Camões em
Vigo, para o qual recebi um pedido de colaboração, ficou sem
resposta para desgosto do seu responsável, doutor Manuel Barroso.
Esta era uma excelente opurtunidade de consolidar a vida cultural da
Galiza e de Portugal, especialmente ao nível dos seus intelectuais.
As acções de divulgação turística, comercial, artística, cultural, de
importância ja não são mais implementadas a partir do Camões de aqui, e,
com surpresa, verifiquei que fechou o ICEP em Vigo: tratou-se do
encerramento de uma delegação do "Instituto do Comércio Externo
Português", organismo de Estado da maior importância, contrariando o que
o mesmo governo actual pretende: a "diplomacia económica".
No Dia de Portugal, a parte de população galega que deseja un
Instituto Camões dinámico e real sente-se defraudada. A direita
governamental de Lisboa não reconhece que a Galiza é uma raiz e o
cerne da nacionalidade portuguesa e que a sua representação
internacional tem a obrigação de entender de maneira específica esta
nossa comunidade, a qual compartilhou com a portuguesa a mesma língua
desde Afonso Henriques a Fernão Lopes.
Razão de Estado, diria eu para me referir aos interesses históricos
portugueses à hora de manter de forma privilegiada o Instituto Camões da
Galiza.
(os bolds são de minha responsabilidade: NM)
019 - VERGILIO FERREIRA
Gosto de citar o Vergílio. Já o fiz aqui, por mais do que uma vez, depois apaguei esses posts em atitude insensata.
Tive a sorte de o conhecer, de conviver de perto com ele, as citações que faço poucas são dos livros, mas das conversas que tivémos.
Vergílio era uma "máquina de pensar", para além, evidentemente, de um dos grandes escritores do século vinte português. Cada vez o vemos mais claro. Sugestão para A Montanha Mágica.
Quando discutíamos era difícil; ele já tinha tudo pensado, uma informação enorme, toda muito bem digerida.
Vem isto a propósito por eu dizer, amigavelmente, em posts anteriores, "os rapazes do Gato Fedorento". Houve quem não gostasse. Tem razão. Lembrei-me então do Vergílio quando me dizia:
- Não se esqueça... sou bastante mais velho que você. O que quer sobretudo dizer que me lembro de muito mais coisas...
Gosto de citar o Vergílio. Já o fiz aqui, por mais do que uma vez, depois apaguei esses posts em atitude insensata.
Tive a sorte de o conhecer, de conviver de perto com ele, as citações que faço poucas são dos livros, mas das conversas que tivémos.
Vergílio era uma "máquina de pensar", para além, evidentemente, de um dos grandes escritores do século vinte português. Cada vez o vemos mais claro. Sugestão para A Montanha Mágica.
Quando discutíamos era difícil; ele já tinha tudo pensado, uma informação enorme, toda muito bem digerida.
Vem isto a propósito por eu dizer, amigavelmente, em posts anteriores, "os rapazes do Gato Fedorento". Houve quem não gostasse. Tem razão. Lembrei-me então do Vergílio quando me dizia:
- Não se esqueça... sou bastante mais velho que você. O que quer sobretudo dizer que me lembro de muito mais coisas...
018 - MAIS AGRADECIMENTOS
Para além dos que já referi (016), devo ainda agradecimentos a José Pinto Carneiro, Freitas Magalhães, Pedro Almeida Cabral, Sara Belo Luis, todos exigindo que não desistisse destas conversas. Um anónimo, "smaug the dragon", vai ao exagero de considerar os meus textos sobre temas editoriais como "um verdadeiro serviço público". Simpatias, que sabem bem ouvir. Mas era o que me faltava: competir com a estratégia e as definições do Dr. Morais Sarmento...
A Montanha Mágica, um dos blogs que mais me tem entusiasmado pelo bom-gosto com que trata as suas preferências culturais, envia-me também palavras de ânimo.
Por fim, os rapazes do Gato Fedorento relatam, do seu ponto de vista, a cena que também já contei (016) ocorrida na Feira do Livro. Com simpatia e fairplay.
Obrigado a todos.
Para além dos que já referi (016), devo ainda agradecimentos a José Pinto Carneiro, Freitas Magalhães, Pedro Almeida Cabral, Sara Belo Luis, todos exigindo que não desistisse destas conversas. Um anónimo, "smaug the dragon", vai ao exagero de considerar os meus textos sobre temas editoriais como "um verdadeiro serviço público". Simpatias, que sabem bem ouvir. Mas era o que me faltava: competir com a estratégia e as definições do Dr. Morais Sarmento...
A Montanha Mágica, um dos blogs que mais me tem entusiasmado pelo bom-gosto com que trata as suas preferências culturais, envia-me também palavras de ânimo.
Por fim, os rapazes do Gato Fedorento relatam, do seu ponto de vista, a cena que também já contei (016) ocorrida na Feira do Livro. Com simpatia e fairplay.
Obrigado a todos.
Segunda-feira, Junho 09, 2003
017 - AINDA A BIENAL DO LIVRO DO BRASIL
Decididamente ando em fase de polémicas. De vez em quando parece que caem todas ao mesmo tempo.
O Senhor Director-Geral do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB) decidiu responder a uma crónica que publiquei no DNA (31.05. - não posso fazer link porque o DNA continua sem estar na Internet), acerca da falta de representação nacional naquele que é o mais importante certame do livro em língua portuguesa.
Lá estaremos, eu e ele, no próximo sábado dia 14.06., no mesmo dia em que publicarei uma crónica sobre o ensino da língua materna e a literatura.
Desculpem a auto-promoção.
A carta do Senhor Director-Geral do IPLB é bastante interessante, sobretudo depois de, com pompa e circunstância, nos termos feito representar na Feira do Livro de... Tóquio.
Decididamente ando em fase de polémicas. De vez em quando parece que caem todas ao mesmo tempo.
O Senhor Director-Geral do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (IPLB) decidiu responder a uma crónica que publiquei no DNA (31.05. - não posso fazer link porque o DNA continua sem estar na Internet), acerca da falta de representação nacional naquele que é o mais importante certame do livro em língua portuguesa.
Lá estaremos, eu e ele, no próximo sábado dia 14.06., no mesmo dia em que publicarei uma crónica sobre o ensino da língua materna e a literatura.
Desculpem a auto-promoção.
A carta do Senhor Director-Geral do IPLB é bastante interessante, sobretudo depois de, com pompa e circunstância, nos termos feito representar na Feira do Livro de... Tóquio.
016 - OBRIGADO
Obrigado José Pacheco Pereira (Abrupto); obrigado Manuel Pinto (Webjornal); obrigado Ana Roque (Direitoeconomia), pelas palavras amáveis que me dirigiram, nos blogs e através de e-mails.
Gostei da distinção feita por Ana Roque entre a visão etária e a visão otária, que achei divertida e acertada.
Mas agradeço especialmente as palavras de Pacheco Pereira, que foi um pouco mais fundo, e me fez um desafio para que continue tocando no que para mim (aqui) também é importante.
Tinha pensado em parar, de facto; não porque o alarido, desta vez, tivesse sido directamente comigo.
Quando o foi (como a semana passada, quando os rapazes do Gato Fedorento se puseram a gritar que eu tinha o sentido de humor de um tijolo), resolvi o problema retirando uns posts do meu blog que mais os motivavam a prosseguir e, encontrando-os na Feira do Livro, resolvi cumprimentá-los com simpatia:
- Olá, sou o tijolo... disse-lhes.
Creio que o assunto se resolveu por aqui. Ficou apenas de fora o Possidónio Cachapa, que introduziu uns insultos na conversa, certamente para ajustar contas por lhe ter recusado um livro. Acontece, nesta minha vida. Com mais frequência do que se julga. Ninguém gosta de ser recusado. Por isso cultivo a delicadeza (e penso que a sensibilidade) de não falar destes assuntos a não ser que me provoquem.
Mas a discussão agora não foi comigo. Era uma coisa sobre esquerdas, direitas, extremas-direitas, insultos para cá, insultos para lá, palavras vazias, perda de tempo - pensei eu... Que é que ando por aqui a fazer ?
O blog fica aberto. Por respeito por aqueles que me chamaram a atenção para que o não fechasse. E porque afinal eu também gosto da conversa, já que os media estão no estado em que todos sabemos. E porque, na verdade, existem alguns blogs deveras estimulantes.
Voltarei aliás (em breve) a um tema destacado especialmente por Pacheco Pereira: o caso da publicação do livro de Rui Mateus e de como a "comunicação editorial" sofre tantas tentativas de manipulação quanto a "comunicação jornalistica".
Poderemos aliás vir ainda a falar de temas mais recentes, como os relacionados com a questão da pedofilia. Mas sobre esses, dado o "segredo de justiça", creio ainda ser cedo. E a mim, confesso, não me apetecia nada surpresas desagradáveis.
Continuemos, então. De vez em quando, como disse de início.
Obrigado, de novo.
Obrigado José Pacheco Pereira (Abrupto); obrigado Manuel Pinto (Webjornal); obrigado Ana Roque (Direitoeconomia), pelas palavras amáveis que me dirigiram, nos blogs e através de e-mails.
Gostei da distinção feita por Ana Roque entre a visão etária e a visão otária, que achei divertida e acertada.
Mas agradeço especialmente as palavras de Pacheco Pereira, que foi um pouco mais fundo, e me fez um desafio para que continue tocando no que para mim (aqui) também é importante.
Tinha pensado em parar, de facto; não porque o alarido, desta vez, tivesse sido directamente comigo.
Quando o foi (como a semana passada, quando os rapazes do Gato Fedorento se puseram a gritar que eu tinha o sentido de humor de um tijolo), resolvi o problema retirando uns posts do meu blog que mais os motivavam a prosseguir e, encontrando-os na Feira do Livro, resolvi cumprimentá-los com simpatia:
- Olá, sou o tijolo... disse-lhes.
Creio que o assunto se resolveu por aqui. Ficou apenas de fora o Possidónio Cachapa, que introduziu uns insultos na conversa, certamente para ajustar contas por lhe ter recusado um livro. Acontece, nesta minha vida. Com mais frequência do que se julga. Ninguém gosta de ser recusado. Por isso cultivo a delicadeza (e penso que a sensibilidade) de não falar destes assuntos a não ser que me provoquem.
Mas a discussão agora não foi comigo. Era uma coisa sobre esquerdas, direitas, extremas-direitas, insultos para cá, insultos para lá, palavras vazias, perda de tempo - pensei eu... Que é que ando por aqui a fazer ?
O blog fica aberto. Por respeito por aqueles que me chamaram a atenção para que o não fechasse. E porque afinal eu também gosto da conversa, já que os media estão no estado em que todos sabemos. E porque, na verdade, existem alguns blogs deveras estimulantes.
Voltarei aliás (em breve) a um tema destacado especialmente por Pacheco Pereira: o caso da publicação do livro de Rui Mateus e de como a "comunicação editorial" sofre tantas tentativas de manipulação quanto a "comunicação jornalistica".
Poderemos aliás vir ainda a falar de temas mais recentes, como os relacionados com a questão da pedofilia. Mas sobre esses, dado o "segredo de justiça", creio ainda ser cedo. E a mim, confesso, não me apetecia nada surpresas desagradáveis.
Continuemos, então. De vez em quando, como disse de início.
Obrigado, de novo.
Domingo, Junho 08, 2003
015 - EQUIVOCOS
Não há dúvida, enganei-me.
Onde julgava poder haver debate de ideias, critica, conversa, troca de informações - há apenas, fora algumas honrosas excepções, disparate, insulto, exibicionismo, parvoeira, perda de tempo.
Daí que o que sobra é um espaço estreito e desinteressante, não muito diferente das conversas dos miúdos, trocando gracejos através da net, brincando às escondidas com os computadores do papá.
De facto não há tempo para isto, mesmo respeitando aqueles que procuram e insistem noutros níveis de conversa.
Não me refiro aos blogs, claro.
Não há dúvida, enganei-me.
Onde julgava poder haver debate de ideias, critica, conversa, troca de informações - há apenas, fora algumas honrosas excepções, disparate, insulto, exibicionismo, parvoeira, perda de tempo.
Daí que o que sobra é um espaço estreito e desinteressante, não muito diferente das conversas dos miúdos, trocando gracejos através da net, brincando às escondidas com os computadores do papá.
De facto não há tempo para isto, mesmo respeitando aqueles que procuram e insistem noutros níveis de conversa.
Não me refiro aos blogs, claro.
Sexta-feira, Maio 30, 2003
014 - FEIRA DO LIVRO DE LISBOA
Bom, parece que a poeira assentou, podemos portanto regressar a outros temas menos humoristicos...
Entretanto, por estes dias, abriu a Feira do Livro.
Os Blogs não lhe fizeram grandes referências.
Acontecimento rotineiro ?
Há quem conteste todos os anos o modelo do "ao ar livre". A mim sempre pareceu a melhor solução.
Este ano a Feira está maior, crece aliás todos os anos, como se não desse ouvidos à permanente lenga-lenga dos editores acerca da "crise" do sector.
A Camara decidiu renovar a organização do espaço com o apoio de dois arquitectos que fizeram um novo desenho da implantação dos pavilhões.
Fizeram-no sózinhos, sem qualquer contacto com os profissionais que ali irão conviver e trabalhar estes dias. É costume do país. Desenha-se no papel. Se ficar bonito implanta-se no local, os outros que se adaptem.
O design não serve para servir o que está, nem quem está. Serve apenas para tornar diferente aquilo que é.
Este ano eliminaram-se duas filas de stands (as encostadas à zona central) e encaixaram-se os stands deslocados no meio dos outros, apertando o espaço entre eles. Esqueceu-se apenas que, por acaso, alguns editores trabalham com autores, e que precisariam desse espaço para instalar as mesas de autógrafos, uma das poucas animações permanentes da Feira. Houve que inventar soluções à última hora, de acordo com a imaginação de cada um.
Também o Pavilhão Central, o dos colóquios e debates, que o ano passado deixava ver o Parque através de uma enorme parede em vidro, está este ano transformado num bunker, completamente fechado ao exterior, com uma temperatura irrespirável, escuro e sombrio. Para que as leituras de textos possam ser feitas sem ruídos exteriores - explicaram-me os técnicos. Nesse caso talvez fosse melhor ir fazê-las para outro local, ou pensar outras formas de animação mais condicentes com o espaço.
Isto de tentar forçar a que os espaços "digam" o que eles não podem nem conseguem dizer, é mesmo hábito dos especialistas nacionais...
Fica para o ano, talvez aprendam entretanto, têm tempo.
Mas a Feira aí está, e apesar de tudo não está mal.
Bom, parece que a poeira assentou, podemos portanto regressar a outros temas menos humoristicos...
Entretanto, por estes dias, abriu a Feira do Livro.
Os Blogs não lhe fizeram grandes referências.
Acontecimento rotineiro ?
Há quem conteste todos os anos o modelo do "ao ar livre". A mim sempre pareceu a melhor solução.
Este ano a Feira está maior, crece aliás todos os anos, como se não desse ouvidos à permanente lenga-lenga dos editores acerca da "crise" do sector.
A Camara decidiu renovar a organização do espaço com o apoio de dois arquitectos que fizeram um novo desenho da implantação dos pavilhões.
Fizeram-no sózinhos, sem qualquer contacto com os profissionais que ali irão conviver e trabalhar estes dias. É costume do país. Desenha-se no papel. Se ficar bonito implanta-se no local, os outros que se adaptem.
O design não serve para servir o que está, nem quem está. Serve apenas para tornar diferente aquilo que é.
Este ano eliminaram-se duas filas de stands (as encostadas à zona central) e encaixaram-se os stands deslocados no meio dos outros, apertando o espaço entre eles. Esqueceu-se apenas que, por acaso, alguns editores trabalham com autores, e que precisariam desse espaço para instalar as mesas de autógrafos, uma das poucas animações permanentes da Feira. Houve que inventar soluções à última hora, de acordo com a imaginação de cada um.
Também o Pavilhão Central, o dos colóquios e debates, que o ano passado deixava ver o Parque através de uma enorme parede em vidro, está este ano transformado num bunker, completamente fechado ao exterior, com uma temperatura irrespirável, escuro e sombrio. Para que as leituras de textos possam ser feitas sem ruídos exteriores - explicaram-me os técnicos. Nesse caso talvez fosse melhor ir fazê-las para outro local, ou pensar outras formas de animação mais condicentes com o espaço.
Isto de tentar forçar a que os espaços "digam" o que eles não podem nem conseguem dizer, é mesmo hábito dos especialistas nacionais...
Fica para o ano, talvez aprendam entretanto, têm tempo.
Mas a Feira aí está, e apesar de tudo não está mal.